quarta-feira, maio 11, 2011

Aula 96 do Curso Intensivo de Rock: Limp Bizkit


O Korn é apontado como padrinho do Limp Bizkit porque foi graças ao vocalista Jonathan Davis que uma fita demo do Limp chegou às mãos de Ross Robinson (produtor do Korn), que os recomendou ao selo Interscope.



O primeiro álbum da banda, “Three Dollar Bill Y’All”, saiu em 1997, trazendo uma inusitada mistura de metal extremo, punk e hip hop, batizado pela mídia de “rapcore”.

Apesar do novo nome, o rapcore não apresentava nenhuma novidade.

O encontro entre hard rock e rap deu-se ainda mais cedo, a partir da gravação de “Walk This Way”, que reuniu o grupo de rap Run-DMC com o Aerosmith em 1986.



Na época, isso era considerado apenas uma excrescência do hip hop, assim como o álbum de estréia dos Beastie Boys, lançado poucos meses depois.

Agora, essas gravações representam o protótipo do rock atual.

O novo rock é mais rap do que qualquer outra coisa – e chega a ter rappers de verdade, como Kurtis Blow e Biz Markie no CD do Len ou Method Man no disco do Limp Bizkit.

O que diferencia os novos ídolos dos pioneiros dessa mistura são as letras.

Os pioneiros usavam essa combinação em raps de protesto, na linha do Public Enemy.

Já a nova geração cresceu ouvindo o gangsga rap rimar mulheres vulgares, maconha, bebida, violência e armas. Trata-se de música de macho.


Seus representantes cantam sem camisa para mostrar os músculos tatuados, fazem questão de suar e cultivam com cuidado suas péssimas reputações.

As atuais bandas de rapcore são marqueteiras de primeira e conseguiram aquilo que os antigos medalhões não fazem há tempos: estampar as capas das principais revistas estrangeiras de música.

O desgaste do estilo metal tradicional era evidente.

A estética metal, que pressupõe camisetas pretas, cabelos compridos, ideais satanistas, apesar de ainda encontrar grande número de admiradores, não apresenta nada de relevante há algum tempo.

Boné e tênis Adidas é o uniforme do Limp Bizkit.


A visão de Fred Durst negociando sua participação na trilha de “O Paizão”, filme de Adam Sandler, foi tão incongruente quanto o Rolex de US$ 8 mil que ele ostenta em seu braço.

Ou pelo menos tão incongruente quanto sua presença num caríssimo restaurante chinês de São Francisco, freqüentado no passado por Sammy Davis Jr. e George Bush.

O Limp Bizkit é o mais novo filho bastardo do rock, uma daquelas bandas que os ouvintes adoram odiar.

E o principal alvo dessa hostilidade é Fred Durst, com seu cavanhaque, seus olhos azuis e sua beligerância ostensiva.

Ele parece um daqueles tipos saídos de programas de auditório, acusados de toda sorte de malvadezas por mães de adoráveis bebês, e é estranho vê-lo na MTV, mas é lá que o público o quer.



Desde seu primeiro sucesso comercial – o single “Faith” que é uma paródia maldosa de “Faith”, de George Michael –, o Limp Bizkit é visto como a encarnação da América masculina encharcada de cerveja e de cérebro embotado.

Fred Durst é o Eminem do rock.

Mas ser um pária popular tem lá suas vantagens, como, por exemplo, receber convites para sessões exclusivas de “Star Wars: Episódio 1 – A Ameaça Fantasma” no Skywalker Ranch.

“Cara, não entendo tudo isso”, dizia Durst, boquiaberto, na época, ao receber o convite de George Lucas. “Um ano atrás, a gente implorava por um pacote de salgadinhos e agora tudo isto”, se surpreendia mais uma vez diante de um banquete da culinária cantonesa no tal restaurante de São Francisco, flagrado pela revista Rolling Stone.



O segundo álbum da banda, “Significant Order” (99), superou com folga a marca de 1,5 milhão de discos vendidos de “Three Dollar Bill Y’Alls”(97), seu CD de estréia.

Em sete semanas, o disco vendeu três milhões de cópias.

Não é à toa que Limp Bizkit acabou sendo considerado o salvador do gênero metal, lutando, semana a semana, com sua antítese, os Backstreet Boys, pela preferência dos adolescentes norte-americanos, e levando a melhor em alguns rounds.

É um caso típico de “se não pode vencê-los, junte-se a eles”.

A vitória comercial do grupo diz mais respeito à crescente popularidade do rap do que à volta do rock.

Embora a banda traga guitarras, ela também incorpora os scratches de DJ Lethal, ex-integrante do grupo de hip hop House of Pain.

Além disso, o álbum tem a participação do excelente rapper Method Man (do Wu-Tang Clan) e de DJ Premier (Gang Starr), ao lado dos roqueiros Scott Weiland (Stone Temple Pilots) e Jonathan Davis (Korn).

O resultado é um híbrido mutante que resume, como nenhum outro disco, o espírito de seu tempo.

Infelizmente, é um espírito de porco.


O vocalista Fred Durst reflete o gangsta rap ao tratar as mulheres como depósitos de sêmen ou vagabundas sem fidelidade – caso do hit “Nookie”, inspirado por uma ex-namorada.

Os homens podem cair na farra, mas as namoradas têm de apertar o cinto de castidade, insinuam algumas faixas.

Coincidência ou não, um caso de estupro foi registrado a poucos metros do palco, durante o show do Limp Bizkit em Woodstock 99.

Mas “Significant Other” é peso pena perto das barbaridades do CD de estréia, “Three Dollar Bill Y’Alls”.


O vocalista Fred Durst, o guitarrista Wes Borland, o baterista John Otto, o baixista Sam Rivers e o DJ Lethal saíram do anonimato da Flórida graças ao vocalista do Korn, Jonathan Davis, que colocou o grupo na estrada.

Por causa dessa associação, muitos críticos comparam – desfavoravelmente – o Limp Bizkit ao Korn, mas segundo Davis, isso é coisa do passado.

Desde que ouviu “Significant Other”, Davis passou a ver o Limp Bizkit como colegas, e não como primos pobres.

“Com esse disco eles se firmaram de vez no cenário do rock. Quando muito somos pais orgulhosos do grupo”, afirmou.

Entre outros aprontos, Davis levou seus amigos a um famoso show de strippers em São Francisco e, às custas de seu empresário, Durst pagou US$ 60 por uma lap dance particular. “A garota disse que me viu na MTV”, contou depois, deslumbrado.

Mas, se há uma coisa que ainda compromete o sucesso do Limp Bizkit é sua imagem no que se refere ao público feminino.


“Pensei mais nas mulheres quando estávamos fazendo o segundo disco”, conta Durst. “E isso nem me passava pela cabeça quando estávamos produzindo o primeiro”, admite.

Durst não vai abrir mão de sua amizade com mulherengos famosos como Tommy Lee e Pauly Shore nem se arrepender por sua participação no filme pornô “Backstage Sluts 2”, mas está disposto a explicar algumas passagens de “Dollar Bill”, a música que deu à banda sua reputação de politicamente incorreta e insensata.

“Estava furioso com minha namorada. Se você soubesse as coisas horríveis que ela me disse...”, conta. “Sei que isso não é desculpa, mas eu só estava reagindo ao que aconteceu e nem pensei nas conseqüências, mas aprendi a lição”, garante.

“Agora, quando alguém critica minhas letras, penso duas vezes e vou lá ver se não fui misógino ou chauvinista”.

O hit “Nookie” também nasceu por causa de uma briga com uma namorada, mas as partes mais pesadas da letra são compensadas por algumas, digamos, pitadas de autocrítica.



“Eu pensava que ela era uma garota legal que trabalhava num pet shop, mas acabei descobrindo que ela estava dormindo com meus amigos”.

Não ter apoio é parte central da vida de Durst.

“Sou workaholic, preciso de aprovação e de segurança, meu cérebro não pára nunca e isso é outro problema”, conta. “Não existe nada na minha vida além do trabalho e às vezes preciso me lembrar de sentir o perfume das rosas”.

Nascido em Jacksonville, Florida, em agosto de 1970, Fred Durst teve uma filha quando tinha 19 anos.

Adriana, hoje com 11 anos, está sendo criada na Flórida pela mãe, de quem o roqueiro se separou antes mesmo de a menina nascer.

“Eu estava perseguindo o meu sonho e demorou muito para ele se tornar realidade”, justifica.

Embora hoje possa sustentar a filha financeiramente, o apoio emocional ainda está além de sua capacidade.

“Não tenho muito tempo para investir nessa relação, mas acho que quando ela crescer mais um pouco vamos nos dar muito bem”, afirma.


Durst foi um aluno excelente no 2º grau, na Carolina do Norte, mas seus esforços acadêmicos ficaram em segundo plano diante de seus sonhos de fazer sucesso com rap ou no skate.

“Tentei estudar arte, mas fui expulso da escola em quatro dias. Era um fracasso, nem meu pai me agüentava e resolvi entrar para a Marinha”, recorda.

Depois de um ano e meio, Durst machucou o pulso fazendo skate e foi dispensado por motivos médicos.

Mais tarde, se mudou com os pais para a Flórida.

Aos 21 anos, ainda sonhava com os aplausos que tinha recebido nos shows da escola, onde fazia raps e dançava brake.


O hip hop ele descobriu na escola, onde a maioria dos alunos era negra, e ouvia fitas de grupos de Nova York.

Sua obsessão pelo hip hop permitiu que Durst transitasse por todas as tribos, mas, ainda assim, sentia uma certa dose de intolerância.

“Até os Beastie Boys aparecerem, tinha gente que me chamava de nigger lover, não me convidavam para festas, essas coisas”.

Foi no início dos anos 90, porém, que ele conseguiu conciliar o hip hop com o rock.

Em 94, depois de canibalizar uma série de outras bandas, ele conseguiu fazer a primeira formação do Bizkit.

E foi fazendo tatuagens que conheceu o Korn.

Depois de tatuar a banda, enviou uma fita demo e o resto já é história: foi a vitória da ambição sobre o talento.


O pai de Durst trabalhava na Divisão de Narcóticos da polícia e sua mãe é secretária de uma igreja luterana. Durst, porém, é pecador assumido.

“Acredito em Deus, rezo bastante, mas traio minha mulher”.

E, segundo ele, foi Deus quem interferiu literalmente no caminho da banda.

Mais precisamente em 1996, quando o grupo estava a caminho de Los Angeles para gravar seu primeiro disco.

O motorista da van em que viajavam cochilou, o carro capotou seis vezes e Durst, depois de quebrar os dois pés e ver os amigos ensanguentados, teve uma revelação.

Wes Borland tinha sido substituído por dois guitarristas, mas Durst chamou-o de volta: “Sentia que alguma coisa estava errada mesmo antes da van capotar”.

De quebra, decidiu mudar de gravadora com a ajuda de seu amigo Jordan Schur.

Foi ele quem produziu o primeiro CD da banda e agenciou uma série de shows, muitos diante de platéias apáticas.


Cansado das críticas, o Limp Bizkit apareceu no palco do OzzFest, em 1998, saindo de um vaso sanitário gigante.

“Todo mundo dizia que o Limp Bizkits era uma merda mesmo”, justificou.

A estratégia deu certo e o grupo chamou a atenção de meio mundo.

Em março de 1999, a gravadora do grupo pagou US$ 50 mil para que uma rádio do Oregon tocasse as músicas do Limp Biskit, que, por causa disso, foi manchete nos Estados Unidos.

Durst diz que não se importa com as conseqüências desse gesto e continua em busca de aprovação.

“Quero ser o único músico a colocar pensamentos verdadeiros, bons e originais em músicas e filmes no mundo inteiro”, diz Durst, que também dirige os vídeos da banda. “Posso fazer as duas coisas, cara, quero ser o novo Freddie Ford Coppola”.



O terceiro álbum do Limp Bizkit, “Chocolate Starfish And The Hot Dog Flavored Water” (Universal), trouxe o retorno em grande estilo do “nu-metal”, ou novo metal, que tem – é bom lembrar – no Korn sua maior expresão.

Mas pergunte a qualquer fã do Gamma Ray, a atual banda de Kai Hansen (ex-fundador do Halloween), o que ele acha desse heavy metal moderninho.

A resposta deve ser alguns sonoros palavrões.

Na verdade essas bandas de “nu-metal” deixaram de lado aquelas que são algumas das características mais adoradas pelos fãs do metal tradicional, ou seja, nada de vocais agudos e histéricos ou solos intermináveis de guitarra.

Típico menino mau da música, Fred Durst é odiado por outros músicos e xinga quem aparecer pela frente.



Sua tarefa não é fácil: ele está se tornando o porta-voz de jovens que vieram depois da Geração X (como fica evidente em “My Generation”, não aquela do The Who).

Continuam as idéias de “eu não me importo” (já exploradas por Sex Pistols e Nirvana), mas agora, em canções recheadas de palavrões.

Se você gostava dos álbuns do Faith No More ou da trilha do filme “Judgment Night”, então não perca esse álbum.

O som é a mesma mistura de rap e rock, mas agora embalada com outro nome.

A empolgação dos jovens americanos é parecida com aquela do começo dos anos 90, com o grunge (como já foi dito, “Significant Other”, o disco anterior do Limp Bizkit, chegou a desbancar o Backstreet Boys do topo da parada da Billboard).



As provocações do novo disco já começam na faixa “Hot Dog”, em que Durst cutuca Trent Reznor, do Nine Inch Nails, que classificou de “lixo de branco” o som feito por bandas como o Limp Bizkit.

A partir daí, a baixaria corre solta.

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