sexta-feira, dezembro 31, 2010

Se no próximo ano as coisas correrem erradas, solte seu grito de guerra: Fuck You!



Pra muita gente, essa aí foi a música do ano. Estou postando pra vocês curtirem um bom balanço nessa virada de década e aprenderem o que dizer quando pisarem no seu calo.

O senador Artur Neto, por exemplo, utiliza a expressão a exaustão quando se refere a um conhecido desafeto político.

Multi-talentoso e chamativo, Cee-Lo inicialmente ganhou notoriedade para si e para seu particular estilo vocal como parte do grupo de rap Goodie Mob, até se separar no começo dos anos 2000 para uma frutífera carreira solo.

Ao lado de grupos como o OutKast, o Goodie Mob alicerçou o movimento Dirty South na metade dos anos 90 com seu impactante debute, Soul food (1995).

Quando saiu do Goodie Mob, Cee-Lo se lançou em uma carreira solo, contratado pela Arista, que surfava no sucesso de Stankonia, do OutKast (especialmente o single Ms. Jackson), além do movimento neo-soul, com cantoras como Alicia Keys, Jill Scott e Macy Gray.


O chefe da Arista viu o potencial em Cee-Lo e deu sinal verde para que ele gravasse seu primeiro disco solo, que surgiu na forma de Cee-Lo Green and his perfect imperfections, de 2002.

O disco soava diferente de qualquer coisa lançada na época – diferente do Goodie Mob, diferente dos discos de neo-soul – e a única semelhança era com alguns rincões esquisitos do Stankonia.

O disco nunca decolou comercialmente, mesmo com algumas maluquices de Cee-Lo (como o clipe esquisito de Closet freak e uma turnê ao vivo na qual o cantor aparecia sem camisa).


O grandão tatuado teve de voltar ao trabalho e lançou, em 2004, Cee-Lo Green is the soul machine.

O segundo disco era tão livre quanto o debute, mas, ao mesmo tempo, mais focado, ancorado em alguns singles radiofônicos produzidos por hitmakers com o toque de Midas, como Timbaland (I’ll be around), Jazze Pha (The one) e os Neptunes.

O disco foi lançado ao mesmo tempo que a Arisia coletava Grammys com o sucesso de Speakerboxxx/ The Love Below, do OutKast, que tinha uma sonoridade similar à do álbum de Cee-Lo.

Em 2006, Cee-Lo ficou verdadeiramente conhecido no mainstream como parte do Gnarls Barkley, duo montado com o produtor Danger Mouse.

O single Crazy, do debute St. Elsewhere, foi um hit imediato na Inglaterra e nos EUA.

Os elogios da crítica e o sucesso comercial do Gnarls Barkley colocaram os holofotes mais do que nunca em Cee-Lo.

A dupla chegou a lançar outro disco, The odd couple, em 2008, antes de se separar.


Este ano, Cee-Lo gravou seu terceiro disco solo, The lady killer, que registra sua pegada única de soul, pop e hip hop no século 21.

O disco foi catapultado ao estrelato com o sucesso do hit ousado Fuck you, uma deliciosa vingança musical contra uma ex-namorada interesseira, que, eventualmente, ganhou uma versão comportada para as rádios, chamada Forget you.

Do disco, já saiu também o single It's OK.

Curtam mais Cee-Lo clicando aqui.

quinta-feira, dezembro 30, 2010

Voltando a ser criança


Antes de se mandar para o Rio de Janeiro, onde se transformou em designer gráfico bem sucedido (trabalhou durante mais de 20 anos como programador visual do JornaL do Brasil), artista plástico de sucesso (já fez exposições nos Estados Unidos, Holanda e Alemanha) e músico de alto coturno (é autor dos CDs Enfieira, considerado o melhor disco independente de 1982, Não É Pecado Sambar e Noel Rosa Por Rui de Carvalho), meu brother Rui de Carvalho morou na Cachoeirinha.

Ele era amigo de infância do saudoso economista Sergio Figueiredo, pai do meu querido Sergio Jr. e irmão da desembargadora Graça Figueiredo, da Fátima e da saudosa Teresa, esposa do Mário Adolfo.

Sergio e Rui de Carvalho batiam bola no campo da Barra, onde hoje está um supermercado DB, no cruzamento das ruas Carvalho Leal e Tefé.

Aliás, Sergio Figueiredo, que também era cartunista e humorista de altíssimo nível, foi um dos patrocinadores do primeiro disco do Rui de Carvalho, o celebrado Enfieira.


Uma das músicas, que vocês podem acompanhar no clipe abaixo, era dedicada a Cachoeirinha:



A letra é uma pequena pérola de nostalgia e saudosimo, sem resvalar na pieguice:

Já faz muito tempo eu me lembro / Do cinema Ipiranga / Grande Otelo e Oscarito / Na sessão das treze horas / Treze horas, você tinha entrado e eu lá fora / Troca de gibi, saída / Kid Colt por Tarzan / O meu grito de moleque / Cachoeira Tarumã / Tarumã me banhava com pulos de rã / De linha cerol na mão / Eu olhava o papagaio / Foi girando feito bola / Aparado rabiola / Rabiola, o vento te embala e embola / A partida era de cinco / Bola come na ladeira / Terminava no horário / Da novena terça-feira / Terça-feira, menina da saia rendeira / Tacacá, banca da esquina / Sinto até meu corpo quente / Tomo um refrigerante / Sinto o gosto de aguardente / Água ardente, o tempo já foi diferente

Esse nariz de cera todo foi só pra dizer que eu, que achava que não me espantaria mais com nada, fiquei realmente assombrado ao descobrir sem querer o site Gibi Nostalgia.

Os responsáveis pelo site, José Carlos de Góis e Danielle, estão realizando o sonho de consumo da minha geração.

Eles pegam gibis antigos e fora de circulação há várias décadas, scanneiam e depois imprimem a laser em papel reciclado.

Resultado: as réplicas dos gibis ficam melhor do que os originais e são vendidas pela Web a preço de custo.

Por enquanto, existem cerca de 500 títulos disponíveis, inclusive de originais norte-americanos.

Eu já comecei a comprar uma porrada de revistas, algumas das quais eu troquei na porta do cinema Ipiranga nos anos 60.

Também não custa lembrar que conheci alguns de meus melhores amigos de infância durante as trocas de gibis na porta do cinema ou vendendo gibis em bancas improvisadas de jornais na Feira Livre da Cachoeirinha.

Valeu, José Carlos! 'Brigadão, Danielle!

E próspero Ano Novo para todos os frequentadores do mocó!

A gente volta em 2011!
















quarta-feira, dezembro 29, 2010

O jornalismo investigativo segundo Octávio Ribeiro


Nascido em Coari (AM), em 27 de agosto de 1954, José Adalberto da Silva se formou em Odontologia e depois, a pretexto de fazer especialização em Ortodontia Infantil, se mandou para a França, onde morou por mais de 20 anos.

Músico e compositor, ele adotou o nome artístico de Adal, recrutou um grupo de instrumentistas brasileiros e passou a se apresentar na noite parisiense.

Com o sucesso alcançado, Adal passou a se apresentar nos Estados Unidos, Colômbia, Venezuela, Portugal, Espanha e Alemanha.

Alguns anos depois, ele resolveu radicalizar.

Em uma de suas propriedades em Paris, que se assemelhava a um castelo medieval, ele instalou o Studio des Dames e se transformou em produtor musical, tendo lançado mais de 50 discos de artistas franceses e brasileiros que obtiveram boa vendagem.

O “castelo do Adal” virou albergue preferencial de brasileiros em visita a Paris.

O artista plástico Arnaldo Garcez, por exemplo, passou duas semanas na propriedade sem desembolsar um tostão.

As festas que rolavam no castelo, com as mulheres mais bonitas e classudas do pedaço confirmando o velho chavão setentista de “sex, drugs & rock’n’roll”, eram de tirar o fôlego.

Em junho de 1985, Adal veio a Manaus para lançar seu primeiro disco solo, “Amazônico”, e apresentar o show “Conection Repression” no palco do Teatro Amazonas.

Fui apresentado a ele durante um avant prémiere para a imprensa, que rolou na Livraria Cabocla.

Fiquei impressionado com as histórias fantásticas daquele músico baixinho de cabelos preso em um chamativo “rabo de cavalo”.

Entre outras figurinhas carimbadas que já haviam passado pelo seu castelo e também participado das festas nababescas, que duravam até três dias seguidos, estava o jornalista Octávio Ribeiro, o “Pena Branca”.


Eu havia conhecido o jornalista no ano anterior, quando ele estivera na cidade para lançar o livro “Algemas de Carne”.

Salvo engano, Octávio Ribeiro havia sido convidado por Umberto Calderaro, diretor de A Crítica, para dar uma “chacoalhada” no seu matutino, onde trabalhou por seis meses.

Em uma das visitas que fiz a redação do jornal, pedi que ele autografasse a 1ª edição do seu livro “Barra Pesada”, que eu havia comprado no Rio de Janeiro, em maio de 1977.

Octávio Ribeiro ficou surpreso porque, aquela altura do campeonato, o livro já estava na 5ª edição.

Em “Barra Pesada”, ele fala, principalmente, de polícia, mas também dedica dois capítulos às suas lembranças da Amazônia, quando esteve por aqui, no início dos anos 70, fazendo parte da lendária revista “Realidade”.

As histórias começam na década de sessenta.

No Rio de Janeiro, destacavam-se os detetives Perpétuo e Le Cocq – aquele mesmo que acabou dando nome à famosa escuderia de policiais motociclistas, que se tornaria o embrião do temido Esquadrão da Morte.


“Pena Branca” revelou que os canas transavam estilos diferentes. Conta que Perpétuo tinha cara de índio e um papo longo nos lábios.

Que ele criou a maior rede de bandidos delatores que já houve no latifúndio do Cristo Redentor. Prendia sem dar tiros.

Le Cocq era o inverso, defendia uma filosofia: “Quem tem pernas curtas vai à frente”. Tradução: bandido anão não tinha vez.

Qual era a do Perpétuo e qual era a do Le Cocq?

“Pena Branca” responde: “Perpétuo era um tira esperto: veneno na língua, sorriso aberto – um dos primeiros policiais a reconhecer o poder da imprensa. Ele papeava com repórter policial, fornecia mil informações, muitas frias, algumas quentes. Ganhou fama na lama, discutiu até com gago. Le Cocq não, evitava os jornalistas. Ele não queria acordo, o marginal teimoso morria. Quando o grupo dele surgia era aquela orgia, fugia até quem não devia…”.

No quarto “round”, que foi como ele nomeou os capítulos do livro, o jornalista abre o jogo e entrega como tudo começou: “Em 1959 eu monologava com Pitágoras, era um Pai Tomás numa cabana bancária. Na época, nunca havia curtido um cadáver gargalhando no IML. Um ano depois, fui escalado para gravar as risadas da presuntada horizontal e as transas dos pêsames perfumados com formol. Depois cursei o vestibular dos mistérios, entrevistei maquiavélicos, osculei germes histéricos disputando os camarotes dos cemitérios, enfrentei os eruditos dos crimes, mergulhei nas calamidades públicas e prefaciei outras comédias da vida”.


Em maio de 1986, “Pena Branca” esteve novamente em Manaus.

Eu, Mário Adolfo e Carlos Dias o sequestramos para fazer uma entrevista para o primeiro número do jornal Candiru, mas em nenhum momento o jornalista contou o motivo de sua visita.

Soubemos muitos anos depois que ele estava seguindo uma pista dando conta de que as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC) haviam se convertido ao rendoso negócio do narcotráfico.

Hoje, não, mas na época aquilo seria uma verdadeira bomba atômica nos arraiais esquerdistas, que ainda viam nos guerrilheiros colombianos os últimos idealistas do continente.

Ocorre que o contato que levaria ele e o fotógrafo Ronaldo Kotscho até São Gabriel da Cachoeira e de lá até um acampamento das FARC havia sumido.

Uns dois dias depois da entrevista no restaurante Panorama, Octávio Ribeiro me telefonou, pedindo que eu fosse até o Lord Hotel, ali na Marcílio Dias, onde ele estava hospedado.

Se queixando de dores horríveis pelo corpo inteiro, ele perguntou se eu sabia do paradeiro do músico Adal, que ele supunha estar em Manaus.

– Falei com ele no ano passado, mas, provavelmente, o Adal já voltou pra Paris! – expliquei.

– Recebi uma dica de que o Michel Frank está frequentando o castelo do Adal! – avisou o jornalista. “Eu vou ter que ir a Paris para tirar a limpo aquela história da Cláudia Lessin, mas antes preciso acertar as coisas com o Adal. Não quero dar o bote e ver a presa fugir por causa de um simples vacilo. Tem que ser mamão com abóbora, malandro!”

Conversamos mais um pouco e “Pena Branca” quis saber onde poderia conseguir um pouco de “brilho” para aliviar suas dores cruciantes.

Ele ainda não sabia, mas o câncer que o mataria já estava entrando em sua fase terminal.

Coloquei o jornalista no carro, fui até o Bar do Armando, chamei o poeta Marco Gomes, expliquei a situação, Marco Gomes se prontificou a ajudar e entrou no carro.

Uns dez minutos depois, deixei os dois em uma quebrada lá pra bandas da Colônia Oliveira Machado e me mandei.

Foi a última vez que falei com o Octávio Ribeiro. Ele morreria duas semanas depois, no Rio de Janeiro, aos 54 anos.


Em agosto de 1992, o músico Adal retornou a Manaus para fazer uma série de shows e, na primeira oportunidade que surgiu, perguntei se era verdade que Michel Frank frequentava seu castelo em Paris.

Ele confirmou a história, mas garantiu que o playboy não fazia parte do seu círculo de amizade. “Ele ia lá de vez em quando, mas na condição de convidado de uns convidados suíços dos meus músicos”, desconversou.

Adal ficou surpreso em saber que o “Pena Branca”, no Rio de Janeiro, ficara sabendo da história.

Talvez Octávio Ribeiro pretendesse obter uma confissão pública de Michel Frank confirmando sua participação direta no assassinato de Claudia Lessin, talvez ele estivesse investigando a ligação do playboy com o narcotráfico das FARC, mas seja qual fosse a sua motivação “Pena Branca” a levou pro túmulo.

Em termos de jornalismo investigativo, ele fez por merecer ter se transformado em lenda.

De qualquer forma, graças a outro jornalista policial, o desabrido Valério Meinel, a história do assassinato de Claudia Lessin já era conhecida de todos. Recapitulemos.


Julho de 1977. Uma dor de dente horrível não deixava o operário Luiz Gonzaga de Oliveira dormir direito na noite de 24 (domingo) para 25 (segunda-feira).

Instalado num barraco da Tecnosolo, firma para a qual trabalhava, na avenida Niemeyer, na altura de um local conhecido por Chapéu dos Pescadores, Rio de Janeiro, ao lado de três colegas, ele foi o único a escutar barulho estranho nas proximidades, fora do barraco, por volta de meia-noite.

Por uma fresta na parede do barraco, vislumbrou uma Brasília estacionada quase em frente, com um homem em seu interior, e outro do lado de fora.

Satisfeito com o que vira, voltou à cama. Mas foi novamente despertado, agora por vozes masculinas. As vozes o atraíram de novo para a fresta.

Observou, então, o homem que estava sentado no banco da frente pular para o banco de trás, enquanto o outro parecia tirar alguma coisa de dentro do porta-malas.

Depois de algum tempo, período no qual o carro mudou de posição algumas vezes, indo adiante ou para trás, Luiz Gonzaga de Oliveira percebeu os dois homens se afastarem da Brasilia, carregando uma grande mala, até um ponto mais baixo da encosta.

Ele saiu, então, do barraco e se aproximou do carro. Anotou, num muro de pedras, em grandes caracteres, o número da placa da Brasília avermelhada: 5964. As letras ele só memorizou: SX.

Voltou ao barraco. Somente duas horas depois, sempre meio acordado, meio adormecido ouviu a ignição do carro. Os estranhos haviam partido.

A cena insólita não saiu de sua cabeça. Quando acordou definitivamente, às quatro e meia da manhã, como de hábito, contou o episódio aos colegas.

Propôs que fossem todos até as pedras, verificar o que tinha havido.

Os colegas não se empolgaram com sua proposta. “Deve ser macumba”, alegaram.

Luiz Gonzaga resolveu fazer uma inspeção por conta própria. Não encontrou, porém, nada de anormal.

Na hora do almoço, um colega de serviço comentou com Luiz Gonzaga: “Acharam um corpo no Chapéu dos Pescadores.”

Ele trabalhou a tarde toda. Ao voltar para casa, no final da tarde, pediu a uma vizinha o telefone da polícia. Ela não tinha.

Luiz Gonzaga dirigiu-se ao orelhão. Telefonou para a Rádio Globo.

Conseguiu falar com duas pessoas da rádio, mas somente na terça-feira conversou com o redator-chefe, a quem revelou o segredo dos números anotados nas pedras.

Disse-lhe também que poderia reconhecer ao menos um dos homens da Brasília, pois o vira da cintura para cima.

“Um motorista da rádio alertou a polícia sobre aqueles números, mas não foi ouvido”, informou o redator-chefe no ar.

Com a placa revelada, a polícia descobriu que a Brasília estava registrada em nome da Imobiliária Suíça. O dono da imobiliária era Michel Frank.


Filho do empresário milionário Egon Frank, dono da fábrica de relógios Mondaine, em Manaus, e de vários outros negócios, Michel Frank havia conhecido Cláudia Lessin Rodrigues em maio, num dos salões do hotel Le Méridien, onde se festejava o lançamento do filme “Gente Fina É Outra Coisa”, produzido pelo seu pai, Egon Frank.

Claudia era namorada do diretor do filme, Pedro Carlos Rovai, e irmã da estrela, Marcia Rodrigues, conhecida como a “Garota de Ipanema” depois de fazer o papel principal do filme baseado no samba de Tom Jobim e Vinicius de Moraes.

O cabeleireiro Georges Kour tinha um salão de beleza no referido hotel Le Méridien, onde escovava muitas madeixas de socialites cariocas.

O corpo de Cláudia foi encontrado nu na manhã do dia 26 de julho de 1977, no rochedo do Chapéu dos Pescadores, na avenida Niemeyer.

O rosto completamente desfigurado e o corpo amarrado por arame, preso a uma mala cheia de pedras. Cláudia tinha apenas 21 anos.

Não houve mistério mais discutido pela imprensa e pelo Brasil do que a morte de Cláudia Lessin Rodrigues que, numa noite de sábado, se despediu dos pais e foi a uma festa.

Filha de um casal classe média alta, o comandante Hilton e a dona de casa Maria, Cláudia sempre teve tudo: bons princípios e educação esmerada, mas não andava nas melhores fases da vida.

Enfrentava uma depressão – não conseguia esquecer um namorado que teve nos Estados Unidos –, mas estava sob controle: fazia terapia e tudo mais.

Já tinha usado drogas, sim, como a maioria da sua geração, mas não era viciada e, se tinha algum vício, era cultura: adorava música clássica, ler bons livros e as sessões de filmes de arte do antigo Cine Veneza.

Ela morava com a família, desde criança, na rua Fernando Mendes, esquina com a avenida Atlântica, com uma bela vista para o mar. Fora criada com muito amor e em bons colégios.

A ida de Cláudia ao apartamento de Michel Frank até hoje é um mistério, porém, o mais provável é que ela teria sido convidada para uma festa, na qual encontraria o namorado Pedro Carlos Rovai.

Ele não foi e quando Cláudia chegou, descobriu que a festa era de “função” ou, melhor dizendo, de “cheiração”.


Segundo o livro de Valério Meinel, Cláudia teria passado o fim de semana com os dois homens, que jogavam cartas e cheiravam cocaína, vendida por Michel aos amigos que chegavam, sem parar.

Muito entra-e-sai entre uma cartada e outra. Cláudia teria ficado lá “de bobeira”.

Em compensação, Michel “comia pó com farinha”. Cheirava desde os 16 anos.

Foi o detetive Jamil Warwar que, 48 horas depois do crime, já havia descoberto tudo, e, em uma declaração publicada em 1986, afirma: “Houve um embalo de tóxico na casa de Frank. No dia seguinte, Frank e Kour, cheios de cocaína, caminhavam em cima da mureta da avenida Niemeyer e resolveram então estuprá-la ali mesmo. Ela resistiu e ameaçou denunciar o que vira no apartamento no dia anterior (Michel vendendo bastante pó)”.

O ex-gordinho, que na adolescência não pegava nem gripe por causa da aparência, agora se firmara como um “grande” homem aspirando pó. Tinha 27 anos.

Segundo o que foi presumido pelo detetive Warwar, os dois, após violentá-la na própria avenida Niemeyer, a seviciaram, torturaram e mataram.

Quando tentaram dar sumiço ao corpo, amarrado com uma mala cheia de pedras, foram vistos por um operário, que esclareceu o caso, como consta na revista Manchete, em reportagem publicada em 20 de dezembro de 1986.

Os laudos do Instituto de Criminalística Carlos Éboli, de acordo com a mesma revista, são taxativos: afirmam que Cláudia foi morta no local, pois havia sangue sobre as pedras.

Declaram também que ela morreu por asfixia mecânica – viam-se claramente as marcas dos dedos, a olho nu, em seu pescoço.

O exame toxicológico mostrava que ela não havia usado cocaína nem qualquer outra droga – o que colocava por terra o argumento dos dois envolvidos.

Michel Frank e Georges Kour alegaram que Claudia Lessin havia morrido de overdose e que eles, para evitarem complicações com a polícia, havia apenas se descartado do corpo.


O poder econômico e as relações do pai de Michel Frank, entretanto, falaram mais alto a ponto de Warwar ser afastado das investigações por meio de uma decisão publicada no boletim de Segurança Pública.

O detetive ligou para o pai de Cláudia, dizendo: “O negócio envolve gente da alta, com muito dinheiro. O delegado Hélber Murtinho já deu a entender que vou ser substituído, mas não tem problema não. Já sei de tudo, quem matou sua filha e onde ela foi morta”.

Jamil Warwar foi afastado do caso pelo governador Faria Lima, amigo do empresário Egon Frank, pai do acusado.

Tempos de ditadura era assim: usava-se o poder para limpar as cagadas dos amigos.


“Quero viver além dos 90 anos para ver os assassinos da minha filha condenados”, declarou o comandante Hilton.

Michel Frank, que tinha nacionalidade suíço-brasileira, fugiu de carro pelo Paraguai até Buenos Aires e de lá foi para Zurique, onde viveu por 12 anos. Levou junto com ele o vício.

Cheirava sem parar, chegando ao extremo de alguns familiares cortarem relações com ele.


“Foi justamente a falta de relações do meu pai com o poder – ele era apenas um piloto da aviação civil – que impediu que a Justiça fosse feita. Fosse meu pai um militar naquela época de ditadura, teríamos visto certamente a condenação dos assassinos. O que vimos, ao contrário, foi o poder do dinheiro e o regime de exceção facilitando a fuga anunciada de Michel Frank e a posterior absolvição dele num julgamento fraudulento, de fachada”, afirma Márcia Lessin Rodrigues.

Na Suíça, Frank acabou inocentado do assassinato de Cláudia por falta de provas consistentes da Justiça brasileira.

Em 1989, ele foi encontrado morto, com seis tiros na cabeça, na garagem de seu prédio em Zurique.

Seu corpo estava entre uma máquina de lavar e outra de secar. Estava envolvido com o tráfico de drogas até o último fio de cabelo.

E por falar em cabelo, a última notícia que se teve de Georges Kour é que ele abriu um salão em Niterói.

Ele, que em 1977 era cheio de estilo, envelheceu mais de 30 anos durante os três anos que passou atrás das grades.

Foi considerado culpado pela tentativa de ocultação de cadáver.

Até os descolados da bucólica Niterói desconhecem o seu salão.

Atualmente, os pais de Cláudia moram próximos à filha Márcia, que abandonou a carreira e hoje é uma das mais respeitadas designers de interiores do Rio. Ambos estão com mais de 90 anos.

Já o detetive Jamil Warwar, um dos melhores do Rio, se desiludiu com a profissão e abandonou a carreira policial.

segunda-feira, dezembro 27, 2010

Carnaval amazonense de luto: faleceu Antonio José Carriço, um dos fundadores do GRES Sem Compromisso!

Carriço, no centro da foto, em um dos carnavais em que desfilou na Vitória Régia

A informação me foi dada por telefone, no final da tarde de ontem, pelo empresário Luiz Mário da Silva:

– Porra, poeta, o nosso amigo Carriço acaba de falecer no Hospital das Clínicas, em São Paulo!

– Puta que pariu!, consegui exclamar.

Luiz Mário me contou o que havia acontecido.

No começo da semana, depois de molhar a serpentina como de hábito, Carriço sofreu um princípio de isquemia cerebral, caiu e bateu a cabeça no chão.

Recebeu os primeiros socorros em Manaus e foi despachado pra São Paulo, com suspeita de fratura do crânio.

Infelizmente, o quadro clínico se complicou até resultar no óbito do nosso querido amigo.

Folião por excelência, Antonio José Requeijo Carriço nasceu em Manaus, em 26 de novembro de 1952, e era fundador do GRES Sem Compromisso.

Filho de imigrantes portugueses, Carriço era formado em Engenharia Química pela Universidade do Amazonas (FUA, hoje UFAM), empresário bem sucedido e proprietário da casa de show Amoricana, na Praça 14.

No ano passado ele perdeu a disputa para a presidência do GRES Vitória Régia, uma das seis escolas de samba do grupo especial que ele sempre ajudou financeiramente.

O grande Carriço deixou uma filha, Jaqueline, e duas irmãs: a conceituada médica Dra. Dorotheia Carriço de Aguiar e a professora universitária Antonia Carriço Ferreira.

Seu nome sempre esteve ligado ao mundo do samba e ele teve um papel decisivo na profissionalização do carnaval amazonense.

Em 1976, no mesmo ano em que o Andanças de Ciganos estava desfilando pela primeira vez, um grupo de moradores da rua Comendador Clementino, no centro de Manaus, fundou o bloco “Unidos da Comendador”.

Entre os fundadores do novo bloco de embalo estavam Antonio José Carriço, Jacomo Lobo, Raimundo Mauro Negreiros, José Lobo Filho (aka “Lobinho”), Getúlio Lobo, Américo Chã, Luiz Mário da Silva, Rinaldo Buzaglo, Celito Chaves, Francisco de Assis Mourão, Luiz Carlos (aka “Lula”), Clóvis Rodrigues, Luiz Sálvio, Luso Ramos, Otílio Lázaro Tomé, Deoson Negreiro, Fortunato Mauro Teixeira, Gilfrânio Napoleão, Carlos Alberto de Lima Seabra, Paulo Roberto da Silva, Vidal José Lobo, Auzier da Rocha Nina, Álvaro Francisco Neves, Júlio Rocha, Aureliano Rodrigues, Paulo Marinho, Carlos Alberto (aka “Kiru”), Ricardo Marinho, Esmeralda Lobo Fontes, Paulo Soares Neves, João Barros Carlos, Clemilton, Aércio Gusmão, Rui Barbosa, Leni da Rocha Nina, Almir Barros Carlos e Carlos Alberto Ramalhosa.

A ideia da moçada era apenas se divertir durante o desfile de carnaval e nada mais.

Há alguns anos que eles faziam suas rodas de samba na Rua Comendador Clementino e tocavam em alguns bares da cidade, incluindo o famoso Amoricana, do Carriço, e o Refúgio, de Adib Mamede e Vilson Benayon.

Três anos depois, no dia 24 de dezembro de 1979, surgiu, entre eles, a ideia de criar um bloco de carnaval verdadeiramente competitivo, para desbancar o então hegemônico bloco Andanças de Ciganos e colocar um pouco mais de pimenta na disputa, já que o bloco da Cachoeirinha não tinha concorrentes.

Da conversa entre os brincantes, surgiu o nome “Sem Compromisso”, sugerido pelo músico Assis Mourão, que sinalizava para uma postura mais livre, leve e solta, mais “descompromissada”, digamos assim, com a rigidez dos blocos de enredo.

As cores (amarelo e preto) adotadas pelo bloco seriam uma homenagem ao encontro das águas, sendo o preto, o rio Negro, e o amarelo, o rio Solimões.

Como símbolo do bloco foi escolhido o tucano, por ser um pássaro da fauna amazonense e ter como cores predominantes em sua plumagem o amarelo e o negro.

O cantor Pedrinho Ribeiro e o músico Assis Mourão, durante uma apresentação no bar Chefão

Em 1980, com o enredo “Jurupari – O Encanto da Selva”, o bloco Sem Compromisso desfila pela primeira vez na avenida.

Apesar das fantasias e alegorias bem elaboradas, o bloco conquista apenas o terceiro lugar.

O campeão pela quinta vez consecutiva é o Andanças de Ciganos.

Em vez de chorar sobre o leite derramado, o Sem Compromisso não perde tempo para ir à forra no ano seguinte.

Olheiros foram despachados para o Rio de Janeiro, com o intuito de saber as novidades que estavam rolando nas escolas de samba – e não nos blocos, como seria de se esperar.

Vários carnavalescos, aderecistas e figurinistas foram contratados a peso de ouro e se mudaram de malas e cuias para Manaus.

O bloco estava disposto a revolucionar o carnaval de rua amazonense. Conseguiu.

Em 1981, o Sem Compromisso trouxe como enredo “O Mundo Encantado das Crianças”, onde homenageava o dramaturgo Américo Alvarez (mais conhecido como “Vovô Branco”), um dos baluartes do teatro infantil em nosso Estado.


As fantasias riquíssimas, os carros alegóricos fantásticos, as alegorias de extremo bom gosto, e as mulheres, de uma beleza deslumbrante, iluminaram a avenida.

O bloco também apresentou em seu desfile os mais conhecidos personagens infantis das histórias em quadrinhos de Walt Disney, além de personagens do Sítio do Pica-Pau Amarelo, genial criação do escritor Monteiro Lobato.

O cantor Américo Madrugada, acompanhado de Rinaldo Buzaglo, Macca e Celito, defendeu o samba-enredo no gogó e levantou a galera nas arquibancadas. Foi um massacre.

O desfile do Sem Compromisso foi tão apoteótico, que o então governador do Estado, José Lindoso, praticamente intimou o bloco a repetir a dose na abertura do desfile das escolas de samba, que passara a acontecer na terça-feira gorda.

O bloco Andanças de Ciganos, que havia feito um bonito desfile, com o enredo “Saravá, Vinicius de Moraes!”, onde homenageava um dos melhores poetas de nossa língua, ficou inconformado com o segundo lugar.

– Não perdi o hexacampeonato para um bloco, mas sim para uma escola de samba disfarçada de bloco! – desabafou Mário Adolfo. “O Sem Compromisso fez um belo carnaval, mas na categoria de escola de samba, não na categoria de bloco A comissão julgadora deixou se envolver pelo excesso de carros alegóricos, esquecendo que bloco se faz com samba no pé e no gogó”.

O ano de 1982 ficou sub-repticiamente acordado para ser a data do grande tira-teima entre os dois maiores blocos de enredo da cidade.

O bloco Andanças de Ciganos apresentou logo suas armas: “Amado Jorge Amado”, em que homenageava o escritor baiano pelo cinquentenário de seu livro No País do Carnaval.

Composto por Mário Adolfo, Armando, Marivaldo e Felica, o samba-enredo era uma pequena obra-prima, que rapidamente passou a fazer parte do repertório dos sambistas locais:

“Meu Senhor do Bomfim/ Chegou a hora quero homenagear/ Um de seus maiores filhos/ De talento e muito brilho/ Na avenida vou cantar/ Nos acordes de um violão/ Falar de um homem/ Que me toca o coração/ Chega Xangô/ Orixá contra o mal/ Salve o escritor/ Do País do Carnaval/ Seu nome é Jorge/ Como o Santo Guerreiro/ Só que este é mensageiro/ Da cultura popular/ Foi dando amor/ Que virou Jorge Amado/ Hoje é lembrado e consagrado/ No celeiro universal/ O seu berço é a Bahia/ Do cacau e acarajé/ Berimbau e capoeira/ Do folclore e candomblé/ Este é o reino dourado/ Do amado Jorge Amado/ Que fez da vida um romance/ De ternura e de pecado/ Ôôôôôô/ Quero ser o terceiro marido/ de Dona Flor”.

O bloco também resolveu se armar igual a uma escola de samba, com Comissão de Frente, 600 brincantes distribuídos em dez alas (“Passistas”, “Dona Flor”, “Gabriela”, “Baianas” etc.), 5 carros alegóricos, 4 destaques com fantasia de luxo em tripés, 120 ritmistas e o conhecido Carlinhos de Pilares, intérprete oficial da Caprichosos de Pilares (RJ), como puxador de samba.

A certeza de que o título daquele ano estava garantido começou a se transformar em convicção depois que Edir Pedro Batista (aka “Mestre Carioca”), ex-chefe de bateria dos Ciganos e então destaque da ala de Passistas, conquistou o prêmio “Cidadão Samba-82”, no concurso da Emamtur.

Mestre Carioca comandando uma rodada de samba no Barraka's Drinks, ao lado de Sici Pirangy, Kleber Fernandes e Marivaldo

O título de “Imperatriz do Samba-82” ficou com Esmeralda Pereira dos Santos, presidente e fundadora do Cordão das Lavadeiras.

Ainda curtindo as glórias pelo desfile apoteótico do ano anterior, o bloco Sem Compromisso preferiu ficar sonegando informações sobre o que iria mostrar no carnaval daquele ano.

Escondeu quanto pôde seu enredo (“Paraíso Tropical – Uma viagem ao coração do Brasil”) e ninguém tomou conhecimento do samba-enredo, que era cantado timidamente na quadra da escola.

Tudo não passava de uma autêntica cortina de fumaça armada pelo estrategista Antonio José Carriço.

Quando o Sem Compromisso entrou na avenida, os piores pesadelos dos Ciganos estavam de volta.

Naquele ano, a Emamtur havia criado novas regras para o desfile e dividido as agremiações em quatro categorias.

O grupo A era formado pelas escolas de samba (Em Cima da Hora, Barelândia, Aparecida, Uirapuru, Vitória Régia, Unidos da Raiz e Unidos de São Jorge).

O grupo B era formado pelas batucadas e blocos de enredo (Andanças de Ciganos, Sem Compromisso, Reino Unido da Liberdade, Acadêmicos do Rio Negro, Balaku-Blaku, Império da Cidade Nova, Batucada Nacional na Folia, Mocidade da Alvorada, Cordão das Lavadeiras etc.).

O grupo C era formado pelos blocos de embalo com mais de cem brincantes (Belezas Naturais, Carnavalescos de Santa Luzia, O Boi e o Burro a Caminho do Carnaval, Jovens Livres na Folia, Caxangá na Folia, Taboca, Kadê o Mé?, Mocidade da Ipixuna, Império de São Jorge, Rabo Fino na Folia etc.).

O grupo D era formado pelos blocos de embalo com menos de cem brincantes (Manda Brasa na Folia, Águia Branca, Cabana do Pai João, Seringueiros, Olha Nós Aí, Pássaro Japiim, Os Assumidos, Piratas na Folia etc.).

Os blocos desfilavam no domingo e na segunda-feira, de acordo com um sorteio. As escolas de samba desfilavam na terça-feira.

Pelo sorteio, o bloco Andanças de Ciganos foi o quarto bloco a desfilar no domingo, depois do Águia Branca e antes do Império da Cidade Nova.


Durante o desfile, o Andanças de Ciganos surpreendeu ao mostrar na avenida um carnaval original, criativo e com muita alegria.

A Comissão de Frente, com malandros estilizados alusivos ao personagem Vadinho, do livro Dona Flor e seus dois maridos, arrancou gargalhadas e muitos aplausos da plateia.

O samba-enredo funcionou muito bem, garantindo, junto com a bateria, uma evolução empolgante.

Aliás, a bateria do Mestre Louro, vestido com traje de gala, foi a única a manter o ritmo de batimentos do início ao fim do desfile, numa apresentação que lhe garantiu o Estandarte de Ouro, de A Crítica, de melhor bateria.

Destaque para a originalidade do fechamento do desfile, com a última ala inspirada no carnaval de 1931, ano de lançamento do livro No País do Carnaval, simulando um desfile com fantasias alusivas a óperas.

Nunca a expressão “o carnaval é uma ópera de rua” foi tão bem representada.

O diabo é que o Sem Compromisso não estava pra brincadeira.

No desfile de segunda-feira, o bloco não veio apenas com o dobro do número de brincantes do Andanças de Ciganos (1.500 pessoas em 15 alas), mas levou para avenida seis carros alegóricos deslumbrantes, que não fariam feio nem no desfile das escolas de samba do Rio de Janeiro.

Além disso, o enredo também foi muito bem representado, com uma leitura fácil e proporcionando momentos de grande emoção (basta lembrar que uma única ala alusiva à Copa do Mundo, na Espanha, continha todo o enredo do Reino Unido).

Somem-se a isso as fantasias e alegorias de apurado bom gosto e aí estava a receita para ganhar o carnaval.

Aliás, quem acreditava que a empolgação do bloco fosse prejudicada pelo excesso de alas também quebrou a cara.

O Sem Compromisso realizou um desfile empolgante, irrepreensível, marcado pela impecável cadência do Mestre Cabeça e acabou proporcionando um dos desfiles mais bonitos da avenida.

Ganhou o título com méritos, porque foi deslumbrante na avenida.

O Andanças de Ciganos amargou novamente um segundo lugar, mas o estreante Reino Unido da Liberdade começou com pé direito e obteve a terceira colocação.

A partir de 1983, por determinação da Emamtur, tanto o Sem Compromisso quanto o Andanças de Ciganos se transformaram em escolas de samba do grupo especial.


Nesses 27 anos de competição, a Sem Compromisso ganhou dois títulos e o Andanças de Ciganos, um título e um vice-campeonato.

Muito pouco para aqueles que foram os dois maiores blocos de embalo da história do carnaval amazonense.

Há uns três anos, Antonio José Carriço encontrou o Mário Adolfo em um evento e cantou a pedra:

– Porra, Mário Adolfo, a maior cagada que a gente fez foi deixar a Emamtur transformar nossos blocos de enredo em escolas de samba. A gente não tinha talento pra armar escolas de samba, nossa praia eram os blocos de enredo.

– Também acho! – devolveu Mário Adolfo. “O Andanças de Ciganos e o Sem Compromisso nem precisavam disputar mais nada, seriam hors concours. A gente ia ter a mesma importância que os blocos Cacique de Ramos e Bafo de Onça têm no carnaval do Rio de Janeiro. Eles não concorrem em nenhuma categoria, mas cada um atrai no seu desfile quase 5 mil brincantes!

Os dois pretendiam discutir essas idéias nas respectivas comunidades, após o carnaval de 2011.

Agora, o sonho acabou!

Valeu, Carriço!

E dê um abraço nos seus velhos parceiros Celito e Anibal Beça, que devem estar fazendo a maior festa com a sua presença.

GRES Andanças de Ciganos vai homenagear a Princesinha do Solimões


O músico Júnior Rodrigues e o jornalista Mário Adolfo são os vencedores do concurso de samba de enredo do G.R.E.S Andanças de Ciganos, do bairro da Cachoeirinha.

Depois de duas eliminatórias, a grande final foi realizada na quadra da escola, localizada na Avenida Borba, onde seis sambas disputaram a escolha do samba que vai animar o enredo “A Lenda da Flor Matizada que deu Origem a Manacapuru”.

Mário Adolfo, um dos fundadores do bloco Andanças de Ciganos que deu origem à escola, é autor da letra que foi musicada por Júnior Rodrigues, compositor que acaba de ter um de seus sambas, “Casa da Mãe da Gente”, gravados por nada menos que Alcione.


Esta é segunda vez que Júnior Rodrigues, ex-Ases do Pagode, compõe para o Andanças de Ciganos.

No ano passado o enredo “Quem come jaraqui não sai daqui” – de autoria de Mário Adolfo -, foi levado para o sambódromo com o samba de Júnior Rodrigues.

Mário Adolfo é autor de cinco sambas de enredo e duas marchas de embalo para a escola de samba da Cachoeirinha. Em 1983 se afastou da escola por divergências com a diretoria.

Em fevereiro deste ano, ele lançou o livro “Meu Bloco na Rua”, contando a saga do bloco Andanças de Ciganos, detentor de cinco carnavais consecutivos e vice-campeão duas vezes como escola de samba.

— Foi uma disputa animada porque havia outros bons sambas. A elegria também se deve pela chegada desse grande compositor, Júnior Rodrigues aos Ciganos e ao meu retorno à escola do coração, da qual estava afastado há 27 anos – conta Mário Adolfo.

— Andanças de Ciganos já foi uma grande escola, levando para a passarela do samba enredos polêmicos e politicamente corretos, como os temas ecológicos numa época em que poucos falavam de ecologia. Vamos lutar para devolver a escola ao lugar que ela merece, porque se trata de uma agremiação que fez escola – garante Júnior Rodrigues.


Lenda indígena

O enredo que o G.R.E.S Andanças e Ciganos levará para o a avenida conta a história de Manacapuru que foi fundada como Vila em 1894, na gestão do governo de Eduardo Ribeiro, mas somente em 16 de julho de 1932 é que foi elevada à categoria de Cidade.

Manacapuru é uma palavra de origem indígena derivada das expressões Manacá e Puru.

Manacá é uma planta brasileira das dicotiledôneas, da família solanaceae, que significa “Flor”, em tupi. “Puru”, da mesma origem, quer dizer enfeitado, matizado.

Foi em cima desses dois nomes, criando uma lenda sobre um casal de índios Mura que se apaixona, que Mário Adolfo e Júnior Rodrigues trabalharam.


Letra do samba

Em noite de lua cheia
A sedução na aldeia chegou
A princesinha Mura
Comeu o fruto proibido do amor
Seu nome era Manacá
Beleza rara como o uirapuru
Que roubou o coração
Do bravo guerreiro Puru

Sob as bênçãos de Tupã
A semente germinou
Pro índio guerreiro
Manacá se entregou

Até que um dia
O homem branco ali chegou
Tirando a paz daquela gente
Querendo ser senhor
Manteve a tribo em cativeiro
Puru se revoltou
Mas num combate fatal
O bravo guerreiro tombou
Do rosto da bela princesa
Uma lágrima rolou
Brotando na terra molhada
A lenda da Flor Matizada
Dessa história de amor

Roda a saia Cirandeira
De vermelho, branco e azul
Me dá um beijo cigana
Flor de Manacapuru

quarta-feira, dezembro 22, 2010

Perdidos no Rio


Maio de 2001. A convite da Secretaria Estadual de Cultura (SEC), eu e Mário Adolfo embarcamos para o Rio de Janeiro na noite de uma quarta-feira, para participar da 10ª Bienal Internacional do Livro.

Nós dois ficamos hospedados no Rio Othon Palace, em Copacabana, com todas as despesas correndo por conta da SEC – exceto biritas e pagamento de vagabundas.

A bienal iria rolar em um espaço de 48 mil m², distribuídos em dois pavilhões do Riocentro.

Somente para a Espanha, país homenageado, a área destinada era de 500 m². Argentina, China, Estados Unidos, França, Itália, Jamaica, Colômbia, Portugal, Cuba e México estavam confirmados no evento.

Seriam mais de 800 expositores, entre eles a SEC/Editora Valer mostrando a literatura regional do Amazonas.

No referido stand, que ficava próximo do Café Literário, Mário Adolfo iria fazer uma noite de autógrafos do livro “A, E, I, Ópera”, na quinta-feira, em companhia da escritora Ana Maria Daou, que estava lançando o livro “A Belle Époque Amazônica”.

Eu repetiria a dose na sexta-feira, com o livro “Folclore Político do Amazonas”, em companhia da poetisa Astrid Cabral, que estava lançando o livro “Alameda”.

Na manhã de sábado, a gente retornaria para Manaus.

Como nossos compromissos oficiais eram noturnos, a gente tinha dois dias inteiro pra vadiar.

E foi o que fizemos, depois de Mário Adolfo contratar o motorista carioca Eduardo Cabeção pra ser nosso guia turístico particular.


Na quinta-feira, Mário Adolfo foi dar entrevistas para a rede Globo, jornal O Dia, Tribuna da Imprensa e Jornal do Brasil, enquanto eu fui bater pernas pelos sebos de Copacabana.

Voltamos a nos encontrar na hora do almoço, no restaurante do hotel, localizado no 30º andar.

Extremamente charmoso, o Skylab Bar e Restaurante oferece uma bela visão panorâmica da praia de Copacabana e tem uma excelente infraestrutura, com serviço impecável, pessoal simpático e comida, quase sempre, deliciosa.



O jornalista Mário Adolfo, com seu habitual espírito de monge franciscano fazendo voto de pobreza, pedia, invariavelmente, filé com fritas (R$ 30), com pequenas variações (“mal passado” ou “no ponto”).

Como quem ia pagar era a SEC, eu escolhia o meu pedido consultando a lista da direita (dos preços), me fixando sempre nos mais caros, mas cada vez escolhendo um prato diferente: lagosta a moda de Peniche (R$ 110), lagosta a Thermidor (R$ 108), lagosta a Belle Meunière (R$ 105), lagosta gratinada (R$ 102) e assim por diante. Quase enjoei de tanto comer lagosta.

A noite, depois do lançamento do livro do Mário Adolfo, fomos encher a cara no Bar Diagonal, no Leblon, na esperança de encontrarmos o músico Rui de Carvalho, que garantiu que ia aparecer, mas na última hora fez “forfait”.


Soubemos depois que o Rui de Carvalho estava de namorada nova no pedaço e ficou com medo de a gente querer fazer alguma gracinha pra cima da moçoila. Pode?...

Na sexta-feira, ainda se recuperando da ressaca da noite anterior, Mário Adolfo acordou cedo e resolveu comprar dez pares de sapatilhas indianas existentes em uma exclusivíssima loja de Ipanema.

Pra ganhar tempo (?) ou reanimar seu autêntico espírito indígena, ele resolveu sair do hotel descalço.

Fomos a pé de Copacabana até Ipanema, onde passamos umas duas horas caminhando pelas ruas do bairro e nada de encontrar a tal lojinha.

Mário Adolfo estava cada vez mais puto porque, volta e meia, metia o pé descalço em cocô de cachorro, o que, convenhamos, é uma verdadeira merda.

Quem via aquele sujeito descalço andando pelas ruas do bairro deduziria, obviamente, que ele morava por ali.

Ninguém anda descalço impunemente na terra dos outros.

A não ser que o tal sujeito descalço tivesse descido do morro do Cantagalo, o que, em qualquer circunstância, costuma ser sinônimo de encrenca.

Por volta do meio dia, Mário Adolfo acatou minhas sábias ponderações, comprou uma simplória sandália havaiana no camelô da esquina, e nos aboletamos no bar Bofetada, na rua Farme de Amoedo, onde nos empaturramos de chope gelado e badofe (carne-seca desfiada com cebola e tutu de feijão).


Chegamos a telefonar para o Antídio Weil, que estava labutando em Manaus, só pra lhe matar de inveja.

A noite, durante o lançamento do meu livro, encontrei casualmente o secretário de Cultura Robério Braga e cantei a pedra:

– Porra, secretário, domingo o Vasco decide o campeonato estadual com o Flamengo, no Maracanã, mas a diária do hotel vence no sábado e a gente vai ter que ir embora. Será que você não pode descolar mais duas diárias pra nós dois? Aí, eu poderia realizar um antigo sonho de ver o Vasco em uma final em pleno Maracanã...

Vascaíno roxo, Robério Braga nem titubeou:

– É uma causa justa, meu poeta. Vou ligar pro hotel agora mesmo e resolver o problema!

Esse Robério Braga é um paidégua!

Pra comemorar aqueles dois novos dias de lazer na Cidade Maravilhosa, assim que deixamos o Riocentro nós fomos encher a cara no Sindicato do Chopp, em Ipanema, mas não convidamos o Rui de Carvalho. Nem a namorada dele.


O Mário Adolfo também aproveitou a oportunidade para roubar, na maior cara dura, os imensos banners oficiais anunciando os nossos lançamentos literários na bienal.

No sábado, por volta das 9h de uma manhã luminosa, nos mandamos para a Barra da Tijuca e nos aboletamos nas proximidades da Barraca do Pepê, onde ficamos admirando, bestificados, as popozudas em flor.


Na praia, conhecemos um sujeito apelidado de Magrão, supostamente líder comunitário na Rocinha.

Quando soube que a gente era de Manaus, ele se transformou voluntariamente em nosso guarda-costas e garçom preferencial porque tinha treinado jiu-jitsu com o Artur Neto na Academia Gracie.

Era o Magrão que nos abastecia com caipiroscas de todos os tipos.


Pra mostrar que conhecia o pessoal do movimento, ele foi de carona conosco até a parte mais alta da Rocinha – por volta das 7h da noite –, desceu do carro, falou alguma coisa com alguns sujeitos que estavam numa birosca, aí voltou a falar com a gente.

Os sujeitos haviam nos autorizado a continuar a viagem pelo miolo da favela, mas sem parar nem pra mijar.

Dito isso, Magrão se despediu e sumiu em uma das ruelas da Rocinha.

O motorista do Mário Adolfo estava em pânico.

Em trinta anos de profissão, Eduardo Cabeção nunca tinha andado por aquelas quebradas com medo de bala perdida.

Eu devia estar muito bêbado, porque achei a Rocinha muito simpática.

Havia tanta gente andando animadamente pelas ruas, que parecia até que a gente estava subindo a rua Leopoldo Neves, em Educandos, em dia de liquidação na Casa das Sedas.

No domingo, tomamos o café da manhã junto com os jogadores do Vasco da Gama, que estavam concentrados no hotel.

Mário Adolfo insistiu para que eu tirasse uma foto junto com o baixinho Romário ou com o marrento Viola, mas descartei a idéia.

Eles não eram da minha época. Se fosse o Roberto Dinamite, vá lá...

Por volta das 15h, o Eduardo Cabeção nos apanhou na portaria do hotel já com os ingressos comprados para a área central das arquibancadas e nos mandamos para o Maracanã.

Durante o trajeto, o Mário Adolfo me presenteou com um chapéu e uma faixa de campeão comprada de um camelô.


O Vasco havia vencido a primeira partida por 2X1 e, como havia feito a melhor campanha do campeonato, jogava por dois resultados iguais.

Quer dizer, podia perder a segunda partida até por um gol de diferença.

Durante o primeiro tempo, o jogo foi bem agitado.

Nervoso e precisando do resultado, o Flamengo pressionava, enquanto o Vascão se mandava nos contra-ataques.

Logo no início do jogo, Viola poderia ter aberto o placar para o Vasco da Gama, mas Júlio César salvou o Urubu com uma defesa milagrosa.


Mas, aos 23, quem abriu o placar foi o Flamengo. O lateral-esquerdo Cássio caiu sozinho dentro da área e o juiz ladrão marcou pênalti.

Edílson bateu e marcou. 1x0 para o Urubu, que precisava de mais um gol para conquistar o título.

No entanto, quem marcou em seguida foi o Vasco.

Primeiro com Euller, em gol que foi anulado pelo bandeirinha, devido a um suposto impedimento que só aquele corno viu.

Depois, após tanto pressionar, e perder novas chances com Viola e Euller, Juninho Paulista empatou o jogo, após receber passe do atacante Viola, dentro da área.

O próprio Juninho poderia ter decidido o jogo, em um novo contra-ataque do Vascão, mas o filho da puta do Júlio César salvou o Urubu de novo, com outra defesa milagrosa.

Fim do primeiro tempo, vantagem do Vasco, com o Urubu precisando de dois gols para ser campeão.


Na volta do intervalo, o Vasco começou a fazer uma cagada atrás da outra.

Aos 8 minutos, o seboso Petkovic fez um cruzamento para dentro da área, os zagueiros do Vasco ficaram parados e o baixinho Edílson completou de cabeça: 2x1 para a urubuzada.

A partir daí, foi só emoção. Juninho Paulista cobrou falta com perigo e acertou o travessão de Júlio César.

Euller chegou a driblar o goleiro em outro lance perigoso a favor do Vascão, mas ficou sem ângulo e perdeu a chance.

O Vasco era só pressão, mas todas as bolas paravam nas mãos do inspirado goleiro rubro-negro.

O filho da puta deve ter entrado para o Guiness como o goleiro que mais fez defesas milagrosas (17) em uma única partida.

Até que, aos 43 minutos do segundo tempo, com a torcida vascaína já comemorando o título, veio o momento que não sai da cabeça de quem assistiu àquela decisão.

Falta para o Flamengo, na entrada da área, em cima de Edílson. Adivinha quem vai bater? É o camisa 10 da Gávea...

Sim, aquela música famosa de Jorge Bem foi feita em homenagem a Zico.

Mas dessa vez não foi bem aquele camisa 10 da Gávea quem bateu. Foi outro. O filho da puta do sérvio Petkovic.

Sentado ao meu lado, o botafoguense Mário Adolfo cantou a bola:

– Sei não, parceiro, mas isso está me cheirando a gol do Flamengo...

Ponderei, me lembrando dos tempos em que era quarto zagueiro do Murrinhas do Egito:

– Se não forem babacas, os jogadores da barreira vão correr pra bola assim que o árbitro apitar, abafar o lance e vai ter uma nova cobrança. Fazendo isso três vezes, eles quebram a concentração do Petkovic e ele vai ter que cruzar na área de qualquer jeito. Aí, é só chutar pro mato e correr pro abraço...

O técnico vascaíno Joel Santana, entretanto, preferiu ficar rezando no banco em vez de orientar os jogadores a impedirem a cobrança de falta. Um idiota!

O árbitro Léo Feldam apitou, Petkovic partiu para a bola, a barreira ficou estática, e, como se tivesse sido colocada com a mão, a bola foi parar no fundo das redes, no ângulo esquerdo do goleiro vascaíno Helton.


Sem chances, indefensável, indescritível. Meus colhões foram parar nas amigdalas.

Puta que pariu, mas esse Mário Adolfo tinha uma boca amaldiçoada!

Saindo do estádio, verdadeiramente puto, tomei uma decisão radical: nunca mais colocar os pés no Maracanã.

Ainda bem que já vão demolir aquela merda...


O mais chato, entretanto, foi atender várias ligações da urubuzada de Manaus querendo saber o que havia acontecido, quando a gente ainda estava esperando o Eduardo Cabeção diante da estátua do Bellini, em frente ao estádio.

Uma infâmia para jamais ser esquecida!