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quarta-feira, março 10, 2010

Fechado pra balanço


Por motivos alheios a minha vontade de anarco-trotskista 4Life, o mocó vai sair do ar por algumas semanas. Espero retomar a presepada a partir do próximo mês. Por enquanto, se divirtam com essa historinha do tempo em que éramos todos jovens.

Depois do golpe militar de 1964, ocorreu uma diversificação de grupos políticos no cenário nacional, que vão desaguar no movimento estudantil na década seguinte.

No cenário nacional, os partidos políticos foram dissolvidos e, a partir de 1965, por imposição do regime, passaram a existir somente dois partidos: a situacionista Aliança Renovadora Nacional (Arena), e a oposição “moderada”, o Movimento Democrático Brasileiro (MDB), que era uma frente de partidos colocados na ilegalidade.

Fora do campo institucional, vários grupos de esquerda resistiram e procuravam combater a ditadura pela guerrilha urbana ou rural.

A Ação Popular (AP) nasceu em 1961, após uma racha na Juventude Universitária Católica (JUC).

A Organização Revolucionária Marxista – Política Operária (ORM-Polop) também foi fundada em 1961.

A primeira grande cisão importante ocorreu no Partido Comunista Brasileiro (PCB), em 1962, dando origem ao Partido Comunista do Brasil (PCdoB).


Outra dissidência do Partido Comunista Brasileiro (PCB), a Ação Libertadora Nacional (ALN), surgida em 1967, era intimamente ligada a Carlos Marighella, que, com o lema “a ação faz a vanguarda”, tentou disseminar a guerrilha urbana entre os anos de 1968 e 1973.

A mais famosa ação da ALN foi a participação no seqüestro do embaixador americano Charles Burke Elbrick, no Rio, em parceria com o Movimento Revolucionário 8 de Outubro (MR-8), outra dissidência do PCB.

Ainda em 1967, a maior parte dos militantes da Polop de Minas Gerais se desligou da organização para fundar o Comando de Libertação Nacional (Colina).


A Vanguarda Popular Revolucionária (VPR), fundada em 1968 pelo ex-capitão Carlos Lamarca – que depois passaria para o MR-8 –, era uma dissidência do PCdoB.

O Partido Comunista Brasileiro Revolucionário (PCBR), outra cisão do PCB, também foi formado em 1968.

Posteriormente, em meados de 1969, remanescentes da VPR e do Colina, se uniriam para formar a Vanguarda Armada Revolucionária-Palmares (VAR-Palmares).

A partir de 1975, consolidam-se nas universidades as correntes organizadas nacionalmente, que expressavam veladamente as posições da esquerda brasileira depois da derrota da luta armada.

Tais tendências revelam a persistência das organizações tradicionais como a Ação Popular e MR-8 (agrupado por algum tempo na corrente “Refazendo”) e o PCB (da corrente “Unidade”).

Mostravam também uma nítida ascensão do Partido Comunista do Brasil (corrente “Caminhando”, que depois passou a se chamar “Viração”), fortalecido pelo prestígio da guerrilha derrotada no Araguaia e pelos novos quadros que ganhava na fusão com a Ação Popular Marxista-Leninista (cisão da AP).

Se até então o movimento estudantil era informado, principalmente, pelos partidos marxistas, leninistas e stalinistas, nos anos 70 começam a surgir as correntes trotskistas.

Os primeiros passos do trotskismo no Brasil foram dados na formação do Grupo Comunista Lênin (GCL), em 1930, e logo depois na fundação da Liga Comunista Internacionalista (LCI), em 1931.


A Liga reunia o crítico de arte, jornalista e professor Mario Pedrosa (expulso do PCB em 1929 após uma viagem em que teve contato com os textos de Trotsky), Aristides Lobo, Livio Xavier e João Costa Pimenta, entre outros.

Expulso da União Soviética em 1928, Trotski organizou a Oposição de Esquerda Internacional, onde juntou todo tipo de descontentes e opositores ao Estado soviético e aos partidos comunistas, desde antigos sindicalistas revolucionários para quem o socialismo seria uma espécie de república sindical, até anarquistas descontentes com a revolução russa.

Inicialmente, o trotskismo apresentou-se como oposição comunista, que lutava para trazer os partidos comunistas (inclusive o da União Soviética ) de volta ao caminho da “revolução”, que julgavam abandonado.

Em 1936, contudo, Trotski foi condenado in absentia no primeiro dos grandes julgamentos realizados em Moscou nos anos 30. Foi acusado de conspirar pela derrubada do governo soviético.

Em resposta, Trotski passa a considerar como burocratas contra-revolucionários os dirigentes bolcheviques.

No final da década de 1930, os trotskistas ainda eram em reduzido número e tinham avançado muito pouco.

Para reuni-los e colocar seu movimento em novo patamar, Trotski dirigiu a fundação da IV Internacional, ocorrida em 3 de setembro de 1938, em Paris, com a presença de delegações de 10 países (URSS, Inglaterra, França, Alemanha, Polônia, Itália, Grécia, Holanda, Bélgica e EUA, e um delegado representando os grupos trotskistas da América Latina).


O documento básico aprovado no encontro, escrito por Trotski, foi “A agonia mortal do capitalismo e as tarefas da IV Internacional” (aka “Programa de Transição”). Mario Pedrosa participou da fundação da IV Internacional.

Além das teses trotskistas tradicionais, o Programa de Transição defendia a necessidade de uma revolução política na URSS, cujas principais tarefas eram o fim da ditadura burocrática, o restabelecimento de democracia operária e a entrega da direção do Estado aos órgãos de representação direta dos trabalhadores, os sovietes.

Nos países capitalistas, o Programa de Transição previa um papel destacado para os sindicatos. Eles deviam ser um campo de atuação privilegiado da vanguarda operária.

Em consequência, os trotskistas deviam agir nas grandes organizações sindicais dominadas pelos burocratas.

Ao mesmo tempo, o Programa de Transição enfatizou a necessidade de se criar organismos mais amplos, que representassem todos os participantes engajados na luta, como os comitês de greve, comitês de fábrica – que poderiam incluir os representantes sindicais alienados ou pouco representativos –, proposta em que se pode identificar um eco do tipo de partido ampliado defendido pelos mencheviques.

A guerra imperialista de 1939-1945, cujo principal alvo foi a URSS, bem como as conseqüências da invasão da URSS pelos nazistas, culminando na vitória e na grande resistência do povo soviético contra os alemães que assombrou os generais de Hitler, supostamente desmentia a tese trotskista de divórcio entre o governo e o povo na União Soviética.


Quando terminou a guerra, a União Soviética e os comunistas tinham um prestígio imenso aos olhos dos democratas de todo o mundo. Os trotskistas, por sua vez, começavam esse novo período histórico que se abria enfraquecidos e corroídos por cisões em seu movimento.

A defesa incondicional da União Soviética já havia provocado um cisma ainda quando Trotski era vivo: por não concordar com ela, o trotskista estadunidense J. P Connon afastara-se dos dirigentes da IV Internacional.

No pós-guerra, dois grupos foram gestados no interior da IV Internacional e a tensão entre eles já era visível no começo dos anos 50.

Para Michel Pablo, dirigente da IV Internacional, o realinhamento mundial e a divisão em dois blocos opondo os EUA à URSS criavam as condições para uma radicalização revolucionária na União Soviética e nos partidos comunistas. Assim, os trotskistas deviam entrar nos PCs, para auxiliar ao máximo, da melhor maneira, o processo objetivo revolucionário.

Em agosto de 1951, o 3º Congresso da IV Internacional aprovou as teses de Michel Pablo. A maioria do Partido Comunista Internacional, seção francesa da IV Internacional, discordou e acusou Pablo de abandonar o Programa de Transição e apoiar o stalinismo.

Em julho de 1952, a maioria do PCI foi expulsa da IV Internacional. Estava consolidada a divisão que deu origem aos dois principais grupos trotskistas de nossos dias.


O primeiro deles é o Secretariado Unificado da IV Internacional, liderado por Ernest Mandel.


O outro é o Comitê Internacional da IV Internacional, herdeiro da luta iniciada pelo PCI em 1952, e dirigido pelo francês Pierre Lambert.


Formou-se também, na época, a Liga Internacional dos Trabalhadores, liderada pelo argentino Nahuel Moreno.

No Brasil, o dirigente do PCB, Hermínio Sacchetta, rompe com o partido e se une ao grupo de Mario Pedrosa, formando o PSR (Partido Socialista Revolucionário), reconhecido como seção brasileira da IV Internacional.

Logo viria uma grave crise com a polêmica sobre apoiar ou não o stalinismo. Pedrosa aderiu às teses anti-stalinistas e rompeu com a Internacional.

O PSR sobreviveu muito enfraquecido e acabou definitivamente em razão da direção da IV Internacional, que defendeu um entrismo no PCB. O defensor direto dessa política era Juan Posadas, dirigente do birô latino americano da IV Internacional.

Hermínio Sacchetta resistiu ao entrismo, mas terminou se afastando do partido. Foi organizado então o Partido Operário Revolucionário (POR), já sob a direção direta de um emissário de Posadas.

Na década de 70, o trotskismo brasileiro ganhou novas perspectivas com a estruturação de três correntes distintas atuando no movimento estudantil.

O Secretariado Unificado se expressava na corrente estudantil “Centelha”, que daria origem à Democracia Socialista (DS).

A Organização Socialista Brasileira (OSI), ligado ao “lambertistas”, animava a corrente estudantil “Liberdade e Luta” (aka “Libelu”), que se transformaria na organização O Trabalho.

A outra, “Novo Rumo”, que tinha origem morenista e era oriunda da Liga Operária, depois Convergência Socialista, seria a principal corrente a formar o PSTU.

Todos os três grupos fizeram entrismo não no PCB, mas no PT, sendo que depois seguiram caminhos bem distintos.

A DS não só se adaptou ao PT, como participou do governo Lula indicando o ministro da Reforma Agrária. Hoje é um movimento eleitoral reformista.

O Trabalho seguiu trajetória semelhante. Completamente adaptado ao reformismo, cumpre hoje o papel lamentável de ser um dos principais defensores da CUT contra todos os setores que rompem pela esquerda.

O PSTU incorporou as duas características fundamentais da corrente morenista da qual se originou: o vínculo com movimento dos trabalhadores e a luta contra os aparatos burocratas. A Convergência Socialista pôde assim romper com o PT e ajudar a fundar o PSTU.

Contraponto perfeito da “Viração” (braço estudantil do PCdoB, que acendia velas para Stálin, Mao Tsé-Tung e Henver Hodja), a barulhenta e numerosa “Libelu” era muito fashion para a sua época.


Seus militantes descartavam a música engajada, forró e samba. Internacionalista, a Libelu adotou o rock, símbolo do movimento hippie. Socialista e revolucionária, ela também rejeitava o socialismo real.

Nada de Stálin, Mao Tsé-Tung, Fidel Castro ou Pol-Pot. Seus ídolos eram Marx, Engels, Lênin, Trotsky, Rosa Luxemburgo, Pierre Bruoé e Pierre Lambert.

Com as madeixas compridas, bolsa a tiracolo, calça jeans e botinha, os militantes da Libelu sempre tinham à mão a última edição do jornal O Trabalho.

Produto da imprensa nanica, o veículo denunciava a ditadura civil e militar, fazia campanha por anistia ampla, geral e irrestrita e divulgava ações dos trabalhadores em nome do internacionalismo proletário.


Em defesa de um partido operário independente da burguesia, do stalinismo (PCB, PCdoB e MR-8) e da social-democracia, a Libelu pregou o voto nulo em 1978. Para as demais correntes estudantis, eles não passavam de um bando de “porras loucas”. Mas, nos final dos anos 70, eram o sal da terra.

Em janeiro de 1978, a futura jornalista Verenilde Pereira, militante da corrente “Unidade”, estava aniversariando naquele mês e iria se formar naquele ano. Seus companheiros de movimento estudantil resolveram festejar seu aniversário e sua formatura com um presente inesquecível: uma tartarugada regional.

Havia um único problema: eles não tinham a menor idéia de onde conseguir uma tartaruga de três palmos de peito e, mesmo que soubessem onde encontrar, também não tinham dinheiro suficiente para adquirir o pitéu.

Depois de muita discussão, eles resolveram expropriar uma tartaruga existente na piscina do aeroporto Eduardo Gomes, presenteada ao Infraero pelo então prefeito de Manaus, coronel Jorge Teixeira.


Na noite combinada para a façanha, Guto Rodrigues, Bernadete Andrade e Greco embarcaram em um fusquinha 72, enquanto Mariolino Brito e Deise, na época mulher do Rui Brito, embarcaram em um corcel cupê 73.

Os dois grupos táticos se encontraram em frente ao aeroporto por volta da meia-noite. Estudaram o ambiente. Havia vários soldados do Exército armados de metralhadoras patrulhando a área.

O desencanado Greco, um afro-descendente de quase dois metros de altura, exímio capoeirista e portador de um único dente frontal na boca, se aproximou da piscina, identificou a localização do quelônio e fez um sinal para o resto da turma.

Abraçados pela cintura como se fossem dois casais de namorados, Guto, Bernadete, Mariolino e Deise se aproximaram da piscina, fazendo uma “paredinha” em torno de Greco, enquanto fingiam observar os peixes.

Este se sentou na borda da piscina e, com a agilidade de um felino, conseguiu puxar a tartaruga de dentro d’água utilizando os dois pés.


Os cincos saíram caminhando rapidamente em direção ao corcel cupê 73, depositaram a carga no porta-malas e abandonaram a cena do crime. As diversas patrulhas de soldados não perceberam nada.

O pequeno comboio se dirigiu ao Japiim, onde morava a Verenilde, e entregaram a encomenda. Depois, cada qual seguiu para sua casa. Tinha sido o chamado crime perfeito.

Na hora em que deixou Bernadete em sua casa, Guto teve uma surpresa: percebeu que sua tiracolo de pano estava completamente vazia. Ele, Bernadete e Greco começaram a procurar seus documentos dentro do carro. O lugar mais limpo.

Greco entrou em desespero:

– Camarada, não vá me dizer que os teus documentos caíram lá no aeroporto... Só faltava essa!

Bernadete também ficou nervosa:

– Não adianta a gente voltar ao aeroporto pra conferir porque a esta altura do campeonato eles já devem ter descoberto o roubo da tartaruga...

Guto estava pálido:

– Camaradas, se a polícia encontrar meus documentos, a gente vai ser expulso do partido por colocar a organização em risco porque na minha agenda está o nome dos militantes, com telefone e endereço. E o pior é que vão nos acusar de desvio pequeno-burguês porque a gente foi roubar logo uma tartaruga, que é comida de rico. O Belarmino Marreiro vai ficar muito puto!

Depois de meia hora discutindo o que fazer, Guto Rodrigues viu uma luz no fim do túnel.

– Vamos lá na casa do Mariolino, explicar o que aconteceu. Eu só fiz um movimento brusco que poderia provocar a queda dos documentos da bolsa, que foi quando colocamos a tartaruga no porta-malas. Se Deus for marxista, os documentos caíram dentro do porta-malas. Se não, a gente se ferrou...

Em quinze minutos, os três estavam acordando Mariolino Brito, lá no bairro da Glória. Quando contaram a presepada, ele quase teve um enfarto. Abriram o porta-malas do corcel cupê 73 e começaram a procurar.

Para sorte dos meliantes, os documentos estavam lá, entre o estepe e o macaco. Eles comemoraram a façanha detonando meia dúzia de cervejas e fizeram um pacto de sangue de jamais relatar aquele roubo nem sequer para os dirigentes do PCB. Mantiveram a promessa.

Quando o seqüestro da tartaruga foi descoberto, os jornais da cidade fizeram o maior estardalhaço, denunciando a falta de segurança do aeroporto internacional Eduardo Gomes. O coronel Jorge Teixeira ficou possesso.

O governador Henoch Reis garantiu que os responsáveis seriam identificados e presos nas próximas horas.

A Segunda Seção da Polícia Militar, o Deops, o SNI, o Cenimar e a Cisa entraram em campo, mas todos deram com os burros n’água. Nada foi apurado.

Os estudantes da corrente “Unidade” começaram a espalhar no campus universitário que aquilo só podia ter sido coisa do pessoal da “Libelu”.

A repressão contra os “porras loucas” foi intensificada.

No sábado seguinte, uma tartarugada regional era servida no capricho na casa da Verenilde, com a presença do diretor teatral Fernando Peixoto, que havia acabado de montar “Calabar – O Elogio da Traição”, do escritor Márcio Souza, do antropólogo José Ribamar Bessa Freire e de todos os militantes da “Unidade”: Guto Rodrigues, Bernadete Andrade, Rui Brito, Orlando Farias, Deise, Socorro Andrade, Mariolino Brito, Greco, Terezinha Araújo, Jorge Machado, Lino Chíxaro, Alice Alecrim, Nestor Nascimento, André Gatti, Palmes, Luiz Barreiro e o resto da curriola.

A vida bem vivida é feita dessas pequenas coisas...

PS: Pra quem não sabe, a Verenilde é tia da minha filha caçula, a Marisa. Mas na época ela não sabia que iria ter esse destino. Fazer o que?

Um comentário:

gaucho disse...

Rapaz,

Não entendi a foto da moça em decubito!

Bonita, mas...