quinta-feira, junho 23, 2011

Aula 32 do Curso Intensivo de Rock: Neil Young


Por estranho que pareça, um dos pilares do folk rock americano é o canadense Neil Young.

Dono da conjunção voz/guitarra mais descarnada do rock’n’roll, ele sempre se manteve como um outsider, ao mesmo tempo fiel às raízes e franco-atirador nas mais diversas tendências.

A revolta inerente ao trabalho de Young deveu-se em boa parte à sua origem.

De compleição física e saúde precária (além de epilético e diabético, teve poliomelite aos seis anos), ele compensava o temperamento introvertido com a dedicação à música.

Tocou em clubes folk de Toronto e com grupos como The Squires e The Mybah Birds (cujo cantor era Rick James!), do qual saiu – com o baixista Bruce Palmer – para ir à Califórnia, no início de 66.

Consta que a dupla estava presa num engarrafamento em Los Angeles, quando topou com o carro onde estavam os guitarristas Stephen Stills e Richie Furay.

Young já conhecera Stills há alguns anos no Canadá e deste reencontro nasceu o Buffalo Springfield.

Em dois anos de existência, o grupo formou – ao lado dos Byrds – uma das correntes mais influentes do rock sessentista, que eletrificou o country e o inseriu no contexto psicodélico da época.

Apesar de ter grande repercussão, o BS foi logo esfacelado devido às mudanças de membros e às rusgas constantes entre Young e Stills pela voz de comando.

Com o fim do grupo, Stills foi se agregar a David Crosby e ao inglês Graham Nash (egressos dos Byrds e dos Hollies, respectivamente) e – com a futura inclusão de Neil – formariam o supergrupo Crosby, Stills, Nash & Young, na virada dos anos 60/70.


Porém, entre essas duas experiências de sucesso fulminante, Young iniciara carreira-solo gravando um álbum com seu nome e a ajuda de amigos como os produtores David Briggs, Jack Nietzsche e o guitarrista Ry Cooder.

Mas um encontro com um grupo chamado The Rockets – cujo núcleo era composto pelo guitarrista Danny Whitten, o baixista Billy Talbot e o baterista Ralph Molina – definiu seu passo seguinte.

Young tomara contato com a banda há alguns anos (por meio da namorada, a cantora folk Robin Lane), mas os compromissos com o Buffalo Springfield impediram-no de tocar com eles.

Ao rever o grupo, Neil rebatizou-o como Crazy Horses e passaram a ensaiar juntos.

Logo, a trupe estava afiada para gravar (em apenas duas semanas) o álbum “Everybodys Knows This Is Nowhere”, feito praticamente ao vivo em estúdio.

Desde a faixa de abertura (o hit “Cinnamon Girl”), o disco mostrava uma união absolutamente instintiva entre o folk rock sem firulas do grupo e Neil se alternando entre os vocais e os delírios guitarrísticos.

O ápice disso surgia em “Down By The River” e “Cowgirl In The Sand” (ambas com mais de nove minutos), em que os longos solos eram a extensão musical dos versos apaixonados de Young.

“Round And Round (It Won’t Be Long)” e “Running Dry (Requiem For The Rockets)” também não deixavam por menos: a primeira era um lírico tema acústico gravado apenas por Young, Whitten e Robin Lane, enquanto a outra contrapunha os vocais angustiados de Neil ao violino do ex-The Rockets, Bobby Notkoff.

A sonoridade crua da faixa-título e de “The Losing End (When You’re On)” completavam este registro antológico, acrescentando-lhe a pitada necessária de despojamento.


Young continuaria a forjar outras obras-primas pelas décadas seguintes, na maioria escorada pelo Crazy Horse.

Poderia se listar o aterrador “Tonight’s The Night” (75) – dedicado a Danny Whitten e Bruce Berry (roadie do CSN&Y), mortos por overdose em 72 e 73, respectivamente – ou o hard country rock de “Zuma” (também de 75, já com Frank Sampedro na segunda guitarra).

Ou mesmo a dobradinha “Rust Never Sleeps” / “Live Rust” (ambos de 79), com canções como “My, My, Hey, Hey (Out Of The Blue)” e “Powderfinger”, primeiro nas versões de estúdio e depois ao vivo.

Uma interação que voltou a surpreender nas trovoadas retumbantes de “Freedom” (89), de “Ragged Glory” (90) e do ao vivo “Weld” (91).

Depois das tormentas, Young retomou outra antiga colaboração com os Stray Gators em “Harvest Moon” (92), um álbum límpido e eminentemente acústico inspirado em “Harvest” (72), seu disco de maior sucesso.

Afinal, enquanto a maioria de seus colegas de geração resignaram-se em viver de louros passados ou se acomodaram na auto-indulgência, a chama do rock’n’roll permanecia viva em Young.

Mesmo depois de tantas turnês, discos e sucesso, nada impede que Neil Young, aos 56 anos, acorde às vezes com o pé esquerdo.

Para encontrá-lo, basta seguir até onde a vista alcança.

Ali está ele, sentado sozinho num banco de parque no coração da Filadélfia, obscuro, do jeito que mais gosta.

Ele fala um pouco sobre o fascínio da estrada (o típico “Sinto falta da minha família, mas...”) e então dá de ombros, como quem faz uma concessão, não como quem se desculpa.

Fala do seu CD de estúdio, “Silver And Gold” (fazia quatro anos que não gravava), lançado em 2000, e depois conversa sobre a caixa com oito CDs que cobre desde o período em que era desconhecido, em meados dos anos 60, até 1972, quando chegou ao primeiro lugar da Billboard.

Também fala de suas turnês, uma, sozinho, e outra com três velhos amigos que, há 30 anos, formavam a banda mais sensacional da América: Crosby, Still, Nash & Young.

Parece que o tempo conseguiu finalmente fazer dele uma celebridade. Será?


Antigamente, ele compunha músicas com títulos como “Journey Through The Past” e sempre conseguiu passar a impressão de alguém que foge do seu lugar na história da música como se fosse um túmulo.

A caminho do hotel, onde o ônibus está estacionado, um fã pede um autógrafo, mas Neil Young se recusa: “Eu não dou autógrafo”, diz – e segue adiante sem alterar o passo.

Antes de entrar no seu ônibus, o Pocahontas, todo mundo dizia que aquele era um santuário imaculado.

Ben, de 21 anos, filho de Neil Young, sofre de paralisia cerebral.

O Pocahontas tem um compartimento projetado para ele, de onde observa a estrada em sua cadeira de rodas.

O cantor esparrama-se em uma cama enorme atrás desse compartimento.

“Eu tocava em um clube em Fort Williams, cantávamos uma música chamada ‘Farmer John’, e já perto do fim começamos a fazer uma jam session...”

Mas isso faz muito tempo, no outono de 1964, e a banda era a Squires.

Foi no Canadá, onde Young foi criado na cidade de Omemee, que, aos três anos, caiu num lago e quase se afogou.

E antes de fazer parte de uma banda da Motown com Rick James e de ir para Los Angeles à procura de Stephen Stills, a quem só encontrou no último minuto em um engarrafamento na Sunset Strip.

Depois, eles formaram a Buffalo Springfield.

Isso também foi antes que “After The Gold Rush” e “Harvest” o colocassem no mapa musical do início dos anos 70 e dos 28 discos que o conservariam sempre em evidência.

Isso, como já dissemos, foi há muito tempo, antes da dor cruciante no disco intervertebral em 1971 e da epilepsia, que ainda o assombra no palco.


Tudo aconteceu antes do período revolucionário dos fins dos anos 70, quando um ídolo do rock depois do outro caía diante da guilhotina da relevância cultural.

Neil Young, porém, foi um dos artistas oriundos dos anos 60 que a revolução não apenas poupou, como também acolheu.

Isto foi antes também da estúpida ação que moveu contra ele, nos anos 80, o manda-chuva de sua gravadora, David Geffen, acusando-o de não fazer discos dignos do verdadeiro Neil Young.

E antes dos anos 90, quando Kurt Cobain o citou no bilhete que deixou ao se suicidar.

Foi antes ainda de se tornar o homem que o tempo esqueceu do mundo do rock, compondo músicas a um só tempo primordiais e futurísticas, inocentes e surreais, tradicionais e revolucionárias e antes que se tornasse, com seu timbre característico e sua guitarra desgastada pelas tempestades do Mojave, um homem-vórtice para o folk, o country, o blues, a psicodelia, o grunge, a música eletrônica, o lamento sinfônico e o guincho metálico.

Há muito tempo, quando tocava “Farmer John” e ainda não tinha 20 anos, recorda-se Young, a música tomou um rumo desvairado.

“Nunca tinha tocado daquele jeito antes. Era como se fizéssemos aquela canção explodir. Tocávamos a música sem a música, mostrando realmente do que se tratava a canção”.

Naquele momento, nascia sua identidade musical.

Se o rock sempre foi impelido por dois impulsos, um utópico e o outro anárquico, a maior parte de seus intérpretes deixara-se influenciar pelos dois: Chuck Berry, Elvis Presley, John Lennon, Bob Dylan, Jimi Hendrix, Neil Young.

São os discos do Neil utópico que as pessoas compram aos montes.

Mas em canções como a sônica “I’m The Ocean” ou a brilhante “Powderfinger” é o Neil anárquico que chega aos brados ao espírito da época e o modifica.

O conflito entre utopia e anarquia deu origem à ambigüidade moral e à complexidade.

Em 1970, quando compôs “Ohio”, logo após o assassinato de quatro estudantes pela guarda da Universidade Estadual de Kent, sua ira se tornou mais instintiva do que política.

“Escrevo o que sinto”, reconhece Neil.

Ficou muito claro também, no decorrer dos anos, que Neil Young nunca defendeu nenhuma linha ideológica.

Uma vez ou outra, dava seu apoio a Reagan ou a Jesse Jackson.

Para o novo milênio, a dupla equivalente seria Al Gore e McCain.


A utopia da fase inicial de sua música sucumbiu à anarquia de maneira espetacular numa turnê em 1973, que foi sua resposta dura ao estrelato.

O clímax dos shows acontecia quando Young gritava “Acordem!” para o público, enquanto os anos 60 se desmoronavam à sua volta numa chuva de vítimas do vício.

Agora, na traseira do Pocahontas, ele se lembra daquela época e diz: “Fico feliz de ter sobrevivido”.

Sempre que Young “tentava escapar do sucesso fazia mais sucesso ainda, o que não apenas o confundia, como o deixava igualmente humilhado”, diz seu agente Elliot Roberts.

O astro passou, então, a narrar as mortes das pessoas à sua volta em uma série de canções contra as drogas.

Na memória coletiva de seu público fiel, talvez ele seja sempre a figura pensativa, reclinada e solitária à sombra do portão de After the Gold Rush.

Na verdade, porém, praticamente todo mundo que o conhece sabe do seu humor por vezes tolo, estranho ou malicioso.

Com mais de 1,80m de altura, seu andar tranqüilo, porém determinado, resume todas as suas contradições: zen, embora um tanto obsessivo, aberto, mas não muito, decidido a realizar suas ambições, porém contido.

A carreira de Neil Young se caracteriza por uma série de repentes e recuos que se manifestam toda vez que vai lançar um disco ou dar uma entrevista ou quando o cantor está para iniciar uma turnê.

Na opinião dos que acompanharam o cantor ao longo dos anos, Neil é o exemplo mais bem-acabado da imprevisibilidade.

Às vezes, porém, ele dá a impressão de ser menos inteiro e mais genuinamente fragmentado do que imagina a maioria das pessoas.

A “esquizofrenia” utópico-anarquista (segundo o próprio Young) de sua música revela tanto o Neil espontâneo quanto o controlador.

Os dois são reais e espiam por cima dos ombros um do outro, tentando corrigir os maus juízos recíprocos e evitando que ambos cometam algum desatino.


Não há melhor exemplo disso do que os recentes percalços do biógrafo autorizado de Young.

Depois de assinar um contrato com o cantor e com a Random House, o jornalista Jimmy McDonough passou oito anos escrevendo, pesquisando e entrevistando mais de 300 pessoas, sempre contando com a colaboração de Young.

Quando, porém, apresentou o original do livro em 98, Young se negou a aprová-la.

Ninguém próximo de Young quis comentar a razão pela qual ele matou o projeto.

McDonough está processando o cantor em US$ 1,8 milhão.

O drama que tomou conta da vida de Young em sua juventude atingiu o clímax em novembro de 1978, com o nascimento de seu segundo filho, com Pegi, e a constatação de que, como o primeiro filho do cantor, Zeke, com a atriz Carrie Snodgrass, Ben sofria também de paralisia cerebral.

O caso de Zeke é menos grave (atualmente com 28 anos, trabalha como engenheiro de som em vários projetos do pai). Ben, porém, é tetraplégico.

Neil Young contaria mais tarde que, saindo do hospital, disse: “Olhei para o céu em busca de um sinal e pensei: o que foi que fiz? Deve haver algo de errado comigo”.

A paralisia cerebral, entretanto, é algo imprevisível, nada tem a ver com genética, e sua filha, Amber, não é doente.

Como se não bastasse tudo isso, depois do nascimento de Ben, se descobriu que Pegi tinha um tumor no cérebro.

Suas chances de sobreviver na época eram de 50%.

Então, no início dos anos 80, o homem cuja obsessão por sua música o consumia totalmente, pôs de lado a carreira e passou a se dedicar à família.


O problema de saúde de Ben era tão intenso que, em 1982, quando Neil Young lançou um disco estranho intitulado “Trans”, com vocais eletrônicos distorcidos, pouca gente sabia que aquilo era fruto do esforço em se comunicar com o filho mudo pelo computador.

No restante da década, a música de Young estava muito estranha em uma série de gravações que, em retrospectiva, parecem resgatar as explorações estilísticas de uma identidade artística em revolução da qual emergiu seu melhor álbum, “Freedom”, de 1989.

Nos anos 90, ele só lançou discos importantes.

Certa tarde, na Filadélfia, depois de marcar novamente uma entrevista à qual ele novamente não compareceu, os jornalistas descobriram que Young havia ido a uma escola para crianças com paralisia cerebral.

Ele e Pegi contribuem com grandes somas para uma escola do mesmo tipo na Califórnia.

Durante as turnês, ele sempre abre espaço para que jovens portadores da doença assistam ao show.

No melhor estilo de Neil Young, sua visita se deu durante uma noite de lua cheia e teve até elevador emperrado, obrigando o cantor a ficar parado entre um andar e outro por alguns minutos.

Parado no meio do estacionamento de um shopping enquanto espera o seu ônibus abastecer, Young fala de passar mais tempo com a família.

Hoje, ele parece eternamente jovem.

No passado, Young era velho antes do tempo.

“Estou envelhecendo”, afirma ele em sua canção mais famosa, “Heart Of Gold”, composta quando tinha 24 anos.


Em Phoenix, depois de mais um show, enquanto o restante da banda festeja com os amigos nos bastidores, Young senta-se sozinho em uma sala escura e silenciosa com algumas poucas velas acesas e massageia as costas com um pouco de gelo.

Ele parece ter realmente 56 anos.

Pouco antes, no palco, entregara-se completamente a um “Down By The River” insano, assim como fizera com “Rockin’ In The Free World”, na Filadélfia.

O homem que o tempo esqueceu transformava o tempo em farrapos. Mas agora, na penumbra, Young é o homem do qual o tempo se lembrou, especialmente de suas costas.

Entretanto, basta ouvir a primeira música do disco ao vivo “Road Rock VI – Friends & Relatives”, a insana “Cowgirl In The Sand”, de 18 minutos de duração, com aquela guitarra que parece meio engasgada e a voz fanha, parecendo sair de um trem em movimento, e tudo fica esclarecido.

Sim, esse homem é a lenda do Rock in Rio. É um dos poucos que ainda emprestam mistério e heroísmo ao rock’n’roll.

O disco em questão é uma pequena odisséia familiar do canadense, que canta acompanhado da irmã e da mulher.

Simultaneamente, como numa espécie de catequese às pressas, a gravadora repôs no mercado estoques esgotados dos discos mais recentes de Neil Young, que são “Harvest Moon”, “Unplugged”, “Comes A Time”, “Sleeps With Angels” e “Decade”.


Como o nome entrega, “Road Rock VI – Friends & Relatives” (2000) é o sexto álbum ao vivo de Young.

Além de sua banda, Young tem os reforços de Chrissie Hynde, dos Pretenders, na faixa “All Along The Watchtower”, de Bob Dylan.

Young também incluiu no disco a faixa “Fool For Your Love”, que ele sempre cantou nos seus shows durante mais de uma década, mas nunca tinha gravado.

Sua banda inclui o guitarista Ben Keith, o pianista Spooner Oldham, o baixista Donald “Duck” Dunn e o baterista Jim Keltner.

A irmã do cantor, Astrid, e sua mulher, Pegi Young, ajudam nos vocais.

O filho, Zeke, cuidou do áudio da gravação. Um disco em família.

O disco foi gravado durante um show de Neil Young no Red Rocks Amphitheater, no Colorado.

Traz clássicos de todos os tempos do cantor, como “Motorcycle Mama”, um country rock da mais pura escola Neil Young, com os vocais femininos esgarçados e a batida subversiva, implodindo qualquer atmosfera caipira da canção.

Ele faz um mélange de várias coisas, das antigas às recentes.

A acústica “Peace Of Mind”, por exemplo, é de “Comes A Time”, de 1978.


Neil Young é um dos maiores compositores do rock e basta ouvir apenas uma das faixas do CD para saber o motivo.

“Tonight’s The Night”, a sétima faixa, é uma tocante elegia a um amigo, morto por overdose de drogas.

Piano dedilhado com lassidão, um canto ritualístico, o pedal steel lancinante e um coro fora de tempo criam o clima adequado.

Nos últimos quatro anos, desde que fez a trilha sonora para o filme “Dead Man”, de Jim Jarmusch, Neil surpreendeu sempre e muito mais ao vivo.

“Dead Man” foi um momento único na carreira de Young.

Inspirado no poema do poeta inglês William Blake, ele compôs 13 faixas sem nome, impulsionadas basicamente pela guitarra, com algum órgão e piano atravessando os versos.

Filho de Edna “Rassy” Young, uma apresentadora de “quiz show” da TV canadense, e Scott Young, um cronista esportivo do jornal Toronto Sun, Neil mostrou desde muito cedo que seu negócio era negar o show business no qual viveu cercado no início.

Mais interessado em tocar seu banjo e a guitarra, largou a escola e foi para a estrada, de onde nunca mais saiu.

O álbum “Road Rock VI – Friends & Relatives” é mais um belo registro dessa aventura sem fim.

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