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sexta-feira, dezembro 18, 2009

Nova escola de arquitetura de Mirsharshur


por Karime Isper

Hoje eu acordei ao som de toc-toc, bate-bate e fura-fura no telhado. Quando saí do quarto, de cara amassada, para ver o que acontecia, me deparei com o meu avô, de furadeira na mão, gritando para os pedreiros que pendiam de andaimes no telhado.

Céus! Eram apenas 8h30 da manhã, todos, inclusive eu, que estou iniciando minhas férias, estavam dormindo. Mas, pro meu avô, isso nunca fez diferença: o importante é que ele tinha serviço para ser feito e tinha que ser feito logo!

Meu avô é árabe. Sírio, para ser mais exata. Veio pro Brasil de barco com o meu pai ainda pequeno, e algumas moedas no bolso.

Viu macarrão pela primeira vez quando fez escala na Itália. Morreu de nojo achando que eram vermes e preferiu a “matula” que a minha avó havia trazido com pão e humus.

Nesta mesma situação, conta que meu pai, que corria de um lado para o outro do barco, escondeu os passaportes da família. Foi um sufoco. E vovô alega que papai tinha apenas um ano de idade, coisa que a gente duvida.

Foram vários os meios que o meu avô arranjou para ganhar dinheiro, quando chegou ao Brasil. Todos dignamente, claro, mas sempre com muito, muito suor.

Até hoje, aos 80 anos, ele é de uma disposição física invejável. Acorda antes de todo mundo, abre caixa, fecha caixa, e ainda tem tempo para um bom copo de vinho.

Passa o dia de olho nos trabalhadores, que sempre tem muito o que fazer. Faça chuva ou faça sol, ele sempre está construindo alguma coisa.

Não sei quando começou esse seu interesse pela engenharia / arquitetura. Todos os projetos e obras são coordenados por ele, pessoalmente. Tudo fica pronto rapidinho, e do jeitinho dele.

E a inspiração... Bem, supostamente, vem de sonhos... Se ele sonhar essa noite que quer um banheiro na sala, no outro dia, no fim da tarde, haverá um banheiro na sala e ponto final!

Qualquer desejo é uma ordem, quando o assunto é construir. Só tem que ter cuidado, como sempre, com o que ou como você deseja...

Meu avô segue as mais variadas tendências, mas sua preferida gira em torno de azulejos. Quanto mais, mais coloridos e mais variados, melhor!

E não tem problema se sobrar: ele sempre dá um jeito de encaixar o excedente na próxima obra, mesmo que não combine muito com o novo ambiente.

Se for um lugar um pouco mais escondido, corre o risco de virar um verdadeiro patchwork de azulejos.

O enfoque principal é a praticidade da obra. Se o degrau ficar alto demais ou o telhado curto, não importa, isso é o de menos. O importante é ficar pronto e o serviço terminar rápido, no menor tempo possível.

Depois se reajusta conforme a necessidade...

Se chover mais forte e começar a alagar a área de convívio, é só puxar um pouco mais o telhado e está tudo resolvido.

São as regras da "nova escola de arquitetura de Mirsharshur", da qual o vovô é fundador e único aluno. Mas em breve estaremos abrindo vagas aos interessados.

Cena típica é vê-lo sentado numa cadeira, sob um sol abrasador, de boné, bermuda e camisa pólo, supervisionando os pedreiros pendurados nos andaimes.

Dizem que o bode só engorda sob o olho do dono. Pra ele, esse adágio popular tem valor de lei.

Quando ele desconfia que a obra está demorando mais do que o necessário, simplesmente coloca a mão na massa.


Volta e meia, se a cadeira estiver vazia, pode procurar que o danado tá furando alguma coisa ou martelando qualquer outra.

Seu bronzeado faz inveja a muito golfista milionário e sua vitalidade é digna de um atleta campeão de triathlon.

Nós o chamamos de gidô, que sinifica vovô em árabe. Ainda hoje ele fala português com um sotaque arrastado e anda esquecendo um pouco do árabe.

Meu irmão brinca que, desse jeito, ele vai acabar ficando mudo.

Se faz de desentendido só quando convém, essa é vantagem que ele tira por ser mais velho e estrangeiro. Ele é assim, cheio de coisas pra fazer e sempre em regime de urgência.

Projetos prontos, projetos novos, tudo a 80 anos por hora. E sabem o que ele diz? “Eu nem sinto a minha idade”.

Puro sangue árabe!

3 comentários:

Gi disse...

KKKKKK muito bom Kaká!!!!
Tá lindo... é exatamente assim....

Caroline disse...

Adoreiii!!!

Beijos

Carol Grosso

doisemum disse...

Eu nunca vi seu avô exercitando sua melhor profissão, "aquiteto" mas, vc escreve tão bem, que passou um filme na minha cabeça como se eu estivesse vendo-o na batalha!!
Verena