quarta-feira, maio 18, 2011

Aula 66 do Curso Intensivo de Rock: Pixies


Apesar de nunca ter se alinhado à estética punk ou hardcore, muitas bandas punks e hardcores consideram os Pixies um dos mais importantes grupos da segunda metade dos anos 80.

Frank Black não é uma dessas pessoas.

Ele fala de sua antiga banda como se descrevesse um antigo emprego.

Sobre os superlativos usados para descrever a música da banda, diz não passar de um exagero da imprensa musical.

“Não fazíamos música totalmente retrô!”, disse ele para a revista Billboard. “Não éramos uma banda tentando soar como se fosse dos anos 60 ou punk rock. Éramos uma combinação dessas coisas e fomos escolhidos pela imprensa apenas porque ela precisava falar de algo”.

Ainda assim, para Black agora é hora de nostalgia.

A coletânea “Beath To The Pixies” foi lançada em 1998, seis anos após o último disco do grupo.

O cantor, que não conseguiu repetir o impacto dos Pixies em sua carreira-solo, não se sente à vontade com o assunto.

Para o homem antigamente conhecido como Charles Thompson, os Pixies estão mortos.

E ele não é fã de exumação de cadáveres.

Até mudou de apelido para enterrar de vez a antiga fase.

Black Francis, como era chamado quando liderava os Pixies, virou Frank Black.

“Parece um nome mais real”, sintetiza, sem aprofundar-se.

“Os Pixies eram o que eram porque simplesmente eram daquele jeito”, ele diz.

Azar se influenciaram o Nirvana, entre outros grupos de sucesso na década de 90.

“Não posso ficar impressionado se Kurt Cobain ganhou muito mais dinheiro com músicas que dizia ser inspiradas pelos Pixies”, diz. “Fiz algumas músicas, elas foram postas à venda nas lojas de discos e Kurt Cobain foi um dos que compraram, pagando o mesmo do que qualquer outro”.

E adiantou: “Nunca tentei dizer às pessoas: ‘Ouçam minha música, ela vai mudar a sua vida’”.

Mas a música dos Pixies mudou o rock.

Embora o sucesso comercial tenha escapado, o grupo virou um referencial, repetindo, 20 anos depois, o que ocorreu com o Velvet Underground.

Frank Black não é entusiasta do culto póstumo ao grupo.

“Com o passar do tempo tudo se torna mais cultuado, como os filmes dos anos 50”.

E por que o grupo morreu?

“Deixou de ser divertido, não era uma boa época, então puxei o plug da tomada”.

Os Pixies tinham vindo de uma turnê como banda de abertura do U2.

Tudo parecia indicar que finalmente conheceriam o sucesso.

Mas Black não quis esperar.

“Não tem conexão entre uma coisa e outra”, ele garante. “Ainda fizemos um último show depois da turnê com o U2, mas cada vez menos pessoas estavam interessadas em comprar nossos discos”.

Na época, Black era bastante cobrado por não deixar Kim Deal cantar.

Afinal, a ex-baixista tinha obtido relativo sucesso com a faixa “Gigantic” e, mais tarde, com seu grupo paralelo, Breeders.

“Ela não cantou mais porque foi assim que as coisas ocorreram. É como perguntar por que nossas músicas não soavam como reggae”, ironiza.

Pelo visto, as velhas mágoas ainda resistem.

O cantor continua convivendo com o guitarrista Joey Santiago, com quem chegou a gravar em sua carreira-solo.

“Vivemos na mesma cidade, ele tem um grupo com três mulheres, chamado The Martinis, que participaram da trilha de um filme chamado ‘Empire Records’”.

O filme é uma bobagem adolescente estrelada por Liv Tyler.

“Todo filme que tem rock na trilha não é muito bom”, avalia Black.

Os Pixies também participaram da trilha de um filme do gênero: “Pump up the Volume”, com Christian Slater.

“Outro filme questionável, mas pagou muito bem e é bem melhor do que compor música para comercial de cigarros”, ironiza.

A versão surf music de “Wave Of Mutilation” incluída na trilha é uma das músicas que podem aparecer numa futura coletânea de faixas raras e lados B de compactos dos Pixies.

“A gravadora está com essas idéias”, diz Black, desgostoso.

Mas lhe agrada a possibilidade de ganhar algum dinheiro com o cadáver.

Suas finanças não estão muito boas e ele acaba de romper o contrato com a sua gravadora.

A conexão com a TV é outra novidade na vida de Frank Black.

Ele se diz honrado por ter inspirado Chris Carter, o criador de “Arquivo X”, a batizar o protagonista da série “Millennium” com o seu nome, apesar de achar o programa um pouco assustador.

Desde os dias dos Pixies, Black canta sobre discos voadores.

“Tive dois contatos imediatos quando era pequeno”, garante, sem ironia.

O cantor gostaria de tocar no Brasil e reclama não ter seus discos-solos lançados no país.

Está esperando que isso ocorra para marcar os primeiros shows.

“Só conhecem as músicas dos Pixies na América do Sul e eu não costumo tocá-las mais. Não faria sentido fazer um show especial com o repertório dos Pixies a essa altura da minha vida”.

Ele afirma não ter o menor interesse numa reunião dos Pixies.

Diz não saber que fim levou o baterista David Lovering que, a certa altura, participou dos Martinis.

Garante nunca ter ouvido os Breeders, The Amps ou qualquer coisa gravada por Kim Deal desde o fim da banda.

Nem tem vontade.

Mas também disse que nunca ouviu o Nirvana.

Ou o cara é maluco ou é um eterno gozador.

Quando foi lançado, o álbum duplo “Death To The Pixies” comemorava uma década do legado dos Pixies com 17 das melhores faixas da banda e um CD ao vivo.

Os Pixies nunca tiveram um hit, embora “Monkey Gone To Heaven”, “Debaser”, “Wave Of Mutilation” e “Gigantic” tenham virado hinos do rock alternativo.

Nunca se destacaram na programação da MTV, nem mesmo chegaram ao disco de ouro, ainda que “Surfer Rosa” e “Doolitle” sejam lembrados para a lista dos cem melhores álbuns de rock de todos os tempos.

O grupo pagou o preço de todo visionário: o reconhecimento tardio, quase póstumo.

Por isso mesmo, o nome da primeira coletânea da banda é perfeito.

Apesar de ter morrido em relativo silêncio, no início da década passada, a banda se tornou uma lenda.

Kurt Cobain começou a dizer que tudo o que pretendia era conseguir recriar a dinâmica sonora dos Pixies.

E foi o que fez em “Nevermind”, o álbum que “Surfer Rosa” inspirou.

Não contente, foi buscar o engenheiro de som daquele disco, Steve Albini, para gravar “In Utero”.

E a alternância de explosões de distorção punk com os plácidos vocais desamparados dos Pixies tornou-se a principal característica do rock alternativo dos anos 90.

Desde o primeiro álbum, “Come On Pilgrim”, de 1987, a banda começou a construir uma estética que combinava distorção e melodia.

No início, Boston, sua cidade natal, rejeitou os Pixies de todo o coração.

Mas, quando o rock universitário se tornou a norma na América, o grupo começou a ser cultuado.

Entre 1987 e 1992, os Pixies fizeram cinco álbuns com músicas curtas como surtos neuróticos de uma psicose.

Ao se recusar a escrever sobre si mesmo, Black tornou-se obcecado por sexo, religião e ficção científica.

As letras dividiam-se em construções elípticas, carregadas de recursos literários, espaçonaves, morte e destruição.

Os Pixies eram muito esquisitos.

A aura de esquisitice completava-se com letras em espanhol, motivadas por uma temporada em que Black morou em Porto Rico.

A banda era chamada de pós-moderna pela crítica da época, que ainda não tinha inventado as expressões rock alternativo ou rock universitário.

Se o primeiro disco era rústico como o som de uma fita demo, o segundo tinha a intenção de fazer história desde sua gravação.

Steve Albini levou duas semanas para gravar as guitarras e apenas uma tarde para terminar todos os vocais de “Surfer Rosa”.

Músicas como “Bone Machine” e “Gigantic”, cantadas por Kim Deal, marcaram gerações.

O disco seguinte, “Doolittle”, também foi criado para ecoar dentro do crânio dos ouvintes com uma mistura de microfonia reverberada e sentimento autodestrutivo.

“Wave Of Mutilation” e “Debaser” estão entre as melhores composições da década de 80.

Mas a banda nunca mais voltou a repetir o mesmo estágio de inspiração.


Como o grupo The Jesus & Mary Chain, os Pixies levaram o rock a outro estágio e pareciam não saber o que fazer a seguir.

Os últimos LPs, “Bossanova” e “Trompe Le Monde”, ainda eram exercícios de ferocidade.

Mas a banda já não soava tão esquisita assim.

As 17 faixas selecionadas para a coletânea apenas arranham a superfície.

O bônus do CD ao vivo, gravado em Utrecht, em 1990, alivia a sensação de que muita coisa ficou de fora.

Afinal, trata-se de outro detalhe sobre os Pixies: eles também foram uma das melhores bandas ao vivo dos últimos quinze anos.

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