quinta-feira, fevereiro 17, 2011

No céu com diamantes


Mario Adolfo, Pauderney Avelino, Elaine Ramos, Nuno Oliveira e Hermengarda Junqueira, no ano em que Elaine foi escolhida rainha da Banda da Calçada Alta

Em alguma noite de março de 1996, a colunista Elaine Ramos sequestrou a mim e ao Mário Adolfo para assistirmos a apresentação musical que um amigo dela ia fazer no Piano Bar do hotel Da Vinci, cantando clássicos da bossa nova.

Mesmo sabendo de minha ojeriza ao gênero, Elaine Ramos havia me convidado porque seria uma autêntica boca livre em que não faltaria o nosso velho e querido Joãozinho Caminhante nas pedras e canapés a dar no meio da canela, cortesia do gente fina Petrônio Pinheiro, chairman do hotel.

O músico em questão era o pianista Luiz Carlos Vinhas, um dos maiores expoentes da bossa nova, que a Elaine Ramos conhecia de velhos carnavais.

Foi um porre memorável porque depois da apresentação Luiz Carlos Vinhas se sentou conosco e fez um breve resumo de sua carreira. Daria pra escrever um livro.


Sem contar que nós três (eu, Mário Adolfo e Vinhas) ainda chegamos a cantar juntos “São demais os perigos desta vida”, de Vinicius e Toquinho, para total desespero da pequena plateia presente no local.

Eu nunca mais tive notícias do pianista até que, na semana passada, procurando na web, a pedido de uma amiga, uma música do João Donato (“Vontade”) gravada por ele – e o que a gente não faz para detonar um rabo de saia?... –, acabei esbarrando nessa matéria assinada por Luís Edmundo Araújo e publicada na IstoÉ Gente de 20 de agosto de 2001.


Na manhã de sábado, 18, o pianista Luís Carlos Vinhas, 61 anos, considerado um dos fundadores da bossa nova, chegou à Clínica Interplástica, em Botafogo, na zona sul carioca, para ser submetido a duas cirurgias.

A primeira delas tinha o objetivo de conter uma hérnia abdominal, adquirida pelo músico há um ano. Ela começou às 10h e foi um sucesso.

A segunda tinha fins estéticos. Foi feita para corrigir rugas acentuadas em torno dos olhos e a papada no pescoço e acabou às 17h.

Duas horas depois de sair consciente da cirurgia, o músico descansava no quarto acompanhado da mulher, Madalena, quando começou a sentir falta de ar.

Por volta das 20h30, o pianista já estava em coma, quando deu entrada no CTI do Hospital Samaritano, também em Botafogo.

Na noite da segunda-feira 20, os médicos atestaram a morte cerebral de Vinhas, que até a noite da terça-feira, 21, respirava com o auxílio de aparelhos no CTI do Hospital Samaritano.

Ele morreu na madrugada de quarta, dia 22, e foi enterrado no mesmo dia.

De acordo com os médicos que o atenderam, quando estava no quarto, Vinhas teve uma parada cardiorrespiratória, que provocou um edema cerebral.

Chamado por Madalena quando o pianista começou a passar mal, o cirurgião plástico Farid Hakne foi o primeiro a chegar.

“Fizemos de tudo para reanimá-lo, mas tivemos de transferi-lo para o Samaritano porque não temos CTI”, disse o médico, que é diretor da Interplástica.

A hipótese mais provável é que o fígado do músico não tenha absorvido bem os anestésicos durante as cirurgias.


Boemia Intelectual

Nascido em uma família de músicos e morador de Copacabana, berço da bossa nova no Rio, Luís Carlos Vinhas já tocava profissionalmente aos 17 anos, animando as matinês do Clube Caiçaras, na Lagoa, zona sul carioca.

Colega dos violonistas Roberto Menescal e Carlos Lyra no Colégio Mallet Soares, em Copacabana, o pianista contou com a ajuda dos amigos para iniciar a vida de boêmio.

“A mãe do Vinhas jogava todas as roupas dele na banheira para que ele não saísse. Tínhamos que levar roupa para que ele trocasse e fosse para as noitadas com a gente”, lembra Carlos Lyra.

Freqüentador das famosas festas no apartamento da cantora Nara Leão no anos 60, Luís Carlos começou a carreira acompanhando a breve incursão da atriz Norma Benguel como cantora.

Em 1961, formou o Bossa Três, junto com o baterista Edson Machado e o baixista Tião Netto.

Depois de um ano tocando no Beco das Garrafas, no Rio, tradicional reduto da bossa nova, o grupo percorreu os Estados Unidos tocando nas principais casas de jazz e chegou a se apresentar no programa de televisão de Ed Sullivan.

Ao longo da carreira, Vinhas gravou nove discos solo e tocou com nomes como João Gilberto, Tom Jobim e Vinícius de Moraes, sem contar o trabalho acompanhando artistas como Elis Regina, Maria Bethânia, Maysa e Jorge Ben.

No fim da década de 60, o pianista chegou a receber canjas de cantoras do porte de Sarah Vaughan e Liza Minelli na boate carioca Flag, que ajudou a criar.

Antes de falecer, o músico vinha se apresentando ao lado da cantora Wanda Sá.


Resumo da ópera: puta que pariu, mas eu nunca mais vou procurar músicas na web a pedido de amigas, mesmo que elas façam por merecer.

Que Deus te ilumine, Luiz Carlos Vinhas, e espero que a Elaine Ramos já tenha te apresentado para o resto da cachorrada!

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