quinta-feira, junho 23, 2011

Aula 31 do Curso Intensivo de Rock: Carlos Santana


Em 1966, no mesmo ano em que começou o inferno zodiacal do boxeador Rubin Carter, um mexicano chamado Carlos Santana imprimiu ao folk rock um acento latino divertido e dançante, o que lhe abriu as portas para wasp de cintura dura e cucarachas malemolentes.

Desde quando a Santana Blues Band começou uma irrestível ascenção em São Francisco – que iria explodir no histórico Festival de Woodstock em 1969 –, a receita guitarra mais percussão mais teclados sacoleja quadris acima e abaixo do equador.

A vida do músico começou muito cedo, aos cinco anos de idade.

Seu pai, um violinista mariachi, ensinou-lhes as primeiras noções musicais ainda na pequena vila de Autlan, no estado de Jalisco.

Três anos mais tarde, quando a família mudou-se para Tijuana, o menino trocou o violino pela guitarra, sob o influxo de B.B. King, T. Bone Walker e John Lee Hooker que ouvia nas rádios locais.

Criado na turbulenta fronteira mexicana, o adolescente Carlos acabou indo tocar blues de madrugada nos clubes, dividindo o local com prostitutas e strippers.

Talvez tenha sido por isso que seu pai, também músico profissional, tenha se mudado para Mission, distrito de São Francisco, em 1961.

Carlos foi tragado pelo fermento criativo dos anos 60, numa época em que o submundo psicodélico e os protestos contra a Guerra do Vietnã colidiam com as novas orientações musicais oriundas da costa leste.

Não demorou muito e logo estava esbarrando em músicos como os do Grateful Dead, Jefferson Airplane, Moby Grape e a Paul Butterfield Blues Band.

Juntou-se então ao organista Gregg Rolie e formou sua primeira banda.


Incentivado pelo influente promoter e empresário Bill Graham, que contratou a banda para apresentar-se em sua casa de espetáculos de Fillmore West – tornando-se o primeiro empresário não oficial do grupo –, Santana se transformou em uma das atrações mais quentes naquela região da baía.

“Bill Graham deu aos hippies a oportunidade de aprender alguma coisa”, lembra Santana. “Ele disse que se quisessem ouvir o Grateful Dead, deviam ouvir antes Miles Davis. E se quisessem ouvir Santana, que ouvissem primeiramente Roland Kirk”.

Graham, um tipo rude e mordaz, nomeara a si mesmo crítico dos artistas que contratava.

Ele assustava muita gente, mas Santana se lembra dele com ternura.

“Recordo com saudade as notas que ele tomava durante os shows, não importava de quem fossem: Sinatra, Barbra Streisand, Bob Dylan, Eric Clapton, Jimi Hendrix”, conta o guitarista. “Ele me mostrava depois as anotações e dizia: ‘Ok, a primeira música foi excelente, a segunda, uma droga e a terceira, comprida demais’. Quantos empresários você conhece que têm a coragem de dizer-lhe isso?”, indaga.

“O problema é que a gente sabia que ele tinha razão. Não tinha nada a ver com a coisa de ser empresário ou algo parecido: ele estava falando sobre música”, observa o guitarrista.

Durante os cinco anos seguintes, Carlos mergulhou naquela atmosfera saturada do rock, música folk, psicodelismo, fumaça de cigarros nada ortodoxos, batas indianas, sandálias, poesias beat, hipsters e otras cositas más.

Guitarrista da escola uivante de Jimi Hendrix, com acordes alongados e chorosos, entrecortados pelo soluço de escalas velozes e blues notes inesperadas, Santana conseguiu filtrar uma caligrafia tríplice, casando negritude e latinidade na eletrificação do folk rock.

O resultado foi uma música explosiva, que encontrou na Santana Blues Band um veículo poderoso e de fácil aceitação pela juventude disposta a aderir de vez ao nascente multiculturalismo.


Em 1969, com a música “Soul Sacrifice” agradando a gregos e chicanos, ele virou um superstar da noite pro dia e começou a detonar um hit atrás do outro.

Do disco “Abraxas” (1970) saíram “Black Magic Woman” e “Oye Como Va”.

De “Santana III” (1971), “Guajira” e “Batuka”.

A aparição de Santana no concerto de Woodstock, em 1969, projetou-o nacionalmente.

Talvez o fato de que estivesse se drogando com mescalina tenha dado à banda alguma vantagem, mas sem dúvida ela foi um dos maiores sucessos do festival.

Os primeiros ídolos musicais de Carlos foram blueseiros como Muddy Waters, Buddy Guy e Otis Rush, porém ele começou a diversificar bastante o que ouvia.

Ao rock e blues básicos, Santana acrescentou os ritmos latinos e o formato mais livre do jazz moderno absorvido de discos como “My Favourite Things”, de John Coltrane e Bitches Brew, a fusão de rock e jazz de Miles Davis.

“Miles costumava aparecer lá em casa, ele era um dos caras mais divertidos que já conheci”, recorda-se Santana. “Tinha um tremendo senso de humor. Muita gente via nele um tipo diferente de Pantera Negra, mas comigo ele era muito dócil”.

Ele se admira com o fato de, no plano musical, Davis ter mudado o curso da música sete vezes.

“Stravinsky fez isso uma vez só. Até mesmo John Coltrane, para mim o músico do século, disse: ‘Tudo o que descubro Miles já tocou’”.

Os primeiros discos de Santana, incluindo o quarto (o complexo “Caravanserai”, de 1972, muito influenciado pelo jazz), foram alguns dos mais originais e influentes da época.

A versão que ele dá para a história de sua banda tende a dissimular os conflitos pelo poder e o abuso das drogas, que só pioraram com o sucesso e que acabaram por levar Santana a abraçar os ensinamentos hindus de Sri Chinmoy.


De 1973 a 1981, o músico se apresentava como Devadip Carlos Santana, tendo colaborado com outros músicos de jazz de mesma afinidade espiritual, tais como John McLaughlin, Stanley Clarke, Wayne Shorter e Herbie Hancock.

Nos anos 80, retornou aos poucos à sua fórmula original de rock, ritmos latinos e blues.

“O jazz é um oceano”, define Santana. “O rock é uma piscina. Eu curto mesmo é um lago”.

Ele continuou a trabalhar regularmente, mas o público mais jovem se manteve distante dele, e seu nome começava a parecer nada mais do que uma curiosidade histórica.

Apesar de tudo, outras músicas foram se destacando no seu repertório como “No One To Depend On”, “Toussaint L’Overture”, “Gypsy Queen” e “Hold On”, todas tendo um ponto em comum: solos de guitarra arrepiantes combinando com uma cozinha chinfrosa de bateria, timbales e congas, além dos vocais salerosos cheios de energia e balanço.

Músicas deliciosamente suingadas, daquele tipo que ainda hoje a gente assobia no banheiro ou batuca alegremente na mesa do botequim.

Em 1988, ele conseguiu conquistar seu primeiro Grammy como melhor performance para rock instrumental com “Blues For Salvador”.

Muito se deve, portanto, ao chefão da Arista, Clive Davis, que propôs a Santana o primeiro contrato de gravação quando ele estava na Columbia, em 1968, e armou o cenário para o retorno do músico ao oferecer-lhe um novo contrato em 1995.

Davis quis saber de Santana quais eram suas aspirações artísticas e tudo indica que ficou satisfeito com a resposta: “Quero unificar as moléculas com a luz por meio da música”.


Por isso quando a indústria fonográfica americana anunciou a sua premiação anual, em fevereiro de 2000, todas as atenções do Staples Center de Los Angeles estavam voltadas para Carlos Santana, então com 52 anos, indicado para nada menos do que dez prêmios Grammy.

Esse já seria um feito notável quaisquer que fossem as circunstâncias, mais ainda se pensarmos que há alguns anos Santana era considerado apenas um dinossauro dos anos 70, sem nada a dizer para os ouvintes de hoje. Isto, claro, quando alguém se lembrava dele.

Entretanto, Depois de conquistar oito prêmios Grammy pelo álbum “Supernatural”, o roqueiro mexicano também se consagrou campeão da primeira edição do Grammy Latino, realizado em outubro do mesmo ano.

A faixa “Corazón Espinado”, que reúne Santana com a banda mexicana Maná recebeu o prêmio principal do evento, o de “Gravação do Ano”, além do de melhor “Performance de Rock em Grupo”.

Tanto Santana quanto Maná ainda venceriam respectivamente os prêmios de melhor “Grupo Pop” e melhor “Pop Instrumental”.


“Supernatural”, o disco que deu novo alento à carreira de Santana, é um cozido de ritmos latinos da última moda temperado pela sonoridade característica do guitarrista.

O que ajudou “Supernatural” a cruzar a fronteira e entrar em território pop foi o conjunto de artistas que dele participam.

“Do You Like Yhe Way” é de Lauryn Hill, que faz também o vocal rap.

“Maria Maria” foi composta e produzida por Wyclef Jean em parceria com Santana.

O cantor Eagle-Eve Cherry e os Dusty Brothers dão uma palhinha em “Wishing It Was”, um blues meio híbrido.

O vocal de Rob Thomas (do Matchbox 20) em “Smooth”, também parceria com Santana, contribuiu para que a canção ficasse 12 semanas no topo da lista de singles mais executados da Inglaterra.

Acrescente-se ainda a essa lista Dave Matthews e um duo com Eric Clapton e temos aí a receita para 5 milhões de discos vendidos em apenas seis meses.

“Dou crédito total a todo o mundo”, afirmou Santana. “Dou crédito total à minha esposa, dou a Lauryn Hill todo o crédito por ter me convidado a ir com ela à entrega do Grammy, dou a Eric Clapton todo o crédito por sua simpatia, dignidade e elegância tão grandes. Eu não preciso de crédito, meu negócio é progredir, não é fazer sucesso”.

Para Santana, o sucesso é um “bolo bonito”.

“Você o corta e o come sozinho e aí se engasga. O progresso você corta e alimenta as pessoas com ele e, quem sabe, até sobre um pedacinho para você. Essa é a minha experiência”, resume.

Talvez nessa filosofia de vida ainda haja mesmo um pouco daquele filho do flower power de 1969.

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