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sexta-feira, novembro 20, 2009

A disciplinada hierarquia Isper


Acram Jr., Acram Isper e Karime, no tempo em que eram todos jovens

Karime Isper

Desde que me entendo por ser pensante as coisas lá por casa funcionam da seguinte maneira: o que é do meu pai passa pro meu irmão e o que era do meu irmão automaticamente passa pra mim. Nessa ordem imutável.

E isso compreende as coisas mais variadas, começando por produtos eletrônicos, passando por carros e terminando em confortáveis camisas de botão, que os quilinhos a mais os impedem de usar – e eu adoro como roupa de casa o estilo “peça da escola pro dia dos pais”.

Não me entendam mal, isso é maravilhoso! Principalmente quando o assunto é gadgets eletrônicos, tecnologia de ponta e produtos de última geração que eu nem supunha existir.

Meu pai é um tecnology junkie e o Acram Jr. é uma cópia cuspida dele. Desde pequeno, meu irmão montava e desmontava um monte de coisas: carrinhos de controle remoto, videogames antigos, computadores do papai...

Ele sempre foi bastante curioso e cheio de idéias mirabolantes para o monte de fios coloridos colados em placas verdes que, a partir de seu toque pessoal, garantia, iria deixar o objeto “mais rápido, mais definido, mais alto, mais tudo”.

O primeiro videocassete da cidade foi comprado pelo meu pai. Ele trouxe “do estrangeiro”, numa de suas inúmeras viagens aos EUA, e passou vários dias brincando de descobrir todas as maravilhosas funções daquele aparelho revolucionário. E isso foi só o começo.

Perdi as contas de quantas vezes vi o laser disc do Michael Jackson servir de bucha de canhão para que papai testasse o som, que tinha que ser sempre no volume mais alto, de um novo produto adquirido. Se as paredes da casa não vibrassem como durante um terremoto, alguma coisa estava errada...

E quando estávamos, enfim, entrando no clima do “moon dancing”, ele pausava o aparelho, mexia nos fios lá atrás, invertia a posição de alguns conectores, voltava, recomeçava... E lá íamos nós tentar entrar no clima de novo.


Acram Isper, ao lado de Fredinho, após dar um susto da gota serena nos seus milhares de fãs, no ano passado

As experiências do meu irmão com videogames foram incontáveis. Ele começou com o Atari e não parou mais. Nintendo, Super-Nintendo, Gameboy, Turbo-Express, Game Gear, todos eram comprados por ele assim que eram lançados e, evidentemente, sempre acabava pagando mais caro. Pior: não demorava muito, era lançado um outro que deixava aquele, digamos assim, obsoleto. Era aí que eu entrava.

Mr. Acram Jr., mestre supremo das negociações, trocava o seu novíssimo videogame por um determinado número de favores meus em um determinado período de tempo. Ele ficava bem na fita, já que posava de “bom moço” pro patriarca e ainda ganhava, de brinde, o novo aparelho que ele queria. E eu, por outro lado, torcia pra ele ganhar um novo aparelho porque sabia que um dia aquele também seria meu.

Os anos foram passando e, com isso, os interesses. Videogames já não me atraiam mais e foi a vez dos computadores. Eu “precisava” de um computador no meu quarto para trabalhos escolares e, lógico, passar horas conversando com amigos no mIRC.

Mais uma vez o maravilhoso desktop do meu irmão veio parar no meu quarto enquanto ele se deliciava com o que o papai tinha transferido para ele e o papai, por sua vez, abria as caixas do seu mais recente objeto de desejo.

Foram anos e anos até que eu percebesse que seria mais prático um notebook e daí já dá pra imaginar o que aconteceu...

Quando fiz 18 anos, o carro próprio era a meta. Herdei logo o rejeitado Scenic vinho de meu irmão. Não sabia muito bem como dominar aquela máquina e bati logo na segunda semana, aliás, pela segunda vez. A primeira foi um “arranhãozinho” lateral no portão de casa.

Quando o Scenic foi pro conserto, emprestei o Audi A3, fruto de uma penosa negociação com meu irmão, mas que, fugindo à regra, ainda estava virtualmente sob o controle do meu pai. Quando voltou o Scenic... Bem, evidentemente, eu já não queria mais saber dele.

Televisão foi uma das coisas de maior rotatividade. Até pouco tempo, a minha era uma fantástica Toshiba Lumina Line de 29”, que durante alguns anos reinou soberana e absoluta no quarto ao lado, até o aparecimento das incomparáveis televisões de plasma.

Não demorou muito para os geeks se sentirem ultrapassados pela concorrência e comprarem logo duas televisões de plasma, uma pra cada um.

No rescaldo dessa nova reciclagem, eu acabei trocando a minha Mitsubishi de 21”, que havia ganho num sorteio da feira de ciências da escola, pela lindona e bunduda Toshiba de 29”.

Bem, dessa vez (cá entre nós), o upgrade tecnológico demorou mais do que o previsto. Eu sempre me perguntava, olhando para o céu: “Quando será que o papai vai se cansar da TV dele pra dar pro Acram Jr. e eu, por conseguinte, ficar com a dele?”.

O tempo passava, o tempo voava, a poupança Bamerindus se afundava e o dois continuavam satisfeitíssimos com suas televisões de plasma. Por força das circunstâncias, eu aprendi a amar de coração a minha vintage.

Finalmente, meu pai se encantou por uma televisão maior e, por supuesto, ainda melhor. A caixa ocupava mais da metade da sala e, enquanto os dois se divertiam com os milhares de fios multicoloridos para serem conectados, eu dava pulinhos de alegria.

Meu irmão não contou história e foi logo trocando a dele pela antiga tevê do velho e em pouco tempo eu já estava com a minha maravilhosa TV de plasma com polegadas jamais antes experimentadas pelo meu humilde aposento.

E viva a vida em alta definição!

8 comentários:

Tio Acram disse...

Esta minha filha ainda vai me colocar em maus lençois, sou obrigado a admitir que é exatamente assim..Padrão Arabe de Hierarquia, e a bichinha escreve bem...ficou lindoa foto....o mundo gira.

Verenafrota disse...

Estou encantada com a facilidade que a Karime tem em descrever a família Arabe. Tio Acram, pode admitir vc tem uma escritora em casa. Todo cuidado é pouco!!!

vanessa disse...

Eh Kaká, parabéns! O texto é ótimo e uma delícia de ler... Acho que vc já tem um plano B pra medicina hein...
Bom, isso me lembra mto de como as coisas funcionavam lá em casa... exceto que giravam em torno dos artigos femininos... tinha que esperar a Andressa se encantar por um novo relógio p ficar com o antigo, e assim por diante! ;) Acho que vc deu foi mta sorte de viver cercada por homens tao antenados. ;P
bjos,
Van

Patricia Valle disse...

Kaká! Adorei ler! Ser filha mais nova é uma delícia, sei bem como é! Parabéns pelo texto! Ficou ótimo de ler, super humorado!
beijos !

Ana disse...

Minha anjinha esse relato para mim não foi novidade, pois tens o poder da escrita mesmo e não podia ter saído melhor.
Você e sua família são pessoas especiais e que estão em meu coração e oração.
Parabéns tio Acram pela família linda e por todo testemunho deixado durante esses anos.
Ana Regina.

GIRO PELO NORTE disse...

http://giropelonorte.blogspot.com/

GIRO PELO NORTE disse...

É legal seu Blog

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