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quarta-feira, junho 10, 2009

Onze anos sem Graça


Eu, Paulo Graça, Fausto Wolff, Luiz Bacellar, Claudio Amazonas, Elson Farias e Carlos Araujo, na Livraria Valer

Era uma terça-feira, dia 9 de junho, há exatos onze anos. Eu estava desenvolvendo uma campanha publicitária na Grafite quando o telefone tocou, por volta das 9h da manhã. Era o poeta Tenório Telles, visivelmente aflito. Me falou que o Antonio Paulo Graça estava passando mal desde as primeiras horas do dia, sentindo uma dor lancinante no baixo-ventre.

Liguei para o psiquiatra Manuel Galvão e falei sobre o problema. Ele suspeitou que podia ser um princípio de infarto e recomendou que o Paulinho fosse levado para o Hospital Universitário Getúlio Vargas. Por ser professor da Ufam, Paulinho teria um atendimento mais completo no setor de urgência porque lá sempre tem pelo menos dois cardiologistas de plantão. Transmiti a informação ao Tenório.

Na mesma hora, telefonei pra Dinari, que se mandou pra Livraria Valer e, em companhia do Tenório, saíram em busca do Paulo Graça. Nesse meio tempo, sua esposa, Claudia, já o havia levado para a clínica Santa Júlia, ali na avenida Airão porque – esta a explicação dela – “eles tinham convênio e era uma clínica particular”.

Quando os dois – Dinari e Tenório – finalmente chegaram à clínica, Paulinho continuava se contorcendo de dor (inclusive já havia urinado nas calças). Segundo a Claudia, ela e Paulo estavam ali há quatro horas e ainda não haviam sido atendidos porque não havia nenhum médico no local. A Dinari entrou em pânico e, aos gritos, exigiu a presença de um profissional.

Sabe-se lá como, mas apareceu um psicólogo que deu logo o diagnóstico: “Porra, esse senhor está sofrendo um infarto!”. Começou o corre-corre. Paulinho foi colocado em uma maca, enquanto os enfermeiros providenciavam máscara de oxigênio para iniciar o processo de entubação.

Tenório e Dinari seguiram junto da maca, com Paulinho segurando em um dos pulsos da Dinari. “Não me deixa morrer”, ele falou pra Dinari, assim que entraram na sala de emergência. Foram as suas últimas palavras.

“O principal sinal do infarto é a dor muito forte no peito, que pode se irradiar pelo braço esquerdo e pela região do estômago. Em primeiro lugar, deve-se correr contra o relógio, procurando um atendimento imediato, pois a área do músculo morta cresce como uma bola de neve com o passar do tempo”, explicou o cardiologista João Sabino, um dos grandes amigos do Paulinho.

Quer dizer, se em vez de ter sido levado à clínica Santa Júlia, ele tivesse sido levado ao HUGV, como recomendara o Manuel Galvão, Paulinho talvez estivesse vivo até hoje. A quem culpar pela cagada nessa altura do campeonato? À clínica de merda, que estava sem profissionais? À ingenuidade da Cláudia, ao achar que atendimento particular é necessariamente melhor que o serviço público? Ao Paulinho, que podia ter se mandado da clínica em busca de ajuda em vez de esperar por quatro horas?

Quando o Tenório me deu a notícia de sua morte, por volta das 12h, meu mundo desabou. Em menos de 15 minutos, eu e o compositor Carlos Castro estávamos na sala de emergência. Custei a acreditar que aquele corpo inerte, estendido na maca, fosse do mesmo sujeito que havia tomado um porre comigo na sexta-feira anterior e discutido exaustivamente o trabalho literário de Henry James, que ele estava traduzindo com certa parcimônia.

Tentando segurar o pranto, liguei para o poeta Almir Graça para lhe dar a péssima notícia. No começo, o Almir achou que era um trote filho da puta, mas quando percebeu que eu estava chorando viu que a coisa era séria. Comecei a ligar para os amigos mais próximos, para jornalistas e radialistas. A rádio Difusora, inclusive, leu na íntegra uma notinha que fiz comunicando o falecimento do escritor.

Sei disso porque, por volta das 5h da tarde, quando ia de táxi pra casa, a fim de me preparar para o velório, o rádio do táxi estava sintonizado na Difusora e um locutor interrompeu o programa para dar a notícia. Aquilo me deixou arrepiado. Falei pra Dinari: “Puta que pariu, mas se eu não estivesse sabendo de nada e, de repente, ouvisse uma notícia dessas no rádio ia pensar que era sacanagem!”

O escritor, compositor e professor universitário Antonio Paulo Graça nasceu em Boca do Acre no dia 23 de novembro de 1952. Formou-se em Letras pela Universidade Federal do Amazonas, tendo depois ingressado por concurso no Departamento de Língua e Literatura Portuguesa.

Na Universidade Federal do Rio de Janeiro realizou Mestrado em Teoria Literária, tendo apresentado, para obtenção do título, uma dissertação sobre a Estética da Recepção, corrente contemporânea de crítica literária. Mais tarde, na mesma Universidade, fez o Doutorado em Literatura Brasileira.

Sua tese, que se intitulou “A Poética do Genocídio”, trata da corrente romântica indianista. Na contramão do que dizem os manuais de literatura, Paulo Graça provou que, sob a aparência da louvação ao índio brasileiro, os autores, nas entrelinhas do texto, propunham a extinção da raça nativa.

Para provar sua hipótese, Paulo Graça trabalhou com ficcionistas como José de Alencar (“O Guarani”, “Iracema” e “Ubirajara”) e Bernardo Guimarães (“O Índio Afonso”), contrapondo-os a autores do século 20 que trabalharam o índio sob outra ótica: Mário de Andrade (“Macunaíma”) e Antônio Callado (“A Expedição Montaigne”). Sua tese de doutorado, dada a relevância das idéias, foi publicada pela Editora Topbooks.

Foi graças ao Paulinho que o meu “Manual do Canalha” foi publicado pela Topbooks, em 1996, após sua (dele) gestão diplomática junto ao livreiro Zemario Pereira. Quer dizer, se não fosse pelo Paulinho, eu jamais teria sido homenageado pelo maior humorista do país, o jornalista Millor Fernandes, nas páginas da mais importante revista semanal do país, a Veja. Não é pouca porcaria.

Além de “A Poética do Genocídio” e de estudos paradidáticos (incluindo o “Como funciona a poesia”, em que ele analisou um de meus poemas), Paulo lançou outros livros de ensaios: “A Catedral da Impureza” e “A Razão Selvagem”. Na ficção, publicou o romance “Tango Selvagem”. Fez ainda letras de músicas para compositores conhecidos, como Célio Cruz, Torrinho, Roberto Dibo, Carlinhos Castro e Armando de Paula.

Durante a gestão do professor Marcus Barros como reitor da Universidade Federal do Amazonas (1989-1993), Paulo esteve à frente do Centro de Artes, tendo realizado dezenas de eventos culturais. Um dos eventos, uma Oficina de Poesia Marginal, coordenada por mim, revelou vários poetas locais que estão em atividade até hoje, como a Cândida Alves e o Jander Borboletra. Quando faleceu, Paulinho exercia o cargo de vice-diretor do Instituto de Ciências Humanas e Letras da UFAM.

No ano passado, assim que soube da morte do escritor Fausto Wolff postei um texto no blog, relembrando a passagem meteórica do alemão por Manaus. O gente fina Ismael Benigno, além de fazer uma notinha simpática a meu respeito, replicou o post no portal Avesso. Exatamente no dia de aniversário de morte do Paulinho.

Ontem pela manhã, também conversei longamente por telefone com o Zemario Pereira, da Topbooks, que vai reeditar o Manual do Canalha, e a conversa, como não podia deixar de ser, acabou rolando em torno das mortes prematuras de Antonio Paulo Graça e Wally Salomão – que foi para o segundo andar sem realizar seu sonho de conhecer Manaus.

O próprio Zemario Pereira ficou surpreso com a notinha do Millor. "Ele já havia feito um puta elogio, na época do lançamento do livro", disse ele. "Agora, eu acho que ele viu o livro na estante, resolveu reler e lascou outro elogio. Vou pegar a autorização dele para colocar na quarta capa dessa nova edição".

O Zemario também me intimou a ir o mais rápido possível para a Cidade Maravilhosa, que ele quer fazer uma festa em minha homenagem durante o lançamento da quarta edição. Os poetas Arnaldo Garcez e Euclides Amaral já foram avisados. Quer dizer, apesar dos pesares e das perdas afetivas, os cães ladram e a caravana passa. Eita nós!


Veveco, eu, Rogelio Casado, Dinari, Jô, Davi Almeida e Paulo Graça (no primeiro plano), durante uma noitada etílica no Bar do Armando

2 comentários:

Kádia Eneida disse...

Sempre me emociono ao lembrar desse grande homem Paulinho Graça.
Através desse texto e das imagens mato um pouco da saudade desse amigo querido.
Parabéns pelo 4ª Edição do Manual do Canalha. Fico feliz de saber que um cabloco da região arrebenta no humor, mesmo sacaneando com nós, MULHERES. Sei que sem nós não haveria inspiração para grandes obras já publicadas, nos mais diferentes gêneros literários.

Jose Martins disse...

Parabens Simao, pelo execelente texto. Li somento, hoje,.em junho de 2016, em decorrencia da tua postagem no Face. Participei da BICA desde os seus anus, anos depois, passei a frequentar o Bar do Armando. Durante esses longos anos, sempre ouvi dos frequentadores da banda e do bar, palavras carinhosas e respeitosas com relacao a pessoa do Paulo Graca. Ele merece todas as nossas homenagens. A cidade fica um tanto sem graca, sem o Paulo Graca!