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quinta-feira, dezembro 07, 2006

ELIAKIN RUFINO, UM POETA DE VOZ
















Andréa Zílio



A poesia foi seu passaporte para a filosofia e a música. Aos poucos ele descobriu que além da escrita era bom também com a voz. Canções que ficaram conhecidas nas vozes de outros cantores da Amazônia, como Nilson Chaves, Sérgio Souto, entre outros, hoje são interpretadas pelo próprio criador das obras.


Para mostrar essa diversidade de riqueza nas letras e a magia de vários ritmos, Eliakin Rufino, 47 anos, volta ao Acre depois de participar do Festival Acreano de Música Popular (Famp) para gravar o CD do evento e realizar dois shows que prometem qualidade e diversão.


O bom-humor o acompanha em todos os momentos, o que não lhe permite ficar sem um sorriso no rosto. O professor, poeta, cantor e compositor nasceu em Roraima. Bastou Eliakin aprender a ler e escrever para dar os primeiros passos no mundo da poesia. Mas foi somente em 1984 que lançou o primeiro de seus oito livros - inclusive um infantil. Ainda na adolescência passou a tocar violão.


Depois de muito tempo debruçado no papel e na caneta e dando aulas de filosofia na Universidade Federal de Roraima, ele percebeu que suas obras estavam ganhando voz ao serem transformadas em canções por diversos artistas.


Seu último livro, Poeta de Água Doce, lançado em 1998, foi todo musicado. Percebeu então que seu conhecimento com o violão e a filosofia lhe permitia dar mais riqueza e musicalidade a tudo que escrevia.


Os poemas eram na verdade grandes canções a espera de melodias. “A filosofia e o violão me deram mais bagagem teórica, preparo intelectual e diversidade de ritmos. Fiz filosofia não para seguir carreira, mas para ser um bom artista”.


Em 1997, Eliakin conseguiu solidificar o primeiro trabalho na nova fase com o CD Amazônia Legal. Em 1998, deu continuidade com o CD Me Toca. Nos últimos quatros anos participou de vários trabalhos de outros cantores.


Nos planos para 2004, o artista pretende gravar seu novo CD junto ao lançamento de mais um livro. Diz que desde a gravação do primeiro pretende manter a unificação dos dois trabalhos porque um faz parte do outro.


As letras dos poemas musicais de Eliakin percorrem por uma temática livre, mas ele não esconde que os prediletos são os que abordam como temas a liberdade e os direitos humanos, a natureza e as críticas sociais que consegue fazer de maneira humorada.


Um trabalho social que dá orgulho ao artista e está sendo conhecido pelo Brasil é a versão poética que deu ao Estatuto da Criança e do Adolescente, onde 5 mil exemplares foram impressos e distribuídos em vários Estados. Em São Paulo, a famosa e tradicional companhia de balé Stagium o transformou em um grande espetáculo, onde 50 crianças recitam todo o texto durante o show.


Um poeta de voz, Eliakin vai mostrar todo seu talento e experiência adquiridos com um trabalho solidificado pela crítica e aceito por colegas artistas de renome em duas únicas apresentações no Estado. Na quinta-feira, ele faz uma participação especial a partir das 23 horas, no bar da Malu, junto à banda Gaia. No sábado, ainda com a banda, ele se apresenta a partir das 21 horas na Casa da Gameleira, prometendo uma apresentação de qualidade, diversidade e muita animação, numa viagem a ritmos variados.

(Fonte: jornal Página 20, de 8 de janeiro de 2004)


mosquito da malária

hoje quem defende a amazônia
é o mosquito da malária
se não fosse esse mosquito
a floresta virava palha

salve salve salve ele
viva sua febre incendiária
o maior ecologista da amazônia
é o mosquito da malária

não adianta sucam
jogar ddt na sua área
super-defensor da amazônia
é o mosquito da malária


o caboclo e o rio

uma luz no meio do rio
é um caboclo pescador
não tem roupa não tem frio
não tem fome nem calor

só tem olhos para o rio
só conhece tempo bom
sabe o segredo dos peixes
a pescaria é seu dom

pescador de piraíba
quando sai para pescar
só sabe a hora da ida
não tem hora de voltar

uma luz no meio do rio
de repente se apagou
mas o povo crê e conta
o caboclo se encantou

no lugar que ele sumiu
quem passa a noite por lá
vai ver no fundo do rio
uma lamparina acesa
que nunca vai se apagar


água viva

água bate no barranco
água clara do rio branco

água bate na canoa
água mansa água boa

terras caídas no rio
no fio da correnteza

água barrenta água lenta
água mãe água deusa

água calma de remanso
é minha voz quanto canto

água viva de banzeiro
é meu corpo inteiro


perigo

as garças não sabem da guerra
os peixes não sabem do míssel
marrecas repousam
na calma do lago
nenhum maguarí sabe a dor do canhão

os peixes não pensam nos homens
as aves não sabem das armas
arraias descansam
na praia da ilha
nenhum bem-te-vi vê a televisão

animais do ar
da água e do chão
não sabem da guerra
não sabem o perigo
da vida na terra

animais do ar
da água e do chão não sabem da guerra
pensam
que é só um trovão


o sonho do xamã

um xamã yanomami sonhou
que a fumaça da civilização
abriria um buraco no céu
e o céu cairia no chão

o xamã resolveu avisar
o que o sonho queria dizer
mas ninguém parou pra escutar

pouca gente tentou entender

muito tempo depois deste sonho
a ciência pode então descobrir
que o buraco na camada de ozônio
é por onde o céu pode cair

o meu sonho é que nada aconteça
que a vida não tenha final
que o xamã não desapareça
que o sonho não seja real


sentimentos cintilantes

as estrelas que flutuam nesse rio

são os olhos das serpentes encantadas

cobras grandes habitantes dessas águas

e estas luzes que vagueiam pelas praias

claridades de paixão e de areia

são meus olhos

encharcando o chão das várzeas

são de alegria estas lágrimas brilhantes

são diamantes que meus olhos choram

são loucos sentimentos cintilantes


buritizeiro

buritizeiro do norte

que nasce em qualquer lugar

nós temos a mesma sorte

viver a vida a cantar

tu cantas com o vento forte

eu canto na calmaria

canto o silêncio do campo

tu cantas na ventania

buritizeiro meu canto

no campo vou espalhar

tu cantas pra eu dormir

eu canto pra te acordar

buritizeiro meu mano

teu vinho quero beber

aí nós vamos cantar

até o dia nascer

eu sou palmeira do campo

o vento é meu companheiro

eu vivo porque eu canto

eu sou buritizeiro


vida e morte

a certeza da morte não me assusta

o que virá depois não me faz medo

quero a vida na medida justa

do tamanho do mistério e do segredo

quero esconder o sol no solo frio

na hora de dormir dentro da terra

joguem sobre meu corpo pingos do rio

enterrem meu coração no pé da serra

eu sei que certamente a morte vem

arrancar a vida pela raiz

mas a certeza de saber que morrerei

faz a minha vida mais feliz


cavalo selvagem

eu sou cavalo selvagem

não sei o peso da sela

não tenho freio nos beiços

nem cabresto

nem marca de ferro quente

não tenho crina cortada

não sou bicho de curral

eu sou cavalo selvagem

meu pasto é o campo sem fim

para mim não existe cerca

sigo somente o capim

eu sou cavalo selvagem

selvagem é minha alegria

de ser livre noite e dia

selvagem é só apelido

meu nome é mesmo cavalo

cavalo solto no pasto

veloz carreira que faço

lavrado todo atravesso

caminhos no campo eu traço

eu corro livre galope

transformo galope em verso

eu sou cavalo selvagem

sou garanhão neste campo

eu sou rebelde alazão

sou personagem de lendas

sou conversa nas fazendas

sou filho livre do chão

eu sou cavalo selvagem

meu mundo é a imensidão




capivara


A capivara pára captando sinais de perigo!
(perigo!)

A capivara intuitivamente sente
(intuitivamente sente)

A sorrateira presença matreira do homem armado
(cuidado!)

A capivara dá um grito: uh!uh!

E salta pra longe do alcance do soco

e da possibilidade do tiro!
(cuidado! perigo!)


brincando de esfinge

brincando de esfinge
tu me decifras
eu te devoro


5 comentários:

Anônimo disse...

esta otimo esse blog

Anônimo disse...

esta otimo esse blog

Anônimo disse...

esta otimo esse blog

Anônimo disse...

esse blog esta mais ou menos

Natália Reategui disse...

Adorei