terça-feira, agosto 17, 2010

Da série "Vale a pena ler de novo": Frank Miller - Trevas em Quadrinhos

Marcel Plasse

Super-herói não é um conceito moderno. A crise da meia-idade abate a maior parte dos superseres consagrados. Os tempos mudaram e com eles os quadrinhos. Novas séries como Watchmen de Alan Moore estão mexendo fundo na questão crucial: o que aconteceria se, de fato, existissem super-heróis no mundo real?

No centro de toda esta controvérsia está uma minissérie de quatro capítulos (lançada no Brasil pela editora Abril) que se prepara para voltar às bancas sob a forma de uma edição única encadernada: O Cavaleiro das Trevas (The Dark Knight). Estrelando um envelhecido e ultraviolento Batman, que volta à ativa num futuro à beira do colapso, dominado por gangues de rua sanguinárias, mísseis nucleares, políticos decadentes e uma mídia sensacionalista. Uma visão de expressionismo urbano com o dramático impacto do melhor film noir.

O homem por trás desta obra-prima - ele não se esconde sob nenhuma identidade secreta - chama-se Frank Miller. Sua carreira começou aos 20 anos, como desenhista da revista Twilight Zone, da Gold Key Comics. Logo passou a desenhar episódios da revista Weir War (histórias de terror) para a D.C.. Mas foi na Marvel que seu nome começou a brilhar. Não com seus primeiros trabalhos, dois números do Homem-Aranha, mas com um herói com a vida comprometida pela pouca vendagem: O Demolidor.

A princípio como desenhista e logo também como roteirista, Miller não só impediu o cancelamento da revista como a tornou uma das mais cultuadas publicações dos quadrinhos americanos. O coroamento deste sucesso se deu com a criação de seu primeiro personagem, Elektra, uma ninja assassina que, contudo, era o verdadeiro amor do herói. Esta saga acabou lhe rendendo, aos 24 anos, um bom indício da celebridade que agora, aos 30 anos, desfruta. Hoje, sua obra pode mesmo ser comparada às de seus ídolos Will Eisner (o criador de Spirit) e Hugo Pratt (Corso Maltese).

Frank Miller ao telefone (ligação noturna para Los Angeles), contrastando com a ambientação fria e depressiva de suas histórias, soa maroto e sorridente. Nossa conversa começa justamente com a ponta do iceberg, a melhor história em quadrinhos escrita em anos: O Cavaleiro das Trevas.


BIZZ - Como você teve a idéia deste velho e ultraviolento Batman?

Miller - Eu tive essa idéia olhando os quadrinhos que estavam sendo publicados. Eles me pareciam um pouco pobres e envelhecidos... O envelhecimento de Batman é um mito. E como eu estava trabalhando nele, fiquei me divertindo com isso. Tentei torná-lo um pouco mais realista. E tentei reintroduzir a idéia do super-herói como um fora-da-lei, um foragido.

BIZZ - Um jornal em Nova York chamou seu Batman de neoconservador...

Miller - (risos) Eu próprio não sou neoconservador. E não vejo Batman como um tira ou um direitista. Como eu disse, eu o vejo como um dissidente, um transgressor!

BIZZ - E o conflito entre Batman e Super-Homem em sua história? Você vê Super-Homem como uma espécie de herói da era McCarthy?

Miller - Ele é o genuíno direitista da história. Ele é a direita americana... ou o neoconservadorismo americano. Um cachorrinho de Donald Reagan. Há muito de neoconservador em sua atitude de manter as coisas como estão, sob controle.

BIZZ - E Batman é um sádico?

Miller - (pausa) Eu acho que ele é alguém que ama o seu trabalho (risos).

BIZZ - Na minissérie Cavaleiro das Trevas, Robin é uma garota...

Miller - Esta foi uma idéia que eu tive olhando seu uniforme, really! O uniforme de Robin sempre me pareceu melhor numa garota!

BIZZ - Você começou a escrever histórias com o Demolidor, não? E ele se tornou superviolento. Você criou Elektra, uma assassina mortífera adorável! (Frank ri) E trabalhou com o mais violento X-Men, Wolverine... Você gosta de violência?

Miller - Eu certamente fiz muitas histórias violentas. Q que costumo fazer é escrever histórias sobre combatentes do crime. E eles não fazem qualquer sentido a menos que os criminosos estejam cometendo crimes reais. E, você sabe, se um dos meus heróis veste um uniforme e vai à luta, ele precisa ser tão violento quanto os criminosos.

BIZZ - Você também tem bastante atração por artes marciais, ninjas e Lâminas orientais. Elektra, Wolverine e Ronin estão cheios destas coisas...

Miller - Elas são o grande ideal da minha vida. São as coisas que eu estudo.

BIZZ - As minisséries de Elektra e Ronin vão ser lançadas no ano que vem no Brasil. Você pode nos adiantar algo sobre as histórias?

Miller - Elektra, eu desenvolvi com Bill Sienkiewich. Ela é engraçada, a seu modo!

BIZZ - Engraçada?

Miller - É puro humor negro ainda inocente e violenta. É a história de uma ninja assassina que decide assassinar o presidente dos Estados Unidos - na verdade, o homem que está concorrendo ao cargo. Ele é uma criatura muito maligna...

BIZZ - Como o candidato de A Hora da Zona Morta (filme de David Cronenberg)?

Miller - Hmm! É diferente daquilo, embora você possa comparar. O candidato presidencial trabalha para um monstro (a besta apocalíptica)... Na história, há um agente da CIA (na verdade, da SHIELD, organização fictícia dos quadrinhos, comandada por um ex-veterano da Segunda Guerra e amigo do Capitão América. Miller trata a SHIELD em sua história como se fosse, de fato, a CIA) que é parte robô. A arte de Bill Sienkiewich na série é extraordinária! (nova pausa)... E Ronin foi o primeiro livro que eu fiz com Lynn Varley (pintor original da série Cavaleiro das Trevas). Eu escrevi e desenhei em 1984. E é um trabalho do qual eu tenho muito orgulho. É a história de um samurai reencarnado na América do século 21.


BIZZ - Você também trabalhou com o Homem-Aranha...

Miller - Eu fiz uma ou duas histórias, yeah!

BIZZ - E que tal? O Homem-Aranha é o herói mais tradicional da Marvel...

Miller - Sim. Quando Steve Ditko e Stan Lee o criaram, ele era um novo tipo de personagem, muito excitante. Mas, com o passar dos anos, como Super-Homem, ele ficou cansado.

BIZZ - O que você está fazendo agora?

Miller - Estou trabalhando em novos personagens. Um deles com Dave Gibbons. Ele criou Watchmen - você já viu Watchmen?

BIZZ - De Alan Moore? É um grande trabalho. Vai ser lançado em 1988 por aqui também.

Miller - Yeah! O desenhista é Dave Gibbons. Nós estamos fazendo uma nova série sobre um agente do governo: uma mulher no século 23.

BIZZ - Pela D.C. também?

Miller - Oh, não! Nós ainda não temos um editor. (Pausa) Outra coisa que eu estou fazendo é uma Graphic Novel da Elektra para a Marvel. Estou escrevendo e desenhando e Lynn Varley está colorindo.

BIZZ - Você tem um herói favorito?

Miller - Hmm... Suponho que é Ronin.

BIZZ - Ainda há lugar para super-heróis na cultura contemporânea?

Miller - Eu não acho que os super-heróis que nós conhecemos - Super-Homem, Homem-Aranha, Batman... - realmente tenham algum futuro. Eu acredito que o futuro são os novos personagens que estão sendo criados por novos artistas.

BIZZ - Por exemplo...

Miller - Eu adoro Alan Moore, Bill Sienkiewich... Minha revista favorita, não sei se você já viu, é a independente Love and Rockets.

BIZZ - Você também está trabalhando como independente agora, não? A última notícia, aqui no Brasil, era que você tinha abandonado a D.C. por causa da adoção do uso de selo de impropriedade em certas revistas da editora... A censura é muito dura nos Estados Unidos?

Miller - Ela é muito ruim. Sério. Há campanhas públicas envolvendo o candidato neofundamentalista à presidência, Pat Robertson.

BIZZ - E os papais? São um pé no saco?

Miller - (risos) Certamente são! Assim como os editores de quadrinhos na América. Eu e outros artistas tentamos barrá-los nos recusando a trabalhar com eles.

BIZZ - O que você acha de super-heróis legais, bonzinhos, como o Super-Homem interpretado por Christopher Reeve no cinema?

Miller - Eu não gosto dos quadrinhos das crianças. Eu prefiro heróis um pouco mais assustadores.

BIZZ - E o Super-Homem reestruturado por John Byrne?

Miller - Ele se parece com um Super-Homem que eu nunca li antes. Mas não é tão diferente quanto podia ser.


BIZZ - Os quadrinhos que você cria são completamente cinematográficos. Dá para ver sombras de fim noire Hitchcock. São suas influências?

Miller - Eu sou um grande fã de Hitchcock e estudo muito film noir dos anos 40 e 50. Também amo os livros de Jim Thompson e as novelas que inspiraram o cinema noir.

BIZZ - Você não tem planos de fazer filmes?

Miller - Nada que eu possa realmente dizer. De qualquer forma, eu amo quadrinhos. Eu estou próximo de trabalhar com filmes. Mas o que eu realmente quero é fazer quadrinhos, mais do que qualquer coisa.

BIZZ - Você prefere escrever ou desenhar?

Miller - Ambos.

BIZZ - Você nunca mudou de idéia sobre coisas drásticas em seu trabalho, como a morte de Elektra?

Miller - Eu não mudei de idéia.

BIZZ - Mas Elektra é um de seus personagens favoritos. Você está trabalhando nela agora... mesmo morta?

Miller - Isso é uma história estranha. Uma história de terror.

BIZZ - Como é a história?

Miller - A história é sobre Mau Murdock, o Demolidor, que é assombrado por Elektra.

BIZZ - Hmm... Você gosta do Demolidor? A última vez que você escreveu suas histórias, colocou-o na sarjeta... Praticamente o destruiu!

Miller - Yeah! (risos) Eu adoro trabalhar! Eu adoro fazer histórias!


BIZZ - E se o Batman e o Demolidor se encontrassem?

Miller - Oh, eu acho que seria emocionante! Infelizmente, Marvel e D.C. não se amam; Marvel possui o Demolidor. E a D.C., Batman.... Assim, eles nunca vão poder se encontrar!

BIZZ - Mas já aconteceram crossovers juntando Super-Homem e Homem-Aranha, Batman e Hulk...

Miller - Yeah. Mas isso foi antes. Agora as editoras se odeiam!

BIZZ - E a outra heroína/namorada do Demolidor, a Viúva Negra? Você tem planos pra ela?

Miller - Não. Eu só trabalho com novos personagens agora, exceto Elektra.

BIZZ - Elektra é a única coisa que você planeja fazer para a Marvel ou D.C.?

Miller – That’s right!

BIZZ - Vai ser difícil, então, acompanhar seu novo trabalho, já que não há representantes das pequenas marcas no Brasil.

Miller - Eu acharei meios de ter meus livros publicados aí. Apenas no ano passado meu trabalho começou a chegar ao Brasil e a outros lugares do mundo. Eu tenho certeza de que eles vão continuar a chegar. Não são necessárias grandes editoras para arranjar isso... Eu posso arranjá-lo! (Pausa) A propósito, que tipo de quadrinhos vocês fazem no Brasil? Eu gostaria de conhecer. Você poderia me mandar alguns?


(publicado na revista Bizz de dezembro de 1987)

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