quarta-feira, maio 11, 2011

Aula 95 do Curso Intensivo de Rock: Os Gremlins do New Metal


De qualquer forma, segundo parte da crítica especializada, Kid Rock, Len, Slipknot, Insane Clown Posse e Limp Bizkit são os representantes da nova “Geração Woodstock” do rock.

Alguns deles não só tocaram no revival do festival, durante a celebração dos 30 anos, como fazem o tipo de música que anima multidões a pôr fogo em barraquinhas e exigir que o público feminino mostre os seios.

Fato: Fred Durst, do Limp Bizkit, foi quem incitou o público a quebrar tudo durante o evento (uma de suas músicas chama-se “Break Stuff”), resgatando o vandalismo e o machismo que Nirvana e bandas femininas tinham banido do rock.

Vendem milhões de discos, andam com atrizes pornôs, adoram drogas e álcool e estão nas capas das revistas de rock.

Mas não surgiram agora.


O Insane Clown Posse apareceu em 1990, em Detroit, trazendo Kid Rock de reboque – convidado reincidente em seus primeiros discos, mas que tem uma carreira-solo desde o final dos anos 80, quando abria os sets da Boogie Down Productions, de um certo Laurence Krinsna Parker, ou melhor, do rapper Knowledge Reigns Supreme Over Nearly Everyone, mais conhecido como KRS-One.

Formado pela dupla Violent J (nascido Joseph Bruce) e Shaggy 2 Dope (nascido Joseph Utseler), ambos quase sempre fantasiados de palhaço Bozo, o Insane Clown Posse faz mais palhaçadas no palco do que propriamente boa música, apesar de sua mistura de metal e hip hop ser matadora.


Originalmente Inner City Posse e rappers convencionais, o grupo diz ter sido visitado por uma entidade que os fez mudar o nome da banda para Insane Clown Posse (“Grupo dos Palhaços Insanos”) e mudar sua temática – eles lançariam seis CDs denominados Joker’s Cards, e depois... só Deus saberia, pois o mundo provavelmente acabaria.



Na década passada, os palhaços insanos lançaram os seguintes álbuns: “Carnival Of Carnage” (92), “The Ringmaster” (94), “The Riddle Box” (95), “The Great Milenko” (97), “The Amazing Jeckel Brothers” (99), “Psychopathic Ridas Dumin’” (2000) e um último álbum, no início de 2003, em duas versões, “Bizzar” e “Bizaar”.



Nesse meio tempo, eles se envolveram em uma treta com Eminem que foi acabar no repertório de ambos.

A presepada começou em 1995.

Reza a lenda que Eminem estava distribuindo flyers de uma festa no St. Andrew’s Hall, em Detroit, onde ele estaria se apresentando e, no folheto, mencionou que ia rolar uma apresentação do Insane Clown Posse (ICP) para uma batalha de rimas.

O ICP já era famoso, com três discos gravados. Eminem eram um completo desconhecido.

Os palhaços foram lá, tirar satisfação, e colocaram o rapper branco azedo pra correr.

Alguns meses depois, Eminem e sua galera (Proof, Kon Artis, Bizarre, Kuniva e Swifty, todos membros da posse D-12) estavam em um clube quando viram os palhaços marcando bobeira.

Eles partiram pra cima pra dar porrada, mas os insanos conseguiram entrar em uma van e fugir a mil por hora.

Segundo a lenda, Os Dirty Dozen atiraram na van do ICP com armas de paintball.



Para se vingar, o ICP fez “Nothing But A Bitch Thang”, onde sacaneavam com Eminem: “Eu me lembro de sua bunda lá em St. Andrews Hall dando seus flyers ‘venha um, venham todos, venham para o meu show’. Eu olhei aquilo lá: Insane Clown Posse talvez se apresente. Que porra de rapper pode ser tão cuzão, o único jeito de você desafiar as pessoas é usando seus nomes, eu poderia ter lhe fudido lá, mas eu deixei passar, eu senti pena de você.”

O episódio do paintball também foi abordado, mas minimizado: “Você nunca correu atrás da gente de nenhum clube, seu puta cuzão! O único clube que você já correu atrás de alguém foi num bar gay!”

Na época, o ICP disse que não ia gravar a música porque no futuro ninguém iria saber que era aquele rapper cuzão chamado Eminem e a canção deixaria de fazer sentido.

Ocorre que em 1998, o mago Dr. Dre ouviu o rapper branco azedo fazendo um freestyle numa rádio em Los Angeles (CA), e então levou Eminem para sua gravadora Aftermath

Em fevereiro de 1999, Eminem lançou o CD “The Slim Shady LP” que ficou na 3ª posição na Billboard por várias semanas e vendeu mais de 500 mil cópias.



O ICP não perdeu tempo e, com a ajuda de Twiztid, lançou um remix da música “My Name Is”, do Eminem, chamada “Slim Anus”, onde, mais uma vez, sacaneavam com o rapper branco azedo.

O segundo CD de Eminem, “The Marshall Mathers LP”, é lançado em maio de 2000, vende 2 milhões de cópias na semana de lançamento.

Eminem havia dado o troaproveita a faixa título para dar o toco ao ICP e a outros desafetos.



“Eu fui colocado aqui para botar medo em viados que espirram Faygo Root Beer e que se fantasiam de palhaços porque se parecem com bichas velhas”, escancara o rapper branco azedo.

Além de renomear Shaggy 2 Dope de “Faggot 2 Dope” (“faggot” é o equivalente ao nosso “boiola”) e Violent J de “Silent Gay”, Eminem continua a baixaria: “Eu não luto wrestling, eu nocauteio vocês, suas bichas fuleiras! Pergunta pra eles do clube onde eles estavam quando saíram de fininho lá pelos fundos, aí quando viram a gente saíram correndo, (ah, ah, ah!) agachadinhos e teve paintballs atiradas em sua perua: bloaw! E eu não preciso de ajuda do D-12 para lutar contra duas fêmeas que se vestem como bichas , que tentaram me arranhar com Lee Nails (“unhas postiças”). Slim Anus você tá certo, Slim Anus, porque eu não fico fudido no meu (anus) que nem vocês, seus dois viadinhos”.

De lá pra cá, sempre que tem uma boa oportunidade, Eminem espinafra o ICP.

Que, aliás, hoje é quase um grupo anônimo se comparado com o rapper branco azedo.



Já o Slipknot é da turma do alternative metal.

São mais debochados no visual, apesar das letras que pregam o ódio e da sonoridade trash.

A forma encontrada para questionarem a estagnação é simples.


Cada um dos nove integrantes da banda usa uma máscara de filmes de terror B, uniforme com códigos de barra estampados e números em vez de nomes.

Afinal, se King Diamond usa aquela maquiagem pesada no rosto e se leva a sério, por que não satirizar essa teatralização?

Mas vamos com calma.

Existe um estado americano chamado Iowa, que é mais conhecido como “meio do nada” ou “buraco negro”, por ser um lugar onde só se pode encontrar criações de porcos e plantações de milho.

O equivalente no Brasil seria o Piauí.

Desde que a América conheceu o rock’n’roll, Iowa jamais havia dado ao mundo da música alguma figura de destaque.


No entanto, nove malucos da cidade de des Moines (capital do estado, a Teresina deles) resolveram formar uma banda nada convencional.

Todos mascarados e usando macacões da mesma cor, tocando uma combinação de death metal, hip hop e hardcore bem particular.

Como alguém imagina que seja o som de uma banda de nu-metal que tenha saído do “buraco negro” americano?



Um bom jeito para começar é dizer que ele é ultraviolento, brutal, assustador.

Os integrantes se intitulam 0, 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7 e 8 (ou se preferir seus verdadeiros nomes, DJ Sid Wilson, baterista Joey Jordison, baixista Paul Gray, percussionista Chris Fehn, guitarrista Mick Thompson e vocalista Corey Taylor, respectivamente).

Cada um deles tem uma máscara diferente, cada qual mais bizarra que a outra.

Suas máscaras mostram um pouco da personalidade de cada um.

Ao invés de estarem se escondendo, eles acreditam que com elas estão mostrando um pouco mais de seu interior.

As máscaras também influenciam a intensidade e a agressividade do som, já que, segundo eles, são extremamente desconfortáveis.

Da mistura de tudo isso que você acabou de ler, nasceu o Slipknot.



Com as ferramentas e o talento que esta banda leva consigo, o mundo não tem outra escolha senão admitir que Iowa não é mais um simples estado americano com porcos e plantações de milho: o Slipknot está aí.

Formada no final de 1995, a banda passou por várias mudanças até chegar ao que eles chamam de uma “unidade familiar”.

Em 1997, o Slipknot lançou o álbum de estréia “Mate. Feed. Kill. Repeat.”, que por ser independente chamou a atenção de várias gravadoras.

A banda cabou assinando com a Roadrunner.

Em 1998, eles entraram em estúdio para gravar um álbum com apenas o nome da banda, lançado no ano seguinte.

Em 2001, lançaram o terceiro álbum, “Iowa”, e se transformaram, definitivamente, em motivo de orgulho para a pequena cidade de Teresina, digo, de Des Moines.

Não é pouca porcaria.

O curioso é que até o estouro do Limp Bizkit, nada faria prever que as gravadoras apostariam nessa tendência.

Sinal de desinteresse, o selo original da banda Len foi desativado pelo conglomerado Sony pouco antes de o grupo estrear.


Canadense, Len traz a única mulher da tribo, Sharon Costanzo, que divide a liderança da banda com o irmão Marc.

Isto faz muita diferença.

Vinda de Toronto, a banda surgiu em 1991 e tocava um punk-pop básico.


As ligações com músicos de hip hop transformaram o estilo de som da banda.

No período de 1992 a 1996 a banda lança um EP e dois álbuns em seu selo independente (Funtrip Records), o principal deles “Get Your Legs Broke”, uma mistura inovadora de punk rock com rap.

No caminho, novos membros entram pro time: D-Rock, DJ Moves e Planet Pea.

Os discos se tornam sucesso nos charts independentes do Canadá.

Não demoraria muito para que eles alcançassem o estrelato.



Depois de assinar com um grande selo, em 1998 a banda lança “Steal My Sunshine”, que se tornaria o maior (e único) sucesso da banda, isso em plena ascenção da mistura rock/rap nos EUA.

A música entra na trilha do filme “Vamos Nessa”, lançado na mesma época, e também no álbum lançado no final de 1998, “You Can’t Stop the Burn Rush” (o primeiro do Len por uma grande gravadora).

O álbum de estréia da banda era mais eclético em suas misturas do que os dos demais gremlins e não tangia a misoginia.

No mesmo ano em que o Len emplacou seu primeiro single nas paradas, Kid Rock começou a ter tratamento de superstar.


Lançado em 1998, “Devil Without A Cause” era o quarto disco do rapper-rocker branco, mais conhecido pelo escândalo de “Balls In Your Mouth”, música que rendeu uma multa de US$ 30 mil a uma rádio que ousou tocá-la.

Kid Rock, cujo nome é verdadeiro é Robert James Ritchie, nasceu em Romeo, no Michigan, no domingo do Superbowl de 1971.

Seu pai, DJ de rock e country nas horas vagas, era dono de duas concessionárias Lincoln-Mercury e basta uma turnê pela casa da infância de Kid Rock para pôr fim a qualquer mito remanescente de que ele cresceu em um trailer.

Depois de terminar aos trancos e barrancos o curso secundário na cidade, Kid Rock se mudou para o gueto de Detroit e passou os dez anos seguintes dormindo em sofás de amigos nos projetos de Colchester, no porão de Pouncy e no Gross Point Park, na esquina da Jefferson Avenue com a St Claire Street.

Ele trabalhou em um lava-jato, puxou crack e ganhou algum extra tocando como DJ em festas black.

Muita badalação, mas pouco dinheiro.

Kid Rock lançou três discos, “Grits Sandwiches For Breakfast” (1990), “The Polyfuze Method” (1993) e “Early Morning Stoned Pimp” (1996).


Foi então que algum empresário esperto deve ter dito para ele: olha cara esse teu rap de segunda não combina com esse teu visual white-trash, coloca umas guitarras pesadas e uma levada funk/ metal na tua música e faz jus ao teu apelido, que nós vamos faturar uma grana preta.

Mas, evidentemente, a teoria é diferente da prática.

Kid Rock é falso como uma nota de 13 dólares.



Puxado pelo hit “Bawitdaba”, o seu quarto álbum tinha aquele padrão de qualidade típico de fast food americano.

Apesar da pose de bad boy e dos palavrões, Kid Rock está mais para um novo Vanilla Ice do que qualquer outra coisa.

Kid Rock? O certo seria Kid Rap.

Apesar de ter sido o único álbum do artista que chegou aos primeiros lugares da parada americana, ele desperdiça a ótima Twisted Brown Trucker Band ao utilizar vocais rap na maioria das faixas.



Quem não se importa em escutar um cara falando sem parar ao invés de ouvir um cantor de verdade, certamente não irá se decepcionar com as 14 músicas do “Diabo Sem Causa”.

O disco inteiro tem os maneirismos rap de sempre: scratches, paradas abruptas, ruídos eletrônicos e muitos palavrões, com a diferença de que a base musical é feita com rock bem tocado.

O CD saiu em 1998, mas só ganhou impulso comercial no ano seguinte – com 2 milhões de cópias vendidas e um oitavo lugar da parada –, levando o sujeito às páginas coloridas da Rolling Stone.

O disco não difere da linha escandalosa que lhe deu fama – vem com mais referências a prostitutas e vulgaridades que os discos do NWA, o grupo de rap que tornou isso corriqueiro, ou do 2 Live Crew, que inspirou uma campanha conservadora há uma década.

Em 1999, o rock finalmente havia chegado ao baixo nível do rap de 1989.

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