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terça-feira, março 03, 2009

Rescaldo da carnavália ximango - Final


Igreja de Santo Antônio, em Alenquer. A de Borba, pelo menos, tem uma magnífica escultura do santo (by Marius Bell) vigiando o rio Amazonas em vez desse cruzeiro sem-vergonha...


Pelo jeitão, a Cidade dos Deuses era morada permanente do deus Khepra (escaravelho, em egípcio)...


A badalada Cachoeira Paraíso. Iguais a essa, existem mais de 30 só no primeiro ramal do Rio Preto da Eva...

Como professora de Antropologia, a Beth Boop mostrou-se uma senhora mucama. Eu praticamente não saía mais do camarote. Era massagem pra cá, incenso pra lá, comidinha pra cá, trepadinha pra lá, e o barco viajando. Eu sequer almoçava ou jantava junto com a galera – ela se encarregou de arregimentar uma senhora para nos servir a comida no próprio camarote. Se não tivesse levado minha ração diária de guaraná com mirantã (e viagra de 50mg, of course!), teria voado baixo.

A exemplo da maioria das cidades amazônicas – e independente do que o Luizinho vai achar depois de ler minhas impressões abalizadas, se é que vai ler... – Alenquer é só mais uma cidadezinha amazônica, com seus problemas estruturais do tempo do Onça e com sua gente hospitaleira 24 horas por dia. Exatamente igual a Borba, Coari, Tefé, Benjamin Constant, Boca do Acre, Novo Airão, Barcelos e tantas outras cidadezinhas perdidas nesse mundo de meu deus, aonde o progresso ainda não chegou e nem tem intenção de chegar.

Ficamos hospedados na casa de uns parentes do Luizinho (que, sabiamente, haviam se mandado para curtir o carnaval de Fortaleza). Era um casarão do tempo da borracha, com quase dez quartos, pé direito gigantesco, varandão a perder de vista, área de lazer decente – churrasqueira, piscina, essas coisas –, cozinha bem equipada, sala de vídeo com os melhores DVDs da revista Caras, enfim, uma verdadeira mordomia senatorial para os padrões de miserabilidade do lugar. Eu, por mim, só sairia dali sendo rebocado por corrente no pescoço. Não era o que pensava o anfitrião.

A primeira discussão foi para saber em qual dos três blocos a gente ia sair. Havia o Bloco dos Piçudos (que é o nome que eles dão ao tracajá macho, o nosso popular capitari), o Bloco Cu de Cana (da galera que vive 24 horas por dia movida a álcool – o meu favorito, mas fui voto vencido) e o Bloco dos Alhos (meio classe média, formado por abstêmios, por evangélicos, por beatas, enfim, por pessoas que odeiam ver alguém embriagado ou se portando inconvenientemente).

A sugestão do Dirram: era melhor a gente ir pra praça João Tito Alves, na frente da cidade, e lá escolhia em que fuzarca ia se meter. Com aquele visual hippie, a gente sozinho já era um bloco – o resto era lucro. Durante quase três horas, Luizinho argumentou que a gente precisava se “integrar aos ximangos”, mas não colou. O bloco “Janis Joplin não morreu” foi pra praça na moral. Eu – de camiseta, bermuda e tênis – parecia um peixe fora d’água.

Porra, aí surgiu outra conversa meia boca entre eu e o Luizinho que quase sobra para a galera de nativos. Achei legal aquele monte de gente se divertindo na praça, a maioria fantasiada de piratas, arlequins, colombinas, pierrôs, mascarados, tirolês, espanholas, índios apaches, marinheiros, homens vestido de mulheres, mulheres vestidas de homens, toureiros, etc, mas... catzo, a trilha sonora era o mais genuíno tecno brega paraense e a ubíqua axé-music baiana. Marchinhas, que é bom, nem pra remédio...

Luizinho ficou transtornado. Foi um custo segurá-lo para não ir até o palco, distribuir porradas pra todo lado (ele é professor de jiu-jitsu e karatê na Baixada Fluminense, soube depois) e fazer a bandinha tocar “apenasmente” as músicas que ele curtia há 40 anos. Explicar pro cara que a vida (e o carnaval) é uma permanente evolução poderia soar como blasfêmia.

Preferi segurar a Beth Juanita Bacana pela cintura e me meter no meio dos foliões, como se estivéssemos em uma praia deserta, lá na Martinica. Felizmente, fui seguido pelo resto da turma – inclusive pelo Luizinho e sua namorada Margô. Foi um dos melhores carnavais que já curti (apesar de odiar tecno-brega e axé music!). É, vagabundos, eu estava com uma Cléo Pires com o corpo da mulher melancia – sim, claro, assim não vale, essas coisas. Fazer o que?

Na quarta-feira de cinzas, fretamos um barco e fomos ver de perto as “belezas místicas” de Alenquer, ou seja, as cachoeiras do rio Curuá (Paraíso, Cachoeirinha, Cajuti, Benfica, Japi, Brigadeiro, Cumaru, Tracajá) e os lagos Curumu, Uruxi, Capintuba, Botos e Lago Grande de Juaru. Quando falei que só em Presidente Figueiredo existem mais de 100 cachoeiras mais bonitas do que aquelas, o Luizinho quase me expulsou do barco. Preferi não comentar porra nenhuma sobre as cachoeiras de Rio Preto da Eva ou sobre os lagos de Manacapuru, Tefé, Coari, São Gabriel da Cachoeira e Codajás. Nem sobre os arquipélagos de Anavilhanas e Mariuá. Esses paraenses, além de bairristas, só querem ser as pregas da odete...

Na quinta-feira, fomos visitar a Cidade dos Deuses, distante uns 30 km da cidade. Dessa vez, alugamos duas vans caindo aos pedaços (“cafuringas”, lá no dialeto deles). Sei lá, mas não notei nada de muito excepcional, a não ser o fato de que a pintura rupestre em formações geológicas serem mais impressionantes do que as da Vila Velha (PR), segundo a antropóloga Beth Bagaço (sim, ela tentou estoicamente acompanhar meu ritmo). Na Cidade dos Deuses, a natureza foi pródiga em imitar a arquitetura modernosa de Le Corbusier, dando às rochas uma conformação interessante de casas de cupins high-tech. De qualquer forma, a gruta do Maroaga em Presidente Figueiredo ou as pinturas rupestres de Itacoatiara causam muito mais frisson.

Claro que apenas falei isso, em off, para a minha inseparável Beth Sunflower (por conta do sol infernal, ela ficou vermelha como um camarão na brasa). Se Luizinho me pegasse com mais essa infâmia, era bem possível que eu ainda estivesse exilado na Cidade dos Deuses. De volta pra cidade, fomos curtir a “culinária mística de Alenquer”. Os mesmos peixes fritos, as mesmas caldeiradas de bodó, os mesmos “galetos esturricados”, os mesmos “churrasquinhos de gato”, enfim, os mesmos “pratos típicos” de qualquer cidadezinha amazônica. Uma tristeza!

Quando falei pra Beth Sunrise que em Manacapuru, a qualquer hora do dia ou da noite, eu poderia comer guisado de cotia, paca no leite da castanha, tracajá, tartaruga, mixirra de peixe-boi, mutum, queixada, tatu ou viado, ela teve um tal acesso de riso que quase se engasgou com o churrasquinho de gato. Luizinho nos olhou desconfiado, mas não quis questionar a presepada.

Na sexta-feira, fizemos uma bonita festa para os primos e primas do Luizinho (umas 40 pessoas, sem contar os “penetras”). Fiquei com pena do Pereba, que se transformou em churrasqueiro, por aclamação, e teve que assar uns dois bois à moda gaúcha. Discotequei uma meia-hora – e só músicas da Motown, que eu havia levado em um CD de áudio.

Pela reação da platéia, eles nunca haviam escutado Stevie Wonder, Marvin Gaye, Jackson Five, Temptations, essas coisas. Ficavam olhando pra mim como se estivessem diante de um alienígena tocando tambor. A nossa galera, pelo contrário, caiu matando e, pelos próximos anos, serão esses passos que os “ximangos” vão exibir – se tiverem decorado – no União Clube e no Ilha Verde, os dois únicos clubes da cidade.

Na verdade, a festa só começou a pegar fogo quando começou a rolar músicas do Pinduca, Verequete, Papudinho, Anormal do Brega, Reginaldo Rossi, Calypso, Beto Barbosa, Warilou, Edílson Moreno, Wanderley Andrade e por aí afora. Eu e a Beth preferimos nos recolher e aproveitar melhor a nossa última noite juntos. A trilha sonora foi o disco “Vô imbolá”, do Zeca Baleiro, que ficou tocando repetitivamente até o dia amanhecer. Que nem nós.

No começo da tarde de sábado, eles pegaram o barco de linha em direção a Belém. Eu peguei uma voadeira em direção a Santarém (menos de duas horas). Não procurei nenhum parente na cidade (e, se um dia lerem isso, eles vão me odiar pelo resto da vida, já que há 30 anos prometo visitá-los...). Fui direto pro aeroporto. Em menos de duas horas estava em casa. Viver é bom!

2 comentários:

Anônimo disse...

PARABÉNS PELO BLOG MEU CARO! APESAR DE EU TER ODIADO O TOM SARCÁSTICO E/OU DESPREZIVO DE SUA NARRATIVA. INFELIZMENTE AINDA EXISTEM PESSOAS QUE ACREDITAM QUE AS DIVERSAS CULTURAS; COSTUMES, DIALETOS, REALIDADE SOCIAL ETC, DEVERIAM, POR OBRIGAÇÃO, SER IGUAIS AO DAS ORIGENS DO MESMO. OS LUGARES SÃO DIFERENTES POR NATUREZA E OS PROBLEMAS, PELA AÇÃO DO HOMEM. LAMENTÁVEL A SUA PARÁFRASE!

Américo Rattes disse...

Meu nome é Américo Rattes, moro em Santarém e faço passeios para a Cidade dos Deuses e Cachoeira Vale do Paraíso.
O período dos passeios vão de Março à Junho.
Grupo de no mínimo 25 Pessoas.
Telefone pra contato: (93) 99175-3510.