quinta-feira, agosto 19, 2010

O Manifesto Masculinista de Marcelo Mario de Melo


Masculinismo é a palavra nova que aponta o caminho da masculinidade sem machismo. A partir dela, e sob a forma de um manifesto, o autor satiriza os padrões asfixiantes que envolvem a condição humano-masculina nos dias atuais. Com humor ferino, sem vitimismo nem arrogância, são apresentadas reivindicações e propostas para uma convivência mais solidária entre os diversos segmentos sexuais.

Contra: o terror machista; a ditadura clitoriana; o autoritarismo gay.

Sarro inicial/prefácio

O Manifesto Masculinista tornou-se público em setembro de 85, nas páginas do “Rei da Notícia”, jornal de humor editado no Recife até 1988.

Posteriormente reproduzido no Pasquim (ed. 848, Rio 10/10 a 16/10/85), estimulou o manifesto do MMC – Movimento Masculinista Carioca.

Foi comentado em artigo da Playboy (ed. 34, set/86), transcrito com algumas alterações no jornal feminista Mulherio n° 25, SP, março-agosto/86, indicado no “TIL Notícias” n° 3, dezembro/86, das Edições Trote, resenha editada por Leila Miccolis no Rio.

Jean Claude Nahoum o transcreveu no livro “A Construção da Sexualidade Feminina”, da Eleá Ciência Editorial Ltda, Rio 89.

Em cidade sulista de que não me recordo, um vereador petista o imprimiu como instrumento de campanha eleitoral, em 88.

De vez em quando, sei da sua multiplicação em cópias xerográficas ou mimeografadas.

Quatro anos depois de ser lançado, o texto foi republicado no Jornal do Commercio, Recife, edição 4-9-89.

Na ocasião, assinalei em entrevista a inclusão da licença-paternidade na Constituição Federal de 88 e toquei na questão da AIDS, colocada em primeiro lugar nas paradas do sucesso mórbido e atribulando, particularmente, o segmento masculinista dos refratários ao preservativo.

Relendo hoje o manifesto, considero-o válido como documento de instigação e não me proponho a alterá-lo. Nesta edição, apenas, ligeiras novidades, como o esclarecimento de que a “opção fundamental” pelas mulheres é fundamental e exclusiva, a “liberação da lágrima masculina” posta em local mais adequado, a “Nova República do machismo” trocada pelo respectivo “neoliberalismo”, o acréscimo de que, “nas coisas de coração e cotovelo”, todo homem é igual a qualquer mocinha.

Além de se reivindicar: a plena igualdade de acesso homem/mulher, usando-se bermudas e camisetas sem mangas; a condição de “primeiros cavalheiros”, com direito à Legião Assistencial competente, caso companheiros de prefeita, governadora ou presidenta; o fim do serviço militar obrigatório e exclusivo para homens.

No texto se rejeita o modelo de masculinidade que nos é imposto desde criancinhas, propondo-se uma masculinidade sem machismo. O que não tem nada a ver com tiradas tipo: “lado feminino” do homem para qualificar suas expressões de leveza e ternura é tão primário e ridículo quanto se atribuir a um pretenso “lado masculino” da mulher, suas impulsões de combatividade e firmeza.

Masculinistas desumildes e desarrogantes, proclamamos que nossa condição humana é o melhor de nós e rejeitamos todas as fórmulas simplificadoras para interpretar o nosso gênero e equacionar as possibilidades do bem-estar humano-masculino.

Recusamo-nos a substituir a imitação mecânica do pai-herói machão pelo macaqueamento da super-mãe liberada. Negamos que a solução dos problemas dos homens venha a ser um resultado ou uma dádiva da luta das mulheres. Entendemos que só os masculinistas libertarão os masculinistas, em solidariedade suprema com as companheiras mulheres a abertos a todos os segmentos/movimentos libertários. Afinal de contas, trata-se de elevar a taxa de felicidade para todos.

Recife, outubro de 1991

Marcelo Mário de Melo

Cabecinha

Nas questões ligadas á discriminação e aos papéis sexuais, as mulheres já estão na sua, os homossexuais idem, os bissexuais também. E até machões se organizam esse solidarizam, como se viu no caso daquele cara que ferrou a mulher no rosto e teve o apoio da Associação dos Maridos Traídos, fundado no Ceará.

Todos os setores se mobilizam. E como focamos nós, que não somos mulheres, nem homossexuais, nem bissexuais, e rejeitamos o modelo machista que nos é imposto desde criancinhas como a marca da masculinidade?

A resposta está no masculinismo – uma movimentação crítico-autocrítica, reivindicativa, desfrutativa, solidarista e convivencial.

Sabemos que, de cartas de princípios e discursos generosos, a humanidade já está de sacos e ovários repletíssimos, colocamos os dedos nas feridas através de um manifesto e proclamamos, indicativamente, o que rejeitamos e pretendemos transformar para viver melhor.

Começo de Penetração

MMN – Movimentação Masculinista Nordestina.

Símbolo – um cacto ereto ou em repouso.

Observação – um cacto sem espinho.

- Contra o terror machista.

- A ditadura clitoriana

- O autoritarismo gay

- Pela reconciliação do espermatozóide com o óvulo.

Renunciamos a todas as prerrogativas do poder machista.

Que omem seja escrito sem “H”

Ao nos consideramos superiores bem inferiores ás mulheres, aos homossexuais e aos bissexuais: somos diferentes e iguais.

Rejeitamos todos os modelos prefabricados se sexualidade, caretosos ou vanguardeiros, partindo de três princípios: 1) carência não se inventa; 21) receita, somente de bolo; 3) vanguarda também é massa.

Somos solidários com qualquer saída ou entrada sexual que a humanidade venha inventar e curtir, desde que não haja imposição e violência.

Exigimos que se respeite a nossa opção fundamental e exclusiva: gostamos é de mulher.

Aprofundando a entrada

- Abaixo o guarda-chuva preto. Não somos urubus.

- Abaixo as exigências do paletó e da gravata.

- Contra o serviço militar obrigatório e exclusiva para homens.

- Contra o relógio-bolachão.

- Pelo direito de mijar sentado.

- Pelo respeito ao pudor masculino: mictórios privativos.

- Pelo amparo aos pais solteiros, abandonados pelas mulheres amadas desalmadas.

- Creches dos bares

- Queremos pensão por viuvez, auxílio-alimentação e licença-paternidade. Não amamentamos, mas podemos trocar fraldas

- Contra o fechamento do mercado de trabalho aos homens. Queremos ser secretários, telefonistas, babás e tiüos de escolinha.

- Não queremos ser “chefes-de-família”, nem regentes sexuais. Igualdade fora e em cima da cama.

- Queremos transar mais por baixo.

- Queremos ser tirados pra dançar.

- Queremos ser cantados e comidos pelas mulheres.

- Pelo direito de dizer “não” sem grilos nem questionamentos da nossa masculinidade.

- Pelo direito de broxar sem explicação. Mulher também brocha. Aquele ou aquela que nunca brochou, atire primeira pedra.

- Abaixo a máscara da fortaleza masculina!

- Pelo direito de assumir nossas fragilidades.

- Pela liberação da lágrima.

- Proclamamos que nas coisas de coração e cotovelo todo homem é igual a qualquer mocinha.

- Abaixo o complexo de corno. Por que mulher não e corna? Fidelidade ou infidelidade recíproca.

- Cavalheirismo é cansativo e custoso. Delicadeza é unissex. Que seja extinto o cavalheirismo ou se instaure, também, o damismo.

- Queremos receber flores.

- Pela igualdade de acesso homem/mulher, quando usa bermudas ou camisetas sem mangas.

- Queremos ser “primeiros cavalheiros”, com direito à Legião Assistencial competente, caso companheiros de prefeitas, governadoras e presidenta.


Empurradinha Final

- Exigimos a modificação do Pai Nosso: a) Pai e Mãe nosso que estais no céu...; b) Bendito o fruto do vosso ventre, do nosso sêmem.

- Pela capacitação dos homens, desde a infância,para as tarefas tidas como “essencialmente femininas”. Reciclagem geral. Queremos aprender corte e costura, culinária, cuidado de crianças, etc. em contrapartida, ensinaremos ás mulheres: trocar pneu de carro, bujão de gás, lâmpada e fusível; dar porrada, atirar e espantar ladrão; matar barata e rato.

- Pela paternidade de responsável e contra a gravidez e os filhos serem utilizados como elementos de chantagem sentimental sobre nós.

- Pelo respeito à intuição masculina.

- Denunciamos a utilização depreciativa das expressões “cacete”, “caralho”, “pra cacete”, “pra caralho”. Exigimos que cada um ou cada uma se posicione: cacete/caralho é bom ou não é? Se é bom, respeitem como ao seu pai ou à sua mãe.

- Protestamos contra o fato do nosso órgão do amor ser representado por espadas, canhões, porretes e outros instrumentos de agressão e guerra. Só aceitamos a simbolização a partir de coisas gostosas e sadias: chocolates, biscoitos, bananas, picolés, pirulitos, etc.

- Denunciamos como principais vias condutoras do machismo: as vovozinhas cândidas, as mulherzinhas dondocas, as mãezinhas possessivas e as professoronas assexuadas.

Orgasmo Total

Consideramos que muitos masculinistas trabalham dois expedientes, estudam e freqüentam um milhão de reuniões e eventos, sem falar das poligamias possíveis, não iríamos incorrer na atitude fascistóide de inventar mais uma reunião pra a comunidade masculinista. Portanto o nosso princípio de organização é o seguinte: grupos de um e cada grupo obedece a seu chefe. Assembléias gerais com ego, id e superego. Voto de minerva para ego.

Convencidos de que a perfeição não é uma meta e é um mito, procuramos fazer um esforço no sentido de romper com 70% do nosso machismo atual e acrescentar sempre novos itens neste Manifesto, aceitando a contribuição crítica e propositiva de todos os masculinistas e outros segmentos sexuais, preservada a nossa opção fundamental e exclusiva pelas mulheres.

Denunciamos os machões enrustidos que, utilizando o discurso masculinista, pretendem, apenas, dar os anéis para não perderem os dedos. Recuam em 30% de machismo para manterem os 70%. É o neoliberalismo do machismo.

Somos todos oprimidos. E sendo os homens, estaticamente, minoritários diante das mulheres. Nós, homens masculinistas, sofremos a pressão dos machões, das feministas sectárias e dos homossexuais autoritários mais oprimida. Requeremos, portanto, o apoio extremo e a solidariedade máxima por parte da sociedade inservil.


Tirando de Dentro

Com o objetivo de recolher elementos críticos, este Manifesto foi enviado ao Movimento dos Machões-ões-ões, à Federação das Feministas-Istas, Istas, e a Irmandade dos Homossexuais-Ais-Ais, infelizmente, somos obrigados a publicá-lo sem os pronunciamentos destas entidades, devidos aos contratempos que as atingiram.

No Movimento dos Machõed-ões-ões, o presidente tinha ido a um motel com moça e brochado pela primeira vez. Entrou em profunda crise psíquica e foi internado na clínica psiquiátrica mais próxima, depois renunciar o mandato. Na diretoria do MMOO irradiaram-se a insegurança as brochações e internações generalizadas, não havendo clima para a discussão do nosso Manifesto.

Na Irmandade dos Homossexuais-Ais-Ais, a maioria dos diretores conjugava o verbo na voz passiva e, nas transas de sexta para sábado, só topou com parcerias que tinham ejaculações precoce, instalando-se, também aí, um clima impropício aos eventos analíticos.

Na Federação das Feministas-Istas-Istas chegou a ser convocada e iniciada a reunião, mas, quando o Manifesto ia ser lido e debatido, irrompeu de surpresa na sala um tremendo guabiru, que subiu pelas pernas da presidente e galopou sobre a mesa. Predominando o subconsciente tradicional, houve correria e pânico generalizado – e a Movimentação Masculinista Nordestina deixou de contar com mais essa contribuição.

(Edição do Autor, outubro de 1991, 3 mil exemplares. Capa, programação visual e editoração eletrônica, Paulo Santos. Revisão, Lamartine Morais. Impressão, Gráfica Pernambucana LTDA)

Comentários

“Julguei enriquecer nossa discussão sobre o feminismo um discurso masculino e não-machista, que se intitula “Masculinismo” e foi estampado no Jornal Mulherio, n° 25”. (Jean Claude Nahoum in “A Construção da Sexualidade Feminina”)

“Li um manifesto maculinista que, em meio à galhofa, diz coisas lúcidas e curiosas, dando boas pistas para as mulheres que querem chegar mais perto do homem.” (Edith Elek Machado – Playboy 154/86)

“Foi o último Rei da Notícia que transcrevemos um dos mais inteligentes textos publicados sobre a chamada Guerra dos Sexos. Eu diria – uma vez que ridiculariza o absurdo das colocações machistas – que é um dos melhores textos feministas escritos por um homem” ( Mara Teresa Jaguaribe – Pasquim 848/85)

“Está é sem dúvida um momento histórico: os homens deixaram de se considerar a humanidade e descobriram-se outra metade, com gostos, preferências, carências. Como todo início de movimento, a MNN (Movimento Masculinista Nordestina) é um tanto radical, queixosa e a acusatória. Temos certeza que, com o passar do tempo, algumas de suas afirmações serão revistas...” (Jornal Mulherio 25/86)

“O Manifesto Masculinista é um texto de leitura ‘obrigatória’ por parte de todos os que lutam em prol de uma sociedade mais justa e libertária” (Leila Miccollis)

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