quarta-feira, maio 04, 2011

O Rock morreu de novo?


(artigo publicado pelo jornalista e crítico musical Luiz Antônio Mello no Caderno 2 do jornal O Estado de São Paulo, em 6 de abril de 2000. Idealizador da Fluminense FM, Luiz Antônio é autor do livro-libelo “A Onda Maldita”, em que conta como a melhor rádio rock do país foi limada do dial pelas otoridades competentes)

A ema gemeu de novo. Enquanto o festival Abril Pro Rock mexe com o País, os realejos da agonia voltam a pregar que “o rock morreu”, quando na verdade o espírito libertário desse gênero existencial, e também musical voltou para seu poleiro natural que é a penumbra do mercado.

Alguns fatos estão sendo gerados para atestar o óbito do rock.

O guitarrista Carlos Santana visitou o inconsciente da futilidade ao lançar o CD Supernatural e virou dândi das discotecas emergentes do mundo.

Ganhou Grammy, um antitroféu a serviço da massificação (o popular mainstream), está ganhando muito e merecido dinheiro, graças a um sarro bem tirado com o pop no edredom do esquemão.


Sim, o selvagem de Woodstock de 1969, que fez voar mandioca para todos os lados quando disparou a demolidora “Soul Sacrifice” naquela fazenda onde homens nus dançavam com ovelhas também nuas no colo, fez uma lipoaspiração musical.

Supernatural é certamente o mais vazio disco do Santana e por isso o megaartista devorou o Grammy e ouve “fiu, fiu” nos shoppings de Miami.

O outrora escalavrado Carlos Santana, detonador de amplificadores do milênio passado, é citado como exemplo da nova onda torpe e moleca que afirma, de novo, que o rock morreu.

Mais: Mick Jagger, que beijou a boca do diabo nos anos 60, hoje é manchete popular por causa da pensão de um filho de baranga.

Um outro ícone do rock, quem diria, acabou na Vara da Família.

O coerente Neil Young sentenciou, nos anos 70, que “hei, hei, rock-and-roll jamais morrerá”.

Simultaneamente, Pete Townshend, do Who, gravou “longa vida, rock” e o rock, filho legítimo do blues, nascido em Memphis numa noite incestuosa em julho de 1954, jamais saiu de cena.

Saiu, sim, da grande mídia.

Entenda-se por rock, além da opção existencial uma massa sonora levada por guitarra, baixo, bateria, algum teclado, sopro, tudo sujo e só.

Entende-se por pop a indústria da prestobarba musical, discos que são feitos por computadores de gravatinhas Hermés e atirados no mercado, onde permanecem algumas semanas e de lá vão para o lixo.


O barbeador talvez dure mais do que um CD do Kraftwerk, uma banda que está mais para David Copperfield (o mágico) do que para Pearl Jam e Red Hot Chili Peppers.

É evidente que um desavisado consumidor roqueiro que seja vítima de um disco do Kraftwerk vai chegar em casa e constatar, em menos de 5 segundos, que o rock morreu.

Por quê? Por que disseram a ele que aquele fliperama era um disco de rock.

Exigem do rock um constante atestado de vida.

Nós, da mídia somos co-autores de toda essa chafurdação.


Recentemente, encontrei um placebo coleguinha que, numa conversa informal, questionou: “Qual é a importância de Robert Fripp para o rock de hoje?”

A pergunta mereceria resposta se ele soubesse quem é o pai, a mãe e tudo o mais do King Crimson, mas nem isso o infeliz sabe, pois dedica toda sua obra a Los Hermanos, ótima banda que ele acha que lançou no mercado e que é uma versão clonada e digitalizada dos Incríveis, que gosto de ouvir.

Você não leu errado, portanto repito: um jornalista quase se autonomeia especializado em rock não conhece o fundador do King Crimson.

O que é que se faz com ele?

É evidente que Robert Fripp não vai receber o Grammy para ganhar um ano de banho e tosa gratuitos para o seu provável poodle.

Ele rompeu com o esquemão ao criar a Discipline Global Mobile, uma indústria de música alternativa que vive, muito bem, na Internet, www.disciplineglobalmobile.com.

O rock morreu?

Não, o rock autêntico mergulhou, de novo, no matagal, no acostamento do sucesso, que sempre foi seu habitat natural, e não as passadeiras de oncinhas do Grammy.

A DGM distribui centenas de discos inteligentes, entre eles Zooma, o primeiro trabalho-solo do ex-baixista do Led Zeppelin, John Paul Jones, que está vendendo muito bem.

O disco é instrumental e a levada zeppeliniana é clara, nítida.


Jimmy Page foi o produtor de toda a obra do Zeppelin, mas os arranjos passaram por John Paul Jones, que, além de baixista, fez história tocando um órgão Hammond autêntico, sem sample, sem digi isso, sem digi aquilo, sem nada.

Em São Paulo, Rio, Porto Alegre, Manaus, quem quer ouvir rock vai ter que andar pela noite, como o Caminhante Noturno daquele clássico dos Mutantes, mais criativa e competente banda da história do rock brasileiro de todos os tempos.

Caminhando pela noite, quem procura rock sempre acha, mas na periferia.

Isso é certo porque desde 1954 sempre foi assim.

Por tudo o que já fez, Carlos Santana merece ser capa da revista Forbes. É um sobrevivente.

Idem com relação aos Titãs, policiados porque gravaram um disco só de regravações, e ninguém tem nada a ver com o fato de a banda estar ganhando um bom dinheiro em cima disso, depois de ter produzido obras magistrais como Cabeça dinossauro.

Se a televisão deixou alguém burro não foi a banda que criou “a televisão me deixou burro, muito burro demais”.

Quem argumenta a morte do rock calcado, também, na fase atual dos Titãs, bebeu muita cera de depilação, ou dormiu e torrou neurônios na mesa de bronzeamento artificial.


Dizem também que o Barão Vermelho é outro atestado de óbito do rock, pois Roberto Frejat se assumiu pop, rompeu com o rock, até pintou o cabelo de dourado, enfim, teve a coragem de jogar os longos e distorcidos solos de guitarra de antigamente no banheiro dos shoppings.

Como Robert Fripp, o gigante Jimmy Page se atirou de cabeça na Internet e, recentemente, ao tocar com os Black Crowes numa viagem pelos Estados Unidos, lançou um CD cujas faixas estão disponíveis na Internet, a US$ 1 cada uma, em www.musicmaker.com.

O consumidor paga e recebe as músicas por MP3.

Até recentemente, Page estava encafuado com uma argentina de passaporte baiano na cidade de Lençóis, que fica plantada na Chapada Diamantina (BA).

Bonachão, oposto das estrelas, Page não fazia outras coisas nos últimos anos a não ser distribuir autógrafos mesmo quando embrenhado em matagais e cachoeiras.

A multidão de fãs que, em romaria, ia lá voltar e tocar o líder do Led Zeppelin, acabou provocando um inchaço no delta de Vênus do guitarrista, que se mandou de Lençóis.


Com a baiana à frente, retomou definitivamente a Londres onde nasceu a idéia de tocar com o Black Crowes, produzindo um épico do ano 2000.

O rock morreu?

Argumentar que a geração pit boy, esses babuínos de quimono que andam pelas ruas predando seres humanos, são os culpados porque o mercado musical adotou um som para eles, é pura inverdade.

Babuíno não pensa, cisma, babuíno não ouve, escuta, babuíno não fala, grunhe, são mera referência “antropolozoológica” ou, se preferirem, um vulgar caso de polícia.

Lamentável que Charles Darwin não os tenha conhecido, pois seriam destaque em seu clássico A Origem das Espécies.

São esses bípedes de quimono o elo perdido?

Se Sting está cantando boleros digitais, isso não quer dizer que o rock morreu, mesmo porque o chamado quindim do Police dormiu jazz e acordou rock, quando Stewart Copeland o convidou para tocar em 1976 e o pavio punk já ardia ao lado do barril de pólvora.

Aquele barril que fez Margareth Thatcher arrancar o cinturão pela cabeça.

O rock morreu?

Mas poucos têm paciência, por exemplo, de ir à Internet, acessar www.radios.com.br, escolher uma boa emissora de rock de qualquer parte do mundo e ouvir o que Stewart Copeland e Andy Summers estão fazendo por aí.

Os dois e milhares de novas bandas inglesas, australianas, norte-americanas e, é óbvio, brasileiras, romperam com o esquemão e estão produzindo, divulgando e distribuindo seus trabalhos pela Internet que, segundo sentenciou Darcy Ribeiro pouco antes de morrer, é a maior invenção do homem, depois da fala e da escrita.


Outra prova é o sucesso do melhor disco da carreira de Lobão, A Vida é Doce, que mantém o índice de 67% das vendas pelo seu site, www.lobao.com.br, e o restante nas bancas de jornais.

Lobão não gosta que chame sua música de rock, mas é. Fazer o quê?

A mesma tecnologia que é usada para fazer sandices, está nas mãos do rock.

Com menos de R$ 3 mil é possível se gravar um disco autêntico, som de garagem como já foram Ira!, Plebe Rude, Capital Inicial e Paralamas um dia, bandas que aderiram ao pop ou a world music, como é o caso da última.

Os Paralamas mantém uma viagem ousada por culturas diversas, e tem colhido bons frutos, apesar do conturbado CD Acústico.

As novas bandas, no mundo inteiro, estão engordando o ranking das gravadoras alternativas, que já disputam, cabeça a cabeça, a liderança do mercado mundial com as grandes multinacionais, o que seria quase impossível se não fosse o avanço implacável do correio eletrônico pela Internet.

A Internet é a prova mais lúcida de que essa conversa de que rock morreu, samba morreu, jazz morreu, enfim, esse genocídio musical fartamente divulgado pela mídia placeba não passa de ignorância ou manobra pró-massificadora de horrores suíços.

Outro dado importante é a caça incessante do chamado “público jovem” a grandes ícones do passado, cujos clássicos são relançados aos milhões e milhões.


Hoje, compra-se em qualquer boa loja na Internet, Machine Head, do Deep Purple, A Tab In the Ocean, do alemão Nektar, tudo do Mott The Hoople, Iron Butterfly, Gentle Giant, enfim, discos que eram dados como mortos, mas que a nova realidade tecnológica catapultou de volta às prateleiras, reais e virtuais.

Toda a discografia de Hendrix, Led Zeppelin e Yes, mire outros, está disponível em relançamentos nacionais, mas, misteriosamente, The Who só conta com algumas quinquilharias e com milagroso lançamento de suas antológicas BBC Sessions, que a Universal Music acabou de lançar por aqui.

Quem compra está na faixa dos 15 aos 25 anos, informam quatro bons lojistas do Rio.

Segundo Renato Gomes, dono da conceituada loja Satisfaction, ponto de observação de roqueiros em Copacabana, o público jovem quer ouvir autenticidade, sem mistura, sem o que a indolência convencionou chamar de ecletismo, esse mesmo ecletismo que contribui para a volta do mantra “o rock morreu”.

Morreu porra nenhuma.

Um comentário:

Ramon Oliveira... disse...

pô legal demais esse artigo
a primeira vez que o li foi no livro
"Rock a música que toca"