quarta-feira, abril 29, 2009

A pimenta dos índios


Raimundo, Luiz Castro, Pauderney, eu e Wilsinho, no beiradão do rio Waupés, em Iauaretê

Agosto de 1998. Uma semana depois do sufoco em Barcelos, lá estavam eu, Frank Sena e Pauderney Avelino no aeroclube, às 6h30 da manhã, se preparando para viajar para São Gabriel da Cachoeira, que fica a 860 km de Manaus.

A aeronave escolhida dessa vez era um bimotor Cessna 301, do tamanho de uma van, com capacidade para cinco passageiros, autonomia de vôo de cinco horas e velocidade média de cruzeiro de 300 km/h.

Nossos novos companheiros de odisséia eram o ex-prefeito de Envira, Luiz Castro, candidato a deputado estadual, e o professor Raimundo Silva, assessor do candidato.

Como aquela manhã de sábado estava luminosa, o vôo foi bastante tranqüilo e desembarcamos no aeroporto de Waupés (ele manteve o nome original do município) por volta das 10h da manhã. O prefeito Amilton Gadelha já estava nos esperando.

Eleito pelo PT, Amilton Gadelha havia comprado uma briga federal com os caciques do partido no Amazonas por conta de nomeações para cargos de confiança, acabando por se desligar da legenda. Apesar de tudo, ele estava fazendo uma boa administração, tanto que no ano seguinte, em 1999, São Gabriel da Cachoeira foi um dos cinco municípios brasileiros agraciado com o prêmio “Prefeito Criança”, da Abrinq, disputado por 180 concorrentes.

Nosso destino final, entretanto, era o distrito de Iauaretê, localizado na garganta da famosa “Cabeça do Cachorro” do mapa nacional, na fronteira com a Colômbia, onde vivem cerca de 4 mil pessoas. Mal descemos no aeroporto, já fomos conduzidos pelo Wilsinho, assessor do prefeito, para uma aeronave Búfalo C-115, da FAB, que nos levaria até lá.

Além do prefeito e de Wilsinho, juntaram-se ao nosso grupo o secretário municipal de Educação Gersen Baniwa, alguns assessores técnicos da prefeitura e vários militares. Foi um vôo tão tranqüilo que cheguei a cochilar. Chegamos a Iauaretê por volta do meio dia. Quer dizer, de repente foi como se tivéssemos viajado de Manaus a São Paulo, com escala em Brasília...

Ficamos alojados no quartel do 1º Pelotão Especial de Fronteira, onde fomos tratados pelos militares como verdadeiros paxás. O almoço estava marcado para as 14h, só que a gente sequer havia tomado o café da manhã. Por sugestão do Pauderney, nós resolvemos dar uma volta pela cidade pra tentar encontrar uma lanchonete. Caminhamos pelas ruas de barro, sob um sol inclemente, por quase meia hora e nada.

Wilsinho explicou que na vila não havia padaria. Nem mercadinho. Nem açougue. Nem feira livre. Nada. A população só comia enlatados, embutidos e ovos, vindos de Manaus ou contrabandeados do lado colombiano pelos guerrilheiros das Farc. Ninguém produzia absolutamente nada. Peixe no rio Waupés, a exemplo do rio Negro, era ficção científica.

Resolvemos apelar. Entramos numa birosca e convencemos um velho índio dessana, dono do pedaço, a esquentar numa frigideira três latas de sardinha, três latas de conserva desfiada e arrematar tudo quebrando meia dúzia de ovos em cima. O “grude” ficou simplesmente intragável, já que até mesmo o nosso velho e conhecido sal, lá praquelas bandas, custa uma fortuna.

Acostumado a comer pimenta malagueta com torrada no café da manhã, Pauderney perguntou ao índio velho se ele não tinha “um pouco de pimenta”. O índio lhe estendeu uma espécie de saleiro com um conteúdo que me pareceu pimenta do reino.

– Essa aí é a nossa famosa kapé itsa yotxi (“pimenta catinga do jacaré”), que o pessoal chama de kina – explicou Gersen Baniwa. “Dizem que ela é muito boa pra memória...”

Pauderney polvilhou uma parte da gororoba com a pimenta kina, deu uma colherada de respeito, enfiou na boca e em menos de 30 segundos começou a lagrimar e a tossir. Seus lábios ficaram inchados e vermelhos como os do Idi Amim.

– Puta que pariu, meu amigo, mas essa merda arde pra caralho! – reagiu.

O velho dessana limitou-se a dar um sorrisinho safado e passar pro deputado uma garrafa pet de dois litros contendo suco de jenipapo, pra ver se amenizava o desconforto.

De volta para o quartel, perguntei discretamente do Gersen Baniwa se havia algum estudo científico demonstrando que aquela pimenta era mesmo boa pra memória.

– Olha, estudo eu não sei se tem não, mas que é boa pra memória, isso eu posso te garantir – explicou, rindo. “Daqui a seis horas, o deputado ainda vai estar se lembrando dela...”

Depois do almoço, no quartel, o comandante do Pelotão, tenente Daniel Carvalho, um gaúcho extremamente educado e prestativo, nos deu uma verdadeira aula sobre a importância do Exército Brasileiro na Amazônia.

– Aqui, a gente faz de tudo um pouco – garantiu. “Nós somos a única presença do Estado nesse fim de mundo. Não fosse a presença militar, isso aqui seria uma região entregue à própria sorte. Ou, pior, entregue à sorte alheia”.

Em virtude de a população de Iauaretê ser “pobre, pobre, pobre, de marré, marré, marré”, uma vez por mês os quase 200 militares do Pelotão participam de um jejum de 24 horas. Os gêneros alimentícios que deixam de ser consumidos nesse período são transformados em cesta básica e distribuídos para a população. Existe maior exemplo prático de solidariedade? Desconheço.

O comando dos Pelotões de Fronteira está sediado em São Gabriel. De lá partem as provisões e o apoio logístico para as unidades construídas à beira dos principais rios fronteiriços: Iauaretê, Pari-Cachoeira, Querari, Tunuí-Cachoeira, São Joaquim, Maturacá e Cucuí.

Anteriormente formado por militares de outros Estados, os pelotões hoje recrutam soldados nas comunidades das redondezas. Essa opção foi feita por razões profissionais: “O soldado do Sul pode ser mais preparado intelectualmente, mas na selva ninguém se iguala ao indígena”, explicou o tenente.

Na entrada dos quartéis, uma placa dá idéia do esforço para construí-los naquele ermo: “Da primeira tábua ao último prego, todo material empregado nessas instalações foi transportado nas asas da FAB”.

Os pelotões atraíram as populações indígenas de cada rio à beira do qual foram instalados: por causa da escola para as crianças e porque em suas imediações circula o bem mais raro da região – salário.

Para os militares e suas famílias, os indígenas conseguem vender algum artesanato, trocar farinha e frutas por gêneros de primeira necessidade, produtos de higiene e peças de vestuário. No quartel existe possibilidade de acesso à assistência médica, ao dentista, à internet e aos aviões da FAB, em caso de acidente ou doença grave.

Cada pelotão é chefiado por um tenente com menos de 30 anos, obrigado a exercer o papel de comandante militar, prefeito, juiz de paz, delegado, gestor de assistência médico-odontológica, administrador do programa de inclusão digital e o que mais for necessário assumir nas comunidades das imediações, esquecidas pelas autoridades federais, estaduais e municipais.

Tais serviços, de responsabilidade de ministérios e secretarias locais, são prestados pelas Forças Armadas sem qualquer dotação orçamentária suplementar.

Os quartéis são de um despojamento espartano. As dificuldades de abastecimento, os atrasos dos vôos causados por adversidades climáticas e avarias técnicas e o orçamento minguado das Forças Armadas tornam o dia-a-dia dos que vivem em pleno isolamento um ato de resistência permanente.

Esses militares anônimos, mal pagos, são os únicos responsáveis pela defesa dos limites de uma região conturbada pela proximidade das Farc e pelas rotas do narcotráfico. Não estivessem lá, quem estaria?

Por volta das 15h30, fomos dar uma “zoiada” nas corredeiras do rio Waupés, na frente da cidade. As pedras que formam as corredeiras do rio são especialmente importantes aos Tariano, uma das etnias mais numerosas do povoado.

– Grande parte da toponímia de Iauaretê refere-se às transformações de Okomi, um dos seres do começo dos tempos, que foi devorado pela gente-onça. Os Tariano referem-se a ele como “nosso avô”, pois seriam seus descendentes em linha direta, resumiu Gersen Baniwa.

No começo da noite, participamos de uma reunião de moradores sobre política educacional, no centro comunitário do distrito. Havia umas 500 pessoas, incluindo velhos caciques, jovens guerreiros, mulheres e crianças, representando as 22 etnias do lugar (tukano, baniwa, curipaco, pira-tapuia, cubeu, dessana, ianomâmi, tariano, hupda, etc).

Era uma reunião interessante. Um cacique fazia uma pergunta na língua de sua etnia, Gersen Baniwa traduzia para o português, o prefeito Amilton Gadelha ou o deputado Pauderney Avelino respondiam em português, Gersen traduzia a resposta para o idioma do cacique, e a discussão prosseguia. Não tenho certeza, mas desconfio que ele sabe falar todas as línguas indígenas existentes no Amazonas...

Inconformados com a reunião, alguns militantes do PT começaram a atirar pedras e bombas “catolé” no telhado do centro comunitário, provocando um início de pandemônio, felizmente contido pela intervenção enérgica do prefeito Amilton Gadelha, que pediu o reforço de uma patrulha do Exército. Os baderneiros se escafederam.

Voltamos para o quartel por volta das 2h da madrugada. O deputado ainda continuava com um beição de Idi Amin. Sim, com certeza ele estava se lembrando da pimenta kina.

Na manhã seguinte, após um lauto café da manhã em companhia dos militares, embarcamos no Búfalo C-115 e voltamos para São Gabriel da Cachoeira. Apesar de a gente não conseguir pegar mulher nem pra remédio, comecei a gostar de fazer campanha eleitoral pelo interior.

A dura faina de um piscicultor aprendiz


Ex-secretário de Indústria e Comércio do Amazonas, Cristóvão Marques resolveu se aventurar pelo fascinante mundo da piscicultura em gaiola. É sabido por todos que a criação de peixes em tanques-rede ou gaiolas flutuantes é uma das melhores formas de aproveitar racionalmente os recursos hídricos disponíveis, seja rio, lago ou açude.

Como possuía um sítio às margens do igarapé do Tarumã, Cristóvão resolveu juntar a fome com a vontade de comer. Ele mesmo desenvolveu as gaiolas, cuja borda superior flutuava cinco centímetros acima da linha d’água, e optou pelo cultivo de pirarucu.

Também é sabido por todos que o cultivo de pirarucu em gaiolas aumenta a produtividade do manejo por permitir altas taxas de estocagem de alevinos (filhotes) em virtude da renovação constante da água. Em cada uma das 50 gaiolas, Cristóvão estocou 10 mil alevinos.

Um mês depois, Cristóvão descobriu que, misteriosamente, mais da metade dos alevinos havia sumido das gaiolas.

Depois de intensas pesquisas e observações de campo, ele descobriu o que estava acontecendo: as gaivotas e garças simplesmente estavam “morando” em cima das gaiolas e fazendo a maior farra. Pra aves, era a mesma coisa que pescar em bilha.

Cristóvão matou pessoalmente uma garça, mediu seu bico (10 cm) e fez uma reengenharia nas gaiolas. A borda superior passou a flutuar 15 centímetros acima da linha d’água.

Dois meses depois, Cristóvão descobriu que, misteriosamente, os 10 mil alevinos iniciais haviam se transformado em menos de mil.

Depois de intensas pesquisas e observações de campo, ele descobriu o que estava acontecendo: os alevinos de piranha vermelha conseguiam entrar nas gaiolas pelas malhas de abertura e detonavam os inocentes alevinos de pirarucu.

Atendendo a sugestão de um especialista, ele resolveu colocar guardiões para proteger o estoque de pirarucus: alevinos de tucunaré, que têm uma preferência gastronômica por alevinos de piranha vermelha. No início, a estratégia foi um sucesso.

Três meses depois, Cristóvão descobriu que, misteriosamente, os menos de mil alevinos de pirarucu haviam desaparecido completamente. Nas gaiolas, restavam apenas os alevinos de tucunaré.

Depois de intensas pesquisas e observações de campo, ele descobriu o que estava acontecendo: os alevinos de tucunaré se desenvolviam bem mais rápidos do que os alevinos de pirarucu e, predadores vorazes por natureza, na falta de piranhas vermelhas passaram a comer os pirarucus.

Cristóvão resolveu fazer uma nova reengenharia nas gaiolas, de forma que os alevinos de piranha vermelha não pudessem adentrar no recinto pelas malhas de abertura das gaiolas, o que também o desobrigaria de colocar alevinos de tucunarés para combater os invasores.

As 50 novas gaiolas foram construídas com telas galvanizadas, no dobro do tamanho original. Em cada uma delas, ele colocou 20 mil alevinos.

Semanalmente, Cristóvão monitorava o crescimento dos peixes e percebia que a perda de filhotes era mínima. Dessa vez, o empreendimento tinha tudo para dar certo. Cristóvão parou de se preocupar.

Oito meses depois, o senador Romeu Tuma estava fazendo uma visita a Manaus e foi convidado pelo piscicultor para conhecer o empreendimento.

Amigos de longa data, Romeu Tuma aceitou o convite com uma condição: gostaria de ir até o local no barco regional do empresário e, se possível, que o almoço fosse um exemplar de pirarucu pescado na hora.

Pelos cálculos de Cristóvão, seus peixes já estariam pesando uns 10 quilos, o que daria de sobra para o senador fazer uma lauta refeição.

Ao chegarem ao local, Cristóvão deu ordens aos seus “vaqueiros” que levantassem uma das gaiolas para o senador escolher pessoalmente o seu pirarucu. A primeira gaiola foi levantada: nem sombra de pirarucu. A segunda gaiola, idem. A terceira, ibidem, e assim por diante.

Só então Cristóvão percebeu o que havia acontecido. A acidez da água do igarapé do Tarumã havia corroído completamente as telas galvanizadas. Os pirarucus, já taludinhos, não tiveram que fazer muita força para arrombar as gaiolas e se escafederem. Não ficou um para contar a história.

O mico só não foi maior porque a cozinheira do barco improvisou uma macarronada com sardinha em lata, uma das paixões gastronômicas do senador Romeu Tuma.

E porque, indiretamente, Cristóvão repovoou o igarapé do Tarumã com 1 milhão de pirarucus. Não é pouca porcaria.

Operação SOS Tartarugas


Nelson, eu e Simas, durante um réveillon no Solarium

Setembro de 2004. Sabedor do meu vício quase genético por “bichos de casco”, meu cunhado Nelson, marido da Selane, me telefona, querendo saber se, por acaso, eu não estaria interessado em comprar uns pitiús, que o irmão dele havia trazido de Beruri.

Fui lá conferir a mercadoria. Havia tracajás e tartarugas de todo tamanho, dos miúdos (dois palmos de peito) aos parrudos (três palmos e meio), num total de 130 quelônios.

Na base do um pelo outro, ofereci R$ 1.200,00 pelo lote. O irmão do Nelson devia estar louco pra se livrar da encrenca porque nem regateou.

Como na minha casa não havia lugar disponível para guardar aquela montanha de quelônios, liguei para o velho indagando se podia deixar “alguns pitiús na piscina da casa dele”.

Outro emérito comedor de tartarugas, papai concordou.

Na seqüência, pedi para o Nelson transportar a mercadoria lá pra casa do velho. Era uma sexta-feira.

O Nelson encheu o carro com uns 18 tracajás e deu a primeira viagem.

– “Seo” Simão, o Simãozinho pediu para o senhor guardar aí dentro da sua piscina esses bichos de casco...

O velho Simão, supondo tratar-se de um ou dois tracajás, não deu a mínima.

– Tudo bem, pode deixar aí...

Quando viu a quantidade de tracajás, o velho começou a suar frio.

Meia hora depois, Nelson estava de volta, trazendo mais 25 tracajás. Depois de descarregar a mercadoria, ele indagou:

– Tudo bem, “seo” Simão?...

– Mais ou menos... – respondeu o velho, tomando um suco de maracujá, enquanto a Dulce preparava um chazinho de camomila com erva doce.

Na terceira viagem – com mais 35 tracajás sendo desembarcados –, o velho Simão falou:

– Olha, Nelson, esse negócio tá ficando meio complicado...

Na quarta viagem – com mais 20 tartarugas médias (dois palmos e meio) sendo entregues pelo Nelson –, o velho começou a procurar remédio tarja preta para tomar:

– Rapaz, isso tá ficando perigoso...

Na quinta viagem – um novo lote de 22 tartarugas grandes (três palmos) – o velho Simão foi taxativo:

– O Simãozinho enlouqueceu...

Na sexta viagem – o derradeiro lote de 10 tartarugas gigantes, de três palmos e meio de peito –, o velho Simão estava à beira de um ataque de nervos.

A piscina estava repleta de quelônios, idem o tanque da área de serviço e a área do entorno da piscina. Pra se movimentar no quintal da casa, só pisando em cima dos cascos das tartarugas, que não paravam de se movimentar pra todo lado. Uma zorra total.

Na primeira noite, o velho não conseguiu dormir, por causa do som infernal dos cascos de tartarugas se batendo dentro da piscina (devia ter umas 90).

Ele abriu todas as torneiras da casa para fazer barulho d’água, a fim de que os vizinhos, incluindo um delegado da Polícia Civil, não ouvissem o som dos cascos e o denunciassem ao Ibama.

De madrugada, o velho Simão e a Dulce mataram 30 tracajás. Porém surgiu novo problema. Aonde iriam jogar os cascos?

Antes de o dia amanhecer, papai pegou o EcoSport dele e foi atrás de um local seguro para se transformar em cemitério de pitiús, lá pras bandas do São José, onde fez o descarte dos cascos. Os bancos e a mala do carro ficaram empapados de sangue.

Mesmo assim, o “bate-bate” de cascos dentro da piscina continuava insuportável.

Na manhã de sábado, os dois abateram mais 20 bichos e congelaram a carne. O barulho prosseguiu. O velho Simão foi ficando cansado, abatido, nervoso e sem paciência. Mas mesmo assim, não reclamou.

O diabo é que seu estado de ânimo chegou aos ouvidos da Selane (desconfio que a Dulce deu uma leve “fuxicada”).

Primeiro, ela xingou o Nelson até não poder mais. Depois foi a minha vez.

– O papai não tem porque passar por isso! – esbravejava ela, pelo telefone.

Eu, do alto de minha paciência zen, contemporizava:

– Não te preocupa, mulher! Na pior das hipóteses, ele vai sair nos jornais apenas posando próximo da piscina cheia de quelônios. Preso ele não pode ir porque tem mais de 80 anos. De mais a mais, eu só queria ver o sonho do velho realizado. Ele sempre disse que queria ter um monte de tartarugas pra comer...

Enquanto o velho Simão vivia o maior pesadelo da sua vida (as freezers já não suportavam mais a carne das tartarugas, que estavam sendo abatidas em regime industrial), a Selane continuava enchendo o saco, meu e do Nelson, com xingações a cada meia hora. O nosso sábado foi um inferno.

Na madrugada de sábado pra domingo, a Dulce abateu o lote de 10 tartarugas gigantes de três palmos e meio de peito. Pelos meus cálculos, eles tinham carne de tartaruga suficiente para comer diariamente até maio de 2005.

No domingo, nós (eu, Nelson, Antonio Diniz e Simas) resolvemos ir buscar o resto dos quelônios, na operação batizada “SOS Tartarugas – Salve-se quem puder!”.

No meio da operação de retirada dos quelônios da piscina, Nelson picou a mula, argumentando que precisava levar minha sobrinha, Priscila, no Pronto-Socorro. Cinco minutos depois, Antonio Diniz também picou a mula, argumentando que precisava visitar uns eleitores (ele era cabo eleitoral do vereador Paulo Nasser). Sobrou pra mim e pro meu brother.

Não sei como, mas o Simas arranjou dez sacos de anilina. Acondicionamos sete tartarugas dentro de cada um deles, colocamos na mala do EcoSport dele e nos preparamos mentalmente para uma missão quase impossível: doar quelônios, em plena luz do dia e escondidos do Ibama, sem se deixar trair pelo puta cagaço de ir em cana (tráfico de animais selvagens é crime inafiançável, pois não).

Tomamos meia dúzia de cervejas para clarear as idéias.

Visivelmente nervoso, o Simas perguntava:

– E aí, cara, onde é que nós vamos deixar essa porra?...

– Você pára na primeira ladeira bem movimentada que pintar, a gente abre uns dois sacos, derrama a mercadoria no chão e coloca os bichos para apostar corrida no meio da rua. Daí a gente fica só assistindo. Uns vão morrer atropelados pelos carros, pelos ônibus, pelas motos... Os que sobreviverem, a gente dá de presente para os amigos... – expliquei.

Simas não achou a idéia muito boa. Tomamos mais meia dúzia de cervejas para criar coragem.

Depois de meia hora discutindo as alternativas, nos despedimos do papai e nos mandamos. Pedi pra ele dirigir em direção ao Parque Dez.

Na casa do poeta Aníbal Beça, a gente deixou um saco. O poeta ficou feliz que nem pinto no lixo. Pedi pro Simas dirigir em direção ao Beco do Macedo.

Descarregamos dois sacos na casa do compositor Davi Almeida, um deles para ser entregue ao Engels Medeiros, compadre dele.

O Davi ficou tão nervoso com a quantidade de quelônios que não quis receber o presente de jeito nenhum.

O irmão do Davi, Mário, assumiu a encrenca. Ele pegou os dois sacos e entocou no quintal de um vizinho.

Eu nunca tinha visto aquilo: um cara completamente louco por carne de tartaruga, como o Davi Almeida, recusar 14 tartarugas dadas de graça. Vivendo e aprendendo...

A gente ia passar na casa do Mário Dantas, no Vieiralves, para deixar um saco, e depois na casa do Ari de Castro Filho, na Praça 14, para deixar outro, mas o Simas ficou tão invocado com a atitude do Davi Almeida, que resolveu radicalizar.

Ele me deixou em casa, com dois sacos, e se mandou pra Cachoeirinha. Soube, depois, que ele distribuiu quelônios para todos os moradores da Rua Parintins.

Nessa noite de domingo, o velho Simão conseguiu dormir tranqüilo e aliviado. E até hoje os vizinhos do Simas, lá da Parintins, cobram uma nova fornada de “bichos de casco” totalmente “de grátis”.

Se o projeto “Pé de Pincha”, supervisionado pelo Ibama, estiver mesmo dando certo, eles não perdem por esperar...

terça-feira, abril 28, 2009

Se o Matrix tivesse o Windows XT como sistema operacional...



Não bastasse a gozação implacável sobre as traquitanas do Bill Gates, a caminhada de Neo pela Matrix parodia o clipe de “Bitter Sweet Symponhy”, do Verve. Ducarálio!

Itacoatiara recebe três dias de Flifloresta


Thiago Hermido
Especial para A CRÍTICA

Itacoatiara será o primeiro município a receber o Festival Literário Internacional da Floresta (Flifloresta), evento realizado em Manaus no ano passado e que em 2009 passará por alguns municípios do Amazonas. Nos dias 7, 8 e 9 de maio, artistas amazonenses se dividem em palestras, debates, exposições e apresentações musicais que acontecerão na cidade.

Quatro serão os espaços que receberão o Festival em Itacoatiara. Clube dos Professores, Centro Educacional Jamel Amed, Orla Fluvial e Casa da Cultura irão dividir a programação do evento que está sendo organizada pela coordenação da capital amazonense (Tenório Telles e Isaac Maciel) e Itacoatiara (Valdilene Bordoni, Rosilene Teles, Ana Maria Monteiro e Roseane Rodrigues).

“Esse festival é muito importante para a vida cultural do interior do Estado. É por meio dele que a população conhecerá obras literárias de escritores amazonenses e talentos da própria cidade que terão oportunidade de mostrar seu trabalho”, comenta o escritor Tenório Telles.

Dentre as atividades estão uma homenagem da organização de Itacoatiara ao escritor Tenório Telles, Café Literário com temas como “Leitura e a construção da cidadania” e “A criação literária - Entre a imaginação e a realidade”, com destaque para o gaúcho Fabrício Carpinejar, poeta e jornalista, que será a atração nacional do Festival.

“O Flifloresta configura o maior evento literário de Itacoatiara, pois leva ao interior do Amazonas o contato com obras de autores da região e de outros cantos do País. Há uma grande expectativa entre a população para o início da programação”, comenta a escritora Valdilene Bordoni.

Na capital

O Flifloresta ainda passará por Careiro da Várzea, Parintins e Manacapuru. De acordo com a coordenação do evento em Manaus, o Festival da capital ainda não tem data confirmada, mas contará com aproximadamente 100 escritores, um número maior que o de 2008.

“Estamos com a programação quase fechada e podemos garantir que a segunda edição do Flifloresta será bem maior que a realizada no ano passado”, afirma Isaac Maciel, editor da Livraria Valer.

segunda-feira, abril 27, 2009

Novo relatório para a academia ou eu, pusilânime


por Zemaria Pinto, après Franz Kafka

Excelentíssimos senhores acadêmicos:

Muitos anos se passaram desde meu primeiro relatório a esta academia, quando comuniquei minha experiência simiesca e metamorfose à humana condição, o que me permitiu pleitear a qualidade de membro deste silogeu, para o qual fui eleito não sem muita polêmica.

A minha condição primata afastou concorrentes humanos, que seriam certamente melhores representantes que eu – mas não representantes simiescos. Obtive uma rejeição de 25%, recorde logo quebrado na eleição seguinte, quando um humano de prestígio internacional, igualmente candidato único, foi rejeitado por 30% de meus pares – entre os quais não me incluí, pois considerava o pleiteante digno de todas as honrarias. A partir desse fato, rejeição deixou de ser um trauma para mim.

A verdade é que as eleições da academia, das quais já participei de meia dúzia, são sempre muito disputadas: se dois candidatos se apresentam, será eleito aquele que obtiver 50% mais um dos votos, o que não deve ser entendido que a rejeição a esse candidato seja de 50% menos um dos votos. Assim, quero dar meu testemunho pessoal e intransferível sobre a mais recente eleição, talvez a mais disputada e certamente a mais tumultuada de todas as que pude observar mais de perto.

Havia dois candidatos humanos. O grupo de votantes aptos dividiu-se na preferência entre esses dois candidatos. De um lado, o grupo com o qual me identifico, afeito às tertúlias filosóficas e literárias – que não ajudam a melhorar a humanidade mas nos divertem bastante – optou pelo candidato cuja obra tem um cunho humanista bem definido.

O outro candidato, ligado à esfera política do governo provincial, onde gravita o outro grupo, sob a liderança inconteste do acadêmico-mor, tem vasta obra de cunho técnico-científico – versando sobre assuntos tão complexos e diversos, como física molecular e astronomia quântica – cuja precisão e profundidade eu não tenho conhecimentos mínimos para mensurar.

Vamos chamá-los, didática e respectivamente, de candidatos A e Z, identificando os grupos pelas mesmas letras: a separação entre estas dá bem a dimensão da distância ética entre a prática de um e de outro grupo.

Não entrarei em detalhes quanto a provocações, vilanias e traições. Fiquemos na superfície, no que pôde ser visto a olho nu – ainda que com meus simiescos olhos, acostumados desde sempre às ciladas e armadilhas da selva selvagem, mesmo sob a negridão da noite mais absoluta.

Avocando a custódia dos votos enviados pelo serviço postal, de acadêmicos que por um ou outro motivo não poderiam estar presentes no dia do sufrágio, o acadêmico-mor jogou terra nos olhos de todo o meu aprendizado sobre democracia, pluralismo e diversidade. Sua ação lembrou-me, sem nenhuma melancolia, meus tempos irracionais, submetido pela força de um antropoide que ocuparia a liderança do grupo até achar outro que o derrotasse na luta corporal, e ao qual, se sobrevivesse, haveria de se submeter.

Até o dia da eleição, cerca de 40% dos votos válidos chegaram pelo serviço postal. Neste ponto, chamo a atenção ao título alternativo deste humílimo relatório: a minha pusilanimidade.

Sim, no início da apuração, observei que os envelopes com as cédulas eleitorais, que deveriam estar, cada um deles, dentro de um envelope com selos e carimbos do serviço postal, devidamente lacrado, estavam nus – como um bando de macaquinhos na floresta. A desconfiança desabou sobre mim, fulminante.

Era tudo muito simples: se o acadêmico-mor tinha liberdade para abrir os envelopes do serviço postal, poderia também trocar os pequeninos envelopes com as cédulas, que não tinham nenhuma identificação, alterando o resultado em detrimento da vontade da maioria.

Se eu na hora em que percebi aquela possibilidade houvesse exposto aos presentes a minha suspeição, o acadêmico-mor certamente esbravejaria argumentando com sua condição incontestável de magistrado etc. etc.

Mas aí, como em qualquer plenária de pessoas livres, a discussão estaria instalada e certamente o meu grupo pediria a anulação dos votos e mesmo o cancelamento de todo o processo eleitoral. Talvez até se sugerisse, por sua ação contrária ao senso comum, o impeachment do acadêmico-mor. Claro que tudo são suposições. A única certeza é a minha dúvida.

Enfim, pela minha omissão pusilânime, o candidato Z foi eleito por uma maioria de dois votos – exatamente 50% mais um dos votos válidos. Após a proclamação do resultado não houve qualquer comemoração. Do ponto de vista político, entretanto, é preciso reconhecer que o sodalício saiu fortalecido. Afinal, parece que é para isso que se prestam as academias, desde Richelieu.

Penitencio-me, entretanto, perante vossas excelências, por me sentir um corpo estranho, literalmente, no interior da academia: neste episódio, agi como um símio. Provei a mim mesmo que não perdi minha condição primordial. Duvido até que mereça pertencer a esta academia.

Era o que eu tinha a informar.



NOTA DO EDITOR DO BLOG SOBRE A MACAQUICE

Há duas semanas, a vaga deixada pelo saudoso Jefferson Péres na Academia Amazonense de Letras foi disputada pela historiadora Etelvina Garcia e pelo ex-deputado federal Euler Ribeiro.

Os intelectuais orgânicos (Zemaria Pinto, Márcio Souza, Anibal Beça, Aldisio Filgueiras, Jorge Tufic, Luiz Bacellar, Narciso Lobo, Alencar e Silva, Almir Diniz, Armando Menezes, etc) fecharam questão em torno da historiadora.

O secretário de Cultura Robério Braga se transformou em cabo eleitoral de Euler Ribeiro, que acabou sendo eleito.

Há suspeitas de que o atual presidente da AAL, José Braga, irmão de Robério, tenha manipulado os votos enviados pelo correio (cerca de 12 acadêmicos não moram em Manaus) e alterado o resultado final do pleito. Coisas do Bananão!

sexta-feira, abril 24, 2009

Amanhã é dia de poesia na Livraria Valer


A convite do prefeito de Itacoatiara, Antonio Peixoto (PT), nessa noite de sexta-feira vou participar de um evento literomusical (é assim que se escreve pela nova regra?) na orla da cidade, como parte das comemorações pelo aniversário da Velha Serpa.

Claro que estarei em boa companhia: Anibal Beça, Mário Adolfo, Mário Dantas, Simas Pessoa, Áureo Petita, Lucio Preto, Uezélis Maca e Armando de Paula também vão participar do fuzuê, além da galera de Ita (Jerry Nelson, Ewerton Pastor, Marco Cléver, Piu-piu, Big BJ, Marinho, Rendson Renato, Felipe, Manolo, Floriano Ferreira et caterva).

Ocorre que amanhã, a partir das 10h, na Livraria Valer, vai rolar um evento imperdível: o poeta Jorge Tufic, que atualmente mora em Fortaleza (CE), desaba na cidade hoje à tarde e vai estar autografando seu novo livro, "Um hóspede chamado Hansen", nessa manhã de sábado, com direito aqueles comes e bebes tradicionais ofertados por Tenório Telles e Isaac Maciel.

Como a gente só deve voltar de Itacoatiara no domingo, vamos perder essa boca-livre. Mas vocês, cachorros, precisam marcar presença na efeméride pra fazer as honras da casa e detonar aqueles fantásticos sanduiches de tucumã com queijo coalho e banana frita.

Por enquanto, curtam esse texto do poeta Zemaria Pinto, na orelha do livro:

Jorge Tufic é um artífice da palavra. Na poesia, na crônica, no ensaio ou na ficção, emana de seu texto, com um halo de magia, o domínio técnico, aliado a um conhecimento em constante evolução e, sobretudo, um talento que não conhece limites.

Afirmo isso com a sinceridade de um convívio no limiar das três décadas, iniciado quando travei, por intermédio de jovens amigos comuns, contato pessoal com o poeta, a quem aprendera a admirar a distância.

Uma qualidade desconhecida foi logo realçada naqueles encontros iniciais: a generosidade de Jorge Tufic, capaz de dedicar horas de seu raro tempo para nos passar noções de poética; falar, nem sempre bem, das vanguardas em voga; dos poetas que começavam a ser conhecidos e estudados no Brasil, e mereciam nossa atenção, como Eliot, Pound e Cummings; também da sua paixão pelo soneto, que não compartilhávamos, mas que nos seduziria àquela forma, inexoravelmente.

Tudo isso entremeado com histórias da boêmia e dos primórdios heróicos do Clube da Madrugada.

Sobre os demais gêneros praticados, a poesia de Jorge Tufic se destaca, caracterizando-se pela diversidade – o contemporâneo convivendo com a tradição e a experimentação, com as formas fixas.

Na ficção, como já ficara demonstrado nos contos de O Outro Lado do Rio das Lágrimas (1976), não é diferente, pois ele não se contenta em “apenas” contar histórias: a linguagem é sua seara, onde planta experimentos e colhe textos de altíssima tensão literária.

Um Hóspede Chamado Hansen o aproxima da marca dos cinqüenta títulos publicados. O que poderia ser apenas mais um livro de um escritor consagrado é uma aventura na linguagem – para o autor e o leitor.

Contendo uma novela, que dá título ao volume, e dez contos, o livro é um passeio por uma baudelairiana floresta de símbolos. A começar pela novela: uma alegoria da condição humana sob a ameaça constante do Mal.

Os contos, de no máximo página e meia, condensam metáforas que pedem, no mistério do silêncio que as cerca, uma leitura calma, para uma reflexão sem pressa. Não estou aqui falando de hermetismo, mas do silêncio, da calma e da reflexão que a boa literatura exige e pede.

O leitor antigo de Jorge Tufic vai, neste livro, reencontrá-lo em sua melhor forma. O leitor neófito terá oportunidade de conhecer um dos mais brilhantes escritores brasileiros em ação neste início de século.

quinta-feira, abril 23, 2009

Hoje é dia de bater tambor e tomar uma pelo santo


Chris Braga, nega velha, não se esqueça de me incluir em suas orações durante as celebrações em homenagem ao nosso glorioso São Jorge, comemorado nesta quinta-feira, 23 de abril. Afinal de contas, nós dois somos filhos de Ogum.

A partir das 20h, eu estarei tomando todas pelo santo guerreiro, ali no Bar da Mara, em Petrópolis, e com certeza estarei invocando sua proteção divina pra vosmecê. O tira gosto, claro, vai ser pastel de queijo. E na trilha sonora, Chico Science, Nação Zumbi, Fred 04, Mundo Livre S.A., Mestre Ambrósio, Cordel do Fogo Encantado, Comadre Florzinha e o resto da rapaziada do mangue beat. De leve.

Pra quem não sabe, o santo guerreiro é festejado por católicos, que acreditam que São Jorge é a força de Deus na luta dos excluídos e marginalizados da sociedade, e por praticantes do candomblé, que o invocam como protetor, defensor das almas contra o demônio, tentações e suspeitas de feitiço.

O culto do santo ao Brasil chegou com os portugueses que decretaram a obrigatoriedade da imagem nas procissões de Corpus Christi. Mas em 1969, o Papa Paulo VI reformou o calendário litúrgico da Igreja Católica e tornou opcional a festividade em homenagem ao dia do santo, alegando que o santo não tinha registros históricos, apenas relatos tradicionais.

Entretanto, ele continua sendo o padroeiro da Inglaterra, de Portugal, da Catalunha, dos soldados, dos escoteiros, dos corintianos e celebrado em canções populares de Caetano Veloso, Jorge Ben Jor e Fernanda Abreu.

A imagem de São Jorge é representada por um jovem vestido com uma armadura, sentado em um cavalo branco com uma lança atravessando o dragão. A figura do santo está relacionada às diversas lendas criadas a seu respeito e contada de várias maneiras.

A lenda mais famosa conta que um dragão saía de vez em quando das profundezas de um lago e atirava fogo contra os muros da cidade de Selena, na Líbia, trazendo morte com seu hálito. Para não destruir toda a cidade, o dragão exigia regularmente que lhe entregassem mulheres virgens para serem devoradas.

Um dia coube à filha do Rei ser oferecida em holocausto. No momento em que ia acontecer o sacrifício, apareceu um cavaleiro vindo da Capadócia, na atual Turquia, montado em um cavalo branco. Era São Jorge.

O santo enfrentou o fogo que saía da boca do dragão e as nuvens de fumaça que eram expelidas. Após um grande combate, São Jorge venceu o dragão, com sua espada e sua lança.

São Jorge nasceu na Capadócia no ano de 280. No final do século III, o cristão Jorge trocou a Capadócia pela Palestina, vindo a ingressar no exército do imperador Diocleciano. Jorge logo se destacou na corte, sendo elevado a conde e depois a tribuno militar.

Tudo ia bem, até que as perseguições aos seguidores de Cristo reiniciaram. O rapaz não quis negar sua fé, fazendo com que Diocleciano se sentisse traído. O imperador, então, condenou-o às mais terríveis torturas. E Jorge conseguiu vencer a todas elas.

Suportando uma dor atrás da outra, o filho da Capadócia suportou as lanças dos soldados, permaneceu firme sob o peso de uma imensa pedra, obteve a cicatrização imediata das navalhadas que recebeu e resistiu ao calor de uma fornalha de cal. A cada vitória sobre as torturas, Jorge ia convertendo mais e mais soldados.

O imperador, contrariado, chamou um mago para acabar com a força de Jorge. O santo tomou duas poções de veneno e, mesmo assim, manteve-se firme e vivo. O feiticeiro juntou-se à lista dos convertidos, assim como a própria esposa do imperador. Estas duas últimas “traições” levaram Diocleciano a mandar degolar o ex-soldado em 23 de abril de 303.

Lenda ou realidade, o fato é que São Jorge nos lembra que todos nós temos algum desafio a vencer nesta vida, seja o nosso orgulho, o nosso egoísmo ou mesmo problemas que nos afetam no dia-a-dia.

Como ele, devemos permanecer fortes e corajosos, independentes dos desafios que a vida nos traga. Assim, como Jorge, havemos de vencer. Salve, Jorge!

Confira a oração de São Jorge

Eu andarei vestido e armado com as armas de São Jorge para que meus inimigos, tendo pés não me alcancem, tendo mãos não me peguem, tendo olhos não me vejam, e nem em pensamentos eles possam me fazer mal. Armas de fogo o meu corpo não alcançarão, facas e lanças se quebrem sem o meu corpo tocar, cordas e correntes se arrebentem sem o meu corpo amarrar.

Jesus Cristo, me proteja e me defenda com o poder de sua santa e divina graça, Virgem de Nazaré, me cubra com o seu manto sagrado e divino, protegendo-me em todas as minhas dores e aflições, e Deus, com sua divina misericórdia e grande poder, seja meu defensor contra as maldades e perseguições dos meu inimigos.

Glorioso São Jorge, em nome de Deus, estenda-me o seu escudo e as suas poderosas armas, defendendo-me com a sua força e com a sua grandeza, e que debaixo das patas de seu fiel ginete meus inimigos fiquem humildes e submissos a vós. Assim seja com o poder de Deus, de Jesus e da falange do Divino Espírito Santo. São Jorge Rogai por Nós.

Sex Pistols e Clash - Marcados Para Morrer


Via e-mail, recebo esse toque do Geraldo Correia, lá de Boa Vista (RR): “Caro Simão. Gostei muito daqueles textos sobre o movimento punk. Como nasci em 1976, só tomei conhecimento do assunto muitos anos depois e é difícil encontrar informações a respeito aqui onde moro. Gostaria de saber o que aconteceu depois, com o fim das bandas. Muito obrigado, seu blog é muito legal.”

O que aconteceu depois, Geraldo?... Bom, minado por uma série de adversidades, o movimento punk chegou ao final de 77 marcado para morrer – aliás, como acontecera com todas as demais “revoluções” geradas pelo rock.

Decodificado e assimilado pela sociedade, nem mesmo o aspecto puramente musical seria poupado do desgaste, levando grupos precursores como Eater Chelsea, The Cortinas e Cocksparrer a um final prematuro.

Em Londres, Zandra Rhodes, a mais influente estilista de vanguarda, criara a moda high punk ao incorporar estratégicos rasgões em vestidos de rayon e seda. Nova York não ficou atrás - na 5ª Avenida podiam-se ver camisetas com motivos punk ornamentando as vitrinas mais sofisticadas.

A paródia chegou às raias do absurdo quando o decorador Richard Mauro lançou a mobília punk (!) e em Chicago uma equipe de ourives produziu uma coleção de jóias tendo por base alfinetes de ouro com diamantes incrustados.

E, quem diria, até Johnny Rotten acabaria incluído na lista das personalidades do ano da revista Vogue... Em meio a tantas contradições, nem mesmo o advento do primeiro LP do Sex Pistols foi capaz de trazer algum alento.

Se é inegável que Never Mind the Bollocks, Here’s the Sex Pistols (“Esqueçam os escrotos, aqui estão os Sex Pistols”) se inclui hoje em qualquer listagem dos melhores discos de rock de todos os tempos, por ocasião de seu lançamento ele foi recebido com certa indiferença pelo público. Isso era compreensível afinal, quatro das faixas haviam sido previamente editadas em compactos e outras já circulavam há muito em gravações piratas.

Produzido quase que inteiramente por Chris Thomas, cujas credenciais incluíam uma mãozinha a George Martin no “álbum branco” dos Beatles e vários trabalhos com Procol Harum, Badfinger, John Cale e Roxy Music, Bollocks foi concluído em menos de um mês.

No geral, o disco resulta no mais fiel registro da época, mostrando do que é feito o melhor rock’n’roll – energia, frustração, urgência, altos decibéis e diversão – em canções que abordam temas tão incômodos quanto a prática do aborto e o jogo sujo da indústria do vinil.

Embora subestimado na ocasião, Glen Matlock teve aí um papel fundamental, pois além de co-autor de nove dos doze títulos presentes, muitas das bases que ele gravara meses antes foram reaproveitadas. Outro detalhe curioso foi a ausência de Sid Vicious dos estúdios durante praticamente todas as sessões, fato que obrigou Steve Jones a também tocar baixo.

Para variar, a edição americana trouxe uma capa em cores diferentes e a seqüência das faixas alteradas, tendo porém a seu favor a inclusão de uma música extra, “Submission”.

Em 1978, o grupo embarcou para uma miniexcursão pelos Estados Unidos, cujos resultados foram catastróficos. Tocando tremendamente mal, o Sex Pistols ainda foi o pivô de cenas deprimentes, tais como noitadas com travestis, porres homéricos, brigas envolvendo fãs e seguranças e uma tentativa frustrada de suicídio por parte de Sid Vicious, que se atirou pela janela de um hotel.


Para piorar as coisas, o relacionamento entre MacLaren e Rotten, que, diga-se de passagem, nunca fôra nenhuma maravilha, havia se deteriorado ao ponto da conspiração, com o empresário propondo a Paul Cook e Steve Jones a expulsão do cantor assim que a excursão terminasse.

Ciente da tramóia, Rotten adiantou-se e os abandonou. Assim, no dia 14 de janeiro, ele anunciou em Nova York a dissolução dos Pistols. Horas antes da comunicação, um Sid Vicious inconsciente dera entrada na UTI de um hospital da cidade, após ter supostamente ingerido uma mistura de álcool e anfetaminas.

Por sua vez, o Clash também começara o ano de 78 com o pé esquerdo. Depois de uma curta temporada na Jamaica com Mick Jones, quando ia ser escrito o material para o virtual segundo LP, Joe Strummer pegou hepatite, segundo consta, ao engolir uma cusparada infectada que um fã mais afoito dera dentro de sua boca.

Foi também a partir daí que o quarteto radicalizou de vez a música em nível da atitude política. Em abril, vestindo camisetas com o slogan das terríveis Brigadas Vermelhas, os membros do Clash se apresentaram de forma memorável num show para a Rock Against Racism, uma entidade de esquerda mobilizada contra a crescente atuação de organizações neonazistas na Inglaterra, especialmente a do chamado National Front. Essa postura de confronto ocasionou problemas.

O entusiamo que geravam ao vivo muitas vezes era interpretado como violência pelos “leões de chácara”, que desciam o pau na platéia a qualquer sinal de agitação. O próprio Joe Strummer resumiria os fatos: “Fora pequenas brigas, parece que tem acontecido pelo menos um acidente de grandes proporções por mês em nossos shows. Talvez nós mesmos estejamos suscitando esta confusão, mas não achamos que seja muita paranóia tentar estar atento ao que acontece à nossa volta. Estamos conscientes da responsabilidade que tem sido depositada sobre nós”.

Nesse ínterim, Paul Cook e Steve Jones haviam viajado para o Rio de Janeiro, onde realizaram um velho sonho: conhecer Ronald Biggs, “o assaltante do trem pagador inglês”. Este encontro, entre outras efemérides, originou o compacto “No One Is Innocent”, onde Biggs deu uma de cantor.

No lado B, Sid Vicious mandava ver uma versão para “My Way”, canção que ficou famosa na voz de Sinatra. Desde a derradeira turnê dos Pistols, Sid e a namorada Nancy Spungen passaram a morar em Nova York e esta gravação marcou uma reaproximação com os colegas.


O relacionamento tempestuoso entre Sid e Nancy também tivera seu quinhão na implosão dos Pistols. Fisgados pela heroína, ambos viviam as turras e não raro suas aprontações viravam manchetes nos jornais.

No dia 12 de outubro de 78, o romance acabou tragicamente: Nancy foi encontrada morta no banheiro do quarto que ocupava no Hotel Chelsea. Ela sangrara até a morte, a partir de um único corte feito a faca na boca do estômago. Horas mais tarde, Sid Vicious foi preso nas vizinhanças. Em estado semicomatoso, ele perguntava incessantemente: “Onde está Nancy?”

Apesar de o autor e as circunstâncias do crime nunca terem sido realmente esclarecidas, Vicious acabou sendo julgado e condenado por assassinato em segundo grau. No entanto, ele permaneceria solto, já que, acreditando na sua inocência, a gravadora Virgin pagara uma fiança de cinqüenta mil dólares.

Dez dias após a morte de Nancy. Sid cortou os pulsos com uma navalha, sendo imediatamente internado na ala psiquiátrica do Hospital Bellevue. Mal se recuperara e já se via outra vez atrás das grades, desta feita por ter surrado o irmão da cantora Patti Smith numa discoteca. Detido, ele iniciaria um programa de desintoxicação. Em vão.

Em 2 de fevereiro de 1979, a mãe de Vicious, Anne Beverley, encontrou o filho morto na cama, ao lado da namorada adormecida, no apartamento da jovem, em Manhattan. Na noite anterior, o apartamento havia sido o cenário de uma festa para comemorar a saída de Vicious da prisão após o pagamento da fiança de US$ 50 mil.

Os detalhes sobre a morte não são claros, mas convidados da festa dizem que Vicious – cujo nome verdadeiro era John Simon – teria tomado uma grande dose de heroína à meia-noite. Logo depois, o músico, de 21 anos, teria desmaiado e sofrido convulsões, com todos os sintomas de uma overdose. Cerca de 40 minutos depois, Vicious teria se recobrado e ido para a cama.

O primeiro policial a entrar no quarto, na manhã seguinte, disse que tinha encontrado “uma seringa, uma colher e, provavelmente, resíduos (da droga) ao lado do corpo.”

As pistas apontam para uma morte provocada por overdose, mas o escritor Alan Parker, especializado no movimento punk e autor de vários livros sobre Sid Vicious, tem uma outra teoria.

No livro “Vicious: Too Fast to Live”, Parker diz que Vicious teria sido morto pelo mesmo homem que, quatro meses antes, teria assassinado a então namorada do músico, Nancy Spungen.

Versão de Parker

Em entrevista publicada pelo jornal britânico Daily Mail, Parker diz que o suposto assassino, o traficante Rockets Redglare, teria sido flagrado por Spungen quando tentava roubar dinheiro de Vicious, que estava inconsciente após tomar uma forte dose de heroína.

Redglare teria assassinado Spungen com uma faca que pertencia a Vicious. Ao acordar, o baixista teria encontrado a namorada morta e, ainda sobre efeito da droga, confessou o crime e foi indiciado. Testemunhas, no entanto, teriam visto Redglare saindo da cena do crime.

Meses depois, sabendo que Vicious tentaria se inocentar quando fosse ao tribunal responder pelo assassinato, e temendo ser incriminado, Redglare teria assassinado Vicious.

Parker diz que Redglare teria misturado outras substâncias na heroína a ser consumida pelo músico. Declarações da mãe de Vicious, também viciada, parecem dar suporte à versão de Parker.

“Ele sabia que a droga era puríssima e mais forte do que o usual e tomou bem menos do que o de hábito”, declarou Beverley na ocasião da morte do filho. Redglare, o homem que poderia inocentar Vicious, morreu em 2001, aos 51 anos de idade, vítima de seu vício por drogas.

Sex Pistols e Clash - Marcados Para Morrer (final)


No mesmo mês em que Sid Vicious morreu de overdose (fevereiro de 1979), o Clash dispensaria o empresário Bernie Rhodes. À moda de MacLaren, ele vinha tentando ditar ordens, chegando mesmo a sugerir a certa altura que Mick Jones deveria ser substituído por Steve Jones, do extinto Pistols.

De um ângulo mais positivo, o novo LP Give ‘Em Enough Rope obteve uma boa resposta de público e crítica. Ao contrário da estréia, desta vez a mixagem merecera trato especial e nem mesmo a exigente Epic hesitou em lançá-lo nos Estados Unidos, isto, claro, depois de alterar discretamente a capa...

A produção de Sandy Pearlman, espécie de braço direito do Blue Oyster Cult, mostrou-se eficiente, mas causou polêmica entre a ala punk, que temia que o Clash pudesse ser transformado num grupo de heavy metal. Ainda neste disco, é interessante notar que os créditos de capa mencionam uma faixa chamada “That’s No Way To Spend Your Youth”, que, todavia, não chegou a fazer parte do LP.

Em função da receptividade, o Clash finalmente fez sua primeira turnê americana, que contou com a participação especial do veterano Bo Didley como suporte. Todas as noites, sem exceção, tiveram lotação esgotada. Com o ego inflado e de volta ao lar, a banda ruminaria ao longo do segundo semestre de 79 algumas mudanças deflagradas durante a temporada nos EUA.

Fugindo da estagnação, várias formações surgidas do punk e outras tantas recém-montadas passaram a incursionar noutras frentes, operacionando aquilo que veio a ser identificado como new wave.

Atento à situação, o Clash não se furtaria a alterar sua imagem, ampliando inclusive as fronteiras de sua música a limites inimagináveis. O resultado deste processo foi exposto a apreciação no inicio de dezembro, através do álbum duplo London Calling.

Nas mãos do lendário Guy Stevens, responsável anos atrás pelos mais brilhantes discos do Mott The Hoople, London Calling (que por pouco escapou de ser pretensiosamente chamado de New Testament) apontava em múltiplas direções, arriscando investidas pelo rockabilly (via “Brand New Cadillac”, de Vince Taylor), reggae (“The Guns of Brixton”) e até bebop (“Jimmy Jazz”).

E isso não era tudo. Atingindo a maturidade, a parceria Strummer/ Jones exibia de cabo a rabo uma consistência poética ímpar, com o engajamento e a verve habituais lado a lado a ganchos melódicos de fazer inveja a qualquer artífice pop. Sem dúvida, uma obra-prima.

Se London Callling acabou proporcionando ao grupo acesso a um público maior e mais heterogêneo, ele também lançou as sementes da discórdia entre os músicos. Embora o Clash continuasse participando das chamadas causas nobres (sendo o concerto para os flagelados do Cambodja a mais celebrada destas), as divergências internas eram cada vez mais visíveis.


Enquanto Strummer declarava seu compromisso com o socialismo à imprensa, Jones ao mesmo tempo fazia questão de negar que ele e os outros membros levassem tão a sério as questões políticas. E mais: aos que o acusavam de se comportar como um guitar hero, ele diria: “No que diz respeito ao palco, não vejo nada de errado num bom solo de guitarra, já que você está lá também para divertir as pessoas”.

Em dezembro de 80, o álbum triplo Sandinista (uma óbvia referência ao exército popular que derrubara a ditadura de Anastásio Somoza na Nicarágua) manteve acesa a discussão, mas a guinada para as experimentações com dub, funk e disco – cortesia de Jones – desagradaram aos antigos fãs.

Quando o lançamento de Combat Rock, em maio de 82, levou um crítico a comparar o som do Clash ao do Fleetwood Mac, o desastre tornou-se inevitável. Paradoxalmente, Combat Rock seria o LP mais bem-sucedido da carreira deles, a ponto de ganhar um disco de platina: um certificado que, quer gostassem quer não, os elevava ao megastatus na arena do rock.

Aturdido com tais acontecimento, Joe Strummer sumiu do mapa durante um mês. No seu retomo Topper Headon deixaria o Clash em circunstâncias mal esclarecidas (hoje, sabe-se que o desligamento se deveu à dependência de heroína), sendo substituído por Terry Chimes temporariamente.

Um desiludido Strummer declararia aos jornais: “Nós estávamos tentando fazer algo mais, acreditávamos que havia verdades para serem ditas pela música. Nós realmente estávamos empenhados em catalisar uma nova era, mas ela não aconteceu. É por isso que hoje o Clash é um anacronismo”.

Enquanto isso o ano de 83 corria, com a taxa de desemprego em alta na Inglaterra e sem nenhum sinal de que a recessão estivesse para acabar...

Em maio, foi anunciado o nome do substituto definitivo para Topper Headon - Peter Howard, um sujeito de 23 anos que tocara anteriormente com o desconhecido Cold Fish. O grande cisma aconteceria mesmo em agosto com a expulsão de Mick Jones, em cima de um alegado afastamento das premissas originais do Clash.

O novo line-up da banda foi anunciado em 84. Além de Simonon, Strummer e Howard, dois novos guitarristas tinham sido recrutados, Vince White e Nick Sheppard (ex-membro do Cortinas). Assim, o Clash gravou o último disco oficial de sua história, Cut the Crap – um fiasco em todos os sentidos.

A idéia que o norteou foi um retorno às raízes punk, cujo co-autor foi o antigo empresário Bernie Rhodes. Em busca do tempo perdido, Strummer & cia naufragaram de vez. Os três novos demitiriam-se, Simonon desapareceria e Strummer ficaria só. Marcava-se o final de uma era.

Hoje, a herança do punk pode ser avaliada pelos milhares de jovens em todo o mundo que, a partir de 76, iniciaram-se na música sem levar em conta possíveis obstáculos como a falta de dinheiro ou formação técnica, intransponíveis até então.

E o mais importante: ao expor as entranhas das multinacionais e os mecanismos do sucesso, tanto o Sex Pistols como o Clash estimularam artistas e público a manter constante questionamento e vigilância sobre a cena do rock e suas vicissitudes.


No dia 22 de dezembro de 2002, Joe Strummer teve um colapso em sua casa em Somerset, na Grã-Bretanha, após ter levado seu cão para passear. A esposa do cantor ainda tentou revivê-lo, mas não conseguiu. Strummer, cujo nome de batismo era John Graham Mellor, nasceu em Ancara, a capital da Turquia em 1962. Ele era filho de um diplomata britânico que na época servia na Turquia.

Após a separação do Clash, Strummer realizaou uma série de projetos. Ele participou do grupo irlandês The Pogues e montou a sua própria banda – Joe Strummer and The Mescaleros (foto acima).

O último trabalho do guitarrista e cantor foi uma música em homenagem ao líder sul-africano Nelson Mandela, escrita em parceria com o líder do U2, Bono Vox, e Dave Stewart.

A música seria apresentada pelo trio em fevereiro de 2003, durante concerto beneficente para campanha contra a Aids, na Ilha de Robben, local onde Mandela ficou preso durante 18 anos.

Ele também fez pontas em longas metragens independentes – como Mistery Train, de Jim Jarmusch, e Straight to Hell, de Alex Cox.

Strummer sempre rejeitou propostas para reviver o Clash. Mas nos últimos anos rumores de que a banda iria voltar estavam ficando mais fortes.

Em novembro de 2001, Strummer e Mick Jones voltaram a tocar juntos pela primeira vez desde o fim do Clash durante um concerto para angariar fundos para os bombeiros britânicos, que estavam em greve.

Diversas personalidades do rock renderam homenagens a Joe Strummer.

O ex-guitarrista dos Sex Pistols, Steve Jones, afirmou que Strummer não era um “impostor” e acrescentou: “Ele tem um importante papel dentro de todo o movimento punk”.

Johny Ramone, ex-guitarrista da banda punk Ramones, foi outro contemporâneo do cantor que mencionou a integridade de Strummer e do Clash.

“Eles foram únicos, porque se separaram no auge da popularidade e, mesmo tendo várias propostas, nunca aceitaram voltar. Eles nunca se importaram com dinheiro”, afirmou o guitarrista.

Segundo o cantor e produtor Moby, “Joe e o Clash fizeram músicas emocionais e políticas, desafiadoras e experimentais e empolgantes e maravilhosas”.

Strummer deixou mulher e dois filhos.

Conheça 28 recomendações para uma reportagem investigativa


Trecho do livro "Anatomia da Reportagem" (Publifolha, 2008), escrito pelo repórter especial da Folha de S.Paulo Frederico Vasconcelos, onde ele oferece 28 recomendações sobre como proceder antes, durante e depois de uma investigação jornalística. Trata-se de um autêntico mapa da mina para quem deseja aventurar-se pela arte de praticar a reportagem investigativa com coragem e rigor:

A reportagem investigativa não é uma atividade individual, uma iniciativa isolada. Da sugestão da pauta à edição da reportagem há o envolvimento de profissionais de diferentes áreas da empresa jornalística, além da redação. Eles dão o suporte administrativo para pesquisas e material de apoio, além do necessário aconselhamento jurídico.

Uma reportagem bem sucedida requer rigor e disciplina do repórter na obtenção e no trato da informação. Por ser um trabalho de equipe, falhas em procedimentos simples podem significar transtornos que atingem outros profissionais. Para ajudar a evitá-las, faço alguns comentários e listo algumas recomendações úteis:

1. Antes de iniciar uma investigação, esteja certo de que a publicação para a qual trabalha tem interesse no tema e disposição para enfrentar resistências e coibir pressões. Esse cuidado aparentemente óbvio evita frustrações, desentendimentos posteriores com chefias e constrangimentos que poderão ser evitados.

2. É importante que haja compreensão dos riscos envolvidos e que seja assegurada a retaguarda jurídica para garantir ao repórter o exercício tranqüilo de seu trabalho.

3. As reportagens devem ser realizadas com todos os cuidados para se evitar contestações, seja por meio de cartas, de desmentidos oficiais ou em ações de indenização e processos criminais.

4. Processos contra jornalistas podem ser usados para abortar o tratamento de casos rumorosos pela imprensa ou para tentar desqualificar o profissional.

5. Ações de reparação movidas contra empresas jornalísticas têm um custo muito elevado, mesmo antes de eventual indenização. Na prática, esses processos obrigam o jornalista a fazer uma segunda apuração, reportagem que não será publicada. Se os cuidados preliminares não foram tomados, haverá o desconforto da busca de provas que deveriam ter sido obtidas antes da publicação, ou de solicitações incômodas para que revelações e afirmações obtidas off the records, em confiança, sejam repetidas formalmente perante um juiz.

6. Muitas vezes a imprensa "compra" a suposição de que as provas de um crime estão evidentes ou "vende" ao leitor a idéia de que essa comprovação virá na edição seguinte. Não são raras as reportagens a partir de simples depoimentos, sem provas, acenando com a perspectiva de que elas virão tão logo seja quebrado o sigilo dos suspeitos. Investigações preliminares tratadas como condenações públicas definitivas ajudam a alimentar a indústria das indenizações. Uma vez livres de inquéritos mal-instruídos, ou beneficiados por sentenças contraditórias, restará aos acusados "limpar o nome na praça" com ações de danos morais contra os jornalistas.

7. Ao tomar conhecimento de algum fato que mereça investigação, o jornalista deve procurar, antes de sair a campo, levantar todas as informações possíveis sobre o fato. Deve saber os eventuais interesses de quem está sugerindo a reportagem e avaliar se há interesse público no que será investigado. É importante saber a quem a reportagem prejudicará e quem será beneficiado com a divulgação dos fatos.

8. O repórter deve manter saudável distanciamento das fontes. Mesmo que os interesses sejam legítimos, a fonte original não deve exercer influência no processo de apuração e nas conclusões da reportagem. O jornalista não pode depender de uma única fonte. Mesmo confiando plenamente no seu informante, é saudável ouvir a opinião de outras pessoas de confiança. Se possível, obter avaliação neutra sem citar as partes envolvidas.

9. As denúncias devem ser tratadas como material preliminar para a investigação jornalística. Declarações, mesmo gravadas, podem ter efeito limitado. Uma afirmação feita ao jornalista pode não ser sustentada, depois, diante do delegado de um inquérito. Uma afirmação no inquérito pode ser refeita ou negada perante o juiz.

10. É recomendável pesquisar em outras publicações sobre os personagens centrais. Os casos apurados geralmente têm ramificações. Se for uma disputa judicial, é preciso conferir se há processos relacionados ao caso que não tenham sido informados ao jornalista.

11. É possível que chegue às mãos do repórter apenas uma peça de uma disputa mais ampla. Por isso, deve sempre ser feito um levantamento prévio de todos os envolvidos, consultando-se outros casos em que atuam os advogados das partes. Essa é uma forma de encontrar novas fontes, novos caminhos para uma matéria cuja apuração às vezes não avança.

12. O repórter deve pedir comprovantes e cópias de documentos. É útil guardar tudo que não puder publicar. Sempre que possível, ter documentos na mão. Quando for recebido um documento por fax, tirar fotocópia e guardá-la. A cópia por fax costuma ficar ilegível.

13. Antes de começar uma entrevista, deve-se deixar bem claro o objetivo da reportagem. O entrevistado deve ter o tempo que for preciso para pensar, para voltar atrás, refazer suas respostas. É um direito seu.

14. Sempre se deve terminar uma entrevista perguntando ao entrevistado se ele gostaria de acrescentar alguma coisa que não tenha sido questionada pelo repórter.

15. Deve-se pedir ao entrevistado que diga claramente qual o ponto que considera mais importante a ser ressaltado ou a afirmação que julgue mais relevante. É a opinião dele que deve prevalecer.

16. O jornalista deve guardar as fitas de gravações e sempre pedir permissão para gravar. A recusa à gravação pode ser um indicador da firmeza, ou não, de sua fonte ou de seu entrevistado. Costumo perguntar se a fonte ou o entrevistado sustentaria em juízo a informação ou opinião que me está passando. A reação ajudará a sopesar os fatos.

17. O repórter deve prestar muita atenção às datas. As contradições às vezes surgem na análise de detalhes. Recomenda-se ler e reler o material levantado, mesmo depois de publicada a primeira reportagem.

18. É importante trabalhar de forma organizada, registrando horário e datas de telefonemas e entrevistas. Considerando a possibilidade de processos futuros, é essencial poder comprovar as várias iniciativas tomadas para ouvir a parte contrária antes da publicação da reportagem.

19. As melhores reportagens são as mais equilibradas. A não ser nos casos em que essa prática impeça a apuração, quanto mais cedo o jornalista procurar o "outro lado", mais amplo será o contraditório. Se a reportagem é relevante e exclusiva, o repórter deve permitir à parte acusada tempo suficiente para levantar informações, documentos. Esse cuidado servirá também para mostrar que o jornalista agiu de boa fé, dado essencial se houver um processo.

20. Se não conseguir ouvir a parte contrária, o jornalista deve procurar os advogados dos acusados. Se não tiver êxito, é prudente procurar manifestações anteriores em favor dos acusados ou a opinião de amigos dos acusados.

21. Ao redigir o texto, não se deve fazer acusações. É importante consultar especialistas, que poderão emitir pareceres. Deve ser pedida avaliação a mais de um profissional. É conveniente evitar adjetivos.

22. O repórter só deve escrever quando tiver total conhecimento sobre os fatos a serem reportados. Havendo dúvidas, deverá voltar a consultar as fontes.

23. É recomendável consultar advogados para identificar pontos vulneráveis no texto. Expressões e formas de relatar os fatos podem ser substituídas no texto sem comprometer a reportagem.

24. Uma segunda leitura, feita por um colega da redação, sempre pode ajudar o repórter a tornar o texto mais claro e a eliminar duplas interpretações.

25. O repórter deve ajudar o seu editor, entregando o texto com sugestões de títulos, subtítulos e legendas de fotos. Muitas vezes os processos são movidos por causa de pequenos descuidos em títulos, artes ou em quadros explicativos.

26. O jornalista deve procurar ouvir a parte atingida tão logo a reportagem seja publicada. Além de demonstração de zelo, boa-fé e disposição para retificações, essa iniciativa pode manter a exclusividade na retomada do assunto. Se os procedimentos foram corretos na fase anterior, o acusado vai preferir que a sua versão esteja no dia seguinte na mesma publicação.

27. Deve-se sempre manter a isenção, deixar claro que o trabalho é impessoal. Quanto mais espaço para garantir o contraditório, menor a possibilidade de a reportagem vir a ser interpretada como perseguição.

28. Finalmente, deve-se estabelecer como meta realizar reportagens tão bem apuradas e equilibradas que desestimulem desmentidos, no dia seguinte, ou ações judiciais no futuro. Se, depois desses cuidados todos, ficar comprovado o erro, o jornalista deve admitir o fato com naturalidade e honestidade e assumir sua responsabilidade.

quarta-feira, abril 22, 2009

Aldeia do Choro faz shows em homenagem ao “Dia Nacional do Choro”


O Dia Nacional do Choro é comemorado em 23 de abril, em homenagem à data de nascimento de Pixinguinha, uma das figuras exponenciais da música popular brasileira, e em especial do choro. Eventos lembraram a data em várias cidades do Brasil: Rio de Janeiro, São Paulo, Porto Alegre, Belo Horizonte, Fortaleza, Curitiba, Juiz de Fora, Niterói, Santos, São João do Meriti, Uberaba, Uberlândia e São José dos Campos, para citar algumas.

Até no exterior, na França e no Japão, o Dia Nacional do Choro é comemorado. Com o intuito de comemorar esta data em nossa Cidade e Região, aproveitaremos a oportunidade para homenagear o também maestro, músico e compositor Jeremias Dutra, mais conhecido como “Jerê”, por suas inúmeras composições considerado em nossa cidade o “mestre do choro”, com mais de trezentas obras partituradas. O grupo Aldeia do Choro em parceria com o Governo do Amazonas e a Prefeitura de Manaus, preparou um repertorio bem refinado homenageando os melhores chorões da historia do nosso Pais.

O choro

O Choro, popularmente chamado de chorinho, é um gênero musical, uma música popular e instrumental brasileira, com mais de 130 anos de existência. Os conjuntos que o executam são chamados de regionais e os músicos, compositores ou instrumentistas, são chamados de chorões. Apesar do nome, o gênero é em geral de ritmo agitado e alegre, caracterizado pelo virtuosismo e improviso dos participantes, que precisam ter muito estudo e técnica, ou pleno domínio de seu instrumento. O choro é considerado a primeira música popular urbana típica do Brasil e difícil de ser executado.

O conjunto regional é geralmente formado por um ou mais instrumentos de solo, como flauta, bandolim e cavaquinho, que executam a melodia, o cavaquinho faz o centro do ritmo e um ou mais violões e o violão de 7 cordas formam a base do conjunto, além do pandeiro como marcador de ritmo.

O Choro surgiu provavelmente em meados de 1870, no Rio de Janeiro, e nesse início era considerado apenas uma forma abrasileirada dos músicos da época tocarem os ritmos estrangeiros, que eram populares naquele tempo, como os europeus xote, valsa e principalmente polca, além dos africanos como o lundu.

O flautista Joaquim Calado é considerado um dos criadores do Choro, ou pelo menos um dos principais colaboradores para a fixação do gênero, quando incorporou ao solo de flauta, dois violões e um cavaquinho, que improvisavam livremente em torno da melodia, uma característica do Choro moderno, que recebeu forte influência dos ritmos que no início eram somente interpretados, demorando algumas décadas para ser considerado um gênero musical.

Pixinguinha

Alfredo da Rocha Vianna Júnior (Pixinguinha) nasceu em 23 de abril de 1887. Cedo dedicou-se à música e deixou um legado de inúmeros clássicos, arranjos e interpretações magistrais, como flautista e saxofonista. Carinhoso, Lamento, Rosa, 1 x 0, Ainda Me Recordo, Proezas de Solon, Naquele Tempo, Vou Vivendo, Abraçando Jacaré, Os Oito Batutas, Sofres Porque Queres, Fala Baixinho e Ingênuo estão entre algumas de suas principais composições.

O apelido Pixinguinha veio da união de pizindim – menino bom – como sua avó o chamava, e bexiguento, por ter contraído a varíola, que lhe marcou o semblante. Mário de Andrade registrou a presença do mestre na cena carioca, criando em seu livro “Macunaíma”, um personagem: “um negrão filho de Ogum, bexiguento e fadista de profissão” (Andrade, 1988).

A passagem se dá quando o “herói sem nenhum caráter” freqüenta uma “macumba” em casa de tia Ciata. A caracterização de Mário de Andrade ficou difundida com a biografia de Pixinguinha elaborada por Marilia T. Barboza da Silva e Arthur L. de Oliveira Filho: “Filho de Ogum Bexiguento”.

O grupo

O Aldeia do Choro é um grupo musical baseado no ritmo genuinamente brasileiro do Chorinho à Bossa Nova, como forma de manifestação musical e artística. Tem como objetivo valorizar, difundir e popularizar o choro em todos os espaços culturais disponíveis, buscando como resultado o interesse pela música erudita e pela cultura nacional através deste estilo musical que deu origem a tantos outros.

O grupo foi formado há dois anos, tendo neste curto período participado de diversos espetáculos promovidos pelo governo e Prefeitura na nossa cidade, dentre eles Teatro Amazonas, Teatro Chaminé, Centro Cultural Palácio Rio Negro, Fundação Villa Lobos e Mercado Cultural. O regional também fez diversas temporadas em casas de shows como Açaí & Cia., Toc-Toc delicias, Coco Mania e entre outros.

O Aldeia do Choro lançou seu primeiro CD, “Caroço de Tucumã”, no inicio de 2006, somente com músicas inéditas, compostas pelos próprios integrantes do grupo com diversas participações especiais. Fazem parte também do repertório os chorinhos dos grandes mestres Pixinguinha, Waldir Azevedo, Jacob do bandolim, Ernesto Nazareth e no Jazz Baden Powell, Gonzaguinha, Ton Jobim e Chico Buarque de Olanda outros,

Apesar de já existir há mais de um século e de já ter ocupado seu espaço na cultura brasileira, o choro, assim como o jazz, através do grupo Aldeia do Choro, está aos poucos conquistando seu merecido espaço na mídia e na cultura amazonense. “Nós queremos dar nossa contribuição desse espaço e ganhar o reconhecimento popular em Manaus e em todo o estado do Amazonas”, diz Marcell Mota.

Fazem parte do Aldeia do Choro os seguintes músicos:

Marcell Mota (Cavaquinho), Hugo (Violão de 6 cordas), Maestro Jerê (Violão de 7 cordas), Edu Bradizzi (Sax e Clarineta), Timóteo (Flauta e Flautim), Lís (Voz e Pandeiro de couro) e Wan Lima (Percussão e Efeitos).

Data dos Shows

Dia 23/04/09-Parque dos Bilhares 1, ao lado do Millenium Center

Dia 26/04/09-Palacete Provincial , antiga praça da Policia

Os espetáculos terão inicio às 19hs, tendo a duração de uma hora e meia. A entrada é franca.

Contato: 8114-8185-Marcell Mota

terça-feira, abril 21, 2009

O rapto de Pocahontas


Crianças da Terra Indígena Tikuna Umariaçu, próximo de Tabatinga


Pocahontas na versão Hollywood. Não seria ela a tikuna do Luiz Pereira?

Não existe rio na Amazônia que não seja singrado pelos regatões. Assim são chamados os barcos dos mascates fluviais que garantem a maior parte do consumo de bens industrializados num mercado de 6 milhões de pessoas. Calcula-se que haja mais de 10 mil regatões espalhados pela região.

Numa terra onde só se consegue morar à beira dos rios e lagos, eles partem carregados das cidades maiores e vão se embrenhando na floresta, passando em cada casa de caboclo, em cada birosca, em cada aldeia de índios.

Oferecem latarias, utensílios, mantimentos, pilhas, sabonetes, cachaça, querosene, sal, charque, fósforos, fumo, munição para armas de fogo, quinquilharias, fazendas ou tecidos ordinários, roupa-feita para homens e mulheres, agasalhos, cobertores e mil outras bugigangas.

E recebem nas moedas de que se dispõe na mata: pélas de borracha, peixe-salgado, carne de jacaré, quelônios, rede de tucum, chapéu feito de fibra de palmeira, peneiras, abanos e outros utensílios produzidos pelo artesanato nativo. De vez em quando, também em reais.

No fim de uma viagem de quinze dias, uma carga que custou R$ 50 mil rende R$ 15 mil de lucro para o dono do barco, depois de pagos os dois ajudantes, o cozinheiro e o óleo diesel. No meio da selva, uma bacia de plástico custa 50 reais, 1 quilo de café, 20 reais e um botijão de gás, 60 reais.

– A gente sabe que eles cobram até três vezes o preço normal, mas é mais barato comprar do regatão do que viajar dois dias até a cidade –, explicou Jair Alves, que mora com os filhos e a mulher numa palafita no igarapé Mapatá, município de São Paulo de Olivença, a 72 horas de viagem da sede do município.

Ex-prefeito de Amaturá, o comerciante Luiz Pereira era um dos regatões mais respeitados da região do rio Içá. Seu concorrente direto era Fernando Tavares, que tinha o hábito de empreender viagem somente dois dias depois de Luiz Pereira ter partido.

Lotados, os dois batelões se assemelhavam a verdadeiros bazares flutuantes. E eles subiam os rios à procura da freguesia, composta de extrativistas, silvicultores, ribeirinhos e indígenas, essa população infeliz que tenta a sorte nos socavãos dos igarapés, furos e à margem dos afluentes do rio Amazonas.

Luiz Pereira gostava de negociar com um cacique tikuna, que sempre lhe vendia com exclusividade – e a preço de leite de pato – partidas monumentais de castanha, juta, malva e madeira de lei.

Numa das viagens, o regatão ficou apaixonado por uma indiazinha adolescente, filha do cacique, que acabou entrando em uma negociação envolvendo uma partida de peles de gato maracajá e se transformando em concubina oficial do ex-prefeito.

Como se sabe, as tikunas são famosas pela docilidade e beleza e essa Pocahontas nativa, em particular, era mansinha, mansinha. Vivia sorrindo o tempo todo. Não se queixava de nada. Nunca abria a boca pra falar. Uma beleza! Se dependesse da vontade de Luiz Pereira, nada no mundo os fariam se separar.

Um seis meses depois do início do romance de Luiz Pereira com Pocahontas, cantado em prosa e verso pelos regatões da região, o comerciante Fernando Tavares resolveu antecipar a sua partida e subiu o rio Içá dois dias antes do ex-prefeito.

Ele parou no porto da aldeia tikuna. O cacique desceu o barranco desconfiado.

– Cadê Luiz? – disparou o cacique.

– Olha, cacique, aconteceu um acidente com ele em Manaus – explicou Tavares. “Ele quebrou a perna, teve que operar às pressas e vai passar três meses sem aparecer aqui! Ele me pediu para comprar a sua mercadoria.”

– Pra você vendo não! – bufou o cacique. “Só vendo pra Luiz. Cadê Luiz?...”

Pacientemente, Tavares explicou a situação mais uma vez. O cacique continuava irredutível. Não ia vender a mercadoria de jeito nenhum. E tome blá, blá, blá.

Depois de quase duas horas de conversa, o cacique aquiesceu diante da oferta (Tavares resolveu inflacionar o mercado pagando o dobro do que Luiz Pereira costumeiramente pagava) e autorizou os índios a colocarem os produtos dentro do barco.

No meio da discussão, a indiazinha Pocahontas veio ver o que estava acontecendo e Tavares ficou maravilhado com aquele seu (dela) jeito sexy de ser. Não contou conversa.

– Outra coisa, cacique! – explicou ele, na maior cara de pau. “Como o Luiz Pereira vai passar três meses hospitalizado, ele me pediu para levar a cunhã poranga dele pra Manaus...”

O cacique reagiu, indignado:

– Filha minha não vai não! Filha minha não vai não! Essa só vai daqui com Luiz. Cadê Luiz?...

Mais duas horas de conversa e um novo desembolso financeiro, a título de seguro de vida, e a Pocahontas, que se limitava a sorrir de tudo, foi embarcada no batelão. Fernando Tavares seguiu viagem.

Dois dias depois, o batelão de Luiz Pereira para no porto da aldeia tikuna. Ao ver o comerciante lépido e fagueiro, o cacique começou a suar frio.

– E aí, cacique, cadê a minha mercadoria?... – indagou o ex-prefeito.

Tremendo mais do que vara verde, o cacique contou o ocorrido.

Luiz Pereira ficou louco da vida:

– Aquele Fernando Tavares é um filho da puta! Aquele Fernando Tavares é um escroto! E o senhor, cacique, é um otário por ter caído na conversa daquele cretino! Puta que pariu! Puta que pariu!

Aí, tentando se recompor, tomou um gole d’água, enxugou o suor que lhe empapava a testa, respirou fundo e suplicou:

– Tudo bem, tudo bem! Me chama aí a Pocahontas, pra ela me fazer um pouco de carinho...

Quando o cacique contou o ocorrido, Luiz Pereira gemeu alto como um porco sendo castrado e desabou:

– Puta que pariu, cacique, mas eu não acredito que o Fernando tenha feito uma merda dessa! Isso é muita sacanagem! Puta que pariu, cacique, mas eu não acredito que o Fernando tenha feito uma merda dessa! Isso é muita sacanagem!– e ficou repetindo esse mantra, andando pra lá e pra cá, como se estivesse se preparando para um ataque cardíaco fulminante.

Tão desesperado quanto o comerciante, o cacique bem que tentou amenizar a situação:

– Olha, seu Luiz, mamãe tá ali em cima na rede e ainda é boa de fudê!... Mamãe tá ali em cima na rede e ainda é boa de fudê!... Se o sinhô quiser, pode entrar na véia...

O ex-prefeito fez que não ouviu e deixou a aldeia dos tikuna completamente transtornado. Ele também nunca mais soube do paradeiro de Pocahontas.

Perdidos na Selva


Pauderney pensando na morte da bezerra, digo, da nossa famigerada Romiseta, e eu nem aí pra desgraceira

Agosto de 1998. Candidato à reeleição, o deputado federal Pauderney Avelino procura Cristina Calderaro, na redação de A Crítica, para que ela indique um bom jornalista para acompanhá-lo em suas viagens pelo interior.

Polida como sempre, Cristina explica que não pode abrir mão dos bons jornalistas que tem na redação, mas sugere que ele procure o marido dela, Mário Jr., na agência de propaganda Grafite, que talvez ele possa abrir mão de um bom redator que trabalha na agência.

Dois dias depois, o Mário Jr. me chama na sua sala e me dá uma nova missão: acompanhar o deputado federal em suas andanças pelos grotões do estado. Meu parceiro na empreitada seria o fotógrafo Frank Sena, do qual logo me tornei amigo de infância tal a sua (dele) capacidade de manter uma serenidade zen nas situações mais catastróficas.

Sim, eu já conhecia Pauderney Avelino. A gente havia estudado juntos na ETFA e também trabalhamos juntos na implantação da Sharp do Brasil. Ele e seu irmão gêmeo, Pauderley, saíram da empresa para montar a assistência técnica Medave, que depois se transformou na Construtora Capital.

Pauderney não passou no vestibular da Utam (foi um dos desfalques dos "homens de ouro"), mas no ano seguinte passou na FUA e se formou em engenharia civil. Mais tarde, se candidatou a deputado federal em 1990 e foi eleito. Ele se reelegeu em 1994 e era um dos mais valorosos defensores do Pólo Industrial de Manaus, porque vinha do chão de fábrica.

Em 1998, ele se reelegria deputado federal com facilidade, mas Amazonino Mendes garantiu que lhe apoiaria para o Senado. Na hora agá, o negão preferiu apoiar a candidatura de Gilberto Mestrinho (que derrotou meu brother Marcus Barros no apagar das luzes) e Pauderney ficou segurando a brocha na parede, sem uma mísera escada por perto (ao anunciar no início do ano que não disputaria a reeleição, metade de seus cabos eleitorais firmou compromissos com outros candidatos ao cargo).

Bom, mas esse era um problema dele. O meu era encarar de frente aquelas viagens suicidas em monomotores que não podem voar muito alto senão são derrubados pelas rajadas de vento e nem muito baixo porque senão se chocam com as copas das árvores. Quem já passou por esse sufoco, sabe do que estou falando.

Nossa primeira missão consistia em viajar pra Barcelos (em um bimotor do tamanho de uma kombi) e fazer algumas visitas na cidade em companhia do prefeito José Ribamar Beleza. Na seqüência, descer o rio Negro de voadeira até a comunidade de Tapiira, participar da festa da santa padroeira do lugar, e depois pegar um barco e se mandar pra Manaus. Se tudo desse certo, a gente fazia a presepada em 24 horas.

Chegamos a Barcelos por volta das 8h da manhã de um sábado. Enquanto Pauderney e o prefeito se reuniam com seus cabos eleitorais, eu e Frank Sena fomos bater perna pela cidade.

Voltamos a nos reunir às 10h para embarcar nas voadeiras e viajar pra zona rural. Na lancha principal, do tamanho de uma Romiseta, eu, Frank, Pauderney, José Beleza (pilotando) e um aspone do prefeito. Na lancha de apoio, os outros aspones e os seguranças.

Quando soube que eu era jornalista, José Beleza ficou empolgado e começou a falar sobre as maravilhas de Mariuá, o maior arquipélago fluvial do mundo, com mais de 140 km de extensão.

– Se o cara não souber os caminhos das pedras, ele entra nesse arquipélago e nunca mais sai – garantiu o prefeito.

Aí, resolveu me dar uma aula prática: embicou dentro do arquipélago (até então a gente vinha descendo o rio Negro pela margem direita) e começou a fazer uma dissertação de mestrado sobre suas preocupações ecológicas.

De repente, como se fosse um motoboy aloprado no trânsito de Manaus, o prefeito começou a “costurar” pelos canais das inúmeras ilhas (mais de 10 mil), explicando didaticamente a diferença entre cada uma delas. Em meia-hora, perdemos de vista a lancha de apoio.

Quando expliquei o fato para o prefeito, ele riu. “Aquilo lá é um bando de otários. Se eles entrarem aqui, vão ficar perdidos. Devem estar costeando a margem do rio...”, bazofiou.

Uma hora depois, a nossa Romiseta estancou no meio do arquipélago e não teve cão que fizesse ela voltar a pegar. Via radiotransmissor, o aspone tentou um contato com a lancha de apoio. Nada. O prefeito começou a ficar nervoso. Eu comecei a acreditar que a gente nunca mais sairia dali.

Não sei como, mas o prefeito improvisou um pedaço de madeira como remo e depois de quase uma hora conseguiu levar a Romiseta para a margem direita do rio Negro. O silêncio dentro da embarcação era digno de filme de Hitchcock.

Subimos o barranco e nos deparamos com um tapiri, sem viva alma. Depois de meia hora, apareceu uma senhora, ofereceu água e cafezinho, explicou que seu marido e os filhos estavam na roça. O prefeito perguntou se eles dispunham de algum motor de rabeta, para nos emprestar.

Sem saber quem era aquele cidadão, a senhora foi de uma sinceridade desconcertante:

– Olha, meu sinhô, há dois anos o candidato a prefeito passou por aqui, distribuindo motores de rabeta, ferramentas e casas de farinha. A gente ganhou um rabetinha, mas como ninguém tem onde comprar combustível, ele ficou jogado ali – e apontou para um motor meio enferrujado que servia de apoio para a horta em forma de jirau.

Entrei na conversa, simulando um certo ar de incredulidade:

– Mas, depois de eleito, o prefeito nunca mais voltou aqui?...

– Não voltou não, meu sinhô. Acho que ele só vai parecer aqui de novo se for pra pedir voto pra uma nova eleição... – devolveu a moradora.

Resolvi dar pilha na senhora. Ela não se fez de rogada e botou pra quebrar, falando do abandono a que são relegados os moradores da zona rural de Barcelos. Pauderney saiu de perto, sentindo que aqueles votos tinham ido pra cucuia.

Cada vez mais nervoso, o aspone continuava tentando um contato via radiotransmissor com o pessoal de apoio, “aquele bando de filhos da puta incompetentes que devem estar com a mãe leprosa na zona”, em uma das clássicas definições de José Beleza. Nada.

Por volta das 13h, o marido da mulher apareceu no tapiri trazendo um saco de macaxeira nas costas e um guariba morto na mão. Ia ser o almoço deles: guisado de macaco com macaxeira. O prefeito-ecologista quase teve um troço.

Puxei conversa com o caboco, que não fazia a menor idéia de quem eram aqueles sujeitos da ilustre comitiva. Sincero como todo trabalhador da zona rural, ele também não se fez de rogado.

– Aqui na região existe apenas um posto de saúde que fica em uma localidade distante seis horas de remo – informou. “E lá no posto são apenas três fichas para cada localidade. Por exemplo, se aqui tem uma família com quatro filhos doentes, apenas um é consultado e assim esta mãe terá que esperar três meses para que os outros filhos sejam atendidos. Se for um caso de vida ou morte, a pessoa aqui morre, sem contar que a médica só atende duas horas. Na nossa comunidade tem muita criança que precisa de atendimento médico”, lamentou.

Outro problema que a comunidade enfrentava, segundo ele, era a falta de água potável para consumo. Todos do local utilizavam água de cacimbão, o que contribuía para o aumento das doenças, principalmente nas crianças. “A água é muito ruim, cheia de lodo, que prejudica nossos rins”, disse ele, resignado. O prefeito não deu um pio.

Por volta das 15h, quando ia ser servido o guisado de macaco (eu já havia dito pra senhora que só queria comer os miolos...), o “bando de filhos da puta incompetentes com a mãe leprosa na zona” nos localizou, depois de terem ido até a comunidade do Tapiira e voltado, margeando o rio. O prefeito estava uma arara.

Chegamos à comunidade por volta das 17h, com uma fome de anteontem. A sorte era que o nosso barco (o iate Amazônia, do empresário Otávio Raman) já estava a postos, com comida suficiente para alimentar um batalhão.

A festa da padroeira foi muito animada e entrou pela madrugada, apesar da quantidade inenarrável de mocréias e tribufus dando em cima do deputado. Por volta das 4h da manhã de domingo, enquanto Pauderney se refestelava com um Cohiba e eu e Frank dávamos cabo da segunda garrafa de Logan, o prefeito subiu no barco para se despedir:

– Olha, tu não publica aquela conversa com aqueles lavradores não, que eles são meus inimigos políticos. Aquilo tudo é só conversa fiada, coisa da oposição... – garantiu.

Meia hora depois, o prefeito José Ribamar Beleza voltou pra Barcelos e nós seguimos pra Manaus.

Ao nos despedirmos, no porto do Roadway, por volta do meio-dia, Pauderney cantou a pedra:

– Poeta, isso foi só uma pequena amostra da vida de político fazendo campanha nos beiradões do Amazonas. Na próxima semana nós vamos pra Iauaretê, na Cabeça do Cachorro. Lá é que você vai ver desgraça...

Na segunda-feira, entrei na Grafite disposto a estripar o Mário Jr. com um punhal de cangaceiro. Infelizmente, o salafrário havia viajado para Miami, onde permaneceria por duas semanas. Acontece.

segunda-feira, abril 20, 2009

Boca livre na próxima quarta-feira, no Manauara Shopping


Segue em anexo convite para a festa de inauguração da Saraiva MegaStore do Manauara Shopping. Na ocasião, o escritor Milton Hatoum fará o lançamento do seu livro mais recente “A Cidade Ilhada” e o poeta Thiago de Mello autografará as obras “Faz Escuro Mas Eu Canto” e “Poemas Preferidos”, ambas obras que estavam esgotadas, mas graças a uma parceria entre a Livraria Saraiva e Editora Bertrand, ganharam edição especial para o evento.

Atenciosamente,

Andreia Mayumi

Assistente de comunicação

(92) 8102 7432 / 3236 9200 R-2033

O começo do fim do mundo - Parte 1


Por mais estranho que pareça, nossa história remonta ao longínquo ano de 1947. Foi nessa data que, em Londres, uma mulher judia deu à luz um menino chamado Malcolm McLaren. Quase trinta anos mais tarde, ele seria o responsável por catalisar e, até certo ponto, gerenciar o movimento punk. Mas vamos devagar com o andor.

Bem, quando, nos late fifties, o rock’n’roll tomou de assalto o corpo e a libido de milhares de adolescentes, nosso personagem não ficou imune ao fenômeno. Boa parte de seu dia era consumida na audição dos discos de Billy Fury e Eddie Cochran. E seria justamente o rock (junto à outra paixão, o cinema) que o levaria a se matricular numa escola de arte, no final dos anos 60.

Os estudos não eram definitivamente o seu forte. O jovem McLaren acabou abrindo uma lojinha de discos, na Oxford Street. Em 72, movido pela onda “revivalista” teddy-boy, ele se muda para o bairro de Chelsea, onde monta a Le lt Rock, um empório especializado em artigos da era dourada do rock’n’roll.

Com três anos de atividade, seu negócio havia prosperado tanto que atraía celebridades como lggy Pop, MC-5 e os New York Dolls. Estes últimos impressionaram tanto McLaren pela sua imagem exótica que ele acabou fazendo as malas e embarcando para Nova York, onde assumiria um novo emprego, o de empresário dos Dolls.

Era 1975. O glam dava seus derradeiros suspiros e os Dolls se encontravam exauridos por excessos de toda natureza. Como última cartada, McLaren, sugere uma mudança estética radical. Em lugar de maquilagem pesada, botas de salto alto e plumas, entravam em cena ternos de couro vermelho e adereços, como bandeirinhas vietcongs e broches de Mao Tsé-Tung – um simulacro de engajamento político, inspirado no filme A Chinesa, de Jean-Luc Godard, que tinha lá o seu élan, mas que era muito pouco para empurrar os Dolls novamente para o topo. Em maio desse mesmo ano, uma nota oficial comunicaria o óbito da banda.

Em Nova York, McLaren foi parar por acaso no CBGB. Ali, no Max´s Kansas City e em outras casas noturnas, ele captaria o surgimento dos Ramones, as performances poéticas de Patti Smith, as jams hipnóticas do Television e o niilismo incendiário de Richard Hell – sons e imagens que ele armazenaria em algum ponto do cérebro para uso posterior.

De volta a Londres, em 75, ele reassumiria seus negócios em sociedade com a estilista (e também namorada) Vivienne Westwood. Das sobras da Let It Rock brota a Sex, que se destinava a “fornecer roupas para pessoas ligadas às mais diversas formas de perversão sexual”, de acordo com o depoimento do casal. McLaren também passou a empresariar um grupelho local conhecido como Swankers.

É na formação dos Swankers que vamos encontrar pela primeira vez Glen Matlock no baixo, Paul Cook na bateria e Steve Jones nos vocais, além de um tal de Wally na guitarra. Eles ensaiavam nos fundos de um armazém em Hammer-smith, tocando covers dos Small Faces e do Who e, preciosidades pop como “Buid Me Up, Buttercup”, dos Foundations, e “A Day Without Love”, do Love Affair. Muita gente também garante que a aparelhagem tinha sido furtada de vários outros grupos.

Se tais fatos são verdadeiros, ou apenas uma primeira amostra das manipulações maquiavélicas, é difícil dizer. Uma coisa era certa: apesar de muito esforçados, os Swankers eram simplesmente péssimos. Jones, vendo que não conseguia mesmo cantar, passa a brincar com uma guitarra e se sai tão bem que o infeliz Wally é posto para fora.

Um anúncio colocado por McLaren na Melody Maker solicita um quarto membro “que não seja mais feio que o Johnny Thunders” (ex-guitarrista dos Dolls), conseguindo atrair Nick Kent, um crítico de rock. Dias depois, o empresário lhes apresentaria um sujeito chamado John Lydon, o qual notara perambulando pela Sex.

Após um teste em que cantaria acompanhado por uma juke box, ele se tornaria o vocalista dos Sex Pistols, rebatizado Johnny Rotten por McLaren em função de seus dentes estragados.

Por um desses caprichos do destino, o mesmo anúncio chamava a atenção do London SS, um grupo amador que até então se julgava o único interessado pelos Dolls na Inglaterra. O protótipo do Clash havia sido fundado naquele mesmo 75 pelo guitarrista Mick Jones, ao lado de Tony James (futuro Chelseu, Generation X e Sigue Sigue Sputnik) e Brian James (co-fundador do Damned).

Com uma série de bateristas provisórios (inclusive Topper Headon e Terry Chimes), o London SS também fazia covers em seus ensaios, especialmente dos famigerados Dolls. Stones e Mott the Hopple.

As similaridades com os Swankers não paravam por aí: ambos eram egressos de squats (casas abandonadas habitadas, ilegalmente por desempregados), nunca chegaram a se apresentar ao vivo, técnica e teoria musical não lhes diziam nada e, finalmente, o London SS vinha sendo empresariado por um camarada chamado Bernie Rhodes, que trabalhava como assistente de McLaren.

Um pouco antes do London SS acabar, Mick Jones convidaria Paul Simonon para entrar no grupo. Depois do fim, os dois continuariam juntos. Foi nesta fase que Simonon assistiu a uma das primeiras apresentações dos Sex Pistols. Entusiasmado, ele arruma um baixo, Jones corta o cabelo comprido e, na companhia de músicos diversos, montam uma dezena de grupos. Em geral, seus companheiros mal podiam se agüentar em pé de tão chapados, quanto mais tocar seus instrumentos. Jones e Simonon queriam deles apenas “uma boa imagem”.



Nesta busca da imagem certa chegaram até Joe Strummer, que tocava com os 101’ers, grupo que chegou a ter certa notoriedade no circuito dos pubs, fazendo um derivado de rhythm & blues. Ele só se convenceu que a hora da mudança havia chegado quando os Pistols abriram para o 101’ers. No dia seguinte ao show, primeiro de abril de 76, Strummer, Jones e Simonon fundariam o Clash.

A esta altura, os Pistols entravam em seu quarto mês de apresentações. A primeira, já sem Nick Kent, havia sido no St. Martins College of Art. Não ultrapassou os dez minutos – horrorizada com o que ouvia, uma funcionária do colégio desligara os plugs da banda. Daí em diante, eles passariam a adotar uma tática ousada para poder tocar: fingindo ser a banda suporte, os Pistols chegavam cedinho aos teatros e iam logo montando o equipamento. Quando os organizadores davam pela coisa, eles já haviam encerrado seu set...

Essa cara de pau acabou atraindo um público bem definido – jovens desempregados que não perdiam por nada uma exibição da banda. No início de 76, os Pistols estavam novamente em evidência graças a um caótico show no Marquee. Era a primeira vez que tocavam com retorno de palco. Isso os confundiu e, na excitação, vaiados pelos fãs do grupo principal, o Eddie and the Hot Rods, destruíram seu equipamento.

Os incidentes iam se acumulando: agressões, bate-bocas e obscenidades, dentro e fora do palco. Já em maio, nenhuma casa lhes abriu as portas. No sufoco, Bernie Rhodes e McLaren se reuniram para articular shows em comum para seus pupilos.

Nos meses de maio e junho, o único lugar que ainda tolerava os punks era o 100 Club, onde os Pistols começariam a se impor como um dos mais energéticos espetáculos de toda a história do rock, chegando mesmo a atrair a atenção do notório guitarrista Chris Speeding, com quem gravaram uma demo com “No Feelings”, “Problems” e “Pretty Vacant”.

Em agosto, dividindo o programa com o Clash e com os emergentes Buzzcocks, eles tocaram à meia-noite no cinema Screen on the Green. Quem estava lá garante ter sido esta a melhor apresentação da carreira dos Pistols – em meio a bombas de fumaça, um muro espesso de feedback tinha à sua frente um patético Johnny Rotten, completamente exasperado e louco de dor após ter flagelado com o microfone os dentes cariados.

O Clash e os Pistols se reuniriam de novo em setembro, num festival punk que teve como destaque a estréia de Siouxsie & the Banshees, com Sid Vicíous – o inventor do pago, uma dança que transformava chutes, pulos e socos em folguedos de salão – na bateria. A imprensa, os executivos das gravadoras, o público comum, todos queriam saber qual era a do punk.

Esperto, McLaren fez várias demos dos Pistols circularem de selo em selo. A EMI contrataria os Sex Pistols em outubro por dois anos. Três semanas depois, saía o primeiro single, “Anarchy in the UK”. Praticamente não tocando na rádio, a releitura punk de Bakunin chegava aos Top 30 nacional. Rotten & cia. entrariam para a história ao pronunciar, pela primeira vez na TV, a palavra “fuck”.