segunda-feira, maio 16, 2011

Aula 76 do Curso Intensivo de Rock: Sepultura


Há alguns anos, a Galeria do Rock (Rua 24 de maio, 62, loja 452), em São Paulo, foi palco do lançamento do livro “Sepultura – Toda a História”, de André Barcinski e Silvio Gomes.

É o que poderíamos definir como “a história oficial” daquela que já foi a mais internacional das bandas nacionais.

O jornalista Barcinski viu o grupo surgir e, em São Paulo, ajudou a catapultá-lo para a glória internacional.

Chegou a cumprir uma função propagandística em relação ao Sepultura.

O roadie Silvio Gomes trabalhou como técnico de som da banda desde sua fundação, em 1984.

São duas testemunhas oculares – e auditivas – da história.

O Sepultura foi de fato um fenômeno.


Surgiu em Belo Horizonte pelas mãos dos irmãos Max e Igor Cavalera, garotos de classe média fãs do Venom que “queriam vomitar só de ouvir falar em rodinhas de violão”, como conta o livro.

A primeira guitarra de Max tinha um captador acionado por um interruptor de luz.

A “bateria” de Igor era sustentada num tripé de samambaia.

Passados 14 anos, Caetano Veloso contou que estava num hotel em Londres quando saiu para dar uma volta no quarteirão.

Viu uma fila de jovens esperando por um autógrafo e foi acompanhando a fila até chegar a um cartaz que dizia que ali estava o Sepultura, lançando um disco novo.

Uma banda brasileira de heavy metal conseguiu o sucesso internacional que ele não conseguiu em 40 anos.

O que ocorreu entre essas duas cenas? É difícil dizer.

Mas o livro de Barcinski e Gomes dá uma boa idéia de como tudo aconteceu, embora seja uma versão unilateral, já que as fontes são apenas os músicos do grupo ou seus simpatizantes.



Não há detratores nem histórias “podres”. Mas sem dúvida há boas histórias.

Principalmente sobre turnês, como aquela na qual eles tiveram de dividir um ônibus com os alemães do Sodom e, hostilizados pelos headliners, acabaram urinando sobre eles enquanto dormiam.

Ou sobre as bebedeiras homéricas de Max Cavalera, que só se acertou na vida após o casamento com a americana Gloria – chegando até a ser chamado de “vovozinho” por seu atual comportamento sedentário.

Quando o grupo começou a criar fama, começou a botar as manguinhas de fora.

Uma vez, contam Barcinski e Gomes, enfiaram pedaços de mortadela e salame dentro das jaquetas de couro dos integrantes da banda de death metal Morbid Angel.

“O guitarrista tocou o show inteiro com uma folha de alface saindo do bolso”.

Em Lisboa, durante um show, Max bateu com a guitarra nas costas de um segurança que esmurrara um fã.

O público desceu das arquibancadas e começou uma espécie de guerra civil.

Gloria Cavalera contou, algum tempo depois, que aquele incidente levou promotores de show a incluir uma cláusula nova nos contratos: a de que Max se comprometeria a não espancar seguranças nem incitar a platéia.



Os autores só não são muito críveis quando narram as histórias das desavenças entre Max Cavalera e os outros integrantes do grupo, que levaram ao rompimento das partes em 1997.

Eles parecem tomar partido claramente do lado Sepultura que ficou (Andreas, Igor e Paulo) e a versão de Max aparece esmaecida, sem força.

Também fazem uma “aprovação” prévia do seu substituto no grupo, Derrick Green.

Mas essa é ainda uma questão que causa controvérsia e divisão entre os fãs.

Já o Soulfly (a nova banda de Max), saudado pela crítica internacional como uma das grandes revelações do ano, recebe pouca menção. Mas aí já é uma questão de gosto.

A história do Sepultura realmente começou na capital mineira, no final de 1983, quando Max e Igor decidiram chamar seus amigos de colégio Paulo Júnior e Jairo para montar uma banda.

Um ano depois, num festival de bandas em Belo Horizonte, a Cogumelo Records contrata a banda, após o dono da gravadora ter assistido ao show do Sepultura, e o grupo decide fazer um disco.

O nome era “Bestial Devastation”, que foi gravado em apenas dois dias (dividido com a banda Overdose), mas só seria lançado em 1985.

A banda, então, faz uma turnê brasileira pra promover o novo petardo.



Já em 1986, é gravado o “Morbid Visions”, ainda pela Cogumelo Records e a banda sai em turnê novamente.

Pouco depois, a gravadora relançaria o “Bestial Devastation” e o “Morbid Visions” em um só LP.

Ainda no mesmo ano, o guitarrista Jairo sai da banda, e Andreas Kisser, que já havia feito algumas jams com o grupo, junta-se a ele.

No mesmo ano, o Sepultura processou o selo Shark por ter lançado álbuns do Sepultura fora do Brasil.

No ano seguinte, sai o disco “Schizophrenia”, que foi o primeiro trabalho com Andreas na guitarra, e o último com a produção da gravadora Cogumelo.

Foi com esse disco que a banda disparou, e vendeu cerca de 10 mil cópias nas primeiras semanas.



A gravadora New Renaissance lançou o disco nos Estados Unidos.

Em 89, o Sepultura assinou com a Roadrunner Records, conseguindo um contrato de (pasmem!) sete anos.

Como aquilo era tudo que a banda precisava (um grande contrato numa grande gravadora), lançaram o novo disco pelo novo selo, sendo o terceiro petardo do grupo: “Beneath The Remains”.

Este foi gravado em nove dias e produzido por Scott Burns.

O disco foi um dos melhores lançamentos do ano sendo comparado até a “Reign In Blood”, do Slayer.

E, pela primeira vez, o Sepultura sai em turnê fora do Brasil, tocando junto com o Sodom na Áustria.



Em 90, a banda toca em vários shows no exterior, incluindo o Dynamo Open Air Festival, com cerca de 26 mil pagantes, e conhecem Gloria Bujnowski, uma junkie meio pirada e empresária do Sacred Reich.

O grupo decide tê-la também como empresária.

Depois das apresentações, o Sepultura entra em estúdio para regravar “Troops Of Doom”, que a Roadrunner usaria para relançar o “Schizophrenia” remixado.

Ainda no mesmo ano, a Cogumelo relança “Bestial Devastation” com uma nova versão de “Troops Of Doom”.

Começa a batalha entre as gravadoras.



Em 1991, o Sepultura toca no Rock in Rio II, para 50 mil pessoas.

Dois meses depois, eles lançam “Arise”, que vende cerca de 160 mil cópias nas oio primeiras semanas, sendo considerado pela grande maioria dos fãs de longa data, o melhor disco do grupo.

No mesmo ano, são lançados alguns singles, como “Arise”, “Under Siege (Regnum Irae)”, “Dead Embryonic Cells” e “Altered State”.

Em 92, sai o álbum “Third World Posse”, que tem três músicas ao vivo tiradas do vídeo “Under Siege” (gravado ao vivo em Barcelona), além de “Drug Me”, de Jello Biafra, e “Dead Embryonic Cells”, do disco “Arise”.

Ainda em 92, acontece o casamento de Max com a empresária Glória.

Em 93, o Sepultura lança o disco “Chaos AD”, que já possuía influências tribais, mas não tinha a violência de “Arise”, e menos ainda o peso dos primeiros álbuns da banda.

Ainda assim, percebia-se a preocupação do grupo com a situação geopolítica mundial, pois pérolas como “Refuse/Resist” e “Territory” estão incrustadas neste álbum, além de “Manifest”, que denunciava o massacre da penitenciária do Carandiru, aquela famosa chacina de 111 presidiários ocorrida em São Paulo.



O álbum “Chaos AD” também inclui um cover do New Model Army, “The Hunt”, a canção “Biotech Is Godzilla”, que foi escrita por Jello Biafra, além de uma faixa especial, onde os integrantes morrem de rir e gritar, e mais uma versão de “Polícia”, dos Titãs, disponível apenas na versão brasileira do CD.

O single “Territory” também é lançado nesse mesmo ano.

Ainda em 93 nasce o primeiro filho de Glória e Max: Zyon.

Em 1994, o EP “Refuse/Resist” é lançado.

O álbum é uma espécie de coletânea com músicas ao vivo, sobras de estúdio e covers, como “Drug Me”, de Jello Biafra, e “Inhuman Nature”, da banda Final Conflict.

O single “Slave New World” é lançado na Europa.

No mesmo ano, a banda se torna o primeiro grupo terceiro-mundista a tocar no Donington Monsters of Rock, para uma platéia de 50 mil pessoas, equivalente ao público do Rock In Rio II, onde o Sepultura também foi uma das principais atrações na noite dedicada ao metal pesado.

Em 94, Andreas se casa com Patrícia, e a banda começa a compor material para um novo álbum.



No ano seguinte, o segundo vídeo do Sepultura, “Third World Chaos”, é lançado, contendo alguns clipes da banda, trechos de entrevistas com a MTV brasileira, americana, européia e até japonesa.

O vídeo contém ainda o trecho de uma entrevista em que o entrevistador é Bruce Dickinson (quando o vocalista do Iron Maiden tinha um programa de entrevistas na televisão inglesa).

Ainda em 95, nasce Giulia Cavalera, a primeira filha de Patrícia e Andreas.

Igor se casa com Monika e nasce Igor Amadeus, segundo filho de Glória e Max.

Em 1996, o EP “Roots Bloody Roots” é lançado, contendo quatro faixas: “Roots Bloody Roots”, “Procreation Of The Wicked” (um cover da banda Celtic Frost), “Refuse/Resist” e “Territory”, ambas gravadas ao vivo em Minneapolis, nos EUA.

Mais tarde, no mesmo ano, sai “Roots”, um dos álbuns mais aguardados do ano.

O disco mostrou um lado mais experimental da banda, com uma música com participação de Carlinhos Brown (“Ratamahatta”) e presença ao longo do disco de percussão, berimbau e várias batidas tribais.

O disco traz como destaque duas músicas gravadas conjuntamente com os índios Xavantes, no Mato Grosso (“Jasco” e “Itsari”).

A versão brasileira tem também “Procreation Of The Wicked” e “Symptom Of The Universe”, do Black Sabbath, além de “Lookaway”, escrita por Jonathan Davis, da banda Korn.



Em meados de 96, a banda fica sabendo do assassinato de Dana Wells, filho de Gloria Cavalera.

Abalados com o problema, Max e Gloria vão se refugiar nos EUA enquanto o Sepultura, reduzido a um trio, participa do Donnington Fest 96, com Andreas assumindo os vocais.

O grupo termina a turnê tocando no Ozzfest, após cancelar três semanas de shows nos Estados Unidos.

Mais tarde, a Roadrunner lança a coletânea “The Roots Of Sepultura”, até que, em dezembro de 1996, chega a bomba: Max Cavalera estava deixando a banda.

A quizumba aconteceu depois que os outros três integrantes, em uma reunião fechada, decidiram demitir Gloria Cavalera do posto de empresária o Sepultura, alegando que ela estava dando espaço na mídia apenas para seu marido, Max.

Ao contrário de antigamente, em que os quatro integrantes do Sepultura apareciam juntos nas fotos de divulgação da banda, nos últimos anos o foco havia se concentrado em Max Cavalera, dando a falsa impressão de que os outros três eram mero suporte do vocalista.

Com a esposa fora da banda, Max se sentiu traído pelos amigos e resolveu buscar um novo caminho.

Foi o fim da formação original.

Em 98, o Sepultura anunciou que estavam procurando por um novo vocalista.

Um dos produtores da Roadrunner enviou-lhes uma fita-demo do grupo Overfiend e pediu para darem uma olhada.

Eles ficaram encantados com o vocalista da banda e convidaram Derrick Green para juntar-se ao grupo.


Algum tempo depois, lançaram um novo single, “Against”, mostrando todo o poder de fogo do novo vocalista, que foi apelidado carinhosamente de “Predador”.

O single, produzido por Howard Benson e mixado por Bill Kennedy, mostra um Sepultura cada vez mais thrash.

Em maio, o quarteto viajou para o Japão para gravar, junto com a banda de percussão japonesa Kodo, a música “Kamaitachi”, lançado como single no mercado asiático.



Em 2001, saiu o novo álbum, “Nation”, com duas músicas novas em versão ao vivo, “Sepulnation” e “Saga”.

Nesse meio tempo, Max Cavalera recrutou o baterista Roy “Rata” Mayorga (ex-Thorn), o guitarrista Jackson Bandeira (ex-Chico Science) e o baixista Marcelo D. Rapp (ex-roadie do Sepultura) para formar o Soulfly.


O primeiro disco da banda, “Soulfly”, saiu em 1998.

O segundo álbum, “Primitive”, saiu em 2000, e o terceiro, “III”, saiu em 2001.



Os discos foram incensados pela crítica porque mantiveram o mesmo peso e brutalidade que os fãs haviam se acostumado a encontrar nos trabalhos do Sepultura.

Cesta de três pontos para Max, que confirmou seu potencial de compositor e manteve seu status de superstar no panteão do metal extremo.

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