terça-feira, maio 10, 2011

Aula 98 do Curso Intensivo de Rock: Frank Zappa


É claro que essa fricção entre o rock e a chamada música de vanguarda não é nenhuma novidade.

Eles vêm se chocando há várias décadas e algumas vezes surgem sons que vêm dar às fronteiras do metal tradicional.

O pioneirismo cabe a Frank Zappa e os Mothers Of Invention.

Afinal de contas, qual o elo possível entre a música de vanguarda de Edgar Varèse e o rock’n’roll dos anos 50?

Praticamente nenhum, não fosse Frank Zappa, um aficionado tanto da experimentação artística quanto do formato pop.

Em quase três décadas de incessante produção discográfica, Frank Zappa fez de tudo um pouco: jazz-rock, óperas-rock pra lá de escrachadas, música orquestral, paródias do rock’n’roll primitivo, sem falar nas trilhas dos filmes que dirigiu e nas suas incursões pelo mundo da política.

Tudo sob uma ótica bem humorada e sarcástica, que o transformou numa espécie de Groucho Marx da cena pop.


Zappa nunca levou a sério o star system criado em torno do rock’n’roll e em diversos momentos fez questão de deixar claro a sua posição.

Esta postura anarquista lhe trouxe constantes problemas com a indústria fonográfica e um retorno na mídia bem menor do que merecia.

Mas o guitarrista, compositor, arranjador, produtor sempre esteve consciente disto e, mesmo distante das paradas de sucessos, deixou uma obra que sobreviverá ao seu desaparecimento, ocorrido em 1993.

Prolífico – lançou cerca de 60 álbuns ao longo de mais de três décadas de atividade –, trabalhou até o fim, utilizando não mais que um Synclavier 9600 em seu estúdio caseiro, o Utility Muffin Research Kitchen.

Seu universo esquisito, povoado por cafetões e ratazanas quentes, políticos escroques, bruxas se afogando, princesas judias, orquestras sinfônicas, garotas católicas e plantações de fio dental, começou a tomar forma em 1966.


Liderando seu matriarcado em seu primeiro disco, um pastiche de estilos intitulado “Freak Out!”, Frank Zappa surpreendeu o mundo.

Apesar de o experimentalismo estar com a corda toda naqueles tempos, a música popular jamais havia visto algo semelhante.

Era uma revolução musical, justificada por Mr. Z com um “não há absolutamente nada de repreensível em se tocar música atonal em cima de uma levada boogie”.

De uma só tacada, The Mothers (“Of Invention” foi coisa de um executivo nervosinho) inventaram a música underground, o álbum deplo de rock e o conceito de fazer de um disco pop uma peça musical unificada – e isso antes de Betales, Stones, The Who e o resto da turma.


Mesmo hoje – especialmente hoje –, sua caleidoscópica mistura de dadaísmo, doo-wop e dodecafonia é capaz de abalar o mais letárgico dos ouvintes, principalmente pelas implicações envolvidas.

Essas implicações – de que não existem barreiras musicais intransponíveis, de que os estilos mais antagônicos podem ser cruzados em novas e coerentes combinações, de que deve haver ouvintes inteligentes em algum lugar do universo – guiaram todo o trabalho de Zappa.

Ele misturou a atonalidade de Schoenberg com rhythm & blues em “Help I’m A Rock”.

Tango e jazz em “Be Bop Tango”.

Com o álbum “Hot Rats”, de 1969, foi o pioneiro na fusão jazz-rock.

Do punk ao rap, do country ao metal, da valsa à ópera, do samba à sinfonia, Frank Zappa explorou todos os gêneros musicais, fazendo verdadeiras obras de arte num ambiente hostil aos sonhadores.



Nascido em Baltimore, Maryland, em 21 de dezembro de 1940, Frank Vincent Zappa foi fã precoce dos compositores Igor Stravinsky e do avant-garde Edgard Varèse, que ele descobriu depois de ler na Look que Varèse fazia “a pior música do mundo” (“Ah, sim, aquilo estava pra mim!”).

Mas ele também gostava da música negra, dos grupos de doo-wop, de R&B, dos solos de guitarra de Guitar Slim e Johnny Guitar Watson e das cômicas estrepolias musicais de Spike Jones.

“Não fazia qualquer diferença se eu estava escutando Lightnin’ Slim, ou The Jewels, ou Webern, ou Varèse, ou Stravinsky. Para mim era tudo boa música”, dizia.

No Dia das Mães de 1965, uma banda chamada The Soul Giants trocou de nome para The Mothers.

Um ano depois gravaram seu primeiro disco.

O grupo foi pioneiro no uso de instrumentos de sopro amplificados e eletronicamente modificados e no uso do pedal wah-wah na guitarra e também nos metais e teclados.



Os Mothers conseguiam tocar em andamentos alienígenas com tanta facilidade que faziam o público acreditar que tudo estava acontecendo no simples compasso 4/4.

Utilizando procedimentos normalmente associados à “música séria” (técnicas de percussão pouco conhecidas, music concrète etc.), o grupo conseguiu interessar muitos jovens no trabalho dos compositores contemporâneos.

Daí por diante, sua carreira foi uma revolução só, fosse ao vivo, introduzindo elementos tresloucadamente teatrais em seus shows, ou em estúdio, convocando músicos eruditos para sessões de audiolibação (com partituras).

Sozinho, Zappa deu vazão a seu interesse por Stravinski e a música contemporânea já a partir do primeiro disco, “Lumpy Gravy”, de 1967.

E foi ironizando a tudo e a todos (hippies, caretas, Beatles, rockabillies), sem medo da baixaria e da vulgaridade, que ele construiu uma extensa discografia, demolindo conceitos e fronteiras entre o rock, o jazz, o funk e a música erudita contemporânea e promovendo as mais inusitadas fusões.

Pouquíssimo preocupado com as possibilidades comerciais ou a repercussão do que fazia junto à crítica, ele sempre pautou seu trabalho pela invenção, sem qualquer tipo de limite.


Em 1968, com o disco “We’re Only In It For The Money (“Nós só estamos nessa pela grana”), o alvo seriam os Beatles – a capa é uma reprodução ultradebochada de “Sgt. Pepper’s”.

Conta a lenda que Paul McCartney ficou tão indignado com a brincadeira que acionou seus advogados, processou Zappa e atrasou em alguns meses o lançamento do álbum.

Outra extravagância zappiana foi convidar Eric Clapton, na época o “deus da guitarra”, para participar do disco.

Ele aceitou e, ao chegar ao estúdio, ficou muito surpreso ao ser informado de que não precisaria tocar guitarra.

Em vez disso, Clapton aparece simplesmente murmurando algumas frases quase inaudíveis, sepultadas na mixagem final.

Um comentário na contracapa anuncia que “toda esta monstruosidade foi concebida e executada por Frank Zappa, como resultado de algumas desagradáveis premonições sentidas entre agosto e outubro de 1967”.



Com as antenas ligadíssimas, Zappa sustenta, em plena explosão do movimento hippie, que toda aquela história de flor, paz e amor não passava de papo furado de uma geração anestesiada e inepta.

O personagem de uma das canções, “Flower Punk”, é um garoto próximo da debilidade mental, que sonha ir a San Francisco para se juntar a uma banda psicodélica.



No final da faixa, um toque de sarcasmo: “Neste exato momento / 2.700 microgramas de STP (um alucinógeno) que Flower Punk tomou pouco antes de iniciar a canção / Começam a fazer efeito / Diante de seus ouvidos a cabeça dele explode / Deixando um bizarro resíduo de áudio / Espalhado sobre seu toca-discos adolescente”.

Referências “eruditas” não faltam. Além de citações de Edgar Varèse, o álbum inclui também um “modo de usar”, onde Zappa recomenda expressamente: “Não escute este disco sem antes ter lido A Colônia Penal de Franz Kafka”.

O clima de contestação política, que atingiria o ponto máximo de efervescência nos meses seguintes, é refletido em “Are You Hang Up?”, que descreve os Estados Unidos como um campo de concentração disfarçado, sob controle da polícia e dos nazistas eleitos para o Congresso.


Mas tudo isso é de menor importância diante da impressionante intensidade sonora do disco, o terceiro LP dos Mothers of Invention.

O grupo era formado então por Zappa (composições, vocais, guitarra, piano e edição de fitas), mais Billy Mundi (bateria e vocais), Roy Estrada (baixo e vocais), Bunk Gardener (instrumentos de sopro), Jimmy Carl Black (bateria, trumpete e vocais), Motorhead Sherwood (sax soprano e barítono).

Uma surpreendente mistura de surf music, rockabilly, jazz, rhythm’n’blues e musique concréte, além de vinhetas malucas onde mulheres se agridem via telefone e sons de instrumentos acústicos são transformados por meio de engenhosos truques de estúdio, até ficarem irreconhecíveis.

Apesar do ataque direto aos Beatles, John Lennon soube tirar de letra a gozação e, anos mais tarde, chamaria Zappa para trabalharem juntos.

A colaboração foi registrada no álbum duplo “Sometime In New York” (1972), no qual o ex-beatle aproveitou para dar o troco – o encarte era uma capa de um disco ao vivo dos Mothers, toda rabiscada por Lennon.


Ainda em 1968, sob o pseudônimo de Ruben and the Jets, Frank Zappa faria um delicioso trabalho recriando o rock dos anos 50 e o estilo vocal doo wop.

E, no ano seguinte, confirmaria o talento como compositor e guitarrista no álbum “Hot Rats”.

Um trabalho que é considerado um dos pioneiros da vertente jazz-rock, este disco revelaria o violonista francês Jean-Luc Ponty.

No campo da música clássica, ele teria peças regidas por maestros como Zubin Mehta e Pierre Boulez, enquanto o disco “Jazz From Hell” lhe proporcionaria o prêmio Grammy de melhor trabalho instrumental.


Além disso, dentro e fora de suas criações, Frank Zappa fez de sua voz um instrumento de defesa da liberdade de expressão nos Estados Unidos, não hesitando em se lançar como anticandidato nas eleições presidenciais americanas de 1992, vencida pelo democrata Bill Clinton.

E usando sua mordacidade característica para atacar, sempre que podia, as instituições conservadoras de seu país (especialmente Tipper Gore, mulher do vice-presidente Al Gore Jr., que fez campanha pela censura a algumas letras de rock e rap).

Abstêmio e extremamente família, ao longo da carreira Frank Zappa cometeu algumas das maiores loucuras já vistas em um palco.

Mas, desde 1966, o músico fazia questão de se pronunciar contra as drogas.

Uma atitude que, em plena Califórnia da contracultura, provavelmente era encarada apenas como mais uma grande viagem deste menestrel iconoclasta.


Apesar de ser considerado um egocêntrico, Zappa teve influência na carreira de muita gente.

Pelas diversas formações dos Mothers Of Invention e de seus grupos passaram, além de Ponty, músicos como o guitarrista Lowell George e o baixista Roy Estrada (que fundaram depois o Little Feat), o guitarrista Adrian Belew (que trabalharia em seguida com David Bowie, Talking Head, Laurie Anderson e King Crimson), o guitarrista Steve Vai, o baterista Terry Bozzio (da banda new wave Missing Persons) ou o tecladista de jazz-fusion George Duke.

Nos selos independentes que criou Zappa também abrigou artistas emergentes, de Alice Cooper a Captain Beefhart.

Em inúmeros projetos, incluindo “Lumpy Gravy”, em 1967, e “The Perfect Stranger”, comissionado pelo maestro francês Pierre Boulez e que estreiou em 1984, Zappa trabalhou com orquestras sinfônicas, criando obras “que o colocam lá em cima, ao lado dos grandes mestres”, conforme as palavras do maestro Kent Nagano, regente da Filarmônica de San Francisco.

“200 Motels”, seu filme de 1971, antecipou a era do videoclip.

Até mesmo seus trabalhos mais convencionais, como “Live at The Fillmore East, June 1971” e “Just Another Band front L.A.”, mostram músicas desafiadoras apoiadas em extraordinários arranjos ritmicos.

E na série instrumental “Shut Up N’ Play Yer Guitar” ficamos sabendo como a guitarra será tocada no novo milênio.



Este catálogo único, aliado à franqueza verbal do compositor, que dizia o que pensava sobre praticamente tudo, fizeram de Frank Zappa uma instituição singular.

Em música e em palavras, suas opiniões sobre censura, intolerância, fanatismo religioso – em suma, as trivialidades das mentes obtusas – mostraram o quanto estamos afundados na síndrome do “deixa pra lá”.

As letras de Zappa – e, mais sutilmente, sua música sem compromissos – nos força a confrontar nossas próprias complacências e preconceitos.

Por que ficamos chateados com a premissa contida em sua ópera-rock “Joe’s Garage” – de que um dia a música será crime?

Será porque não nos importamos se alguém quiser censurar alguma coisa?

A vida seria mesmo mais fácil se tivéssemos o direito de calar a boca daqueles que atormentam nossa consciência.

Porém, uma vez que a sociedade resolve que a vida é mais fácil com as mentes bloqueadas, o que temos?

Atitudes politicamente corretas e mediocridade em todos os níveis.

E é exatamente isso que tornava Frank Zappa tão vital.



Com sua arte e suas atitudes, Zappa conquistou muitos fãs pelo planeta dos meus sonhos.

Como o criador dos Simpsons, Matt Groening, ou o ex-presidente da ex-Tchecoslováquia, Vaclav Havel.

Se “Freak Out!” deu origem a uma tribo de freaks cabeludos, “Absolutely Free”, o segundo álbum, subverteu a Tchecoslováquia e ajudou a acabar com a ditadura comunista naquele pais.

Zappa continuou na estrada do rock até o final dos anos 80.

Sua última turnê foi em 1988/89, com uma banda de onze músicos, que se auto-destruiu na Europa, antes de tocar nos Estados Unidos – daí o título do álbum “The Best Band You Never Heard In Your Life”, a melhor banda que você jamais ouviu na sua vida.

“Há muito tempo, o negócio da música era dadaísta – era absurdo. Costumava ser o meu tipo de mundo, cheio de gente maluca e esquisita. Até mesmo o pessoal do business estava disposto a se arriscar num cara fora do esquema como eu. Agora o negócio virou gente que avaliza refrigerantes. Fazer isso muda a confiança básica. Você acaba fazendo alguma coisa que sirva para ser adaptada num jingle comercial”, reclamava.



Então ele deixou o rock de lado e foi dar uma de Marco Polo, abrindo oportunidades de comércio com o antigo bloco comunista.

“Pra mim, o comércio internacional é muito mais fascinante. Ainda posso ir para o meu quarto e escrever uma sinfonia, mesmo que ninguém jamais a ouça. A imaginação está virtualmente proibida na música americana, mas é bem-vinda nos negócios. Assim, eu vou pra onde está a ação”.

O câncer na próstata só foi detectado em 1990, uns oito ou dez anos depois de ter se desenvolvido.

Como estava em estágio avançado, foi considerado inoperável e o compositor passou por vários tratamentos, radioterapia inclusive.

Disseram-lhe que teria pouco tempo de vida.

Entretanto, numa agonia que nos lembra a de Mozart, Zappa não parou de trabalhar.

“O trabalho não é terapia para mim”, disse ele à Pulse! em sua última entrevista, concedida em abril e publicada em agosto de 2003. “Faço isso porque é o que sempre fiz. Qual a sua alternativa? Ficar na cama ou trabalhar. Se você tem um estúdio como eu tenho e ainda tem idéias para músicas, então você vai trabalhar, e faz isso até não agüentar mais”.



A morte chegou em 4 de dezembro. (“O compositor Frank Zappa partiu para sua turnê final pouco antes das seis da tarde de sábado”, dizia no mais puro estilo zappiano o comunicado distribuído pela família).

O enterro foi discreto e a morte só foi divulgada dois dias depois. Não houve chance para endeusamento ou abuso da mídia.

Que viva Zappa!


A última entrevista

“Há um certo tipo de comportamento adolescente que não ficou nada melhor desde os anos 60. Os cientistas acreditam que o universo é feito de hidrogênio porque afirmam que este é o seu ingrediente mais abundante. Eu digo que o ingrediente mais abundante no universo é a estupidez”, avisa.

Assim começou uma conversa de 90 minutos sobre música e política com o lendário e controvertido artista. Zappa está animado, apreciando a conversa. Durante o resto da tarde, há momentos em que Zappa parece exausto, uma conseqüência de seu câncer na próstata. Mas então a conversa entra em outra área da música e/ ou política, em que tem fortes opiniões, e ele se rejuvenesce.

“Nunca tive qualquer intenção de escrever música rock”, diz. “Sempre quis compor música mais séria e vê-la executada em salas de concedo, mas eu sabia que ninguém iria tocá-la. Então me dei conta de que, se alguém fosse ouvir qualquer coisa que eu compusesse, teria de formar uma banda e tocar rock. Foi como eu comecei.”

Seu plano a longo prazo deu resultado: o renomado regente Kent Nagano o chama de gênio.

Zappa ganhou um Grammy em 1987 por seu álbum “Jazz Frunt Hell” e foi escolhido para tocar a peça mais controvertida – e talvez a mais famosa – de John Cage, “4’33”, no álbum em homenagem ao compositor, intitulado “A Chance Operation”.



Suas obras têm sido executadas por um número de estimados ensembles deste século: Pierre Boulez encomendou-lhe um score sinfônico que resultou no álbum “The Perfect Stranger: Boulez Conducts Zappa”.

O grupo europeu de música contemporânea Ensemble Modern executou seus trabalhos orquestrais no Festival de Frankfurt em 1992 (que resultou no álbum “The Yellow Shark”).

O prestigiado Lincoln Center, em Nova York, apresentou uma noite com a música de Zappa em sua série de concertos Great Performers. Até mesmo o criador dos Simpsons, Matt Groening, disse que "Frank é meu Elvis".

Nada mal para quem começou sua carreira musical como baterista, em 1956, em um grupo de R&B de San Diego chamado The Ramblers (“Toquei uma ou duas vezes com eles, mas eu não era muito bom e fui despedido”), gravou doo-wop e paródias em seu estúdio em Cucamonga, Califórnia, e liderou o ataque experimental no rock com sua seminal banda de renegados e freaks, a inimitável The Mothers of Invention.

Seu período de formação como músico aconteceu durante seu tempo de colégio na Antelope Valley High, em Lancaster, uma remota cidade no deserto de Mojave, na Califórnia, à qual ele se refere como um lugar culturalmente inóspito.



Admirador de R&B e da inovadora e dissonante música do compositor Edgar Varèse, Zappa foi percussionista da fanfarra da escola, onde até lhe foi permitido compor e reger. Mas foi lá também onde ele começou a suspeitar que estava destinado a viver uma vida marginal às normas da América.

“A única razão por eu ter recebido educação musical foi porque a escola precisava de uma fanfarra em seus jogos de futebol. Era só mais uma ferramenta para apoiar o programa esportivo. Eu nunca gostei de esportes. Então eu olhava para aquilo tudo e pensava que certamente deveria haver um investimento educacional de mais valor além de novos capacetes. Aquilo me fez mesmo pensar – como você pode levar isso a sério?”

Felizmente para Zappa, isso acabou logo. “Fui mandado embora por fumar de uniforme”, diz ele enquanto dá uma tragada em um dos muitos Marlboros que fumaria naquela tarde.

Quando Zappa se deu conta do potencial para sátira em sua música? “Mesmo antes de ter essa banda maravilhosa chamada The Mothers, Ray Collins e eu costumávamos tocar em Pomona e fazíamos paródias de canções folk. Nós cantávamos Puff The Magic Dragon como Joe The Puny Creaser e tocávamos uma versão pervertida de The Streets Of Laredo chamada ´The Streets Of Fontana. Não estávamos preocupados em causar qualquer impacto nas pessoas. Só estávamos fazendo aquilo pra dar risada, por diversão. Se impressionasse mais alguém, bom. Se não, foda-se. Nada do que escrevi teve intenção de influenciar alguém.”



Mal sabia Zappa o quanto sua música seria influente em moldar opiniões tanto em casa como no exterior. Caso em questão: os primeiros dois álbuns do Mothers of Invention, “Freak Out!” e “Absolutely Free”. O de estréia, o primeiro álbum duplo do rock, que inspirou Paul McCartney a fazer “Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band”, ajudou a gerar uma subcultura americana de freaks cabeludos, irreverentes e contestadores.

Por detrás da Cortina de Ferro, “Absolutely Free” teve um efeito ainda mais profundo. A faixa de abertura do álbum, “Plastic People”, tornou-se um sucesso underground e um hino nas passeatas pela liberdade na agora dividida república da Tchecoslováquia.



Zappa ainda está surpreso com tudo isso. “Eu não fazia idéia de que aquela canção teve tanto impacto por lá. O álbum foi contrabandeado para o país um ano depois de seu lançamento, em 1967. Dez anos depois descobri o quanto a música havia se tornado poderosa. Estávamos viajando pela Europa naquele tempo, e alguns tchecos atravessaram a fronteira austríaca para assistir ao nosso concerto em Viena. Conversei com eles depois do show, e eles me disseram que Plastic People era responsável por todo um movimento de dissidentes na Tchecoslováquia. Foi um choque para mim descobrir que havia lá um grupo chamado Plastic People e que um culto de seguidores havia crescido ao redor deles. Aquela canção é especialmente relevante nos Estados Unidos atualmente”, ele diz, referindo-se a um pôster na parede retratando Ronald Reagan como Hitler, com as palavras “Ele tem o direito de fazer o que quiser” escritas embaixo.

Zappa então recita algumas linhas da canção: “Tire um dia e dê uma volta/ Veja os nazistas dirigirem sua cidade/ Depois vá pra casa e examine-se/ Você pensa que estamos cantando sobre outro alguém”.

Quanto ao presidente Bill Clinton, Zappa mostra-se insatisfeito. “O que me deixou mais chateado foi Clinton banir o cigarro na Casa Branca. Que tipo de simbolismo é este? É um programa social engendrado pelos nazis da Saúde contra as pessoas que gostam de tabaco. Fiquei contente em saber que pela primeira vez nos últimos doze anos o número de fumantes não diminuiu no ano passado. Ele permanece constante. Eu gosto de tabaco, sempre adorei. Há um lugar para o tabaco na experiência de jantar. É como vinho. É um complemento apropriado à comida.”

Qual o processo criativo de Zappa, o trocadilhista, o satirista, o humorista? “Eu escrevia letras quando estava viajando. Eu estava num vôo para a Alemanha quando me veio a idéia para a canção Dumb All Over. Rabisquei três páginas e não via a hora de gravá-la. O reverso foi com Inca Roads. A melodia veio primeiro e encarei como um desafio encontrar palavras que lhe servissem.”



De todo seu catálogo, de quais performances sente mais orgulho? “Gosto de ouvir alguns discos mais que outros. Não agüento ouvir alguns dos meus álbuns de clássico porque me lembro das horríveis condições em que foram gravados. Mas o que eu mais gosto não depende muito da qualidade da composição, mas das lembranças de como foi divertido gravá-las.”

Seu último trabalho foi com o Ensemble Modern, numa série de três concertos na Europa. Zappa regeu “G-Spot Tornado” na noite de abertura, mas disse que “só foi capaz de comparecer ao primeiro e terceiro concertos. Passei mal e tive que voar de volta para casa”.



A doença também abortou sua breve, porém séria, campanha presidencial. A preocupação do público com sua saúde foi notável. Até mesmo Tipper Gore, mulher do vice-presidente americano e que foi a cabeça do movimento de censura aos discos em meados dos 80, ao qual Zappa se opôs veementemente, entrou em contato com ele ao saber que estava com câncer. “A mídia gosta de dar a ilusão de que Tipper Gore e eu somos inimigos mortais. Isso não é um fato. Ela me mandou uma carta muito doce quando soube que eu estava doente, e eu gostei muito.”

Depois de 90 minutos de conversa, Zappa responde à pergunta final: Como você conseguiu ter uma carreira tão longa? Opinativo em muitos assuntos, dessa vez ele mostra um raro momento de humildade. “Não sei como isso aconteceu. Como eu sobrevivi? Não sei. Eu tive sorte.”

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