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quinta-feira, março 04, 2010

Nós no Araguaia


Quando baixam as águas do Rio Araguaia, de maio a setembro, surgem maravilhosas praias de areia branca nas margens, formando milhares de ilhas, e imensos cardumes passam a desfilar pelo leito do rio barrento, que lembra um pouco o nosso Solimões.

É mais que o bastante para agitar pescadores de todo o País, principalmente os goianos, e atrair milhares de outro tipo de turista: aquele que não quer fazer nada e, ao mesmo tempo, não dispensa urbanidades como festas e boates, paqueras e esportes náuticos.


Nesse caso, são grupos de jovens e famílias inteiras que se abrigam em barracas de palha montadas só para este fim ou nos ranchos, uma mistura de hotel e colônia de férias.


É uma tradição que começou há 60 anos, com famílias tradicionais de Goiânia que passaram a acampar nas praias do Araguaia nas férias de julho e, na base da pescaria, fizeram a fama da região.


Nesse quadro, quem não quer sair do urbano deve se dirigir às cidades de Aruanã (GO) ou as vizinhas Aragarças (GO) e Barra do Garças (MT).

Quem preferir uma estada, digamos, mais selvagem, os melhores destinos são Cocalinho (MT), Xixá (GO), Bandeirantes (GO) e Luiz Alves (GO).

Mas o que torna o Araguaia um rio clássico é o desfile de cardumes que acontece em suas águas. São 120 espécies identificadas somente no Médio-Araguaia, trecho que vai de Aruanã à Ilha do Bananal, conforme pesquisa do biólogo Francisco Leonardo Tejerina, da Universidade Católica de Goiás.

Na lista, entre outros, estão curimatãs – o mais presente –, pintados e filhotes, os preferidos dos pescadores tanto para fisgar quanto para ir para a panela.

Há ainda um peixe especial, o aruanã, que povoa a mitologia da nação Karajá - habitante histórica da região.

Essa espécie é reconhecida como uma “entidade” pelos índios, em sua relação homem-natureza, o que talvez explique um pouco do encantamento que o Araguaia causa em todos aqueles que o conhecem.


Mario Arruda, o Capitão, um autêntico desbravador do Araguaia

Afinal, não é uma história de hoje. Segundo estudos antropológicos, foram possivelmente os antepassados dos karajá que começaram a “mania” de freqüentar as praias para se divertir, pescar e comungar com a natureza.

Isso foi há cerca de 800 anos e, de lá pra cá, os karajá, seus descendentes e os novos colonizadores nunca mais interromperam a tradição.


Em julho de 1989, atendendo a uma intimação do tuxaua Ademar Arruda (aka “Gato”), eu e Mário Adolfo resolvemos participar dessa experiência tribal, de caráter místico-alcoólica-tecno-hippie.

Ademar nos apanhou no aeroporto de Brasília, na manhã de um sábado, e nos levou diretamente para a região de Aragarças, onde a galera já estava acampada há uma semana. Chegamos ao rancho a bordo de uma pequena voadeira pilotada pelo próprio Ademar.

Havia umas 10 famílias no local, num total de quase 50 pessoas – sendo metade crianças. Entre os adultos, além do tuxaua Ademar e do pajé Mário Arruda (aka “Capitão”), estavam os guerreiros Evandro, Valtinho, Eldejames (sobrinho do Ademar), padre Jordelino, Valter, o gaúcho José Ternes, que não se separava do chimarrão nem mesmo quando tomava banho de rio, e mais uns três ou quatro de que não recordo o nome.

Conferi discretamente o estoque de bebidas. Havia 50 grades de cerveja Brahma, 50 caixas de Skol em lata, trinta litros de cachaça de alambique Cambeba, considerada a melhor do mundo, e dezenas de garrafas de vinho tinto, sidra, conhaque, rum, vodka, gim e Campari.

Aquilo era suficiente para embriagar aquele povo o ano inteiro, já que apenas umas dez pessoas (eu e Mário inclusos) bebiam diariamente. E a gente só ia ficar por lá durante duas semanas.


Na despensa do rancho também havia vários fardos de refrigerantes, água mineral, arroz, macarrão, feijão, farinha, milho, manteiga, óleo, embutidos de todos os tipos, frango congelado, ovos, carnes nobres (gado, carneiro e porco), frutas, verduras, legumes, etc. Os peixes seriam pescados na hora.

Um gerador fornecia energia elétrica para o barracão e para iluminar a área das barracas. Havia ainda um banheiro com água puxada por bomba e um sanitário dotado de vaso, mas no estilo “fossa turca”, distante, obviamente, uns 100 metros do camping.


Professor da UnB, o padre Jordelino havia perdido a perna direita em um desastre de carro e usava uma prótese. Era divertido ver as hordas de piuns trombando em sua perna de fibra de vidro em busca de sangue.

Além de ser um bom contador de causos, o padre bebia feito um condenado. Soube que ele faleceu há alguns anos. Uma pena!

Também professor da UnB, o antropólogo Mário Arruda chegou na região do Araguaia, em 1967, recrutado em Manaus pelo PCdoB, para participar da guerrilha de Xambioá.


Ele logo viu que aquilo seria a maior canoa furada da paróquia e, antes que as escaramuças tivessem início, se mandou para Goiânia, onde iniciou uma nova vida.

Em 1969, Mário Arruda recrutou seu irmão Ademar para tentar, como ele, uma nova vida na capital goiana.


Ademar, que na época era o melhor goleiro de Manaus (tanto em futebol de campo quanto em futebol de salão), não quis se profissionalizar apesar dos insistentes convites dos cartolas do Nacional, Rio Negro, Olímpico e Fast Clube.

Ele sobrevivia como trabalhador braçal da Cosama, cavando buracos para assentamento de tubos, e namorava a Mércia, irmã mais velha do Mário Adolfo, que já estudava Direito na FUA.

Atendendo ao convite do irmão, Ademar viajou pra Goiânia, comeu o pão que o diabo amassou, mas conseguiu se formar em Educação Física e, nos anos seguintes, virou o melhor treinador de natação da história de Goiás.

Invocado como todo tuxaua de sangue quente, ele havia voltado a Manaus uma única vez: para se casar com a Mércia e levá-la para Goiânia.


O advogado Romero e seu pai, o também advogado Leônidas, falecido no ano passado

Na época de nossa viagem, Mércia trabalhava em um escritório de advocacia em Goiânia, junto com o cunhado Leônidas, outro irmão recrutado pelo incansável Mário Arruda, enquanto Ademar era sócio de uma escolinha de natação em Anápolis.

Diariamente, ele se mandava pra Anápolis e retornava pra Goiânia no final do dia. Eu e Mário Adolfo chegamos a acompanhá-lo algumas vezes nessas viagens.

Ele e Mércia eram pais de Maluma, Talge e Tagore, que também estavam no rancho.


Valtinho, Marilúcia, Talge, eu e Dona Inês

Marilúcia, irmã do Mário Adolfo, seu filho Ludmilson, e Dona Inês Aryce de Castro, a matriarca da família, completavam o clã do qual eu fazia parte.

O restante da turma, eu só conheci quando cheguei no Araguaia. Mas era tudo gente boa.

Comerciante em Anápolis, Valtinho passava 24 horas por dia segurando uma latinha de Skol. Mário Adolfo o apelidou de “Valtinho Mão de Lata” e o apelido pegou.


Dono de um vasto bigodão, o engenheiro civil Evandro era o cantor oficial do rancho. Ele tinha a voz bonita e era um virtuose no violão. O problema era o seu repertório, calcado exclusivamente no melhor da música sertaneja.

Se, no primeiro dia, diante da novidade (e por causa da manguaça, claro), eu e Mário Adolfo aplaudimos entusiasticamente, a partir do quinto dia aquela cantoria sertaneja virou um autêntico “pé no saco”.

Aliás, a gente já havia aberto um precedente perigoso: no trajeto Brasília-Aragarças, perguntei do Ademar qual o tipo de música que os goianos curtiam.

Ademar colocou uma fita cassete no aparelho do carro e fomos obrigados a ouvir 57 vezes seguidas a música “As Andorinhas”, do Trio Parada Dura.



Ele acompanhava a música cantando alegremente a plenos pulmões e batucando no volante do automóvel.

Para evitar esse tipo de desconforto, eu havia levado um lote fitas cassetes (Beatles, Rolling Stones, Led Zeppelin, Deep Purple, Barry White, James Brown) e o Mário Adolfo, outro (Vinicius & Toquinho, Cartola, Lupícinio Rodrigues, Elis Regina, Belchior, Raul Seixas).

No rancho, Ademar nos presenteou com um pequeno toca-fitas cassete de sua propriedade. O problema é que não havia pilhas. A gente só podia ligar o aparelho dentro do barracão do rancho, onde existia luz elétrica.

Como as cantorias noturnas do Evandro eram realizadas à beira de uma fogueira acesa a uma boa distância do barracão, não havia como nossas músicas interferirem nas dele. Essa política de boa vizinhança só funcionou até o sábado seguinte.

Na primeira semana, a minha rotina diária era a mesma. Eu saía da barraca de camping por volta das seis horas da manhã, escovava os dentes, caía na água (um gelo!) e começava a beber.

O Mário Adolfo só entrava na água pra beber depois das 10 horas da manhã. Devia ser alguma simpatia dele, sei lá.

O café era servido no barracão pontualmente às oito horas da manhã, o almoço ao meio-dia e o jantar às sete da noite. Por volta de meia-noite, as luzes do rancho eram desligadas e todo mundo se recolhia às suas barracas.

Das seis da manhã às seis da tarde, a sensação térmica era de que você estava no deserto da Namíbia, porque o sol era verdadeiramente abrasador.


Quando anoitecia, entretanto, a sensação térmica era de que você estava morando na Antarctica. Para suportar o frio da gota serena, era necessário se agasalhar e ficar perto de uma fogueira. A cachaça de alambique havia sido levada para combater aquela friagem maligna.

O tuxaua Ademar nos ensinou alguns macetes: nunca entrar na água correndo para não ser ferrado pelas gigantescas arraias existentes no rio. O certo é entrar no rio arrastando os pés no leito arenoso, que as arraias vão embora.

Ele também nos ensinou a pegar peixes com as mãos, se jogando rapidamente em cima dos cardumes, mas normalmente estávamos bêbados demais para que as inúmeras tentativas obtivessem êxito.


O Mário Arruda resolveu exibir seus dotes de mateiro calejado e nos deu uma aula prática de sobrevivência na selva, embora eu desconfie que metade dos nomes de árvores que ele nos mostrou tenha sido inventada naquela hora.

No domingo, o rancho foi visitado por um grupo de voluntários membros da ONG “Amigos do Araguaia”.

Eles descem o rio de caiaques e vão parando em cada rancho para dar conselhos ambientalmente corretos sobre a flora e a fauna da região e conscientizar os turistas sobre a importância de manter limpos o leito, as margens e as praias do Rio Araguaia.

– Se vocês tivessem chegado aqui há dois dias, teriam evitado um crime ambiental! – expliquei para o rapazinho que me pareceu ser o chefe do grupo.

Disse isso e o levei até a cozinha do rancho, onde o cantador Evandro preparava um portentoso ensopado de jacaré, abatido por eles na sexta-feira.


Aproveitei para mostar a cabeça do jacaré sendo secada ao sol.

Transtornado, o rapazinho deixou o nosso rancho almadiçoando todo mundo.

Sem parar de temperar o ensopado, Evandro ficou me olhando puto da vida. Limitei-me a aconselhar:

– Bicho, se eu fosse você já tinha jogado essa porra no meio do rio, pra servir de comida pras piranhas. Pela quantidade de pragas que o moleque nos jogou, quem provar desse ensopado vai ficar com diarréia...

Não deu outra.


Na tarde de domingo, o sanitário do rancho ficou congestionado. O desmantelo foi tão grande que, no dia seguinte, um novo sanitário teve que ser providenciado às pressas.

Mais naturalistas do que nunca, eu e Mário Adolfo havíamos descoberto uma nova maneira de se divertir.


Em vez de freqüentar o banheiro do rancho e suas nuvens de moscas, mosquitos, piuns e meruins, a gente atravessava o Rio Araguaia (na sua parte mais profunda a água não passava da altura do meu peito) e fazíamos nossas necessidades fisiológicas em Mato Grosso, já que do outro lado do rio era o município de Barra do Garças.

A idéia seria, após o nosso retorno a Manaus, zoar com a jornalista matogrossense Solange Elias, garantindo que o seu estado natal não passava de um cagadouro fuleiro.


Durante a primeira semana, Evandro, Ademar ou Valter se revezavam como pilotos das voadeiras e nos levavam para conhecer outros ranchos – alguns, com cerca de 500 pessoas e bandas tocando ao vivo.

Ver aquelas meninas goianas bronzeadíssimas era um colírio para os olhos. Ah, meu Deus, as meninas goianas...

Foi então que na noite do sábado seguinte a cobra Norato se mexeu no leito do rio.

Como sempre fazíamos, eu e Mário Adolfo estávamos bebendo e escutando os Beatles dentro do barracão do rancho praticamente sozinhos.

Sei lá por que cargas d’água, mas nessa noite a turma da cantoria resolveu abandonar o luau em torno da fogueira para vir tocar ao vivo dentro do barracão. Não demos a mínima.

De repente, durante a execução de um hit da dupla Matogrosso e Mathias (argh!), o Evandro se invocou de que a música do nosso pequeno gravador estava lhe tirando a concentração. Pediu pra gente desligar o aparelho.

Mário Adolfo, na condição de cunhado do tuxaua do rancho, falou que não desligava o gravador nem pelo caralho.

Argumentei, numa boa, que deixar de ouvir Beatles para ouvir Matogrosso e Mathias (argh!) iria manchar pro resto da vida nossa carreira de betalemaníacos renitentes.

Um dos participantes da cantoria, o padre Jordelino, morto de bêbado, não se fez de rogado: pegou um terçado e zás, cortou o cabo AC do aparelho. O gravadorzinho emudeceu.

Ficamos escutando aquele repertório sertanejo em silêncio, com os colhões atravessados na garganta.


O Ademar estava pescando de malhadeira do outro lado da ilha. Quando ele chegou, com um novo lote de pintados, dourados e filhotes, contamos o que havia acontecido.

O nosso tuxaua não se fez de rogado: pegou o mesmo terçado e partiu pra cima do Evandro, disposto a bandar o violão ao meio. Começou a confusão.

Gritos, discussão, xigamento daqui, xingamento dali, Mário Arruda veio ver o que estava acontecendo e já se armou com uma pernamanca para atacar os “inimigos”.

O Ademar estava possesso – e com razão. Ele, sozinho, arrebentaria uns três sujeitos a terçadadas. O Mário Arruda, outros dois.

Ainda sobrariam dois: o padre Jordelino e o pacifista Valtinho Mão de Lata.

Como guerra é guerra, eu e Mário Adolfo já estávamos escolhendo qual dos dois seria vítima de nossa primeira cadeirada.

Foi quando o mulherio entrou no circuito, esculhambando “aquele bando de machos que não sabiam beber e depois ficavam dando escândalo”. Foi um pára pra acertar.

Depois de meia-hora de bate-boca, os “quase-brigões” se recolheram às suas barracas.


Evandro, Valter, eu, Eldejames, Tágore, Ademar e Mauro (filho do gaúcho José Ternes)

Na manhã seguinte, quando foi servido o café, estavam todos com caras de “Madalenas arrependidas”. Um constrangimento geral.

Pra completar, não havia mais talheres no rancho.

É que durante a confusão, Dona Inês, com receio de aquilo descambar para uma pancadaria generalizada, escondeu todas as facas, colheres e garfos em um buraco na areia e não se lembrava mais da localização exata.

Coube às crianças inventarem uma divertida caça ao tesouro – e em meia hora elas já haviam transformado a praia em um autêntico queijo-suíço –, até conseguirem encontrar as peças diligentemente escondidas.

No domingo, Ademar Arruda pegou a voadeira, foi até Aragarças e retornou com um novo cabo AC pro gravador.

Os cantadores foram definitivamente exilados do barracão do rancho, nós voltamos a usar nosso gravadorzinho e a paz voltou a reinar no pedaço.

No sábado seguinte, eu e Mário Adolfo nos despedimos da galera e o prestativo Ademar Arruda foi nos levar até Brasília, de onde embarcaríamos para Manaus.

Ainda havia no rancho 20 grades de cerveja Brahma e 20 caixas de cerveja Skol em lata.

Quando a voadeira começava a se afastar do rancho, falei pro Mário Adolfo:

–Bicho, se aquelas cervejas fossem Antarctica, acho que a gente teria entrado em coma alcoólica...

Mário Adolfo morreu de rir.


Nunca mais ter voltado ao Araguaia é um dos grandes pecados veniais que tenho cometido ao longo desta minha atribulada existência.

Porque, sinceramente, aquelas duas semanas de curtição foram uma das melhores férias de minha vida.

2 comentários:

sici pirangy disse...

Porra simão, das maravilhas que vc já escreveu, esta foi a melhor. As figuras que vc mostrou nas fotos como Dona Ines, o portugues, o Ademar, o Mario são pessoas que tenho grande carinho, valeu maluco!

Tágore Aryce disse...

Grande mestre Simão! Cheguei ontem do Araguaia, sempre na mesma ilha, mas dessa vez em período de cheia! Nosso acampamento completa 25 anos esse ano, tradição que certamente vai passar por muitas gerações. Ratificando os convites de outros anos, em julho de 2010 estaremos lá, na nossa 25a ediçao! A ilha te espera e nós também! Um abraço!