terça-feira, junho 30, 2009

Quarta Literária: Monstros na ficção amazonense


A Quarta Literária do mês de julho acontecerá no próximo dia 1º, quarta-feira, tendo como tema Monstros na ficção amazonense. A palestra será ministrada pelo professor Allison Leão. O tema é fruto dos resultados iniciais de pesquisa que o palestrante tem desenvolvido na UEA, com o apoio da Universidade e da Fapeam.

Partindo de figuras monstruosas presentes em nosso imaginário, de origens antigas e/ou modernas – como a Medusa, o Centauro, o lobisomem, a criatura de Frankenstein –, Leão procurará mostrar algumas das características dessas figuras que, de certa forma, estejam presentes em toda a tradição teratológica.

O foco da palestra, no entanto, estará em personagens da ficção de autores amazonenses (ou que tenham a obra ambientada na região) que tanto podem corroborar características mais universais dos monstros, como podem questionar e recriar o conceito de monstruosidade.

Em textos de autores como Benjamin Sanches, Erasmo Linhares e Alberto Rangel, o pesquisador mostrará, por exemplo, como a questão do corpo do monstro – afinal um dos aspectos sempiternos do imaginário teratológico – não deixou de ser observada e aproveitada pelos autores em questão.

Mas discutirá, também, como o medo que o monstro pode provocar nas sociedades ganha um reverso nas representações que esses ficcionistas elaboraram, qual seja, a monstruosidade do gesto, do ato, do crime e da violência supera a monstruosidade física, ameaçando, inclusive, a existência do monstro corpóreo.

Allison Leão é doutor em Letras pela UFMG e professor de Literatura Brasileira na UEA. É autor de Jardim de silêncios e O amor está noir, livros de contos.

Lançamento:
Após a palestra Monstros na ficção amazonense será lançado o livro Carta de Deus: Ao Homem do Planeta Terra, de José Herculano da Nóbrega.

segunda-feira, junho 29, 2009

Um ano sem Alberto Simonetti Filho


Alberto Simonetti, Rogelio Casado, Durango Duarte, Edu do Banjo, Afonso Toscano, eu e Engels Medeiros, durante o relançamento do Candiru no Bar do Armando

Na última quinta-feira, 25, fez um ano de falecimento do meu querido mano Alberto Simonetti Filho. Vítima de câncer no intestino, o advogado, que tinha apenas 62 anos, deixou além da mulher, Maria do Carmo Ribeiro Simonetti, três filhos: Alberto Simonetti Neto, Luiz Alberto Simonetti e Maria Luíza Simonetti. Todos advogados, tutti buona gente.

Presidente por quatro vezes da OAB-AM, Simona, como era mais conhecido, foi exemplo de administrador e empreendedor, tendo, em suas sucessivas gestões, deixado pelo menos quatro obras de grande envergadura: a sede social e o clube de campo da OAB, o prédio da Escola de Advocacia e o estacionamento para os advogados, nas proximidades do fórum.

Um dos fundadores da Banda Independente Confraria do Armando (BICA), o Simona não era festejado apenas entre os advogados. Era uma personalidade de grande popularidade na capital e no interior do Amazonas, sempre engajado no bom combate em prol da sociedade civil.

Eu o conheci em 1978, por conta de uma quizumba envolvendo o engenheiro Carlos Almeida e um bate-pau da repressão, e ficamos amigos pelo resto da vida. Dotado de uma memória privilegiada e de um bom humor permanente, Simona foi a minha principal fonte de informação sobre a maioria dos hilariantes “causos políticos” protagonizados pelo saudoso senador Fábio Lucena, de quem ele foi advogado por quase duas décadas.

Nos anos 90, a gente se encontrava praticamente quase todo santo dia, de segunda a sexta, no Bar do Armando, para colocar as fofocas em dia. O Simona era um boêmio diferente: não encarava nenhum tipo de bebida alcoólica nem demais aditivos químicos para estados alterados de consciência (limitava-se a beber coca cola diet e detonar sanduíches de x-porco em escala industrial), mas era sempre o mais divertido e bem falante da turma. Seu único vício era o cigarro, que fumava sem qualquer sentimento de culpa. Que nem eu e Felix Valois.

Nos finais de semana, como num passe de mágica, Simonetti simplesmente desaparecia de Manaus. A única exceção era no sábado magro de carnaval, dia de desfile da BICA, em que ele nunca deixou de comparecer. É que ele havia construído uma Passárgada particular, em Autazes, onde se refugiava sempre que havia uma oportunidade.

O “condado de Autazes”, como ele se referia à sua bela residência no município, era ponto de peregrinação permanente de empresários, políticos, membros do judiciário e da população humilde, em geral, a quem o advogado assistia com a maior abnegação do mundo. Se quisesse, Simona teria sido prefeito do município. Ele nunca quis.

Em 2001, aproveitando o feriado da Semana Santa, aceitei seu convite para conhecer o condado de Autazes. Era um motivo mais do que nobre: além de acompanhar pela primeira vez a encenação da Paixão de Cristo pelas ruas de Autazes, eu poderia fazer uma reportagem a respeito para a revista Amazônia 21 e, assim, ajudar a divulgar a cultura popular do município.


Jô, eu, Dinari e a barriga do Davi Almeida, no barco "a jato" do Simona

Como o esquema era boca livre total, sugeri ao advogado levar mais dois convidados (Jô e Davi Almeida) e ele concordou. No dia combinado, eu, Dinari, Jô e Davi embarcamos no barco “a jato” do Simona, no Porto da Ceasa. Batizado de “Comandante Lucas”, em homenagem ao seu primeiro neto, o barco era um colosso em termos de estabilidade, velocidade e conforto. Basta dizer que, entre outros requintes, era dotado de poltronas de avião.

Além do Simona, que estava pilotando o barco, a “tripulação” era formada por dona Maria, Neto, Beto e Sandra. O serviço de bordo também estava impecável: dezenas de sanduíches e pacotes de salgadinhos de todos os tipos (castanha de caju, amendoim, doritos, baconzitos, etc), refrigerantes, cervejas em lata, uísque, vinho tinto, vinho branco e champanhe. Em termos de tratar bem seus convidados, Simona era marrento.

Devia ser uma 8h da manhã. Simona consultou o GPS, a carta náutica, fez uma série de cálculos mentais e cantou a pedra: por volta de meio-dia a gente estava em Autazes. Aí, deu uma reduzida, e saiu “cantando pneu” em direção ao encontro das águas.

Fiquei meio cabreiro: a distância fluvial de Manaus a Autazes é de 324 km. Para cumprir aquele horário pré-estabelecido, o barco teria que desenvolver uma velocidade média de 80 km/h, o que é uma temeridade em se tratando de navegar pelo traiçoeiro Rio Amazonas, cheio de troncos de árvores boiando.

Parece que adivinhando meus pensamentos mais sombrios, o “comissário” Neto colocou logo uma cerveja em lata estupidamente gelada em minhas mãos. Seria a primeira das vinte latinhas que eu iria detonar ao longo da viagem.

Nesse dia, o Simona estava viajando sem a presença do Piloto, seu secretário informal, responsável pela manutenção das embarcações (nessa época, o Simona devia ter uma meia dúzia de barcos) e verdadeiro senhor das águas, conhecedor dos furos, igapós e paranás da região com a intimidade de um tucunaré borboleta.

Mais: pela primeira vez, Simona ia fazer um atalho, ou seja, em vez de seguir pelo rio Amazonas e subir o rio Autaz-Açu, ele ia entrar pelo furo do Cuia até o rio Autaz-mirim, de lá embicar pro lago do Cuia, e só então atingir o rio Autaz-Açu, um pouco abaixo da cidade. Desse jeito, o tempo de viagem seria encurtado em três horas.

Tudo estava correndo de acordo com o planejado. Além de pilotar o “a jato” com a perícia de um experimentado lobo do mar, Simona ia me apontando e dando o nome de cada acidente geográfico. Não tenho certeza, mas a impressão que tenho é que ele possuía um mapa cartográfico dentro da cabeça.

De repente, a gente entrou no rio Autaz-mirim, que tem uma cor cinzenta, quase cor de chumbo, lembrando muito o rio Andirá, em Barreirinha, e, dali a meia hora, adentramos no lago do Cuia, que causa espanto pela grandiosidade. Por trás da copa de árvores, visualizamos ao longe a cidade de Autazes.

Simona voltou a consultar o GPS, a carta náutica, fez uma série de cálculos mentais e voltou a cantar a pedra: dali a vinte minutos a gente estava em Autazes. Devia ser umas 11h30. Ele pediu ao Neto para ir até a proa e localizar o furo do “Quem diria!”, nossa passagem para o rio Autaz-Açu.

E aqui cabe uma explicação: o lago do Cuia possui uma centena de “furos”, cada um com no máximo três metros de largura. Somente o furo do “Quem diria!” dá acesso ao rio Autaz-Açu. Todos os outros começam e desembocam no lago. Trata-se de uma espécie de labirinto aquático do Minotauro e se você não tiver nenhum fio de Ariadne escondido na manga é melhor não se aventurar na brincadeira.

Neto olhou, olhou, olhou e disse que não estava encontrando nenhum ponto de referência. Simona reduziu a velocidade do barco e saiu margeando o lago, olhando atentamente para os “furos”. Não havia uma mísera placa de sinalização. Na verdade, ele já havia feito aquele percurso dezenas de vezes, mas sempre com o Piloto no comando do barco.

Não sei se foi uma samaumeira ou uma castanheira que lhe despertou a atenção, o certo é que Simona falou “pode deixar, Neto, o furo é aquele ali” e avançou destemidamente em direção à pequena abertura entre as árvores, quase invisível a olho nu. Depois de meia hora navegando, saímos, ou melhor, entramos de novo em alguma parte do lago.

Pela primeira vez na viagem, percebi que o Simona ficou nervoso, já que havia perdido qualquer ponto de referência. A gente agora não sabia se havia boiado acima ou abaixo do furo – o lago do Cuia tem vários quilômetros de extensão com uma vegetação absolutamente uniforme. Simona olhava para um lado, para o outro, mas parecia estar perdido. Já levemente bêbado, eu estava achando aquilo tudo muito divertido.

Começamos a navegar em busca de alguma alma viva naquele mundão perdido. Depois de meia hora, encontramos uma fazenda. Neto deu a segunda má-notícia do dia: o combustível estava no fim. Simona o instruiu a ir até a fazenda pedir informações e conseguir um galão de gasolina.

Neto desceu do barco, com a água no meio da canela, foi até a fazenda e conversou com um peão. Voltou com a informação, mas sem o combustível – o dono da fazenda tinha ido de barco pra cidade, não havia gasolina nem pra fazer remédio. Pelo que disse o peão, a gente estava do outro lado do lago. Teríamos que cortá-lo em linha reta e entrar em um “furo” perto de uma samaumeira. O diabo é que toda samaumeira tinha um “furo” ao lado.

Chegamos ao outro lado do lago por volta das 12h30. Mesmo com toda economia (o Simona dava uma boa arrancada e colocava na “banguela”), a gente só teria combustível para mais meia hora de navegação. Se pegássemos um outro “furo” errado, corríamos o risco de nunca mais sair do lago do Cuia pelo resto da vida. Por mim, tudo bem, o chato era as cervejas acabarem primeiro do que o combustível...

Simona reduziu a velocidade do barco e saiu de novo margeando o lago, olhando para os “furos” com a acuidade de um cirurgião fazendo operação de catarata a laser. Nada. Os “furos” eram absolutamente iguais. As samaumeiras eram absolutamente iguais. As margens do lago eram absolutamente iguais.

Pra nossa sorte, Neto localizou naquele mundão de água e floresta, a uns 800 metros de distância (ele tem uma visão de águia), uma família ribeirinha em um motor de rabeta devagar-quase-parando que, provavelmente, estava se dirigindo para a cidade. Simona levou o barco até eles, que nos ensinaram a localização exata do “furo”.

O “furo” do “Quem diria!” ficava a menos de 20 metros de distância do primeiro “furo” que entramos. Quer dizer, o Simona errou por pouco – mas, em termos de armadilhas sinuosas dos rios amazônicos, esse pouco significou mais de uma hora de navegação quase à deriva. Navegação por estas bandas não é coisa de amadores.

O certo é que em menos de 20 minutos entramos no rio Autazes-Açu e dali a cinco minutos já estávamos no pontão de combustível em frente ao cais do porto, para reabastecer o valoroso “a jato”. A maravilhosa estada em Autazes, claro, compensou com juros e correção monetária pelo sufoco inicial. Falo disso outro dia.

Pô, Simona, mas por que você se foi, bicho? Muitas mortes tenho morrido antes que a sua acontecesse para deixar-me mais só vivendo a minha. Tantos já se foram atraídos pela Grande Noite... Arthur Virgilio Filho, Fábio Lucena, Nestor Nascimento, Antonio Paulo Graça, Teodoro Botinelly, Rosendo Lima, Silvério Tundis, Alberto Aleixo, Jefferson Peres...

E, de repente, você resolveu encontrá-los, sem nos pedir licença. Pois é, grande Simona, que bruxaria foi essa tua, tão repentina, de inventar de ser eterno? Que sonho, no avesso do sonho, de virar pura memória – fino cristal que se dissolve no pródigo ar manauense, quando a gente ainda tinha tanta coisa pra fazer?

Que bom te ver na casa dos sessenta, cada vez mais brodão, companheiro, esperneando, reluzindo, trabalhando, acontecendo, perturbando a cena morta deste país de opereta – as mãos, a tua mão, incidental e múltipla, traduzida na defesa inconteste dos direitos humanos dos menos favorecidos –, em incêndios de sofrida beleza, gestos, gritos, berros, uivos, as mãos, as tuas mãos que eram capazes da maior ternura.

Polir o vitral do outono foi o teu maior ímpeto de viver. O condado de Autazes sabe disso. Atingidos de todos os lados em que a morte põe ovos, quase não há palavra agora que ouse contar ao mundo o luxo de tua lenda. Até breve, querido amigo. Porque enquanto eu resistir, não deixarei que esqueçam as tuas histórias. Qualquer dia a gente se vê por aí.

sexta-feira, junho 26, 2009

Conversa pra boi dormir


Na última terça-feira, a convite da jornalista Andréia Mayumi, eu participei do relançamento do livro “Conversa pra boi dormir”, do jornalista Mário Adolfo, na belíssima livraria Saraiva Megastore, ali no Shopping Manauense.

Meu papel no evento era funcionar como “escada” do Mário Adolfo, relembrando causos, sugerindo temas, esclarecendo fatos (minha memória é melhor do que a dele), essas coisas.

Foi um bate papo bem descontraído com a presença de dezenas de amigos, onde o Mário Adolfo relembrou rapidamente seus 20 anos de cobertura do Festival Folclórico de Parintins, a partir de 1986, quando ainda era “foca” do jornal A Crítica, até 2007, quando já era Diretor de Redação do Amazonas Em Tempo.

Alguns causos hilários que ele presenciou pessoalmente (devidamente relatados no referido livro) foram contados de viva voz. A platéia participou do debate, que incluiu discussões sobre a suposta “carnavalização do festival” e velhas recordações dos bumbás Corre Campo, Tira Prosa e Mina de Ouro.

Mário Adolfo e Maria Mestrinho já estão na ilha desde quarta-feira, ciceroneando o querido advogado Tagore Arruda, que veio de Goiânia exclusivamente para assistir ao espetáculo pela primeira vez. O ex-presidente da CUT Jaques Castro também já está lá, em companhia dos médicos Menandro e Eliana Feijó.

Eu ia viajar na quarta, junto com a galera do Reino Unido, no barco Maresia IV. Ocorre que o barco estava irregular e foi proibido pela Capitania dos Portos de sair de Manaus. Resultado: o radialista Ivan Oliveira, que organizava a excursão, teve de devolver o dinheiro das passagens e a viagem micou.

Mas não fiquei no prejuízo. Ontem e anteontem, curti o Tributo ao Joy Division, organizado com competência pelo poeta Jorge Bandeira, no Espaço Cultural Valer (falo disso outro dia), hoje participo do aniversário da filha caçula do poeta e livreiro Celestino Neto, o “Lé”, que vai ganhar um presente especial (o reencontro do grupo Cio da Terra, quase trinta anos depois) e amanhã vou conferir a festa do Difusão Cultural, capitaneada pelo brother Marcos Tubarão.

Do hepteto original do Cio da Terra (Pondes, Dorinha, Val, Berg, Cezinha, Iran e Lé), o vocalista Val será o único ausente na noite de hoje porque se encontra trabalhando na base petrolífera de Urucum, em Coari, e só retorna pra Manaus daqui a dez dias. Mas o resto da cachorrada já confirmou presença no fuzuê. Será uma sessão nostalgia do tipo “e éramos todos jovens!”. Ou seja, absolutamente imperdível!

Bom, mas não era sobre isso que eu ia falar. É que quando o Mário Adolfo começou a relembrar de suas primeiras andanças por Parintins, na companhia do fotógrafo Isaac Amorim, eu acabei recordando de uma presepada federal em que envolvi indiretamente o meu brother Marcos Santos.


Negócio seguinte. Em junho de 1990, o jornalista Marcos Santos era apresentador oficial do bumbá Caprichoso e editor de Cultura do jornal Amazonas em Tempo, onde eu era um dos colaboradores mais assíduos, publicando meus artigos na edição de domingo.

Na época, eu era Gerente da Engenharia de Qualidade da Philco da Amazônia e não tinha tempo – nem vontade – de redescobrir a “oitava maravilha do mundo”, que já havia conhecido em 1979. Também não entendia a importância que o jornal dava ao evento, cobrindo aquela festa interiorana com seus melhores profissionais.

Duas semanas antes do festival, o Marcos Santos viajou para Parintins, para participar dos ensaios do bumbá Caprichoso, e eu, sem maldade nenhuma, resolvi fazer uma brincadeira meio calhorda (confesso que não fazia a menor idéia da rivalidade entre os bumbás): inventei uma suposta carta enviada pelo jornalista pra redação do jornal, sendo que eu próprio me encarreguei de responder.

Era um texto de humor, of course, intitulado “Notícias de Parintins”, que abria com a seguinte pérola: “Caríssimo Simão Pessoa. Fale com a nossa querida Hermengarda Junqueira pra ela providenciar um novo depósito bancário na minha conta, que estou matando cachorro a grito. Quando me disseram que as cunhans de Parintins eram umas pessoas muito dadas, eu estava pensando em outra coisa. Resultado: a grana acabou mais cedo do que eu esperava porque, além de elas serem muito dadas, também bebem pra caramba. Um forte abraço do amigo Marcos Santos.”

Não lembro direito, mas na resposta da carta eu dava alguns conselhos bem humorados pro Marcos Santos e, no final, pedia encarecidamente que, no seu retorno a Manaus, ele trouxesse uma camisinha do boi Caprichoso para eu presentear um afilhado de dois anos. Pra mim, era apenas um texto irônico, cheio de frases de duplo sentido, mas sem nenhuma maldade ulterior. Pro pessoal do boi Garantido, aquilo era uma declaração de guerra.

O artigo saiu no domingo. Assim que o primeiro jornal chegou à ilha, eles recortaram a carta, colaram em uma folha de papel ofício e acrescentaram o seguinte título: “Apresentador do Boi Caprichoso diz que em Parintins só tem putas!”. Aí, tiraram 10 mil cópias xerox e saíram distribuindo de casa em casa. A merda começou a feder.

O jornalista Marcos Santos, que até então não sabia de nada, quase enfartou quando uns 50 sujeitos tentaram invadir o hotel onde ele estava hospedado para lhe darem uma surra com galho de cuieira. No meio da confusão, ele conseguiu acionar a polícia. Uma tropa de choque da PM ficou de prontidão na porta do hotel para evitar a tragédia.

Na seqüência, Marcos Santos foi excomungado em todas as missas pelos padres da ilha e detonado em todas as rádios pelos radialistas locais. No começo da tarde, ele conseguiu telefonar pra Menga, relatando o que estava acontecendo, que imediatamente entrou em contato com o governador, o secretário de Segurança e o prefeito de Parintins para garantirem a integridade física do jornalista. Uma zorra surrealista!

Na segunda-feira, por meio do Mário Adolfo, soube do que estava acontecendo em Parintins – e, evidentemente, fui devidamente chamado no saco. Argumentei que faria um novo artigo, pedindo desculpas dos parintinenses e inocentando o Marcos Santos, mas ele estava tão enfurecido, furibundo e transtornado, que bateu o telefone na minha cara, tão logo terminou de me xingar (desconfio que sua cabeça estava a prêmio já que havia sido ele quem me levara pra escrever no jornal).

No mesmo dia, a Menga conseguiu entrar ao vivo no programa de maior audiência da rádio Alvorada, de Parintins, para pedir desculpas à população e explicar que o Marcos Santos não tinha nada a ver com aquilo, que a carta tinha sido inventada por um irresponsável que sequer pertencia aos quadros dos jornais, que providências jurídicas estavam sendo tomadas para me processar, aquelas coisas todas, mas nem assim a poeira baixou.

Como a equipe oficail de cobertura do jornal (Menga, Mário Adolfo, Eduardo Gomes, Carlos Dias, Elaine Ramos, Carlos Aguiar, etc) iria desembarcar na ilha na quarta-feira, algum radialista gaiato convocou a população para “dar as boas-vindas ao jornalista Simão Pessoa, do jornal Amazonas em Tempo, que estava chegando com o resto da equipe a bordo do navio Dona Carlota”.

Umas 500 pessoas, armadas de paus, pedras, tacos de beisebol e correntes com cadeado na ponta atenderam a convocação do radialista e foram aguardar a chegada da delegação do jornal no Cais do Porto. O pior é que ninguém me conhecia nem de fotografia. Quer dizer, qualquer profissional do sexo masculino estava sujeito a levar uns catiripapos em meu nome, pela honra das mulheres ultrajadas do município.

Assim que desembarcou do navio, a delegação do Amazonas em Tempo foi escoltada pela polícia de choque da PM até o hotel, onde Marcos Santos se encontrava em prisão domiciliar. Impedido de participar dos ensaios do Caprichoso (se colocasse os pés fora do hotel seria linchado), Marcos Santos estava praticamente na marca do pênalti para ser detonado da função de apresentador oficial.

De quarta-feira a domingo, último dia do festival dos bumbás, a conversa nos quatro cantos da ilha era uma só: “cadê aquele filho da puta do Simão Pessoa, que desrespeitou as nossas mulheres?”. Sim, minha cabeça estava a prêmio, com os “headhunters” cada vez mais indignados e enfurecidos. Em parte porque os radialistas locais, na falta de outro assunto, requentavam a história 24 horas por dia.

O jornalista Beto Azedo, que também estava na cidade, me encontrou alguns meses depois no Bar Calígula, ali na Aparecida, e não se conteve:

– Caralho, bicho, o que qui tu andou aprontando em Parintins?... Eu estava com uns amigos no Bar Chapão, quando um sujeito, espumando de ódio, falou pra outro: se eu encontrar aquele tal de Simão Pessoa aqui na cidade, ele vai ser devolvido pra Manaus aos pedaços... Vou esquartejar aquele filho da puta!... Aí, tirou da cintura uma faca de sete polegadas e colocou em cima da mesa... Porra, bicho, eu fiquei tão nervoso com aquilo, que saí do bar...

Tive que repetir a história do mal entendido pela milionésima vez.

Por conta do escarcéu, passei uns seis meses sem escrever no jornal e com um puta sentimento de culpa de ter contribuído involuntariamente para o afastamento do Marcos Santos da função de apresentador oficial do touro negro, ocorrida no ano seguinte (até hoje, ele jura que saiu voluntariamente e que o fuzuê não teve nada a ver com a sua decisão).

De qualquer maneira, fiquei tão irritado com o golpe baixo do boi Garantido que me converti automaticamente em fervoroso torcedor do boi Caprichoso que, aliás, ganhou o festival daquele ano. E, de quebra, ainda tendo o Marcos Santos como apresentador. Só voltei a colocar os pés na ilha em 1995. Mas isso é outra história.

quinta-feira, junho 25, 2009

Pra gente não esquecer nossos mortos


Do sempre estimado e querido jornalista, escritor, ecologista e ex-guerrilheiro Edilson Martins, recebo o convite abaixo que divido com vocês:

Estimado Amigo

No dia Internacional da Luta contra a Tortura, o grupo Tortura Nunca Mais lança no Instituto dos Arquitetos do Brasil, Rua Pinheiro, 10, no bairro do Flamengo, Rio, dia26, sexta-feira próxima, o livro Anistia - Esquecimento e Memória.

O evento contará com palestras, exibição de vídeos, e terá início às 18 hs.

Muito me honrou terem me concedido o Prefácio. Talvez valha a pena conferir, exceto essa apresentação do autor destas mal traçadas...

edilson martins

Maiko Jacko virou purpurina


O cantor Michael Jackson, em foto de março passado, durante conferência de imprensa na qual anunciou a série de shows que faria em Londres neste ano (Foto: Reuters/Stefan Wermuth)

Do G1, em São Paulo, com agências

Michael Jackson, considerado o Rei do Pop, morreu na tarde desta quinta-feira (25) após sofrer parada cardíaca e ser levado às pressas para o hospital UCLA Medical Center, em Los Angeles. O cantor de 50 anos não estava respirando quando os paramédicos chegaram à sua casa e deu entrada no hospital em estado de coma.

A morte de Jackson foi confirmada pelo porta-voz do Instituto Médico Legal de Los Angeles, Fred Corral, em entrevista à rede de TV CNN pouco antes das 20h30, horário de Brasília.

"Posso dizer neste momento que fomos informados por investigadores do Departamento de Polícia de Los Angeles Oeste que Jackson foi levado (...) para o hospital. Ao dar entrada, estava sem os sinais vitais e foi declarado morto por volta das 14h26 esta tarde [18h26, horário de Brasília]", declarou Corral à CNN.

Antes, o site do jornal "New York Times" publicou que uma autoridade da cidade de Los Angeles "afirmou que ele morreu à 1h07 PM, horário do Pacífico [17h07, Brasília]".

Segundo o porta-voz do IML, uma autópsia "provavelmente" será realizada na sexta-feira. Ele preferiu não especular sobre a causa da morte.

"As coisas ainda estão acontecendo. Estamos nos comunicando com o hospital para transportar Jackson para nossas instalações, onde ele será examinado para determinarmos a causa da morte", acrescentou. "Até onde eu sei, fomos informados por investigadores da polícia de Los Angeles que Jackson foi levado pelos paramédicos para o hospital com uma parada cardíaca severa, e que depois foi declarado morto".

A rede de televisão Fox News afirmou que uma entrevista coletiva será realizada em breve no hospital.

Em declaração pública no hospital a que Michael Jackson foi levado, em Los Angeles, o irmão do cantor Randy Jackson, disse que uma equipe de médicos do Centro Médico UCLA passou uma hora tentando ressucitar o rei do pop.

Randy confirmou que os bombeiros encontraram Jackson com uma parada cardíaca, mas disse que ainda não se sabe o que causou isso. "A causa da sua morte só vai ser determinada após uma autópsia", disse. "Nossa família pede que a mídia respeite nossa privacidade ness momento difícil."

O porta-voz do corpo de bombeiros de Los Angeles, Devin Gales, disse que os paramédicos atenderam a um chamado feito no endereço do cantor às 12h21 locais.

Procurado pelo site especializado em celebridades "E! Online", o pai do astro, Joe Jackson, disse que ele teve uma parada cardíaca. "Ele não está bem", afirmou. "A mãe dele está indo para o hospital neste momento para vê-lo. Não tenho certeza do que aconteceu. Estou esperando uma resposta deles."

Procurado pela AFP, o agente do cantor, Tohme E. Tohme, não foi encontrado para comentar a internação.


Fãs de Michael Jackson choram na porta de hospital (Foto: Reuters/Mario Anzuoni )

Tentativa de retorno

Michael Jackson, que completou 50 anos em agosto de 2008, anunciou em maio o adiamento de alguns dos shows de uma extensa temporada que ele faria em Londres neste ano.

A noite de abertura na O2 Arena, marcada inicialmente para o dia 8 de julho, foi remarcada para o dia 13 do mesmo mês, segundo os produtores. Além disso, algumas apresentações foram transferidas para 2010.

O adiamento das datas aumentou as especulações de que Jackson estaria sofrendo de problemas de saúde.

Michael Jackson nasceu em 29 de agosto de 1958 em Gary, Indiana, o sétimo de nove irmãos. Cinco dos irmãos Jackson - Jackie, Tito, Jermaine, Marlon e Michael - apresentaram-se juntos pela primeira vez num programa de calouros quando Michael tinha 6 anos. Eles levaram o primeiro prêmio.

O grupo mais tarde se tornou o The Jackson Five, e, quando assinou contrato com a gravadora Motown Records, no final dos anos 1960, passou por uma metamorfose final, tornando-se The Jackson 5. Pelo mesmo selo, Michael lançou seu primeiro álbum solo em 1972, "Got to be there".

De lá até a 2001, o cantor gravou outros oito álbuns solo, incluindo "Off the wall" (1979), produzido pelo lendário Quincy Jones, e "Thriller" (1982), que ficou 37 semanas consecutivas no primeiro lugar das paradas, com cerca de 60 milhões de cópias vendidas no mundo.

"Thriller" - que ganhou uma reedição comemorativa em 2008 - é uma das principais responsáveis por imortalizar pérolas pop como “Billy Jean” e “Beat it”. Ao todo, sete canções chegaram ao topo das paradas de sucesso nos Estados Unidos.


O álbum deu origem ainda a um dos clipes mais cultuados desta era. Dirigido por John Landis, o vídeo da faixa-título mostra o astro pop se transformando em zumbi e traz a risada sinistra de Vincent Price, que assombrou muitos adolescentes no início dos anos 80.

Outros álbuns incluem "Bad" (1987), "Dangerous (1991) e "Invincible" (2001). No total, segundo cifras divulgadas nos Estados Unidos, Michael Jackson vendeu 750 milhões de discos.

Em 1994 Jackson se casou com a filha única de Elvis Presley, Lisa Marie, mas o casamento terminou em divórcio em 1996. No mesmo ano Jackson se casou com Debbie Marie Rowe e eles tiveram dois filhos antes de se separarem em 1999. Eles nunca viveram juntos.

Jackson teve três filhos: Prince Michael I, Paris Michael e Prince Michael II, este último conhecido por um momento público breve em que seu pai o segurou para fora da sacada de um hotel.

Entre as muitas polêmicas e escândalos protagonizadas por Michael Jackson, a mais significativa aconteceu em 2005, quando o cantor foi a julgamento após ser acusado de pedofilia e absolvido.

Sobre sua fisionomia, que mudou significativamente desde que ficou ficou mundialmente conhecido, Michael admitiu fez duas cirurgias no nariz e uma para ficar com uma covinha no queixo, segundo a autobiografia "Moonwalk" (1988).

Já sobre a mudança na cor da pele, o cantor atribuiu-a à doença conhecida como vitiligo, que causa despigmentação.

Visita ao Brasil

Michael Jackson esteve no Brasil em 1993 durante a turnê do álbum "Dangerous". O astro se apresentou para 65 mil pessoas no estádio do Morumbi, em São Paulo, em um show programado para durar 2h20, mas que foi encerrado pouco antes de duas horas de apresentação. Contrariando as expectativas, ele não retornou ao palco para o bis.

Alguns anos mais tarde, o cantor retornou ao país para gravar o clipe de "They don't care about us", música incluída no álbum "HIStory: Past, present and future – Book I". O vídeo foi rodado no morro da Dona Marta, no Rio de Janeiro, e no Pelourinho, em Salvador. O grupo baiano Olodum fez uma participação.


Michael Jackson e Lisa Marie se beijam, na época em que estavam casados (Foto: AP)

A cantora Lisa Marie Presley, filha de Elvis Presley e primeira mulher de Michael Jackson, com quem ficou casada entre 1994 e 1996, divulgou nota nesta quinta-feira (25) sobre a morte do "rei do pop".

"Estou muito triste e confusa, sentindo todas as emoções possíveis. Estou de coração partido por seus filhos, que eram tudo para ele, e por sua família. Essa é uma grande perda em muitos níveis. Faltam-me palavras", disse ela em comunicado reproduzido pela revista "People".

De acordo com Lisa Marie, que apareceu em um dos clipes do cantor em 1995 ("You Are Not Alone"), o casamento com o "rei do pop" poderia ser descrito como "normal", em resposta às alegações de que se tratava de uma relação de fachada.

Ela entrou com um pedido de divórcio de Michael Jackson no início de 1996, mas o casal, segundo relatos da mídia, continuou a ter uma relação amigável.

Gênio incompreendido ou pedófilo renitente?

Michael Jackson teve uma trajetória tão brilhante quanto controversa. Se alguns aspectos de sua história são mais do que polêmicos, outros o colocam em um patamar próximo da genialidade.

Em agosto do ano ano passado, o rei do pop completou 50 anos. Dois mil e oito coincidiu ainda com outro aniversário importante: o de 25 anos do sucesso de “Thriller”, o álbum mais vendido da história, lançado em 1982.


Foi também nessa época que o astro pop participou de uma apresentação histórica em homenagem aos 25 anos da lendária gravadora Motown – casa dos Jackson 5 -, quando fez pela primeira vez o passo que ficou conhecido como “moonwalk”.

O auge do sucesso ultrapassou os limites de seu comportamento excêntrico. Aos poucos, o cantor foi eliminando traços que se assemelhavam aos de seu pai, clareando a pele e passando por inúmeras cirurgias plásticas para modificar o formato do nariz.

Mas foi nos anos 90, com dois casamentos falidos e disputas judiciais, que a vida de Michael Jackson entrou realmente em declínio. Isso mais a saúde debilitada levaram o cantor a isolar-se em uma de suas propriedades mais conhecidas, o famoso Rancho de Neverland, na Califórnia.

Ali Jacko cercou-se de crianças com as quais brincava em um parque de diverões particular nos moldes dos contos de fadas. Em 1993 Michael Jackson foi acusado de abusar sexualmente de um menino de 13 anos, e a polícia invadiu seu rancho "Neverland", na Califórnia.

No mesmo ano, Jackson anunciou que se tornara dependente de analgésicos e cancelou repentinamente uma turnê mundial que faria para promover seu álbum "Dangerous".

Em 1994 ele fechou um acordo extrajudicial de valor mais tarde anunciado como tendo sido US$ 23 milhões com a família do garoto que foi acusado de abusar.

Em 2005 ele foi levado a julgamento. O processo durou quatro meses e terminou em junho de 2005 com sua absolvição de todas as acusações. Desde o fim do julgamento, Jackson passou um período no Barein, na Irlanda e na França.

Sabe-se que ele esteve trabalhando em estúdio recentemente, mas nunca a data de lançamento de um possível álbum de inéditas foi confirmada. O astro planejava retornar aos palcos este ano, com uma extensa temporada de shows em Londres.

A previsão era que ele começaria as apresentações em 13 de julho. Jackson vinha ensaiando na região de Los Angeles para os shows em Londres, cujos ingressos esgotaram horas depois de começar a ser vendidos, em março.

quarta-feira, junho 24, 2009

Ele é mesmo o cara!


Há quatro anos, quando a cineasta gaúcha Denise Garcia lançou seu documentário “Sou feia mas tô na moda”, abordando a presença feminina na cena funk carioca, Valeska Popozuda era apenas mais uma bundinha na multidão.

As preparadas da hora eram Tati Quebra-Barraco, Deise Tigrona (também chamada de “Deise da Injeção”), Vanessinha Pikachu, As Tchutchucas, Shana e a Gangue, Bonde do Faz Gostoso, Juliana e as Fogosas, etc.

Se não fosse pelos inenarráveis olhos azuis (desconfio até hoje que aquilo deve ser lente de contato), Valeska teria passado batida no documentário. Suas intervenções soam sinceras, mas, no palco, ela era a preparada que tinha menos talento no bonde Gaiola das Popozudas.

E o que fez a funkeira, de lá pra cá? Primeiro, ela fez um puxadinho na padaria à base de silicone líquido, que arredondou seu porta-malas para 106 cm (em termos de bunda, ela só perde hoje pra modelo Fabiana Andrade, 107 cm de lapa).

Depois, Valeska caiu nas graças do presidente Lula. Sim, homeboys, o nosso presidente faz parte da confraria de espadas que vê na bunda uma paixão nacional (o ex-presidente FHC também foi flagrado uma vez conferindo o lombo de uma cunhan poranga de Parintins, lembram?). Este mês, ocorreu o estouro da boiada e a garota se transformou em celebridade instantânea.


Nunca na história deste país um ensaio pleno de nudez da edição brasileira de Playboy percorreu o mundo inteiro, com tamanha velocidade: do britânico Daily Telegraph ao italiano La Reppublica, passando pelo espanhol El País ao argentino La Nación, entre outros, muitos comentaram as fotos da Valeska, especialmente uma onde ela aparece, com o rosto abaixado e quase beijando a página de uma revista com a foto de Lula.

É um novo capítulo da novela que começou em dezembro de 2008, no Complexo do Alemão, no Rio, quando o presidente foi apresentado à funkeira (ou vice versa) e teve um segundo round em Manguinhos, este ano, quando o presidente esteve com a funkeira – e segundo ela, “não tirou os olhos” da região mais aplaudida de seu corpo (se bem que ele também deu uma conferida discreta nos mamões maduros).


Valeska Popozuda, que já desfilou no carnaval do Rio e até criou para o presidente uma música chamada Funk do Lula, é atualmente uma legítima representante do bloco das popozudas nacionais. Tem 68 quilos, 1,74m de altura, 76 cm de cintura, 67 cm de perna, 92 cm de busto e 106 cm de quadril. É mole?

Brack Obama estava certo: Lula é o cara!

Morram de inveja, homeboys!

terça-feira, junho 23, 2009

Tributo ao Joy Division no Espaço Cultural Valer


Manchester, Inglaterra, 18 de maio de 1980. Aos 23 anos, um dos maiores poetas do rock - Ian Curtis, vocalista e letrista do Joy Division - desliga a TV. Acabara de assistir Stroszek, filme de seu cineasta predileto, o alemão Werner Herzog. Sobe até o quarto e enforca-se com os lençóis.

Joy Division, ou “Divisão da Alegria”, era o nome reservado à ala das prostitutas nos campos de concentração nazistas. Na avalanche de bandas formadas sob estímulo direto dos Sex Pistols, Joy Division foi um corte incicatrizável.

Começaram, em 77, como uma banda de puro punk, muito parecida (ficou registrada em um pirata) com os Buzzcocks, também de Manchester. O nome, Warsaw - ou Varsóvia -, tirado de um lúgubre instrumental de Low, primeiro LP da trilogia gravada por Bowie em Berlim.

A troca de nome, um ano depois, traz uma profunda metamorfose. O ritmo desacelera, as frases de guitarra adotam uma circularidade claustrofóbica e o baixo sobressai como o instrumento mais melódico. E o quase heavy metal, pesado, mas entorpecido, que está no primeiro LP - Unknown Pleasures (79) -, faz o critico Stephen Grant dizer: “O Joy Division está para o heavy metal como a antimatéria está para a matéria”.

A nova identidade fica completa na voz de Ian - assumindo um tom mais grave, descendente direto de Jim Morrison, em perpétua oscilação entre a descrença e a fé. As letras, então, ampliam para um painel desesperador. Uma obsessão com o passar do tempo, o fim da adolescência e a corrupção de todas suas promessas.

Acrescidas de sintetizadores pelo produtor Martin Hannett, em Closer - o segundo LP, lançado pouco depois do suicídio de Curtis -, estas letras apontam para a solidão e para a morte em tom de celebração religiosa. Hannet chegou a construir uma redoma de gesso no estúdio, para obter a sonoridade de uma capela. E a capa traz uma Paixão de Cristo em estilo gótico.

Com sua morte, Ian Curtis virou instantaneamente objeto de culto, como indicam as dezenas de discos piratas da banda. E o Joy Division, antes adorado apenas por um fanático, mas pequeno séquito, fez a fortuna da Factory, a gravadora independente de Manchester.

O resto da banda segue - acrescido da tecladista Gíllian Gilbert - com o nome de New Order. Exorcizam o fantasma de seu poeta partindo para um melancólico porém dançante pop eletrônico, com o guitarrista Bernard Sumner nos vocais. Mas melhor do que ninguém, sabiam que não poderia haver Joy Division sem a poesia em transe de Ian Curtis.

Em um Lugar Solitário (In a Lonely Place)

Acariciando o mármore e a laje
Amor em especial por alguém
O desperdício na febre que aqueci
Como eu queria que você estivesse
Aqui comigo agora

Corpo que se encolhe e esconde
Arcos que trazem freqüentes delícias
Quente como um cachorro ao redor dos pés
Como eu queria que você estivesse
Aqui comigo agora

O carrasco olha para os lados enquanto espera
Na forca, a corda se estica e então quebra
Um dia nós morreremos em seus sonhos
Como eu queria que estivéssemos
Aqui com você agora

Últimas das últimas letras escritas por Ian Curtis, In a Lonely Place não chegou a ser gravada em sua voz. A canção está no lado B do compacto Ceremony, o primeiro lançamento do New Order.

Pois é para relembrar a trajetória desta banda seminal que os meus brothers Jorge Bandeira (poeta, compositor, historiador, cordelista e vocalista da banda Alma Nômade) e Genecy Silva (poeta, escritor e músico), vão fazer uma espécie de workshop nessa quarta e quinta-feira, no Espaço Cultural Valer (rua Ramos Ferreira, em frente ao Cheik Club). Entrada franca.

PROGRAMAÇÃO DO DIA 24 DE JUNHO (quarta-feira, a partir das 18h30)

I. ABERTURA DA EXPOSIÇÃO “IMAGENS DA JOY DIVISION”

II. MOSTRA DE SLIDES EM POWER POINT E MÚSICAS DA JOY DIVISION: UMA ABORDAGEM POÉTICA, por Jorge Bandeira

III. EXIBIÇÃO DO DOCUMENTÁRIO INÉDITO EM MANAUS “JOY DIVISION”, DE GRANT GEE (Produzido em 2008 - Legendado)

IV. SORTEIO DE DVDS DO FILME “CONTROL”


PROGRAMAÇÃO DO DIA 25 DE JUNHO (quinta-feira, a partir das19h)

I. LANÇAMENTO DO LIVRETO “30 ANOS DE PRAZERES DESCONHECIDOS”, DE GENECY SILVA (Editora Valer)

II. APRESENTAÇÃO MUSICAL DA BANDA “JOY”, EM HOMENAGEM À JOY DIVISION

III. ENCERRAMENTO DA EXPOSIÇÃO, COM DISTRIBUIÇÃO DAS IMAGENS AO PÚBLICO


Quem perder, é mulher de padre!

segunda-feira, junho 22, 2009

Conversa pra boi dormir


Nesta terça-feira, 23, a livraria Saraiva MegaStore, no Shopping Manauense, realiza um bate-papo com o jornalista Mário Adolfo.

O evento começa a partir das 19h, no Espaço Cultural Thiago de Mello, aberto a participação popular.

Na ocasião, Mário Adolfo fará uma noite de autógrafos do livro "Conversa Pra Dormir", uma coletânea de causos ocorridos nos bastidores do Festival Folclórico de Parintins.

A obra foi lançada em 2001, pela Editora Valer, e é resultado das "aventuras" vividas na ilha pelo jornalista Mário Adolfo, que cobriu a festa durante 17 anos.

Recheadas de humor, as história contadas pelo jornalista aconteceram, garante ele. “Eu apenas folcloreei um pouco para dar mais graça. Mas quase tudo eu vivi pessoalmente. As que não vivi me foram contadas por amigos da ilha”, afirma.

De acordo com o autor, na noite de lançamento, ele conseguiu uma façanha inédita: colocar no mesmo palco dividindo o microfone, David Assayag e Arlindo Júnior.

Com uma tiragem de 2 mil exemplares, o livro vendeu bem e está praticamente esgotado. Neste relançamento, o leitor vai ter a oportunidade de adquirir os últimos exemplares, com direito a autógrafo do autor, que também é jornalista, chargista e cartunista, e criador do personagem de quadrinhos Curumim, "o último herói da Amazônia".

Além de Mário Adolfo, estará presente no bate-papo o jornalista Simão Pessoa, amigo e parceiro do escritor há mais de quarenta anos.

"Mário Adolfo escreve bem. Seu humor é cristalino, seu vocabulário é preciso e sua ironia é cortante como um bisturi afiado", afirma Simão Pessoa, na orelha do livro "Conversa pra Boi Dormir".

Mário Adolfo é ex-Diretor de Redação do jornal Amazonas Em Tempo e tem 33 anos de jornalismo. Começou desenhando histórias em quadrinhos em A Notícia.

Em 1976, já universitário, entou para a redação de A Crítica, onde foi repórter especial e editor do Curumim, o primeiro suplemento infantil do Amazonas com personagem próprio.

Mário Adolfo é um dos mais premiados jornalistas do Estado.

Ele foi eleito revelação do Ano de 1978, pelo Sindicato dos Jornalistas e ganhou duas vezes o Prêmio Esso de Jornalismo, em 1984 (com A Febre do Ouro no Amazonas) e em 1997 (com Expediçao Quilombo).

Em 1997 ganhou o Prêmio Caixa Econômica de Jornalismo, com a série A Indústria da Fé.

Em 2000, com uma série sobre a poluição dos igarapés de Manaus, ganhou o Prêmio Ecologia.

Em 2007 recebeu da Federação das Indústrias do Estado do Amazonas o Prêmio Fieam, em reconhecimento ao seu trabalho dedicado às crianças, com o Curumim.

Pajés contra o calote


Márcio Souza

Vai fazer um ano que levei calote do Bumbá Garantido. Eu e o poeta maior Thiago de Mello. O Fred Goés foi o responsável por me atrair para esta cilada, que aceitei por nele confiar, mas que no final se mostrou em nada diferente dos cafajestes que compõem a diretoria daquele malfadado boi.

Poderia ter procurado a Justiça, mas optei por força maior e contratei dois pajés do alto rio Negro. E dou os nomes: Yerenje Punã e Ulemun Simy, o primeiro da etnia uanana e o segundo da etnia barasana. Yerenje é conhecido como o mais importante e poderoso pajé de fumaça do rio Tiquiê, enquanto Ulemun é famoso pelos efeitos letais de seus feitiços. Ambos são procurados por políticos, ecologistas e empresários.

Recentemente Ulemun conseguiu levar a falência a Chrysler, a pedido de um CEO da Ford Motors. Foi ele o responsável pela perda dos mandatos de vários vereadores. Yerenje também não faz por menos e, a pedido do Partido Socialista italiano, está acabando com a reputação do Berlusconi. Em trabalho conjunto para o Greenpeace, eles conseguiram abalar os pecuaristas ilegais do Pará, fazendo os maiores supermercados recusarem carne bovina não certificada.

Foi a estes dois que recorri para me vingar do Garantido. Para começar, os dois pajés dobraram o seu arsenal de feitiçaria, quando souberam que o Kiunaçu-té (O Grande Poeta Branco), como Thiago de Mello é conhecido no alto rio Negro, também havia sido enganado. E vou logo avisando à torcida do boi vermelho de vergonha que tudo o que aconteceu até agora é café pequeno para o que está por vir.

A menos que os dirigentes trambiqueiros cumpram com suas obrigações, o Garantido vai ser derrotado nos próximos sete anos. E provavelmente nunca mais ganhará um título já que nos próximos anos vai surgir um terceiro boi em Parintins, de cor branca (ver Nostradamus – centúria 3452 – onde está escrito: “No alvorecer do terceiro milênio a ilha cercada pelo grande bosque verá surgir um alvo bovídeo, que esmagará o vermelho e não permitirá o triunfo da buchada de bode”). O boi Branco vai arrebatar as massas e tirar da jogada o boi que representa a mediocridade e a falta de caráter.


Vocês viram as águas do rio subir e lamber o terreiro do maldito, viram a improvisação na confecção dos carros e das fantasias, mas ainda verão coisa pior. Verão a Sinhazinha da Fazenda pegar curuba braba, o Pajé com diarréia e os levantadores com faringite aguda.

Na primeira noite o tripa vai ter cãibras que fará o boi desmunhecar, a torcida organizada terá soluços e vai errar a coreografia e as alegorias encrencarão antes de entrar na arena.

Na segunda noite o presidente vai escorregar no banheiro e quebrar a perna boa, o marido da amante do tesoureiro vai descobrir tudo e tentará lavar a honra a terçadadas e a Cunhantã Poranga vai aparecer com quatro espinhas pustulentas no nariz.

Na terceira noite o feitiço vai recair nas tribos, que não poderão executar as coreografias do Chico Cardoso porque vão amanhecer todos com torcicolo.

Se ainda estão duvidando do poder xamanístico desses dois pajés do alto rio Negro, notem como eles conseguiram retardar o pedido de obras de ampliação e melhorias do bumbódromo, obrigando a noite de abertura acontecer numa praça de Parintins.

E se esta ação atingiu os dois bois, fica claro que em nada prejudicou o Caprichoso, que está se preparando para mais uma vitória, não teve seu terreiro alagado, sua diretoria não é confundida com um bando de meliantes e seus artesãos e criadores são tratados com respeito e, mais importante, não são caloteados.


Fonte: jornal A Crítica, domingo, 21 de junho de 2009

Coletivo Difusão inaugura sua sede esta semana


Pra quem não vai participar da histeria bovina em Parintins, a grande pedida indie do final de semana é conferir o evento "Culturar-se", que celebra a inauguração da sede do Coletivo Difusão.

É o eterno guerreiro da cultura de rua, DJ Marcos Tubarão, colocando as pedras para rolar. Vamos prestigiar, homeboys!

Programação

Dia 26 (inicia às 21h):
Abertura de exposição coletiva de Artes Visuais

Exibição de videoartes, documentários e videoclipes

DJ Marcello Fernandes

DJ Marcos Tubarão

Escada Sem Degraus

Esquete teatral de Denni Sales.


Dia 27 (inicia às 21h):

Banda Cabocrioulo

Cia Balé da Barra

DJ Marcos Tubarão

Filmes, documentários e videoclipes


Dia 28 (inicia às 18h):

DJ Marcos Tubarão

Filmes, documentários e videoclipes

Performance de Odacy de Oliveira

Grupo Cabanos


Taxa de Manutenção: R$ 5,00

Local: Av. Castelo Branco 1111, Cachoeirinha, quase esquina com Manicoré.

contato: coletivodifusao@hotmail.com||8167-2633

quarta-feira, junho 17, 2009

Filho de John Lennon diz que odiar seu pai foi perda de tempo


À esquerda, Julian Lennon no colo do pai, John Lennon, e com Yoko Ono, em 1968, e depois em 2007, durante o Festival de Cannes

Roma, 17 jun (EFE)- O cantor Julian Lennon, filho de John Lennon com sua primeira mulher, Cynthia Powell, disse ter chegado à conclusão de que "a raiva e o ódio são uma grande perda de tempo" e que, se seu pai estivesse vivo, o abraçaria.

Em declarações publicadas hoje pelo jornal italiano "La Stampa", Julian, que inaugura hoje em Liverpool uma exposição de objetos pertencentes a seu pai chamada "White Feather Exhibition", explica que "converteu em energia positiva" o ódio que antes sentia em relação a seu pai por ter sido abandonado por ele.

"Se meu pai entrasse agora por aquela porta, nos abraçaríamos e choraríamos juntos", diz Julian na entrevista.

Durante anos, o filho mais velho de John Lennon atacou a imagem de seu pai. Em 2000, no 20º aniversário da morte do ex-beatle, Julian afirmou que ele "podia falar de paz e amor ao mundo, mas nunca os mostrou para as pessoas mais próximas".

No entanto, desde então, se reconciliou com Yoko Ono, a segunda mulher de Lennon e a qual considerava como a ruína de sua família.

Julian também agradece a Paul McCartney por ter escrito a música "Hey Jude", dedicada a ele em seu quinto aniversário, por causa do divórcio de seus pais, e diz que só soube que era o protagonista da letra da canção com 15 anos de idade, quando sua mãe lhe contou isso.

"A música me fez entender que eu não era o único que estava fora do lugar. Meu pai perdeu sua mãe duas vezes, aos 5 anos, quando ela o deixou, e aos 17, quando ela morreu em um acidente de trânsito", conta Julian.

John Lennon foi casado com Cynthia Powell entre 1962 a 1968. Julian é o único filho do casal e nasceu em 1963.

Lennon se divorciou de Powell em 1968, quando conheceu a artista japonesa Yoko Ono, com quem se casou um ano depois e teve outro filho, Sean, também cantor.

Onde a salvação é apenas o começo


A partir de uma boa dica do sempre antenado Rafael Galvão, acabei visitando o templo virtual da Igreja Internacional, cujo slogan bem sacado não deixa qualquer sombra de dúvidas: “Onde a salvação é apenas o começo...”

O nome é proposital: foi feito para confundir crentes e incréus com a famosa Igreja Internacional da Graça de Deus do ubíquo missionário Romildo Ribeiro Soares (vulgo RR Soares), capaz de participar diariamente de uns 500 programas simultâneos na tevê a cabo e na tevê aberta (Band, CNT, RBN e o escambal).

O responsável pela Igreja Internacional é um certo pastor Silas Adoniran Fonseca, residente na cidade de Itaberaí (GO). Palestrante, cantor gospel, instrumentista, ex-álcoolatra, ex-assaltante e curado de um câncer no fígado, ele se diz assembleiano por convicção, apesar de já ter ministrado cultos na IURD, Deus é Amor, Igreja de Cristo, Sara Nossa Terra, Videira e Renascer.

Considerado por muitos um dos evangelizadores mais conceituados da área, o pastor Silas é formado em teologia pelo Instituto Universal Brasileiro e atua há 15 anos no ramo, sempre centrado em Deus, fazendo artigos para evangelizar, educar e conscientizar, baseado na lógica e pautado na razão.

Conhecem aqueles relatos de putaria supostamente enviados pelos leitores do semanário Maskate relatando suas fantásticas experiências sexuais, que o compadre Miguel Mourão publica sem a menor parcimônia? Pois agora imaginem aqueles relatos a partir de supostos neopentencostais recém-convertidos falando sobre curas milagrosas e vocês terão uma pálida idéia da presepada. Não entendeu? Clique aqui.

Em menos de dois meses, o blog já teve quase 400 mil page-views. A razão de tanto barulho: alguns católicos estão levando os relatos a sério e já querem retirar a página do ar, alegando “intolerância religiosa”. A caixa de comentários do blog virou uma praça de guerra. Pode?

Eu simplesmente achei genial a brincadeira dos iconoclastas mineiros (um leitor descobriu em um dos textos uma gíria só utilizada no campus da UFMG e matou a charada) e acho que os católicos estão se precipitando. Em vez de ficarem indignados, deveriam fazer um blog bem-humorado e também botar lascando nos evangélicos.

Vida longa à Igreja Internacional! Aleluia! Saravá! Shalom!

Declaração de voto antecipado pra 2010


Artur Neto, ao lado dos brothers Vicente Matos (presidente do Garantido) e Bi Garcia (prefeito de Parintins)

Mesmo ocupado em fustigar os espertalhões e as ONGs picaretas que pululam no país, o senador Artur Neto sempre encontra tempo para pequenos gestos de ternura, como se depreende deste singelo e-mail que me enviou pessoalmente:

Prezado Simão

É com orgulho que vejo uma pessoa do nosso Amazonas ser destaque na mídia nacional.
Parabenizo-o pelo reconhecimento que Millor Fernandes fez, em sua coluna na revista Veja, por seu enorme talento, exaltado na obra Manual do Canalha.

Um grande abraço,com votos de sucesso

Senador Arthur Virgílio Neto


Agora, fala sério: dá pra deixar de votar num cabra desse quilate? Nem fodendo, suminino, nem fodendo...

terça-feira, junho 16, 2009

Recordando o Furacão


Rubin Carter e Denzel Washington, na entrega do Globo de Ouro pelo filme “Hurricane” (1999)

Rubin Carter nasceu em 1937, em New Jersey, e interessou-se pelo boxe, profissionalizando-se a partir de 1961. Seu estilo agressivo e seus nocautes rápidos lhe valeram o codinome de “Hurricane” (“Furacão”).

Poderia ter sido campeão mundial de médios em 1964, contudo os juízes atribuíram, em uma decisão tida como parcimoniosa, a vitória ao seu adversário Joey Giardello, num combate onde o “Furacão” foi claramente superior.

Em 17 de junho de 1966 foram assassinados dois homens e uma mulher num assalto a um bar de Paterson, New Jersey. Poucos meses depois foram indiciados, com duvidosas acusações, e condenados à prisão perpétua Rubin Carter e John Artis, que até então haviam sido interrogados como testemunhas.

Para Carter, que sempre apresentou um perfil bastante “técnico” no ringue, a estada na prisão se converteu em verdadeira luta pela sobrevivência. Perdeu vários recursos, mas persistiu em sua alegação de que era vítima de uma conspiração.

De nada lhe valeu inicialmente o relato autobiográfico que publicou sobre seu caso, intitulado “O 16º Round”. Desanimado, Carter isolou-se da família e dos amigos, divorciando-se da esposa, Mae Thelma, a quem exigiu que não o visitasse mais.


Em 1975, depois de ter lido o livro de Rubin Carter, Bob Dylan compôs “Hurricane”, que depois seria incluída no LP Desire (1976). Além de compô-la, Dylan também fez shows arrecadando fundos para uma campanha pela libertação de Carter.

Seus esforças resultaram em um novo julgamento, mas o “Furacão” voltou a ser condenado e a testemunha Patty Valentine processou Dylan por utilizar seu nome na letra da música.

Foi a música “Hurricane” que transformou meu irmão caçula, Simas, em roqueiro fundamentalista quando ele tinha apenas 15 anos e um gosto musical duvidoso, que ia de Gianni Morandi a Teixeirinha.

Não sei se por causa do violino pungente da Scarlet Rivera ou do ritmo grudento da canção, o certo é que depois de ouvi-la pela primeira vez o fedelho nunca mais foi o mesmo – e passou a devorar com entusiasmo todos os meus discos de rock.

Bom, mas anos depois desse segundo julgamento, o boxeador recebeu uma carta de um jovem, Lesra Martin, de Toronto, Canadá, que tinha lido seu livro e estava convencido de sua inocência, e que havia conseguido persuadir Terry, Lisa e Sam, seus tutores e ativistas de direitos humanos, para que empreendessem uma campanha a favor da liberdade de Carter.

A luta foi longa e repleta de obstáculos, tendo sido desmascarados todos os envolvidos na trama contra Carter somente em 1985, depois de ele passar 19 anos na prisão.

Em 1994, o WBC (Conselho Mundial de Boxe) reconheceu o erro, atribuindo o título a Rubin Carter.



Hurricane (Bob Dylan)

Pistol shots ring out in the barroom night
(Tiros de revólver ressoam dentro de um bar à noite)
enter Patty Valentine from the upper hall
(surge Patty Valentine vinda do salão superior)
she sees the bartender in a pool of blood
(ela vê o barman numa poça de sangue)
cries out “My God, they killed them all!”
(solta um grito “Meu Deus, mataram todo mundo!”)
here comes the story of the Hurricane
(aí vem a história do Furacão)
the man the authorities came to blame
(o homem que as autoridades acabaram culpando)
for somethin’ that he never done put in a prison cell,
(por algo que ele nunca fez colocado na cela de uma prisão,)
but one time he could-a been the champion of the world
(mas houve um tempo em que ele podia ter sido o campeão mundial)

Three bodies lyin’ there does Patty see
(Três corpos deitados ali é o que Patty vê)
and another man named Bello, movin’ around mysteriously
(e outro homem chamado Bello rondando misteriosamente)
“I didn’t do it”, he says, and he throws up his hands
(“Eu não fiz nada”, ele diz, e levanta as mãos pra cima)
“I was only robbin’ the register, I hope you understand
(“Estava só roubando a registradora, espero que você entenda)
I saw them leavin’”, he says, and he stops
(eu vi eles indo embora”, ele diz e pára)
“One of us had better call up the cops”
(“É melhor um de nós ligar para os tiras”)
and so Patty calls the cops
(e então Patty chama os tiras)
and they arrive on the scene with their red lights flashin’
(e eles chegam ao local com suas luzes vermelhas piscando)
in the hot New Jersey night
(na noite quente de New Jersey)

Meanwhile, far away in another part of town
(Enquanto isso, bem longe em outra parte da cidade)
Rubin Carter and a couple of friends are drivin’ around
(Rubin Carter e um par de amigos estão dando algumas voltas de carro)
number one contender for the middleweight crown
(o pretendente número um à coroa do pesos-médios)
had no idea what kinda shit was about to go down
(não tinha idéia do tipo de merda que estava pra acontecer)
when a cop pulled him over to the side of the road
(quando um tira o fez parar no acostamento)
just like the time before and the time before that
(igualzinho à vez anterior e à outra antes dessa)
in Paterson that’s just the way things go
(em Paterson é assim mesmo que as coisas rolam)
if you’re black you might as well not show up on the street
(se você é negro, melhor nem aparecer na rua)
‘less you wanna draw the heat
(a não ser que queira atrair uma batida policial)

Alfred Bello had a partner and he had a rap for the cops
(Alfred Bello tinha um parceiro e ele soltou um lero para os tiras)
him and Arthur Dexter Bradley were just out prowlin’ around
(ele e Arthur Dexter Bradley estavam só dando uma volta)
he said “I saw two men runnin’ out, they looked like middleweights
(ele disse “Eu vi dois homens saírem correndo, pareciam pesos-médios)
they jumped into a white car with out-of-state plates”
(eles pularam dentro de um carro branco com placa de outro estado)
and Miss Patty Valentine just nodded her head
(e a senhorita Patty Valentine apenas assentiu com a cabeça)
cop said “Wait a minute, boys, this one’s not dead”
(um tira disse “Esperem um minuto, rapazes, este aqui não está morto”
so they took him to the infirmary
(então o levaram pra enfermaria)
and though this man could hardly see
(e embora esse homem mal pudesse enxergar)
they told him that he could identify the guilty men
(eles disseram a ele que ele poderia identificar os culpados)

Four in the mornin’ and they haul Rubin in
(As 4 da manhã eles arrastam Ruby com eles)
take him to the hospital and they bring him upstairs
(levam ele para o hospital e o empurram escada cima)
the wounded man looks up through his one dyin’ eye
(o homem ferido olha pra cima através de seu único olho moribundo)
says, “Wha’d you bring him in here for? He ain’t the guy!”
(diz “Por que vocês trouxeram ele aqui dentro? Não é esse o cara!”
yes, here’s the story of the Hurricane
(sim, eis aqui a história do Furacão)
the man the authorities came to blame
(o homem que as autoridades acabaram culpando)
for somethin’ that he never done
(por algo que ele nunca fez)
put in a prison cell, but one time he could-a been
(colocado numa cela de prisão, mas houve um tempo em que podia ter sido)
the champion of the world
(o campeão mundial)

Four months later, the ghettos are in flame
(Quatro meses depois, os guetos estão em chamas)
Rubin’s in South America, fightin’ for his name
(Rubin está na América do Sul, lutando por seu nome)
while Arthur Dexter Bradley’s still in the robbery game
(enquanto Arthur Dexter Bradley continua no ramo do assalto)
and the cops are puttin’ the screws to him,
(e os tiras estão lhe apertando)
looking for somebody to blame
(procurando alguém para culpar)
“Remember that murder that happened in a bar?”
(“Lembra daquele assassinato que aconteceu num bar?”)
“Remember you said you saw the getaway car?”
(“Lembra que você disse ter visto o carro fugitivo?”)
“You think you’d like to play ball with the law?”
(“Você acha que pode ficar brincando com a lei?”)
“Think it might-a been that fighter that you saw runnin’ that night?”
(“Não acha que talvez tenha sido aquele lutador que você viu correndo pela noite?”)
“Don’t forget that you are white”
(“Não se esqueça de que você é branco”)

Arthur Dexter Bradley said “I’m really not sure”
(Arthur Dexter Bradley disse “Não tenho muita certeza”)
cops said, “A boy like you could use a break
(os tiras disseram “Um rapaz como você precisa de uma folga da polícia)
we got you for the motel job
(te pegamos por aquele serviço no motel)
and we’re talking to your friend Bello
(e agora estamos conversando com seu amigo Bello)
now you don’t wanta have to go back to jail
(agora, você não vai querer voltar pra cadeia)
be a nice fellow
(seja um cara legal)
you’ll be doin’ society a favor
(você estará fazendo um favor a sociedade)
that son of a bitch is brave and getting’ braver
(aquele filho-da-puta é valente e está cada vez mais marrento)
we want to put his ass in stir
(nós queremos botar no rabo dele sem coar)
we want to pin this triple murder on him
(queremos pregar nele esse triplo assassinato)
he ain’t no Gentleman Jim”
(ele não é nenhum Gentleman Jim)

Rubin could take a man out with just one punch
(Rubin podia nocautear um cara com apenas um soco)
but he never did like to talk about it all that much
(mas nunca gostou muito de falar sobre isso)
“It’s my work”, he’d say, “and I do it for pay
(“É o meu trabalho”, dizia, “e eu sou pago pra isso”
and when it’s over I’d just as soon go on my way
(e quando termina, prefiro cair fora o mais rápido possível)
up to some paradise
(na direção de algum paraíso)
where the trout streams flow and the air is nice
(onde as trutas nadam nos riachos e o ar é ótimo
and ride a horse along a trail”
(e poder andar a cavalo ao longo de uma trilha”)
but then they took him to the jailhouse
(mas aí o levaram para a cadeia)
where they try to turn a man into a mouse
(onde tentaram transformar um homem num rato)

All of Rubin’s cards were marked in advance
(Todas as cartas de Rubin já estavam marcadas)
the trial was a pig-circus, he never had a chance
(o julgamento foi um circo de porcos, ele não teve a menor chance)
the judge made Rubin’s witnesses drunkards from the slums
o juiz fez das testemunhas de Rubin, bêbados de favelas
to the white folks who watched he was a revolutionary bum
(para os brancos que assistiam, ele era um vagabundo revolucionário)
and to the black folks he was just a crazy nigger
(e para os negros, apenas mais um crioulo maluco)
no one doubted that he pulled the trigger
(ninguém duvidava que ele tinha apertado o gatilho)
and though they could not produce the gun
(e embora não conseguissem apresentar a arma)
tha DA said he was the one who did the deed
(o promotor público disse que ele era o responsável)
and the all-white jury agreed
(e o júri só de brancos concordou)

Rubin Carter was falsely tried
(Rubin Carter foi falsamente julgado)
the crime was murder “one”
(o crime foi de assassinato “em primeiro grau”)
guess who testified?
(adivinhem quem testemunhou?)
Bello and Bradley and they both baldly lied
(Bello e Bradley e ambos mentiram descaradamente)
and the newspapers, they all went along for the ride
(e os jornais todos pegaram uma carona nessa onda)
how can the life of such a man
(como pode a vida de um homem desses)
be in the palm of some fool’s hand?
(ficar na palma da mão de algum babaca?)
to see him obviously framed
(vê-lo condenado numa armação tão óbvia)
couldn’t help but make me feel ashamed
(não teve outro jeito a não ser me fazer sentir vergonha)
to live in a land where justice is a game
(de morar numa terra onde a justiça é um jogo)

Now all the criminals in their coats and their ties
(Agora todos os criminosos em seus paletós e gravatas)
are free to drink martinis and watch the sun rise
(estão livres para beber martinis e assitir o sol nascer)
while Rubin sits like Buddha in a ten-foot cell
(enquanto Rubin fica sentado como Buda em uma cela de 3 metros)
an innocent man in a living hell
(um homem inocente num inferno vivo)
that's the story of the Hurricane
(essa é a história do Furacão)
but it won´t be over till they clear his name
(mas não terá terminado enquanto não limparem seu nome)
and give him back the time he´s done
(e devolverem a ele o tempo que perdeu)
put in a prison cell, but one time he could-a been
(colocado numa cela de prisão, mas houve um tempo em que podia ter sido)
the champion of the world
(o campeão mundial)

Ditos populares em linguagem jurídica


Nova colaboração do estimado Luiz Costa, secretário perpétuo do senador Gilberto Mestrinho:

Do genero fêmea ruminante deslocou-se para terreno sáfaro e alagadiço. (A vaca foi para o brejo)

Creio que V.Sa. apresenta comportamento galhofeiro perante a situação aqui exposta e desenvolvida. (Você tá de sacanagem)

Prosopopéia flácida para acalentar bovinos em boa hora. (Conversa mole pra boi dormir )

Romper de sosleio a face. (Quebrar a cara)

Creditar um primata. (Pagar um mico)

Inflar o volume da bolsa escrotal. (Encher o saco)

Impulsionar a extremidade do membro inferior contra a região glútea de outrem. (Dar um pé na bunda)

Derrubar, com a extremidade do membro inferior, o suporte sustentáculo de uma das unidades de acampamento. (Chutar o pau da barraca)

Deglutir um batráquio. (Engolir um sapo)

Colocar o prolongamento caudo-sacral em meio aos membros inferiores. (Meter o rabo entre as pernas)

Derrubar com intenções mortais. (Cair matando)

Eximir de qualquer tipo de sorte. (Azarar)

Aplicar a contravenção do Senhor João, este deficiente físico desprovido de sorte de um dos membros superiores. (Dar uma de João sem braço)

Sequer considerar a utilização de um longo pedaço de madeira. (Nem a pau)

Sequer considerando a possibilidade da fêmea bovina expirar fortes contrações laringo-bucais, por via refelxo diafragmática. (Nem que a vaca tussa)

Sequer considerando a utilização de instrumentos metálicos. (Nem ferrando)

Derramar água pelo chão através do tombamento violento e premeditado de seu recipiente. (Chutar o balde)

Desejo veementemente que V.Sa. receba contribuições satisfatórias e inusitadas em vossa cavidade retal. (Vá tomar no cu)

Desejo veementemente que V.Sa. performe fornicação na imagem de sua própria pessoa com intuito de autocoemptio. (Vá se fuder)

segunda-feira, junho 15, 2009

A mais recente obra prima do Arnaldo Russo


O Clube dos Discófilos Fanáticos (CDF) é uma entidade quase metafísica, que se reúne na última quarta-feira de cada mês na aprazível cobertura do médico Arnaldo Russo para uma sessão privé de “música, queijos e vinhos” – mas com direito a tonéis de escocês de 12 anos pra cima, cervejas importadas das mais variadas procedências, canapés de todos os tipos, latinhas de caviar beluga a dar no meio da canela y otras cositas más. Boca livre total.

Os titulares do clube – onde mulher não entra! – são apenas 12 (o técnico e onze jogadores): Arnaldo Russo, Lucio Meirelles, Humberto Amorim, Expedito Teodoro, Salomito Benchimol, Acram Isper, Roberto Benigno, Waldir Menezes, Paulo Monteiro, Oswaldo Frota, Augusto Menezes e Edson Gil.

As audições começam pontualmente às 9h da noite e costumam se encerrar às 3h da madrugada. Em cada uma delas, um membro escolhido previamente por sorteio faz uma dissertação sobre um determinado gênero musical, usando de todos os recursos tecnológicos possíveis (CD, DVD, EVD, Blu-ray, vinil, fita K7, o diabo a quatro). No mês passado, a tarefa coube ao empresário Salomito Benchimol.

Ao término da audição, o explanador deve passar para as mãos dos demais membros do clube uma trilha sonora (em forma de CD ou DVD) representativa do assunto abordado. No final do ano, as 12 audições são julgadas (ninguém pode votar no próprio trabalho) e o vencedor recebe um prêmio simbólico.


Agora vem a melhor parte: cada um dos titulares do clube pode levar um ou dois amigos (a “patuléia”) por reunião, mas depois da primeira audição os convidados devem desfrutar de um período sabático de 12 meses até poderem voltar a colocar os pés no covil pela segunda vez. É uma medida preventiva para evitar os famosos “arroz de festa”.

Como os membros do CDF odeiam publicidade, durante o “ano sabático” o convidado de primeira viagem também deve obedecer a um silêncio obsequioso sobre a existência do clube sob pena de nunca mais ser convidado para a tertúlia. É uma medida extrema para evitar os indesejáveis pedidos de filiação ao clube decorrente de uma superexposição das reuniões.

Em 2004, a convite do Lucio Meirelles, eu e o procurador Francisco Cruz fizemos parte da patuléia. A audição, comandada pelo Arnaldo Russo, era sobre o nascimento da soul music. Entre as preciosidades exibidas, um vídeo em que o James Brown, com apenas 13 anos, já cantava em um coro gospel.

Fiquei tão empolgado com a reunião que esqueci do silêncio obsequioso recomendado pelos anfitriões e publiquei uma reportagem de meia página no jornal O Estado do Amazonas. A reportagem foi um sucesso, mas fui banido definitivamente da “patuléia” do clube e o Lucio Meirelles só voltou a falar comigo no dia do meu aniversário de 50 anos. As regras do CDF são de um fundamentalismo taliban.

(Depois que leu a minha matéria, o ex-deputado estadual Ronaldo Tiradentes, hoje chairman das rádios CBN e Tiradentes FM, vivia implorando ao Lucio Meirelles, ao Humberto Amorim e ao Expedito Teodoro para participar de uma audição. Não sei até hoje se seu pedido foi aceito.)


Na semana passada, provavelmente para demonstrar que não está mais tão aborrecido assim comigo, o Arnaldo Russo me enviou, por meio do guitarrista Beto Blue Bird, o material que ele apresentou em dezembro último sobre o nascimento do rock & roll. Trata-se de uma pequena obra prima.

Em forma de livreto, com 32 páginas e fartamente ilustrado, o opúsculo “Rock & roll 1950s The Beggining” faz um mapeamento de como surgiu o gênero, indo desde o jurássico programa radiofônico de Allan Fred até o dia 15 de novembro de 1959, quando a banda Johnny & The Moondogs participou da rodada final do “TV Star Search” do caça talentos Carroll Lewis no Teatro Hippodrome, em Arwick, Lancashine.


Nesses dez anos (de 1950 a 1959), tudo o que você queria saber sobre rock & roll, mas tinha medo de perguntar, é passado a limpo, contextualizado e embrulhado em papel para presente. De quebra, um DVD imperdível e dois CDs cabulosos acompanham o livreto.


Estou convencido de que, depois que publicar esse post, vou passar mais cinco anos sem poder pisar no clube, mas, pô, o presente é tão bonito que eu precisava compartilhar com meus 17 leitores. Valeu, comandante Arnaldo Russo!


Em pé: Arnaldo Russo, Oswaldo Frota, Augusto Menezes, Edson Gil, Humberto Amorim, Waldir Menezes e Paulo Monteiro. Sentados: Salomito Benchimol, Expedito Theodoro, Acram Isper, Roberto Benigno e Lucio Meirelles

Dica de música enviada pelo Geraldo "Katatau" Bessa, lá de Niterói (RJ)

quarta-feira, junho 10, 2009

Onze anos sem Graça


Eu, Paulo Graça, Fausto Wolff, Luiz Bacellar, Claudio Amazonas, Elson Farias e Carlos Araujo, na Livraria Valer

Era uma terça-feira, dia 9 de junho, há exatos onze anos. Eu estava desenvolvendo uma campanha publicitária na Grafite quando o telefone tocou, por volta das 9h da manhã. Era o poeta Tenório Telles, visivelmente aflito. Me falou que o Antonio Paulo Graça estava passando mal desde as primeiras horas do dia, sentindo uma dor lancinante no baixo-ventre.

Liguei para o psiquiatra Manuel Galvão e falei sobre o problema. Ele suspeitou que podia ser um princípio de infarto e recomendou que o Paulinho fosse levado para o Hospital Universitário Getúlio Vargas. Por ser professor da Ufam, Paulinho teria um atendimento mais completo no setor de urgência porque lá sempre tem pelo menos dois cardiologistas de plantão. Transmiti a informação ao Tenório.

Na mesma hora, telefonei pra Dinari, que se mandou pra Livraria Valer e, em companhia do Tenório, saíram em busca do Paulo Graça. Nesse meio tempo, sua esposa, Claudia, já o havia levado para a clínica Santa Júlia, ali na avenida Airão porque – esta a explicação dela – “eles tinham convênio e era uma clínica particular”.

Quando os dois – Dinari e Tenório – finalmente chegaram à clínica, Paulinho continuava se contorcendo de dor (inclusive já havia urinado nas calças). Segundo a Claudia, ela e Paulo estavam ali há quatro horas e ainda não haviam sido atendidos porque não havia nenhum médico no local. A Dinari entrou em pânico e, aos gritos, exigiu a presença de um profissional.

Sabe-se lá como, mas apareceu um psicólogo que deu logo o diagnóstico: “Porra, esse senhor está sofrendo um infarto!”. Começou o corre-corre. Paulinho foi colocado em uma maca, enquanto os enfermeiros providenciavam máscara de oxigênio para iniciar o processo de entubação.

Tenório e Dinari seguiram junto da maca, com Paulinho segurando em um dos pulsos da Dinari. “Não me deixa morrer”, ele falou pra Dinari, assim que entraram na sala de emergência. Foram as suas últimas palavras.

“O principal sinal do infarto é a dor muito forte no peito, que pode se irradiar pelo braço esquerdo e pela região do estômago. Em primeiro lugar, deve-se correr contra o relógio, procurando um atendimento imediato, pois a área do músculo morta cresce como uma bola de neve com o passar do tempo”, explicou o cardiologista João Sabino, um dos grandes amigos do Paulinho.

Quer dizer, se em vez de ter sido levado à clínica Santa Júlia, ele tivesse sido levado ao HUGV, como recomendara o Manuel Galvão, Paulinho talvez estivesse vivo até hoje. A quem culpar pela cagada nessa altura do campeonato? À clínica de merda, que estava sem profissionais? À ingenuidade da Cláudia, ao achar que atendimento particular é necessariamente melhor que o serviço público? Ao Paulinho, que podia ter se mandado da clínica em busca de ajuda em vez de esperar por quatro horas?

Quando o Tenório me deu a notícia de sua morte, por volta das 12h, meu mundo desabou. Em menos de 15 minutos, eu e o compositor Carlos Castro estávamos na sala de emergência. Custei a acreditar que aquele corpo inerte, estendido na maca, fosse do mesmo sujeito que havia tomado um porre comigo na sexta-feira anterior e discutido exaustivamente o trabalho literário de Henry James, que ele estava traduzindo com certa parcimônia.

Tentando segurar o pranto, liguei para o poeta Almir Graça para lhe dar a péssima notícia. No começo, o Almir achou que era um trote filho da puta, mas quando percebeu que eu estava chorando viu que a coisa era séria. Comecei a ligar para os amigos mais próximos, para jornalistas e radialistas. A rádio Difusora, inclusive, leu na íntegra uma notinha que fiz comunicando o falecimento do escritor.

Sei disso porque, por volta das 5h da tarde, quando ia de táxi pra casa, a fim de me preparar para o velório, o rádio do táxi estava sintonizado na Difusora e um locutor interrompeu o programa para dar a notícia. Aquilo me deixou arrepiado. Falei pra Dinari: “Puta que pariu, mas se eu não estivesse sabendo de nada e, de repente, ouvisse uma notícia dessas no rádio ia pensar que era sacanagem!”

O escritor, compositor e professor universitário Antonio Paulo Graça nasceu em Boca do Acre no dia 23 de novembro de 1952. Formou-se em Letras pela Universidade Federal do Amazonas, tendo depois ingressado por concurso no Departamento de Língua e Literatura Portuguesa.

Na Universidade Federal do Rio de Janeiro realizou Mestrado em Teoria Literária, tendo apresentado, para obtenção do título, uma dissertação sobre a Estética da Recepção, corrente contemporânea de crítica literária. Mais tarde, na mesma Universidade, fez o Doutorado em Literatura Brasileira.

Sua tese, que se intitulou “A Poética do Genocídio”, trata da corrente romântica indianista. Na contramão do que dizem os manuais de literatura, Paulo Graça provou que, sob a aparência da louvação ao índio brasileiro, os autores, nas entrelinhas do texto, propunham a extinção da raça nativa.

Para provar sua hipótese, Paulo Graça trabalhou com ficcionistas como José de Alencar (“O Guarani”, “Iracema” e “Ubirajara”) e Bernardo Guimarães (“O Índio Afonso”), contrapondo-os a autores do século 20 que trabalharam o índio sob outra ótica: Mário de Andrade (“Macunaíma”) e Antônio Callado (“A Expedição Montaigne”). Sua tese de doutorado, dada a relevância das idéias, foi publicada pela Editora Topbooks.

Foi graças ao Paulinho que o meu “Manual do Canalha” foi publicado pela Topbooks, em 1996, após sua (dele) gestão diplomática junto ao livreiro Zemario Pereira. Quer dizer, se não fosse pelo Paulinho, eu jamais teria sido homenageado pelo maior humorista do país, o jornalista Millor Fernandes, nas páginas da mais importante revista semanal do país, a Veja. Não é pouca porcaria.

Além de “A Poética do Genocídio” e de estudos paradidáticos (incluindo o “Como funciona a poesia”, em que ele analisou um de meus poemas), Paulo lançou outros livros de ensaios: “A Catedral da Impureza” e “A Razão Selvagem”. Na ficção, publicou o romance “Tango Selvagem”. Fez ainda letras de músicas para compositores conhecidos, como Célio Cruz, Torrinho, Roberto Dibo, Carlinhos Castro e Armando de Paula.

Durante a gestão do professor Marcus Barros como reitor da Universidade Federal do Amazonas (1989-1993), Paulo esteve à frente do Centro de Artes, tendo realizado dezenas de eventos culturais. Um dos eventos, uma Oficina de Poesia Marginal, coordenada por mim, revelou vários poetas locais que estão em atividade até hoje, como a Cândida Alves e o Jander Borboletra. Quando faleceu, Paulinho exercia o cargo de vice-diretor do Instituto de Ciências Humanas e Letras da UFAM.

No ano passado, assim que soube da morte do escritor Fausto Wolff postei um texto no blog, relembrando a passagem meteórica do alemão por Manaus. O gente fina Ismael Benigno, além de fazer uma notinha simpática a meu respeito, replicou o post no portal Avesso. Exatamente no dia de aniversário de morte do Paulinho.

Ontem pela manhã, também conversei longamente por telefone com o Zemario Pereira, da Topbooks, que vai reeditar o Manual do Canalha, e a conversa, como não podia deixar de ser, acabou rolando em torno das mortes prematuras de Antonio Paulo Graça e Wally Salomão – que foi para o segundo andar sem realizar seu sonho de conhecer Manaus.

O próprio Zemario Pereira ficou surpreso com a notinha do Millor. "Ele já havia feito um puta elogio, na época do lançamento do livro", disse ele. "Agora, eu acho que ele viu o livro na estante, resolveu reler e lascou outro elogio. Vou pegar a autorização dele para colocar na quarta capa dessa nova edição".

O Zemario também me intimou a ir o mais rápido possível para a Cidade Maravilhosa, que ele quer fazer uma festa em minha homenagem durante o lançamento da quarta edição. Os poetas Arnaldo Garcez e Euclides Amaral já foram avisados. Quer dizer, apesar dos pesares e das perdas afetivas, os cães ladram e a caravana passa. Eita nós!


Veveco, eu, Rogelio Casado, Dinari, Jô, Davi Almeida e Paulo Graça (no primeiro plano), durante uma noitada etílica no Bar do Armando