segunda-feira, abril 25, 2011

Rock Progressivo para principiantes (Parte 1)


Música de bichos-grilos do período jurássico, trilha sonora do fim do sonho, música de penteadeira de bicha velha e sons viajandões para descerebrados terminais.

Para que não se lembra, esses eram alguns dos epítetos lançados ao tipo de rock que os hippies adoravam curtir e a critica adorava odiar.

Na atual revisão geral da década de 70, o progressivo ressurge como influencia para o heavy metal, o reggae e a dance music.

Bandas como Primus e Rancid deixam a coisa explicita: tocam covers de Pink Floyd e Genesis na maior sem cerimônia.

Os músicos do Easy Star All-Star foram mais abusados: fizeram a recriação, em dub, de um dos álbuns mais consagrados do Pink Floyd, o “Dark Side Of The Moon”, e o batizaram de “The Dub Side Of The Moon”.

E o que dizer do remix clássico do Daft Punk intitulado “Pink Floyd Proper Education”?

Será o retorno do monstro das faixas de vinte minutos?


Na verdade, ele nunca foi extinto. Seja com o nome duvidoso de progressivos seja como o muito mais vago e pretensioso de art rock, se trata de um rótulo sem limites muito claros.

De modo muito geral, pode se dizer que diz respeito àqueles grupos que incorporaram bem ou mal ou simplesmente saquearam elementos da música erudita, com algumas pitadas de jazz e o que mais aparecesse.

Dá para notar que é uma etiqueta fácil quando não se acha gaveta para uma obra muito ampla ou muito esquisita.

As produções inclassificáveis e absolutamente diversas de Frank Zappa ou dos Residents costumam cair no mesmo saco, assim como qualquer coisa mais rebuscada que tenha um sintetizador na frente.

Também porque, no final dos anos 60 e início dos 70, esse tipo de ecumenismo musical era uma mania em toda música pop.

Havia uma necessidade de sofisticação (até no soul estava rolando isso, como se pode perceber nos discos daquela época dos Temptations e de Marvin Gaye).

Hoje, à distância segura, dá para se dizer que alguns grupos se superestimaram demais, levaram muito a sério a publicidade das gravadoras.

Uns poucos fizeram coisas realmente duráveis, com massa consistente sob tanto glacê instrumental.


As origens da criatura se perdem em viagens de ácido.

Foi com a psicodelia dos sixties que os músicos de rock começaram a encompridar os improvisos.

Daí passaram a se interessar por sons diferentes do blues e do R&B.

Criou-se um gosto por mudanças abruptas dentro de uma música, por composições menos lineares, mesclando “climas” diferentes.

Ao mesmo tempo, foram descobrindo as maravilhas que a eletrônica começava a oferecer nos estúdios para realizar essas mudanças.

Não é por acaso que se costuma culpar os progressivos de terem feito uma “leitura errada” das idéias contidas no Sgt. Pepper´s, dos Beatles, que por sua vez foi inspirado em parte em outra gema de estúdio, Pet Sounds, dos Beach Boys.


A partida teria sido dada pelo Moody Blues, ao colocar uma orquestra em seu álbum Days Of The Future Passed (67).

Nessa abertura para a mistura de sons de outras origens, principalmente na “alta arte”, estava o motivo que pôs a crítica com os dois pés atrás quando se tratava de progressivo.

O rock estava deixando para trás suas raízes negras, seu balanço e seu descompromisso, ficando complicado, difícil de tocar e de se entender e, principalmente, perdendo o bom humor.

No lugar, entravam uma queda por truques fáceis para causar espanto na platéia e uma temática místico-científica de almanaque, nos piores casos.

Em sua origem, o rock progressivo foi um estilo britânico.

Boa parte de seus primeiros músicos veio da classe média inglesa, gente que estudava música e que tinha costume de ouvir clássicos e jazz.

Sua atuação, à primeira vista, parecia querer obter respeitabilidade para o rock, fazer “arte” na velha perspectiva do “sério” versus o “fútil” – o que não combinava com um ritmo associado à rebeldia adolescente.


O sintoma estava em nomes do tipo Emerson, Lake & Palmer, que procuravam a pompa de um trio de cordas ou de um conjunto de câmara.

Além dos medalhões (Pink Floyd, Yes, Genesis, Emerson, Lake & Palmer), o progressivo se ramificou bastante.

Nos EUA, proliferaram filhotes com um pé no hard rock, que alcançaram grande sucesso comercial – caso do Rush.

Muitas das bandas incorporaram elementos progressivos para envernizar um rock basicamente careta – caso do Journey.

Mas a maioria das crias veio da Europa.


Houve uma linha interessante e anárquica na França, centrada no grupo Gong, do australiano David Allen e do guitarrista Steve Hillage.

Outra voltada para o folk e o som medieval inglês (Jethro Tull e Renaissance).

Uma terceira apostou em cruzar música contrapontística e algum jazz (Gentle Giant).

E ainda existiu aquela que foi mesmo para o lado do jazz de vez (Soft Machine) ou grupos que se basearam na música erudita do século 20.

Destes últimos saíramos trabalhos de pouco sucesso pop mas de mais influência no rock posterior a 80.


Sujeitos como Brian Eno, que a começar de sua participação no Roxy Music e colaborações com Robert Fripp, do King Crimson, exploraram as novas possibilidades oferecidas pelo estúdio de gravação.

Sua pesquisa teve paralelo na Alemanha, com gente também da área progressiva, como o produtor Conny Plank e o ex-baixista do Can, Holger Czukay – todos nomes importantes para o rock pós-80.

Outro personagem veio do movimento Rock In Opposition: o guitarrista Fred Frith, ex-membro do Henry Cow.

Morando hoje em Nova York, Frith é um dos mais ativos representantes de um bando de artistas classificados como “alternativos”, que funcionam no esquema “faça-você-mesmo”.


Para contrariar a regra, o velho Genesis, uma banda relativamente pop nos padrões do art rock, pariu Peter Gabriel, hoje uma espécie de guru multimídia.

O progressivo também rendeu alguma coisa também em termos de negócios.

As turnês megalômanas do Pink Floyd, do ELP e do Yes contribuíram para a montagem do tipo de infra-estrutura que depois serviu a eventos muito mais inflacionados, como a Zoo TV, do U2.


Apadrinhados por instrumentistas como Keith Emerson e Rick Wakeman, os teclados passaram a ser equipamento-padrão do rock.

Atrás da moda, a indústria foi desenvolvendo eletrodomésticos que desembocaram nos atuais samplers (que aliás, são a versão computadorizada do instrumento típico progressivo: o mellotron).

Os conservatórios e escolas de música também fizeram muito dinheiro com a molecada que resolveu estudar algo mais que três acordes.

Os sons “de época” dos moogs e mellotrons, as estruturas musicais complicadas – mas fascinantes para quem sabe tocar – e a idéia de “viajar” numa daquelas faixas imensas estão entre as fontes da renovação de interesse pelo progressivo.

3 comentários:

Anônimo disse...

THE DARK SIDE OF THE MOON : "Obra-prima do Pink Floyd. 724 semanas entre os 200 discos mais vendidos do mundo. Vendeu mais de 30 milhões de cópias no mundo todo. No Brasil, mais de 400 mil cópias do cd. Ainda hoje vende 250 mil exemplares a cada ano."

P.S. Acho que é isso que irrita os detratores do progressivo ( nem gosto dessa denominação), a falta de competência em criar algo dessa magnitude. O que bandas como o Pink Floyd fizeram foi levar profissionalismo e um pouco de cultura pro rock, mas isso bandas como The doors e os próprios Beatles já faziam nos anos 60 e ninguém caiu de pau. O problema é que a garotada de meados dos 70 gostava de Ramones e sex pistols e seria exigir demais do cérebro deles que saíssem dos masturbatórios 3 acordes. Longa vida ao Rock' Roll. Longa vida aoProgressivo.

Edu Verme disse...

Só um detalhe: o Rush é do Canadá, não dos EUA.

Anônimo disse...

Este texto (do post) foi publicado originalmente a uma antiga edição da revista Bizz. Alguém aí tem ideia onde podemos encontrar esse exemplar?