terça-feira, maio 10, 2011

Aula 97 do Curso Intensivo de Rock: Ministry


Apesar do visual e das atitudes prafrentex, o povo heavy metal continua sendo uma das tribos mais conservadoras que existem na cena pop.

Os que tentam criar novos estilos ou novas tendências passam por maus bocados.

Foi assim com o funk-metal, por exemplo.



Em meados dos anos 80, bastava mostrar um disco dos Red Hot Chili Peppers a um metaleiro para provocar a mais profunda ira.

Invarialvelmente o cara iria ouvir um pouco e falar muito puto: “Isso é funk, porra!”

A mesma coisa aconteceu quando, nas festas heavy ou programas do gênero, surgiu um tipo de música que aproximava o rock pesado da música eletrônica: “Isso é house music, porra!”, reclamaram alguns equivocados mais apressadinhos.

Poucos haviam notado que estava em evolução uma nova corrente do metal extremo, talvez a mais ousada em muitos anos, e que misturava guitarras com teclados resultando numa espécie de tecnothrash.

O grupo americano Ministry estava encabeçando o movimento, mas a idéia vinha sendo desenvolvida há muito tempo por bandas de hardcore industrial, que de certa maneira tinham ligações com o Ministry como os Revolting Cocks, até então classificada como cyberpunk.



Depois que a receita chegou ao ponto exato do cozimento, surgiram novas bandas que abraçaram a corrente como Godfeth, Skom, Skrew, Skin Chamber, Controlled Bleeding e Skatenigs.

Todas mixando drum machine, sons industriais e solos de guitarra com muito peso.

A base dessas bandas tecnothrash é muita guitarra noise distorcida, que passeia em cima de percurssões repetitivas de bateria acústica e eletrônica, recheada de letras que falam de assuntos contemporâneos.

Curiosamente, depois do grunge, foi novamente nos Estados Unidos, e não na Inglaterra, que surgiu essa geração inovadora.

Parece que os súditos de Sua Majestade ficaram presos nos anos 60 e não retornaram mais das viagens psicodélicas que já encheram o saco há muito tempo.

E, mais curioso ainda, é que esse pessoal não veio de consagrados centros musicais como Nova Iorque e Los Angeles.

A base dessas bandas de tecnotrash, acredite se quiser, foi o reacionário Texas.


O Ministry – cujo disco “Psalm 69: The Way To Succeed And The Way To Suck Eggs”, de 1991, é indispensável para quem queira saber do que se trata o tecnothrash – tem culpa na criação dessa nova geração.

A partir do álbum “Mind Is A Terrible Thing To Taste”, eles abandonaram a eletrônica pura em favor de uma recombinação com o hardcore, atraindo Jello Biafra para sua turnê e depois para um projeto comum, o Lard.

Desde que a banda deixou Chicago e fincou bases no Texas, mais e mais bandas tecnothrash vêm aparecendo.

Entre nomes como Pailhead, Lead Into Gold e 1.000 Homo DJ’s (esses, responsáveis por uma versão arrasadora de “Supernaut”, do Black Sabbath), o destaque fica mesmo com os Revolting Cocks.

Famoso pelo inferno drunk de seus shows, vários de seus membros foram presos ou extraditados em uma turnê européia, acusados de comportamento obsceno nos palcos, crueldade com animais, incitação à violência e porte de drogas.

O Skew (que em outra encarnação era uma banda thrash chamada Angkor Wat) é de Chicago.



Lá também é a casa dos Butthole Surfers, um grupo sem definições, mas que ao colaborar (via o demente vocalista Gibby Haynes) no citado disco “Psalm 69”, do Ministry, criou o single síntese do tecnothrash: “Jesus Buit My Hotrod”.

Desse modo, por incrível que pareça, são os cowboys, os caipiras, que abraçaram com mais firmeza a novidade.

O próprio Alain Jourgenson, um caipira freak assumido, nas horas vagas ataca de DJ country sob o pseudônimo de Buck Satan.

Enquanto nerds do Vale do Silício criam barulhinhos que se aproximam mais e mais da entediante new age, os broncos não-lobotomizados botam pra quebrar.


Alain Jourgenson é a figuraça por trás do Ministry.

Conhecido também por apelidos como Hypo Luxa, Alien Dogstar ou Grandpa, virou lenda no meio musical por participar de dezenas de projetos paralelos simultâneos, como Revolting Cocks, 1.000 Homo DJ’s, Acid Horses, Murder Inc., PTP (Programming The Psychodrill) e Buck Satan and The 666 Shooters, entre outros.

E como cérebro do Ministry, claro.

Alain Jourgensen já foi descrito como “Papai Noel com uma serra elétrica”, ou “Phil Spector encontra Gengis Khan”.

É verdade. É verdade também que Al nasceu em Cuba, em 1959, de uma mãe de 16 anos.

Passou por orfanatos e casas de correção.

Hoje é casado e feliz com Patty, sua empresária, e tem uma linda filhinha.

Os Jourgensens estão mais para Família Do-Ré-Mi do que para família Manson – embora Al não negue a mística que existe em torno do Ministry: o de banda violenta, beberrona, que consome drogas como se fossem Mentex.


O Ministry foi criado em 1981, por inspiração de Al, que o concebeu como um projeto de um homem só.

Antes disso, Al flertou com o punk e o new wave antes de montar o Special Effects, junto com Frank Nardiello – hoje no My Life With The Thrill Kill Kult.

A banda terminou quando Frank foi para Londres trabalhar com o Drowning Craze.

Um dia Alain entrou na sede do Wax Trax e mostrou uma demo para o dono, Jim Nash.

Era “Cold Life”, que se tornou o primeiro single do Ministry.

A Wax Trax era então apenas uma loja de discos engatinhando no papel de gravadora – “Cold Life” foi seu terceiro single (o anterior foi “Born To Be Cheap”, cantado pela trash star Divine).

O single vendeu cinco mil cópias, um estouro para o selo recém-inaugurado.

Na seqüência, Al gravou “Everyday Is Halloween” – “um clássico das pistas comparável ao Blue Monday, do New Order”, na opinião de Jim Nash.



Nessa época Al entupia os ouvidos de A Certain Ratio e Human League.

O Ministry era um sub-Human League.

Depois do sucesso de “Halloween”, Al gravou “Nature Of Love”.

O Ministry foi excursionar com o Front 242.

Al e Richard 23 se dão tão bem que decidem fazer um projeto conjunto – nasce os Revolting Cocks.

A gravadora Sire, entusiasmada com o trabalho de Al, contrato o Ministry.

Artistas que saem de uma gravadora independente para uma grande geralmente tendem o tomar seu som mais comercial, acessível.


Com o Ministry foi o contrário: depois que assinou com o Sire, Al começou a tornar o som da banda mais pesado e mais sujo.

Em 85, grava o álbum “Twitch”, que ainda guarda resquícios da fase tecnopop, mas já começa a mergulhar na distorção.

Na turnê de divulgação de “Twitch”, os shows do Ministry são abertos pelos Blackouts, uma banda de Seattle.


Al convida Paul Barker, baixista dos Blackouts, para se juntar ao Ministry.

Nascido em Palo Alto, na Califórnia, também em 1959, Barker era um nerd viciado em computação, ficção científica e histórias de terror, não necessariamente nesta ordem.

É a partir da entrada dele que o Ministry se torna uma máquina de fazer barulho.



Em 88, já com Barker como membro fixo, o Ministry lança “The Land Of Rape And Honey”, que ficou algumas semanas no topo da parada independente americana.

No ano seguinte veio a consagração: o disco “The Mind Is A Terrible Thing To Taste”, que ficou onze semanas nessa mesma parada.


Ministry no estúdio

Junho de 1991. São quatro da tarde nos Trax Studios, em Chicago.

Al Jourgensen e Paul Barker dão um toque final na mixagem de mais uma música do novo álbum do Ministry, o já citado “Psalm 69”.

A música se chama “Jesus Built My Hot Rod”.

Hot rod são aqueles carros de corrida compridos, com rodas pequenas na frente e grandes atrás, que vão de 0 a 100 em segundos, cuspindo fogo pelo escapamento, fazendo um barulho desgraçado e atingindo velocidades tão absurdas que é preciso um pára-quedas para freiá-los.

Mais ou menos como o Ministry.

Ambos estão contentes. “Isso é fucking great”, grita Al.

Os dois estão sentados no meio de duas caixas de som gigantescas.

Em frente, uma televisão de trinta polegadas.

O volume está no máximo.

“Jesus Built My Hot Rod” começa e o estúdio inteiro treme.



O vocalista Gibby, dos Butthole Surfers, se esgoela em meio a uma tempestade hardcore.

Na tela, carros capotando e se incendiando.

Cenas de filmes com a imagem de Jesus se misturam a cadáveres carbonizados de pilotos.

“Jesus Built My Hot Rod” é a trilha sonora do Apocalipse.

“A MTV vai boicotar nosso clip”, diz Al. “Fodam-se!”

Paul ri. Dane-se a gravadora.

O Ministry está pelo menos duas semanas atrasado para entregar seu disco novo. E daí?

“O que eles pensam? Que sou algum vagabundo? Olha só o que eu fiz nesses últimos meses: gravamos um disco novo do Lard, duas músicas novas do Revolting Cocks, preparamos um LP de cinco músicas dos 1000 Homo DJs, remixamos uma faixa do disco novo do Red Hot Chili Peppers e ainda produzi o primeiro LP do Skatenigs. Quem está atrasado com o quê? Não tenho tempo nem para dormir.”

Al não está exagerando. Nos últimos seis meses, ele e Paul têm passado uma média de vinte horas por dia no Chicago Trax.

“Mais do que um estúdio um modo de vida”, como reza a frase estampada no encarte de “The Mind Is A Terrible Thing To Taste”: nos fundos do estúdio, sacos de dormir e sofás, onde Al, Paul e os engenheiros de som costumam dormir.



Al e Paul são os mestres do dancecore, do industrial thrash, do cyberpunk, a banda que humanizou a bateria eletrônica e informatizou o hardcore.

O Ministry não pode ser rotulado.

Seu som é uma mistura de hardcore, thrash dance, new beat e industrialismo.

No meio, sons de serras elétricas, furadeiras e carros velozes.

A música evoca imagens surreais, de destruição e fábricas à George Orwell.

Enquanto a maioria das bandas sua para tentar reproduzir em vinil o som que obtém ao vivo o Ministry tem o problema inverso: conseguir no palco a mesma força das gravações.

O som é complexo, cheio de detalhes. “É difícil porque nossos arranjos às vezes são complicados”, diz Paul.


Na turnê de lançamento do LP “The Mind Is A Terrible Thing To Taste”, o Ministry tinha dez pessoas no palco.

“Antes de cada excursão, passamos sempre umas duas semanas bolando como vamos reproduzir as músicas ao vivo. Às vezes temos de mudar a afinação de algumas músicas”, completa Paul. “Seria fácil para nós fazer uma turnê só com dois músicos e um monte de bases pré-gravadas, mas achamos isso ridículo. Gostamos de tocar ao vivo”.

A música eletrônica, geralmente associada à dance music, tem no Ministry uma exceção à assepsia e frescura das bandas belgas.

A tecnologia do Ministry é usada para “impurificar” o som.

Alain: “A maioria das pessoas usa a tecnologia de um modo estéril. O que nós queremos é usar tudo que a tecnologia pode proporcionar de melhor, mas sem nos robotizar. Queremos juntar a cibernética com a nossa raiva e frustração. Não interessa se a bateria é eletrônica ou não, o que interessa é o resultado final. Se um soldado quer destruir um tanque, ele pode usar um Exocet ou uma granada de mão que o tanque vai ser destruído do mesmo jeito. Se temos um computador que não faz barulho, é só jogá-lo pela janela que ele vai fazer um esporro inacreditável”.

Mas nem sempre foi assim.



Quem ouve o Ministry do início dos anos 80 não acredita que é a mesma banda.

Nessa época, seu som lembrava o Human League ou o Cabaret Voltaire, totalmente dance.

Al, parecendo arrependido e envergonhado do que fez em outros tempos, explica: “Foi uma progressão. Paramos de aceitar conselhos e passamos a fazer só aquilo de que gostávamos. A coisa também melhorou quando passamos a ser influenciados por bandas ruins. Ouvíamos aquilo e pensávamos: Que merda! Vamos fazer algo totalmente diferente dessa porcaria”.

Billy, guitarrista dos Skatenigs, mostra um riff que acabou de compor, Paul gosta.

Alain se lembra de um sampler de bateria que está na gaveta, à espera de um riff. O casamento é perfeito.

Nasceu a mais nova música do Ministry.

Alain gosta tanto que promete a Billy incluí-la no próximo LP.

Paul: “É assim que compomos: temos uma idéia, sentamos e começamos a trabalhar em cima dela até ficar perfeita, do jeito que a gente quer”.

O Ministry não compõe em casa, não é o tipo de banda que tem surtos de criatividade e de um estalo criam sons geniais.

É um trabalho lento, como a construção de um prédio.



O Ministry não compõe, o Ministry constrói.

Junta riffs, samplers, sons de serras elétricas, diálogos de filmes, testando à exaustão.

Testar é a palavra de ordem da banda.

“Gostamos de ligar o botão de gravação e fazer qualquer barulho, só para ver o que vai dar”, diz Alain. “Tudo o que sabemos foi resultado direto de nossas experiências no estúdio. Eu não entendo nada daquelas merdas de botõezinhos. Até hoje falo aumenta aquele verdinho, não sei nem o nome, mas sei o efeito que vai ter!”

Paul: “Aprendemos tudo sozinhos. Gostamos da filosofia do faça você mesmo”.

Essa tão propagada “genialidade” já rendeu ao Ministry inúmeros convites para trabalhar com outras bandas.



Al acaba de produzir o primeiro LP do Skatenigs, uma banda do Texas, e trabalhou no LP do Gwar.

Rick Rubin, ex-Def Jam e atual chefão da Def American, pediu aos dois que remixassem a faixa “Give It Away” do novo LP dos Red Hot Chili Peppers.

“Ficou bem melhor do nosso jeito”, diz Paul.

Alain: “Outro dia, o Ric Ocasek, dos Cars, me ligou pedindo para produzir o disco dele. Não topamos. Não tínhamos tempo, e além do mais era uma merda, mesmo! Prefiro trabalhar com bandas novas, como os Skatenigs ou o Gwar. Produzi duas faixas do LP do Gwar e o pagamento foram seis latas de Budweiser e duas pizzas! Mas valeu a pena, foi muito divertido”.

Alain pede um tempo. Precisa gravar a última base de guitarra para finalizar uma música chamada “Bleeding Heart”.

“Essa é sobre essas pessoas que perderam seu senso de humor, que se acham politicamente corretas e merdas desse tipo. Veja só essa idiota da Nancy Reagan, fazendo essa campanha Just Say No (Diga Não, campanha antidrogas veiculada pelo governo americano). Ela deveria fazer a campanha Diga não a esses idiotas que te dizem para dizer não.”

Logo depois, ele mete uma caneta sem carga num pequeno monte de pó.

“Não gosto dessa merda, mas preciso ficar acordado!”, explica.



Na última excursão do Ministry, a banda usou um efeito visual de impacto: uma grade, que cobria toda a extensão do palco, separando público e banda.

Quem estava enjaulado?

“Queríamos realçar o caráter claustrofóbico do nosso som, por isso nos trancamos numa jaula”, diz Paul.

“A grade tornou os shows ainda mais violentos, que era exatamente o que pretendíamos. O público liberava sua agressividade destruindo aquela grade”, completa Alain.

Foram poucos os shows em que a grade resistiu.

Em Palo Alto, Califórnia, um grupo de skinheads nazistas começou a balançar a grade.

Paul desceu do palco e quebrou seu baixo na cabeça de um deles.

Alain chamou os nazis para porrada, que só foi contida com a chegada de um batalhão de policia.

Alain: “Só porque gritamos uns sieg heil no meio de The Land Of Rape And Honey, acham que nós somos nazistas. Eu odeio skinheads, odeio nazismo e toda essa babaquice direitista”.

O Ministry fez até uma música sobre isso, “N.W.O. (New World Order)”.

“Cortesia desse filho da puta do George Bush”, diz Paul.

O mesmo Bush, aliás, que nada faz contra os selos de “linguagem chula” que sempre vêm colados nos discos do Ministry.

“É isso que queremos, perturbar as pessoas”, continua Paul. “Queremos esmurrar a cara desses imbecis. A cada ano vendemos mais discos, nosso público cresce, a cada ano nossa música fica mais pesada, anticomercial.”

A hipocrisia americana está perdendo a briga – cortesia de Alain Jourgensen e Paul Barker.

Em dois discos, o Ministry tornou o final de 80 muito menos monótono.

Al e Paul acordaram o pop, posto para dormir pelos pseudopsicodélicos de Manchester.

Mostraram que a bateria e os instrumentos eletrônicos em geral podem ser usados para fazer rock decente.

Tanto que o hardcore industrial do Ministry tornou-se unanimidade entre gente tão diferente quanto punks, headbangers, universitários cabeça e até alguns fãs de dance music.

Projetos Paralelos

Os Revolting Cocks (ou RevCo) são Alain, Paul, Richard 23 (Front 242), Bill Rieflin, Chris Connely (Fini Tribe) e Luc Van Acker (Mussolini Headkick).

Lançaram três LPs: “Beers, Steers & Queers”, “Big Sexy Land” e o ao vivo “You Godamned Son Of A Bitch”, todos pela Wax Trax.



Paul: “O RevCo é uma festa, só que com um gravador ligado. Chamamos nossos amigos, vamos para o estúdio, bebemos e começamos a gravar. É dance music, a mais debochada e escrota passível”.

Alain: “A banda são as pessoas que estiverem no estúdio naquela hora. Você pode ser um RevCo, qualquer um pode, é só chegar”.

O Pailhead é um projeto que reúne Alain, Paul e Ian McKaye, vocalista do Fugazi e uma das figuras centrais do underground americano, hoje.

Som barulhento, com predominância de guitarras. Lançou quatro singles pela Wax Trax.

Paul: “Estávamos na Inglaterra, e o Ian estava no mesmo estúdio. Convidamos ele para cantar uma faixa. Ficou ótima. Quando ele veio para Chicago, gravamos mais alguns singles. Pretendemos continuar o trabalho com o Pailhead”.

Além dos citados, os membros fixos e flutuantes do Ministry (the tribe, ou Ministry Big Band From Hell And The Mutants Of Rock, como eles se batizaram para a última turnê) aparecem em várias configurações, como o P.T.P.

Barker solo já lançou um EP e um LP como Lead Into Gold.

Ao lado de Nivek Ogre, do Skinny Puppy, eles formam o WELT.

Com Mallinder e Kirk do Cabaret Voltaire eles são o Acid Horse.

Os bateristas Bill Rieflin e Martin Atkins formaram o Pigface, com participação de Barker, Ogre, Steve Albini, Trent Reznor (Nine Inch Nails) e outros, já com dois álbuns.

Ao lado de Rieflin, o principal colaborador de “Hypo Luxa” e “Hermes Pan” (pseudônimos de Jourgensen e Barker) é o tecladista Chris Connelly, que também já tem um disco próprio.



O projeto 1.000 Homo DJs consiste apenas em fazer barulho. Só barulho. Lançou quatro singles pelo Wax Trax, que foram compilados num CD, incluindo uma versão para “Supernaut”, do Black Sabbath.

Paul: “A idéia é fazer música pop a mais distorcida possível. Com um nome desses, tem de ser a música mais pesada que você já ouviu na vida”.

Alain: “Fui eu que inventei o nome. Não me lembro como. Só sei que é ótimo”.



O Lard une o Ministry e Jello Biafra, ex-líder do Dead Kennedys.

Lançou os LPs “The Power Of Lard” e “The Last Temptation Of Reid”, ambos pela Alternative Tentacles, gravadora do Jello.

É hardcore, bem menos eletrônico que o Ministry. As letras são politizadas no melhor estilo de Dead Kennedys.

Paul: “Jello queria fazer músico sem ter nenhum compromisso com uma banda. Um dia ele estava em Chicago. Simplesmente nos reunimos, pegamos trechos de músicas que não tínhamos usado, juntamos com algumas coisas que Jello tinha e gravamos o EP. Ficou tão bom que resolvemos gravar o EP”.

Alain: “A alma do Lard é Jello Biafra”.

Ministry na estrada

Dezembro de 1992. O camarim do Ministry parece uma reunião do Rotary Clube, de tão tranqüilo.

O que esperar de uma banda liderada por um lunático e "junkie" assumido como Alain Jourgensen?

Drogas, é claro, e mulheres... e bagunça.

Mas falta só meia hora para banda entrar no palco e nada de anormal aconteceu.

Os roadies conversam tranqüilos.

O baixista Paul Barker mostra as fotos de Ursula, sua filha recém-nascida.

Jourgensen está sentado num canto, fumando. Marlboro.

Está chegando alguém famoso... É Scott Ian, guitarrista do Anthrax (Paul conta que ele e Alain devem produzir o próximo álbum da banda).

Pouco depois chegam os Red Hot Chili Peppers, Anthony Kiedis e Flea, companheiros do Ministry no Lollapalooza.

Al se levanta correndo, abraça os dois como irmãos: “Que bom ver vocês aqui! Tenho uma coisa quente para mostrar!”

Podem ir tirando os pensamentos maldosos da cabeça: a “coisa quente” é uma guitarra Ibanez de 12 cordas, feita sob encomenda para ele.

Subitamente o Brasil vira o assunto do papo.

Os dois Peppers comentam que vão tocar lá em janeiro, no Hollywood Rock.

Um velhinho simpático, de agasalho e tênis de maratonista, entra na conversa e diz que acabou de voltar de São Paulo.

“Cidade louca!”, grita o coroa, batendo na testa. Ele tem uma cara familiar...

É Timothy Leary. Ele mesmo, o papa do LSD, perdido no camarim do Ministry.

Leary veio trazido por um amigo de Al e se diz muito curioso para ver a banda em ação.

Nunca tantos doidões se reuniram no mesmo lugar... e se comportaram tão bem.

Luzes apagadas, música country rolando nos alto-falantes e o Ministry vai entrando no palco.

São sete: Al, Paul, dois guitarristas, um tecladista, o baterista Bill Rieflin e o vocalista Chris Connely, dos Revolting Cocks.

A única coisa iluminada no palco é o pedestal do microfone de Al, feito de crânios e ossos de animais, puro karaokê de Satã.

Ainda na penumbra, Al anuncia: “Feliz Natal... Essa é N.W.O.”



Começa o ritual do “gospel hardcore”.

Em uma tela no fundo do palco são projetadas imagens de pessoas deformadas, acidentes de carro, todo tipo de barbaridade.

Na platéia o mosh acelera, cabeludos voam nos ombros dos amigos até encontrar pela frente uma intransponível barreira de seguranças.

Os sete caras no palco quase não se mexem.

É um espetáculo épico e ao mesmo tempo minimalista, robótico.



A banda emenda “Just One Fix”, hit do álbum Psalm 69.

Depois vêm antigos sucessos: “Breathe” (com vocal de Connely), “Thieves”, “Burning Inside”, “Stigmata” e “The Land Of Rape And Honey”.

Connely canta (grita, esgoela) “TV Song”.

Nos lados do palco esqueletos de animais dão o tom macabro, lembrando a câmara de torturas de Hellraiser.

Apesar dos pedidos do público, “Jesus Built My Hot Rod”, a faixa que Simon Price do Melody Maker chamou de “a Ace Of Spades dos anos 90”, fica de fora do show.

Al e Paul acham que só Gibby Haynes do Butthole Surfers é capaz de fazer aquele vocal demente.

O bis é glorioso: Scott 130 sobe ao palco para tocar a terceira guitarra em “Supernaut”, a cover de Black Sabbath.

Para finalizar, outra elegia ao Sabbath, a lenta e mastodôntica “Scarecrow”, uma fantasia demoníaca que se arrasta por dez minutos e deixa cinco mil pessoas em transe.

Com a microfonia das guitarras ainda reverberando nos amplificadores, a banda vai saindo, um a um.

É o fim... do mundo?

Não, do show.

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