terça-feira, maio 03, 2011

Morre Ernesto Sábato, após uma vida dedicada à literatura


Um dos maiores autores argentinos do século XX, o escritor Ernesto Sabato, vencedor do Prêmio Cervantes de Literatura, morreu no último sábado aos 99 anos em sua residência de Santos Lugares, na província de Buenos Aires.

– Ele morreu durante a noite, é um grande que se vai. Há 15 dias teve uma bronquite e na idade dele isto é terrível. Vinha sofrendo há três anos. De alguma maneira se aproximava dos 100 anos, mas era doloroso de ver –, declarou sua companheira de 30 anos e colaboradora, Elvira Gonzáles Fraga, à rádio Mitre.

Fraga lamentou a morte do autor.

– Nos acompanhamos por 30 anos. Há muito tempo Sábato estava mal, mas de alguma maneira permanecia estável, gostava muito de música, então colocávamos música para entretê-lo –, disse.

Sábato seria homenageado no domingo na Feira do Livro pelo Instituto Cultural da província de Buenos Aires, a dois meses de completar 100 anos.

Prêmio Cervantes de Literatura em 1984, Sábato escreveu obras fundamentais da literatura argentina como O Túnel, Sobre Heróis e Tumbas e Abbadón, o exterminador.

– Há uma obra chave de Sábato que é Homens e Engrenagens, que fala de maneira magnífica sobre a relação entre o homem e a tecnologia, algo que está acontecendo de forma contemporânea –, afirmou o secretário de Cultura da cidade de Buenos Aires, Hernán Lombardi.

A última homenagem oficial ao escritor foi feita pelo falecido ex-presidente Néstor Kirchner e pela então senadora Cristina Fernández de Kirchner, quando financiaram a criação de um museu e uma Casa de Cultura em homenagem a Sábato.


Nascido em 24 de junho de 1911 na cidade de Rojas, Sábato foi o penúltimo de 11 filhos e seus biógrafos acreditam que parte de sua atormentada personalidade foi consequência do fato de ter sido batizado com o nome do irmão imediatamente mais velho, morto pouco tempo antes.

Em 1984, presidiu um seleto conjunto de personalidades na Comissão Nacional sobre o Desaparecimento de Pessoas (Conadep), que publicou o famoso Nunca mais, com relatos e depoimentos das vítimas e sobreviventes da ditadura (1976/83).

– Compartilhamos horas de conversas, de luta quando integrávamos a Conadep –, recordou Graciela Fernández Meijide, ex-senadora e membro da Assembleia Permanente de Direitos Humanos (APDH).

“Me dói a morte de Ernesto Sábato, ficam seus livros e a recordação de um homem apaixonado por seu país”, escreveu o chanceler Héctor Timerman na rede social Twitter.

María Rosa Lojo, pesquisadora e escritora que fez uma tese de doutorado sobre o autor, também afirmou que “Sábato representa mais que a literatura. Sem dúvida, foi o último escritor argentino de verdadeira chegada popular como referência cultural. Um tipo de figura que me parece que desapareceu no horizonte atual”.

Sábato foi velado no sábado no clube Defensores de Santos Lugares, na área da província de Buenos Aires em que viveu durante décadas.


Sabato foi um grande físico, chegando a trabalhar no Laboratório Curie, em Paris.

Nos anos 40, depois de questionar esse mundo tão racional — que lhe provocava, segundo suas palavras, “um vazio de sentido” —, abandonou a ciência para se dedicar à literatura e à pintura.

Publicou livros de ensaios e romances, poucos em quantidade — só três romances —, mas de uma qualidade incontestável.

Destaca-se nesse conjunto a obra-prima Sobre Heróis e Tumbas, lançado em 1961 e com edição recente no Brasil pela editora Companhia das Letras, com tradução de Rosa Freire d’Aguiar.

O romance é dividido em quatro partes, mas antes há uma nota, supostamente tirada de um jornal de Buenos Aires, pela qual ficamos sabendo que Alejandra matou seu pai, Fernando Vidal Olmos, e depois ateou fogo no próprio quarto, se suicidando.

Na primeira parte, “O dragão e a princesa”, passamos a conhecer melhor essa impressionante personagem a partir das percepções de Martín, jovem que se apaixona por ela.

Misteriosa, imprevisível e de personalidade forte, Alejandra só não é mais estranha do que os parentes que habitam a casa, gente ligada à antiga aristocracia argentina, cujos antepassados participaram da luta pela independência do país.

Esses antepassados podem ser os heróis do título no que seria uma interpretação político-social da obra, colocando Alejandra como metáfora para a própria Argentina.

Prefiro, no entanto, a chave mais existencial, sendo que o título dessa segunda parte nos leva a esse sentido.

Seria o dragão Martín e a princesa Alejandra? Ou seria a jovem uma princesa-dragão, soltando fogo através de suas duras palavras?


Na segunda parte, “Os rostos invisíveis”, a história se desenvolve com mais comentários sobre a história da Argentina, inclusive sobre a era peronista, as paixões anteriores de Alejandra e aparece pela primeira vez Fernando Vidal Olmos, esse o rosto invisível em boa parte do enredo, mas que começa a se revelar.

É dele o manuscrito que seria encontrado posteriormente no quarto incendiado e que corresponde à terceira parte, talvez a mais perturbadora de todo o enredo: “Informe sobre cegos”.

O texto é uma narrativa enigmática, que reflete a mente perturbada de Fernando em sua tentativa de encontrar a Seita dos Cegos.

Percorre, inclusive, os esgotos subterrâneos de Buenos Aires, como a descida de Ulisses ao Reino de Hades em busca das respostas do cego Tirésias, contada na Odisseia, de Homero.

Paradoxalmente, busca a luz nas trevas.

Na verdade, a busca representa a jornada nas tumbas da nossa mente, por isso as menções ao sexo desenfreado, aos canalhas de todas as estirpes, ao lixo produzido pelo homem.

Tudo alegorias das questões morais do ser humano. Mais do que isso eu não falo sobre o “Informe”. Leia-o. Repito, leia-o. E mais uma vez: leia-o, mesmo que seja só essa parte.

Vai te deixar perturbado durante dias, mas é esse o objetivo de todas as grandes obras literárias.

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