quarta-feira, junho 08, 2011

Aula 50 do Curso Intensivo de Rock: Venom e Motley Crüe


Para os amantes do rock tradicional ou apreciadores de uma pauleira senão harmoniosa pelo menos cheia de estilo, o heavy metal atual, com seus novos rótulos (speed, power, trash, dead, doom, nu-metal), não passa de um pesadelo barulhento sem qualquer musicalidade.

Isso faz com que alguns cinquentões até achem o som do Black Sabbatt original algo sublime e harmonioso perto do som do Rammstein, por exemplo.

Imaginem então se esses caras ouvirem um pouco o som do Venom.

Com certeza seus tímpanos voariam em pedaços.

Não há nada de macio no Venom.

Tudo é violento e forte, além de extremamente rápido.

Desde sua formação o Venom vem demonstrando ser o mais satânico power trio da história metálica da Inglaterra.

Ao vivo, nos discos ou nos vídeos, nada de romantismos, nada de harmonia.

Tudo é arrasadoramente alto, rápido, cheio de distorções e sujo.

Eles são, na verdade, os papas do black metal.

Quem ouve e ou vê o Venom não consegue ficar no meio-termo: ou ama ou odeia na mesma hora!

Este trio horroroso (com muito orgulho disso!) foi formado em 1980, em Newcastle, cidade famosa por suas cervejarias e por Brian Johnson (vocalista do AC/DC).

No início era um quinteto, mas a linha dura do grupo acabou desiludindo dois integrantes e sobraram os senhores Lant, Dunn e Bray (seus primeiros nomes são escondidos a sete chaves), que assumiram pseudônimos mitológicos dos mais ignóbeis possíveis: Cronos, Abbadon, e Mantas.

Cronos, por exemplo, é um deus da mitologia grega que devorou seus dois filhos, Poseidon e Hades, nascidos das transas incestuosas que manteve com sua irmã Réia.


A história começou quando Abbadon conheceu Mantas num show do Judas Priest e os dois resolveram montar uma banda.

Cronos, que então tocava guitarra rítmica, chegou um pouco depois e se tornou líder do grupo.

Os três chamaram um cantor e um baixista que logo saíram: um não conseguia conciliar casamento e ensaios e o outro se recusava a testar os explosivos (que passariam a usar nos shows) no quintal de sua casa.

Com essas desistências, Cronos acumulou uma dupla função na banda.

E, de repente, em pleno nascimento do NWOBHM, o Motorhead acabava de encontrar seu mais digno sucessor, com Cronos no baixo e vocal, Mantas na guitarra e Abbadon na bateria.

Os três começaram a compor letras violentas e mais fortes que as de todos seus mestres satânicos até então.

Para se lançarem no mercado do rock como algo original, foram investindo em um visual cada vez mais maligno, utilizando armas brancas, clavas, machados e vários símbolos cabalísticos da Idade Média.

Por uma questão de estratégia, decidiram que não fariam pequenas apresentações, nem testes em barzinhos, clubes e escolas.

Trataram de ensaiar bastante para se entrosar e foram criando temas musicais cada vez mais sangrentos.

Apenas alguns fãs mais chegados acompanharam essa fase embrionária.

A primeira fita-demo foi gravada meio no improviso e uma cópia foi enviada a um jornalista do semanário inglês Sounds.

Completamente hipnotizado pelo som da banda, o sujeito não parou de falar no Venom durante algumas semanas e, assim, a banda foi contratada pela Neat Records (selo independente de Newcastle).

O Venom gravou o primeiro compacto: “Live Like An Angel, Die Like A Devil” e “In League With Satan” (depois incluída no primeiro LP).

Com o single debaixo do braço, o Venom caiu direto nos shows e, em 81, já estava torpedeando a praça com “Welcome To Hell” (o primeiro álbum), onde, além dos temas devastadores, os apelidos dos instrumentos (Baixo Escavadeira e Guitarra Serra Elétrica) divertiam muito o público.


Eles não foram muito bem recebidos pela imprensa e mídia em geral, que os consideravam verdadeiros ETs no meio musical roqueiro.

“É armação comercial com um som muito sujo, barulhento e vagabundo”, detonou um escriba.

Os músicos continuaram cagando solenemente para a imprensa e atraindo cada vez mais gente para suas apresentações ao vivo.

O segundo compacto, “Blood Lust”, foi lançado exatamente numa sexta-feira, dia 13 de agosto de 1982.

Nas poucas declarações dadas à imprensa na época, sabia-se que o sonho maior do Venom era ser a banda de black metal mais adorada na Terra por que “Belzebu assim o deseja”.

E Cronos diria mais: “O heavy metal deve explodir nas cabeças. Bandas tipo Foreigner fazem som de descarga de privada. Eles fazem o falso metal, nada black e, sim, uma merda muito oportunista”.

Por causa de declarações desse nível, eles passaram também a não ser aceitos por muitos dos novos grupos de metal da época, que se recusavam a dividir o mesmo palco com eles.

Os músicos continuaram cagando solenemente para a imprensa e para as bandas da NWOBHM e investindo no visual bizarro de seus shows.

Eles também não se impressionavam muito com o cenário hard americano (tipo Wasp e Ratt), cheio de firulas visuais purpurinadas e representações teatrais vazias.

Eles livravam a cara de poucas bandas, como o Metallica (“realmente pesado”) e o Manowar.

Como desculpa pelas poucas apresentações que faziam, explicavam que as salas de espetáculos propostas eram muito pequenas para sua aparelhagem.

Mantas e Cronos, por exemplo, usavam, cada um, 12 amplificadores!

Além disso, utilizavam 450 mil watts de luz, mais os explosivos, que tinham potência suficiente para implodir um edifício de cinco andares.

Ainda em 1982, só para confirmar que não estava no mundo a passeio, o Venom lançou “Black Metal”, LP cujo título rotularia definitivamente um estilo e um exemplo.

No inicio de 1984, o Venom fez um tour por sete países, chamado “Seventh Dates Of Hell”.

Algumas dessas apresentações acabariam virando um vídeo de título idêntico.

Foi lançado, então, o black-álbum “At War With Satan”, considerado o cataclisma bombástico daquele ano.

Um lado inteiro do disco contém a faixa-título, um trabalho conceitual feito em honra ao Mestre das Trevas, que nesse conto diabólico consegue invadir o Paraíso.


Os shows da banda anunciando o fim do mundo começaram a ficar mais concorridos do que nunca.

Segundo Abbadon, “todos vão ao circo por alguma coisa. Talvez não gostem de tudo, mas irão por aquilo que gostam. O pessoal vem nos ver porque, pelo menos em algum lugar de nossas apresentações, existe algo que gostam.”

Em 1985, eles lançam “Possessed”, considerado uma seqüência do arrasador LP anterior.

É um trabalho “possuído” no sentido maior da palavra, como na faixa-título e em “Hellchild”, “Powerdrive” e “Satanachist”.

No disco, a bateria metralhadora de Abbadon simula uma verdadeira 3ª Guerra Mundial Sonora, a voz de Cronos vem das profundezas enquanto seu baixo trabalha como um vulcão em erupção e a guitarra de Mantas rasga tudo à sua volta.

Em suma, um massacre sonoro.


A partir do quarto disco da banda, os fãs do black metal começaram a ser chamados de “headbangers” (“balançadores de cabeça”) porque durante os concertos simulavam o estado de possessão pelas forças de Satã agitando a cabeça no ritmo da música e jogando os cabelos, geralmente compridos, para o ar, exatamente como fazia Linda Blair no cultuado filme “O Exorcista” ou como costumam fazer alguns fiéis em sessões de cura das igrejas evangélicas.

Os headbangers também inventaram a “slam dance”, conhecida como “dança da chuva dos índios Sioux”.

Dentro de um círculo imaginário, as pessoas sacodem a cabeça e o cabelo, esbarram uma nas outras com violência, andam pra frente e pra trás, vergam o corpo e fingem estar tocando uma guitarra imaginária.


O “mosh” é sinônimo de “slam dance”, mas no Brasil é confundido com “stage-diving”, aquele lance de subir no palco e se jogar de cabeça no meio da galera.

Outra particularidade dos headbangers: no início eles costumavam levar velas acesas para os concertos de black metal, mas para evitar cenas explícitas de auto-imolação pirotécnica acabaram substituindo as velas por isqueiros.

Em concertos ao ar livre, a cena de milhares de mãos levantando chamas de isqueiros dá uma idéia aproximada de como deve ser a chegada de uma galera nos umbrais escuros do Inferno.

No Canadá, o selo Banzai, aproveitando o tour de lançamento do “Possessed”, lançou um mini-LP chamado “Canadian Assault”, com um lado gravado ao vivo.

Em selos menores como este, o Venom tem uma série de LPs, singles e mínis, o que aumenta (e muito) sua discografia.

Um selo independente inglês aproveitou o sucesso de “Possessed” para lançar “From Hell To Unknown”, misto do primeiro LP, mais uma coletânea de compactos do trio contendo alguns temas inéditos nos discos anteriores.

Em 1985, o trio teve alguns problemas de saúde e de visto nos passaportes, o que atrapalhou sua planejada excursão pelos EUA.

Para contrabalançar a pouca execução em rádio, mais um vídeo, “Hell At Hammersmith”, acabou sendo lançado.


Cenas de mau gosto proposital e muita violência são muito criticadas, mas isso é um elogio para o Venom.

Na capa do referido vídeo estão votos de Feliz Natal e, dentro, 15 temas-monstro do black metal como “Nightmare”, “Bloodlust” e “Witching Hour”, entre outros.

Em 1986, o Venom soltou mais um compacto contendo “Nightmare” e “Satanachist”, em versões mais aceleradas e barulhentas.

A PolyGram inglesa aproveitou a onda para lançar “The Venom Vídeo EP”, (que inclui a faixa “Nightmare”) com som tirado dos clipes da banda.

Segundo o trio diabólico, “Nightmare” marcava um novo capítulo no desenvolvimento da banda, agora propenso a momentos mais “melódicos” (seria possível?) e introspectivos.

De qualquer maneira, os integrantes do Venom continuavam acusando a tudo e a todos.

Na época, eles estavam sendo implacáveis com o pessoal que seguia a trilha Boy George (“Nós somos considerados pervertidos, mas eles podem rebolar à vontade que todo mundo acha lindo”).

Se o diabo é o pai do rock, como cantava Raul Seixas, o Venom deve ser seu filho predileto.


Estamos no final dos anos 70. A Califórnia continua sendo uma região enganadora: não parece, mas é uma típica periferia americana, ou seja, um campo de trabalhos forçados disfarçado em colônia de férias pelo seu clima agradável e os maquiadores, roupeiros e decoradores de Hollywood.

Um moleque chamado Vince trabalha como eletricista, ou qualquer coisa do gênero, enquanto os outros moleques da sua idade estão curtindo a vida.

Quando não está pegando no pesado, Vince dá um giro pelos lados de Hollywood.

Ele gostaria de encontrar um estilista ou uma maquiadora que o transformasse em mais um curtidor da vida.

Manequim, ator, talvez uma estrela do rock, porque, afinal, ele gosta bastante de rock.

Ele gostaria muito de ser um rockstar como aqueles que aparecem nos anúncios e nos clipes: carros chiques, roupas transadas, garotas sexies.

Por enquanto, a experiência de Vince se limita a um ou dois Air Guitar Contest, esses concursos de solos epiléticos tocados sobre guitarras invisíveis, tal como praticado pela garotada durante os concertos: um tipo de diversão em moda nos salões hard do centro-oeste americano e da Califórnia.

Vince nunca faturou um prêmio, apesar do enorme “consolo” que ele deixa aparecer sob as calças para impressionar o júri.

“Por que não, afinal?”, pensa Vince. “Fisicamente não tenho muita pinta de galã. Também não sou o cara mais inteligente que eu conheço, mas, porra, não é porque somos feios e burros que não temos direito a um pouco de diversão. Pelo contrário, a gente deveria ter direito a uma dupla dose de bebidas, dinheiro e garotas. Para compensar essa merda de vida que levamos.”

Não se preocupe Vince, que você não está sozinho nesta jogada.


Por exemplo, tem o seu amigo Nikki, que não é como você, ele é um autêntico intelectual “cabeça feita”, que lê os livros até o fim.

Durante o dia ele vende telefones e à noite ele recopia as cartas dos leitores de Penthouse, tentando encontrar rimas.

Nikki escreve letras de música. Ou, pelo menos, tenta.

Ele toca também um pouco de baixo, alguns riffs que encontrou na lixeira do estúdio Record Plant.

Mas isso não tem tanta importância. O rock não é só música.

Nikki quer aproveitar sua juventude, esvaziar todas as garrafas, traçar o que pintar e não se chatear com um trampo mixuruca.

Nikki também quer ser rockstar. Mas, como ele é mais inteligente, quer “viver o rock até os seus limites”.


Tommy é gostosão. Nem precisa dizer que toca num grupo só para faturar as garotas.

Ele gosta de bater nos tambores e será apenas um baterista.

Quanto a Mick Mars...

Bem, ele é muito mais velho que os demais. É casado e já tem três filhos.

Nasceu em Indiana, de pai pastor. Começou a tocar com nove anos, depois que sua família mudou para Hollywood.

Quando encontra os três outros, ele sobrevive tocando num grupo disco.

Mas a discothèque está decaindo e o heavy parece estar acordando em L. A.: Quiet Riot, Hanoi Rocks etc...

Por que não o metal?


Nikki já tem um nome ótimo: “Motley Crüe” (germanização de motley crew, que em português significa “gangue de maltrapilhos”).

Uma noite, eles estão bebendo no Rainbow, o bar hard da rua Sunset, quando decidem começar a trabalhar juntos.

Alguns ensaios mais tarde, já gravam o primeiro álbum, de qualquer jeito.

Eles mesmos se produzem e lançam o disco pela Leathur Records (o seu próprio selo).

Mas, mesmo quando se trata de “te enfiar minha lâmina quente até o fundo, até que o sangue escorregue nas suas coxas”, que são palavras bem escolhidas para causar impacto, nada acontece.

Parece mesmo uma gangue de maltrapilhos que apenas fica gritando obscenidades no palco.

Entretanto, eles são um pouco mais ousados que os outros grupos de metal.

Quem sabe, com um empresário que os dirigisse com bastante dinamismo?

Quando se juntaram à escuderia do empresário Doug Thaler, os quatro integrantes do Motley Crüe deram um belo pulo pra frente, em termos de carreira.

Muito tempo atrás Doug tocara no grupo de Ronnie James Dio e, durante os anos 70, organizara para a agência ATI as turnês de Blue Oyster Cult, Aerosmith e muitos outros.

Pouco a pouco, Thaler aprendeu todos os detalhes infalíveis que, a sorte ajudando, enchem os ginásios norte-americanos e vendem discos para os garotos da periferia.

Thaler conhece a música, ele já entendeu tudo.

Associado ao herdeiro de uma pequena fortuna texana, Doug decide arriscar com Nikki e sua gangue.

E começa gastando dois mil dólares em roupas.


Na seqüência, confia a produção do álbum a Roy Baker, produtor de talento, encarregando-o de dar uma polida geral.

O álbum interessa à Elektra e “Too Fast For Love” é relançado, dessa vez “de verdade”.

Então, para o disco seguinte – “Shout At The Devil” –, Thaler faz extravagância: contrata Tom Werman produtor de Ted Nugent, Cheap Trick e Twisted Sister.

Thaler e Werman concordam, pelo menos, num ponto: os quatro não são geniais, mas também não são preguiçosos.

Transformá-los em estrelas não será difícil.

Werman os força a estudar música e Thaler marca show em cima de show.

As letras de Nikki fazem o resto do serviço: “De joelhos, bote-o pra fora, devagar”.

Acaba chamando a atenção. O segundo disco do Motley vende que nem banana.

Tudo funciona a mil quando, de repente, uma entrevista de rotina, uma simples operação de promoção, ameaça virar uma catástrofe.

No final de 83, Thaler não reclamaria nada se conseguisse um pouco de publicidade para o terceiro disco da banda, “Theatre Of Pain”.

Quando uma certa Debra Frost anuncia que a revista People gostaria de dar seis páginas de Motley Crüe e que ela precisaria passar uns tempos com as figuras, Thaler fica muito contente.

Os jornalistas da People são profissionais, sabem o que devem imprimir e o que deve ser deixado de lado.


Debra passa vários dias em companhia do Crüe, e cada um do grupo, a começar por Thaler, abre o coração para a jornalista.

No dia em que descobre que, além do People, Debra Frost pensava aproveitar as entrevistas para publicar um tipo de “Hard Rock Babylon” no Village Voice (com toda a verdade que o pessoal ligado desejava saber), Thaler entra em pânico.

Ele se toca de que a desgraçada vai publicar não somente todas as histórias de bebidas e sexo (até aqui, tudo bem: Thaler sabe que um bom escândalo vale o mesmo que cinco a dez mil execuções no rádio), mas também de que ela vai “revelar os segredos” (a expressão é dele), a idade real dos caras (sem maquilagem, Mick Mars parece muito além dos trinta), a situação familiar de cada um (Vince é casado, Mick está para divorciar, tem três crianças), os passados (Nikki contou umas boas sobre sua infância e sua mãe) ou mesmo as estadias em clínicas para se limpar de todos os micróbios que o “bráulio” catou durante as turnês (daria para assustar até a mais disposta das groupies).

Para melhorar as coisas, mais ou menos na mesma época, Vince, bêbado, pega uma auto-estrada na contramão, amassa um carro, machuca duas garotas e aproveita para mandar pro além o baterista do Hanoi Rocks.

Vince pode pegar até cinco anos de cadeia.

E durante o processo tem o juiz que fica lendo “Star Hits” para citar os trechos onde Vince se vangloria de beber sozinho em uma noite o que a Polônia e a Irlanda demorariam seis meses para esvaziar.

O grupo decide não posar para a Peopie, que não publica o artigo.

Vince é condenado a trinta dias de prisão e dois milhões e meio de dólares, pagos às vítimas.

Thaler respira aliviado. Mesmo assim o Village Voice publica o artigo de Frost.

As mulheres dos senadores norte-americanos declaram guerra ao rock, em geral, e ao hard, em particular.

E Thaler constata feliz que, afinal, todo esse baruho ajudou as vendas de “Theatre Of Pain”.

Entretanto, ele escapa de uma fria, conforme confidenciou a revista 5pm: “Ter deixado essa mulher se aproximar deles foi talvez o maior erro da minha carreira. Primeiro, ela parecia um professor de ginástica. Por outro lado, os quatro são falocratas até a morte, para eles uma garota só serve para uma coisa: foder. Ela perguntava coisas do gênero ‘como vocês se chamavam antes de começar o grupo?’ Pô, o cara passa seu tempo tentando esquecer os primeiros vinte cinco anos de sua vida, e acabam perguntando logo isso? Isso não vai vender discos nem revistas, só vai machucar o carinha”.

No mês seguinte a revista 5pm publica uma carta de Debra Frost: “Primeiro, não pareço um professor. E não estranho o fato de Thaler pensar que os jornalistas só servem para vender discos. Ele se parece com seus potrinhos, que acham que mulher só serve para sacanagem”.


Enquanto isso o Motley Crüe vende milhões de discos e é consagrado o grupo mais ultrajante dos EUA nos anos 80.

Encantados por encontrar alguém que ainda se escandalizasse com esse tipo de imbecilidade, os quatro aproveitaram para chocar Debra Frost.

Eles pediam para ela ficar na sala onde eles traziam suas jovens fãs. E pediam que ela olhasse as “brincadeiras” eróticas que faziam.

A jornalista se aproximou desses garotos mais do que qualquer outro jornalista, antes ou depois dela.

E trouxe duas ou três observações: “Vince é comovente. Sempre falando do seu bar: ‘Você precisa ver todas as garrafas que tenho!’ Ele prefere as garrafas a todos seus discos de ouro. Eles odeiam as mulheres, em geral, e as groupies, em particular. Você precisa ver como eles falam das próprias mães! Eles desprezam a docilidade de seus fãs e acham que todas as meninas são putinhas querendo aparecer na mídia.”

O jornalista Laurent Chalumeau, da revista Rock & Folk, entrevistou Nikki e disse que as lições de boas maneiras do Motley Crüe foram aprendidas na zona.

Mas, sem ser simpático, Nikki, por exemplo, é interessante em entrevista e até intrigante como usa sua coleção de sofismas.


P: Vocês vêm de onde, geograflcamente, socialmente e musicalmente?

N: Geograficamente, Hollywood. Socialmente, a sarjeta. Musicalmente, os grupos glitter e hard dos anos 70.

P: Vocês deram uma entrevista apimentada a Spin? (amostras: “No próximo álbum e durante a próxima tour, vamos ser mais nojentos ainda”) Afinal, não é cansativo ser nojento todos os dias?

N: Não me forço a ser nojento. Vivo assim, às gargalhadas.

P: Se você achasse a mulher da sua vida...

N: Isso não existe para mim.

P: ...isso não o deixaria mais calmo?

N: Nada pode me acalmar! Tenho o rock’n’roll no sangue. Para mim tudo isso é normal. Se os outros grupos fossem menos chatos ninguém repararia na gente. Eu aproveito para agradecer a todos os Dire Straits e Simple Minds do mundo por terem feito de mim um rebelde, o Inimigo Público n.º 1. Nós somos o show total, nas ruas ou no palco. Nós damos tudo. Como num filme pornográfico. Exato, é com isso que temos de ser comparados.

P: Já que você é um rebelde, tem alguma causa a propor a seu público?

N: Não é a minha. Estou aqui só para tocar rock.

P: O acidente do Vince vai mudar alguma coisa?

N: Nunca. Agora só falamos de não beber antes de dirigir.

P: O que é essa estrela que serve de logotipo da banda e essa história de Teatro da Dor? É verdade que vocês são adoradores de Satanás?

N: Porra, quantas vezes vou precisar explicar isso? A estrela é um pentagrama. A Bíblia o define como um símbolo de sorte. Theatre of Pain vem de um livro que eu li sobre o teatro italiano da Idade Média, sabe, a comédia de ll’arte. Eu fiquei impressionado pela semelhança com o nosso show. Na época, se os saltimbancos não divertiam o rei, eles eram degolados. Para nós é a mesma coisa. Se não damos o máximo de nossas possibilidades, o público nos condena à morte. Nosso lema é “Diversão ou morte”. E os nossos fãs sabem disso perfeitamente. São os pais e as mal-amadas do PMRC (o grupo de mulheres dos senadores de Washington) que divulgam todas essas besteiras sobre a gente, mas a garotada entende. Nós somos um grupo de rock (a essa altura ele começa a declamar o que parece ser o seu credo, já que o recitou várias vezes frente a outros microfones)... a gente adora os excessos do rock. Porque é maravilhoso. Aqueles que dizem que não desejam essa vida estão falando abobrinhas. Não precisa fazer a cama de manhã. É melhor do que o Natal: não é preciso crescer, amadurecer e todas essas palhaçadas. Tudo o que você precisa fazer é pegar o telefone e pedir champanhe, depois descer do quarto, pegar a limusine que está à sua espera para levá-lo aonde você quiser, tocar, na seqüência comer, encher a cara e, depois, festas backstage com garotas geniais e os fãs, e cataplum! – no dia seguinte você recomeça tudo numa outra cidade, com outras pessoas. É genial.


Nikki entendeu tudo.

Quando você ouve suas explicações, o que o rock deveria ou não ser, pensa que ele deveria ser crítico.

Nikki decorou os relatórios das turnês históricas do Who, Rolling Stones, Aerosmith.

E realizou seu sonho: vive como seus ídolos.

Nikki leva uma vida de rockstar, mas não é um roqueiro.

Os pequenos textos pornográficos que ele rabisca rapidamente não são ruins, mas até hoje não escreveu uma boa canção.

Mas ele não está nem aí. Afinal, o rock não é só música.

Na comédia do rock, é verdade, todo mundo tem um papel já definido por trinta anos de tradição: Arlequim, as estrelas, os fãs, as groupies, os empresários etc... e um dia – Nikki já sacou – ele será degolado.

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