sexta-feira, junho 03, 2011

Aula 55 do Curso Intensivo de Rock: Ramones


Justiça seja feita, o punk foi realmente um verdadeiro divisor de águas na história do rock.

Jovens inconformados se rebelaram contra a apatia que dominava o rock desde o surgimento do gênero progressivo e começaram a formar suas próprias bandas.

Foi uma espécie de reação em cadeia à aristocracia do rock nos anos 70, período em que os roqueiros superstars viraram os verdadeiros reis da cocada preta, com suas limusines blindadas e suas contas bancárias faraônicas.

Só para se ter uma idéia contra que tipo de música os punks se rebelavam, o Abba, um grupo sueco da linha balada-brega-pra-melar-cuecas, havia emplacado três primeiros lugares na Inglaterra em 1976 e o fuzuê do momento nos Estados Unidos era um disco ao vivo do guitarrista Peter Frampton celebrizado pela breguice de “Baby, I Love You Way”.

Ao contrário de tudo o que se fazia até então, o punk nasceu como uma música simples, de poucos acordes e vocais sujos, geralmente gritados, e as letras das músicas giravam em torno de problemas sociais.

O punk não era londrino em sua origem, mas embora tenha nascido nos porões nova-iorquinos, exibia um elemento intrinsecamente inglês no visual andrajoso, algo que remontava ao século 19, nas ilustrações dos romances de Charles Dickens.

Segundo a lenda, o começo da onda foi nos EUA.


Em 1974, no subúrbio de Forest Hills, em Nova York, já estavam juntos os integrantes da banda Ramones: Joey Ramone, Johnny Ramone, Dee Dee Ramone e Tommy Ramone.

Diz-se que o sobrenome Ramone, adotado pelos integrantes da banda, era usado pelo ex-beatle Paul McCartney para se manter no anonimato quando se hospedava em hotéis.

Os Ramones são considerados os pais do punk porque pareciam conhecer apenas um andamento (acelerado), faziam letras ingênuas em sua superficialidade, mas o som que descolavam possuía todo aquele espírito do rock’n’roll primitivo: muita fúria, suor, emoção e energia.

Junto com os Cramps, os Ramones foram os únicos remanescentes de sua geração que se mantiveram fiéis ao espírito da época até o fim.

Afinal de contas, desde que o mundo é mundo, sempre foi duro ser um garoto de doze anos afundado até o queixo no lodoso tédio urbano.

Todo mundo dá palpite na sua vida.

O status em casa e na rua cada vez fica menor.

A voz e até o corpo ainda é de criança, mas os instintos são de homem, e as garotas, todas ficando altas, peitudas e bundudas, não estão nem aí para você.

Escrotas. Piranhas. Putas.

A única saída é dar uma de muito mais durão do que você realmente é.


Começar a beber, fumar, bater punheta direto.

E estar pronto para sacrificar qualquer coisa por alguns momentos de diversão com muita adrenalina.

Mas dá mesmo para sacrificar?

É difícil.

Nem todo mundo é durão de verdade.

Dá até para afetar a cara de mau, mas no fundo você gosta mesmo é de ver sessão da tarde, jogar fliperama, tomar milk shake, ouvir rock altão no seu quarto só para zoar a mãe, pegar uma praia, passear ao crepúsculo de mãos dadas com sua gata.

E, depois, bater muita punheta pensando nas piranhas das capas de revistas masculinas.

Dá para jogar tudo para o alto só por um pouco de alegria?

Vale a pena matar aula o tempo inteiro, não estar nem aí para a escola?

Sim, se isso garantir a admiração das minas e o respeito dos colegas.

Mas e se depois você acabar tomando pau por causa disso e ter que repetir o ano de novo?

Cheirar cola ou fumar maconha é gostoso... mas faz mal!

Mas... qual é o problema de fazer mal?

No fundo você vai acabar morrendo mesmo...

Viver é uma confusão desgraçada – e isso nunca fica mais claro na vida de um homem do que quando começam a aparecer os primeiros pêlos na cara.


O absurdo é que quatro nova-iorquinos tenham capturado com tanta precisão este estado de espírito púbere do “eu-quero-é-que-se-foda”.

Sem intelectualismo nem autoparadóia e em plena hegemonia Yes-Led Zeppelin, os Ramones inventaram o som da adolescência.

Puro, sem misturas, sem gelo.

As bases já existiam, claro.

O rock de garagem dos anos 60, a surf music, o bubblegum, Stooges, os Stones do começo, New York Dolls.

O próprio Joey Ramone começou a cantar numa banda glam (o Sniper).

Mas os Ramones levaram a coisa um passo adiante, indo direto ao esqueleto do negócio: músicas de dois minutos, refrões simples e riffs primários, letras que viam a dor e a delícia de ser teenager por meio do rayban da cultura popular mais acessível e rastaqüera.

Tudo tão rápido, pesado e pegajoso quanto possível.

Urgente como um comercial de TV.

Punk rock mesmo – se você pensar que rock originalmente significava vagabundo de rua, tranqueira, cara inútil para a sociedade.

O álbum “Rocket To Russia”, de 77, pegou o que já era perfeito – os dois primeiros discos do grupo, “Ramones” e “Leave Home”, ambos de 76 – e elevou à categoria de transcendental.

Tem duas covers, “Do You Wanna Dance?” e “Surfin’ Bird”, que dispensam comentários.

E outras doze faixas originais essenciais, escritas com senso de humor, produzidas com capricho minimalista e executadas com a fúria e o tesão de quem está se divertindo pra cacete – contra tudo e contra todos.

Entre “Rockway Beach” e “Teenage Lobotomy” está tudo o que você precisa saber sobre rock.

Também tem “Sheena Is A Punker Rocker”, “Cretin Hop”, “I Wanna Be Well” – mas, escute, não é isso que importa.


Não importa que Johnny Rotten e Joe Strummer e esse bando todo de ingleses tenham se inspirado e imitado os Ramones, nem que grande parte da new wave, do punk e todo o hardcore deva as calças ao quarteto.

Não importa a famosa cena CBGB, nem o Blondie, nem os Talking Heads.

Se discos futuros seriam irregulares, se eles bebiam ou se drogavam, se eles se repetiram, se Dee Dee compunha melhor que Johnny, se Marky isso e aquilo – naaaada disso importa.

O que importa é Joey Ramone cantando “I don’t care about this world / I don’t care abou that girl... I don’t care”.

Eu não tô nem aí, não tô nem aqui e quero que tudo mais vá pro inferno.

Ou seja, “I just wanna have some fun, baby…” (“eu só quero alguma diversão, guria...”)

Uma coisa veloz, primitiva, canções de dois ou três acordes cheias de raiva, alienação, frustração e humor, imersas em cenários de histórias em quadrinhos e um imaginário de filme de horror.

Canções que roçam a fronteira entre o sagaz e o tolo e que invariavelmente começam com “Eu quero” ou “Eu não quero”.

Essa é a descrição de Jim Sullivan, do The Boston Globe, sobre a revolução punk promovida pelos Ramones.


À frente desse ideário mínimo do legítimo rock’n’roll estava o grandalhão e desengonçado Joey Ramone, nascido Jeffrey Hyman em 19 de maio de 1951, e morto no domingo de Páscoa de 2001, de câncer linfático, aos 49 anos.

Com Joey Ramone, morreu um dos últimos espécimes do gênero revolucionário no rock – um dos penúltimos foi Kurt Cobain, do Nirvana.

Os Ramones são um caso único, porque o grupo nasceu e morreu envolto numa aura independente, desglamourizada, alheia ao star system roqueiro.

Quando começaram, em 1974, eram quatro músicos diletantes do Queens (Joey, Johnny Cummings, Douglas “Dee Dee” Colvin e Tommy Erdelyi, logo substituído por Marky Bee) e ainda assim ajudaram a impulsionar a revolução punk no mítico clube CBGB.

Sua performance explosiva inspirou a criação de outras bandas de punk rock, principalmente as inglesas Sex Pistols e Clash, que por seu turno vieram envoltas num punk ligado às raízes do operariado britânico e com um arcabouço ideológico de movimento.

“Eu não me importo com a História”, cantava Joey Ramone na clássica “Rock’n’Roll High School”, de 1979. “Porque não é onde eu quero estar”.

Ironicamente, foi justamente para o Olimpo da História que toda a mída internacional empurrou o cantor após ele ter sucumbido ao câncer.


Os Ramones nunca conheceram o sucesso em sua terra natal.

Mas eram venerados por um grupo de fãs de devoção quase religiosa – o Brasil tem um dos mais fiéis fãs-clubes internacionais da banda.

Joey Ramone teve a ambição de fazer do milionário negócio do rock apenas uma grande brodagem, coisa de camaradas.

Seu intuito era contrapor-se com determinação quase sanguínea à música popular superproduzida, de apetite econômico.

“Basicamente, éramos amigos que viviam na mesma vizinhança, um grupo de vagabundos que compartilhavam os mesmos gostos musicais”, disse o músico em uma entrevista, alguns dias antes de morrer.

O sobrenome comum indicava uma espécie de irmandade.

Joey e o guitarrista Johnny eram os compositores da maioria das canções da banda, que quase foi abortada no seu início, por absoluta falta de intimidade dos músicos com seus instrumentos.

Em 1974, Joey tentou ser o batera do grupo, mas levou duas horas só para acomodar-se em seu kit.

O guitarrista Dee Dee não sabia tocar mais do que uma corda.

“Tentamos tocar canções dos Bay City Rollers e não conseguimos de jeito nenhum”, relembrou Dee Dee durante uma entrevista.

Felizmente, Joey foi transferido da bateria para os vocais, um novo baterista foi contatado e dois anos depois a banda estreou com um disco gravado meio na marra.


Em 22 anos, lançaram 13 discos até a separação definitiva, em 1996.

Na despedida, logo depois de lançarem “Adios Amigos”, deram um concerto com convidados do porte de Eddie Vedder, do Pearl Jam, e Chris Cornell, do Soundgarden.

Ao morrer, Joey Ramone trabalhava no seu primeiro álbum-solo, lançado em 2002.

O álbum póstumo “Don’t Worry About Me” (Zomba Records) mostra um punk romântico, de bom coração e que se apaixonava por musas de telejornal, daquelas que lêem números e cotações da Bolsa de Valores.

Apesar de tal deslize, Joey foi a imagem e a ideologia do mais importante grupo da gênese do punk.

Tanto é verdade que, na contracapa interna do CD, está presente o logotipo da banda, a águia estilizada – só que, agora, somente com o nome de Joey.

Com a morte de Joey – e, um ano depois, do ex-baixista Dee Dee Ramone –, a banda se esfarelou definitivamente, mas não seu legado.

Produzido pelo ex-parceiro dos Ramones, Daniel Rey, o disco de Joey mistura duas facetas do som dos Ramones.


A primeira é o flerte com o pop, em faixas como a versão de “What A Wonderful World”, balada histórica que foi sucesso na voz de Louis Armstrong.

A segunda é o peso estonteante e de dura fricção da banda que influenciou como poucas no rock mundial.

São 11 faixas e 35 minutos, com alguns convidados, como a cantora inglesa Helen Love e Captain Sensible, do The Damned, além de Andy Shernoff (baixista dos Dictators), Frank Funaro (baterista do Del-Lords) e Marky Ramone, o velho parceiro, também na bateria.

Os vocais estavam tomados de uma melancolia premonitória.

Na faixa “I Got Knocked Down (But I’ll Get Up)”, Joey faz seu manifesto de uma dor pessoal, abordando a questão do câncer. “Eu quero vida, eu quero minha vida”, brada o punk crepuscular.

Ele também fala de temas mais alheios à temática punk, indagando coisas como “What’s happening with Nasdaq?” e “What’s happening with Yahoo?” (na faixa “Maria Bartiromo”).

Ouvi-lo no rádio, cantando a balada celebrizada por Armstrong e Sam Cooke, “What A Wonderful World”, soa triste, como uma espécie de epitáfio sonoro.

Lembra Sid Vicious cantando “My Way”, mas sem a ironia deste último.

É verdade que o magrelão desengonçado não sabia tocar nada muito bem quando o grupo começou, mas agora, vai virar nome de uma esquina em Nova York, nas imediações do clube CBGB que ajudou a tornar mítico.


No livro “Please, Kill Me!” (“Mate-me, Por Favor!”, já lançado no Brasil), de Legs McNeil e Gillian McCain, Joey revelou que gastou US$ 6,4 mil para fazer o primeiro disco dos Ramones num tempo em que Fleetwood Mac gastava meio milhão de dólares para gravar uma faixa.

Os Ramones perambulavam por hotéis pulguentos e Dee Dee contou que tinha o hábito de abrir a torneira da pia do banheiro e ficar debaixo dela fingindo que aquilo era uma cachoeira “para esquecer onde estava”.

Com sua jaqueta molambenta e o jeans muito justo e muito rasgado nas pernas finas, Joey Ramone tornou-se a imagem mais definitiva do punk rock americano.

Nova-iorquino do Queens, ele manteve durante sua vida estrita fidelidade aos princípios de um rock antiglamuroso, simples e com grande força de palco.


Também um dos fundadores da banda, Dee Dee Ramone foi encontrado morto em junho de 2002, em sua casa, em Los Angeles, provavelmente vítima de uma overdose acidental.

Seu corpo foi cremado em Hollywood pelos Ramones sobreviventes – Johnny, Tommy e C.J., no mesmo cemitério onde estão os restos de Jayne Mansfield, Rodolfo Valentino e Peter Lorre.

Após deixar o grupo, em 1989, Dee Dee tentou uma carreira-solo como cantor de rap e começou a pintar e a se dedicar à literatura.

Ele havia acabado de terminar seu quinto livro quando foi se encontrar pessoalmente com Kurt Cobain, Joey Ramone e Ian Curtis.

Devem estar fazendo um som do caralho!

Um comentário:

Anônimo disse...

nossa cara d+