segunda-feira, dezembro 14, 2009

O Don Juan de São Francisco


Em meados dos anos 60, o boêmio Zé Bandeira, uma lenda viva do bairro de São Francisco, viajou junto com outros três companheiros para um garimpo nas proximidades de Jacarecanga, no Pará.

Um deles, Manoel Theodoro, já havia garimpado no rio Madeira, na Venezuela e no Suriname. “Onde tem uma fofoca lá eu estou”, dizia. “Puxei 900 gramas de uma vez na Serra Sem Calça, próximo ao município de Jaru”, se vangloriava.

No Pará, Zé Bandeira se desgarrou do resto da turma e foi faiscar sozinho em tudo quanto é garimpo da região. Acabou aportando em Porto Velho (RO), onde viveu por muitos anos. Retornou pra Manaus quase 15 anos depois, mais invocado do que nunca.

Certa feita, no lupanar Verônica, noite de chuva e pouca freqüência, mesas desertas, Zé Bandeira sentado a beber “traçado” (cinzano com cachaça) bem devagarzinho. Boa pinta, cheio de cordões e anéis de ouro, ele já havia levado um monte de cantadas de quengas, mas sempre respondia às investidas com um bordão:

– Só se você me fizer o que fazem as mulheres dos garimpos de Porto Velho...

O mulherio ficava meio cabreiro e não topava a parada, mesmo sem saber o que de tão especial as damas faziam nos garimpos Porto Velho.

Diferente de hoje, naquela época para uma meretriz pagar bundinha ou boquete só se o cara fosse “amigado” com ela.

Os freqüentadores habituais dos puteiros sequer tinham coragem de propor uma extravagância dessas para as mariposas mais salientes.

O certo é que lá pelas tantas da madrugada, uma lia experiente, percebendo que ou topava a proposta do ex-garimpeiro ou dormiria sozinha sem ganhar um tostão, se aproximou da mesa e, quando ouviu o indefectível bordão, não vacilou:

– Então te levanta da mesa e vamos pro ninho, meu bem!

Passaram uma noite muito boa, pois Zé Bandeira era mesmo bom de cama: deitava e dormia.

Ao se preparar para ir embora, já vestido, a mulher não resistiu mais e perguntou:

– Meu bem, nós só fizemos um “papai-mamãe” e um “frango assado”, que eu achei bem normal... Mas, afinal de contas, o que é mesmo que fazem as mulheres dos garimpos de Porto Velho?...

Zé Bandeira, já saindo porta afora, esclareceu:

– Nunca me cobraram nada!

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