quarta-feira, junho 01, 2011

Aula 62 do Curso Intensivo de Rock: Cabaret Voltaire


Sheffield é uma cidade essencialmente industrial e que rendeu ao mundo várias bandas que influenciaram a new wave, com seus sons gelados vindos de sintetizadores primários e baterias eletrônicas rudimentares. Dois grupos deixaram marcas profundas no cenário britânico e mundial: Human League e Cabaret Voltaire.

O primeiro teve em seu LP Dare!, um sucesso monstruoso, puxado pelo hit “Don’t You Want Me”.

Já com o Cabaret a história foi outra: desde 1973 o grupo já dava os primeiros passos na eletrônica, inspirado em Roxy Music e na crescente onda de grupos alemães como Can e Faust. Considerado um dos pilares do som industrial e com uma postura totalmente anárquica em relação às bandas da época, o Cabaret tirou seu nome de um clube fundado em Zurique na década de 10 e que foi o berço do movimento dadaísta.



Sua música cinzenta é culpa da própria imagem da cidade natal, um caos de chuvas, granizo e fumaça das fábricas. O som é quase modal, introspectivo e que aborda temas cotidianos dos seres humanos. Richard Kirk, um dos líderes do grupo, definiu o Cabaret com uma frase um tanto pretensiosa ao dizer que faziam uma música fantástica, mas não apenas fantástica. Ficou curioso? Vamos aos fatos então, meus amigos, vamos aos fatos...



Em 1916 um suíço chamado Hugo Ball – poeta, novelista e filósofo – resolveu fundar, ao lado de Emmy Hennings – cantora que declamava poesia e sua amante –, um clube em Zurique com a ideia de produzir uma nova linguagem e, ao mesmo tempo, ajudar as pessoas a esquecerem os horrores promovidos pela Primeira Guerra Mundial, que havia começado em 1914 e seguiria até 1918. Nascia assim o Cabaret Voltaire. Era o nascimento do movimento dadaísta.


O Dada nasceu com a ideia de jovens franceses e alemães que estavam em Zurique, e que fugiam da convocação para a Primeira Guerra Mundial, aproveitando-se que a Suíça já era um país conhecido por sua neutralidade. O movimento nasceu como um movimento literário que mostrasse as mazelas e o absurdo que se encontrava a Europa.


A palavra “Dada” foi descoberta por Ball e Tristan Tzara num dicionário de alemão-francês e que significa nada mais do que “cavalo-de-pau”. Usando a palavra como uma metáfora da guerra (as duas, não opinião deles, não faziam sentido algum), criaram uma arte que negava a própria arte e que defendia o absurdo, a incoerência e o caos.


O movimento durou até 1921 e era uma forma encontrada de protestar contra a violenta e sangrenta guerra que se desencadeou no continente europeu na década de 10.


Se o movimento cultural durou pouco, deixou muitos seguidores espalhados pelo planeta. E passados mais de 50 anos, foi a inspiração para que três jovens começassem a montar uma banda que iria marcar a cena musical nos anos 70, 80 e 90, justamente com o nome do clube: Cabaret Voltaire.

Em 1973, Richard H. Kirk, Stephen Mallinder e Chris Watson resolveram formar um grupo, na triste, poluída e fria cidade de Sheffield. Apesar de Richard usar uma guitarra e Mallinder um baixo, eles não tinham necessariamente vontade de formar um grupo de rock tradicional.

Os três eram aficionados de bandas alemãs como Can, Faust e Kraftwerk e queriam casar essa vertente musical com a poesia dadaísta dos anos 10 e 20.

A idéia era produzir uma “música cinza” – cinza como a cor da cidade de Sheffield, um lugar lúgubre, pesado, depressivo, com chuvas de granizo e com pouca diversão para os jovens.

Uma música que mostrasse a decadência do capitalismo, da vida industrial, do automatismo humano, do medo, da falta de esperança e da solidão. Uma receita tão pesada só poderia render algo igualmente tenso. E durante os primeiros anos, o grupo levou muito tempo para conseguir a receita ideal.

Por dois anos, o trio ensaiou, ensaiou, ensaiou até conseguirem uma apresentação no dia 13 de maio de 1975, na própria cidade.


Chris relembra bem do dia: “uma organização chamada Ciência para as Pessoas tinha uma discoteca na Universidade, onde promoviam eventos todas as semanas e estavam procurando algum artista para uma apresentação ao vivo. Eu estava trabalhando com um dos organizadores. Quando soube que eu tinha um grupo perguntou se poderíamos tocar rock e eu disse que sim, claro. Nós fizemos um cartaz dizendo que misturávamos rock com música eletrônica. Bem, é difícil explicar o que fazíamos, mas só posso dizer que quando subimos ao palco, com fitas cheias de loops gravados, e Richard subiu como uma jaqueta de borracha tocando uma clarineta, o público invadiu o palco e partiu para cima de nós. Algumas pessoas da platéia eram nossas amigas e vieram nos assistir, mas a maioria do público ficou furioso com nosso som e se não tivéssemos alguns conhecidos lá para nos ajudarem, teríamos morrido.”


Mallinder acabou sofrendo uma fratura nas costas e os organizadores ainda tentaram agredir os três, alegando que haviam destruído a reputação da organização e que a universidade não os deixaria promover outros eventos no local. Resumindo: uma estréia um pouco tensa e não tão bem sucedida do Cabaret.

Mas eles não desistiram e quando o movimento punk apareceu, o grupo se sentiu feliz. A atitude de chocar e confrontar as pessoas era algo em voga e o trio começou a tocar algumas vezes por mês, sendo chamados de “Sex Pistols de Sheffield”.

No final de 1976 gravaram uma fita caseira intitulada Cabaret Voltaire 1974-1976, que teve apenas 25 cópias que foram distribuídas a amigos e para gravadoras independentes, cópias rejeitadas quase que imediatamente.


A lista da música era: “The Dada Man” – “Ooraseal” – “A Sunday Night in Biot” – “In Quest of the Unusual” – “Do the Snake” – “Fade Crisis” – “Doubled Delivery” – “Venusian Animals” – “The Outer Limits” – “She Loved You.”



O Cabaret Voltaire já tinha um pequeno número de fãs e uma imagem totalmente consolidada quando conseguiram um contrato com a independente Rough Trade.

Em 1978 gravaram um EP cinicamente chamado Extended Play, contendo a canção “Do The Mussolini”.

Em 28 de outubro de 1978 são convidados para abrirem quatro shows no recém fundado clube Factory, em Manchester.

O cartaz do show ficou a cargo de Peter Saville, um dos poucos que havia falado bem da banda ao enviarem a fita. O show também teria as presenças do Joy Division e do Durutti Column e o grupo acabou entrando na coletânea The Factory Sampler, com as músicas “Baader-Meinhof” e “Sex In Secret”.

Richard conta que eles tinham gostado da Factory e queriam tentar a sorte no novo selo, mas como a Rough Trade já tinha uma organização boa e havia prometido um LP só deles, o grupo optou em não mudar de casa.

Após gravarem um single chamado “Nag Nag Nag”, em abril de 1979, sai meses depois Mix Up, pela gravadora. Produzindo inteiramente pelo trio, o Cabaret Voltaire surpreende com uma sonoridade gélida e com um uso de eletrônica que não estava a serviço de música dançante.

Após um disco curioso ao vivo gravado no Y.M.C.A., em Londres, onde meses antes o Joy Division deu um show antológico, e que foi registrado em 1980, é lançado, meses depois, a primeira grande obra-prima do grupo, The Voice of America.

Voice of America focalizava o controle do estado sobre os cidadãos, a tensão Leste-Oeste, e a ditadura dos governos conservadores no mundo, especialmente na Inglaterra. Richard explica que os discos do Cabaret funcionam como um diário, onde as idéias são analisadas, comentadas e pensadas como um ensaio. “A nossa idéia não é confundir e sim clarear pensamentos. E acho que podemos ajudar as pessoas com nossa música.”


Sobre o título Kirk, explica que a América é, para ele, o símbolo de como se usa a violência e a manipulação para conseguir resultados duvidosos.



Para Stephen, o método do trabalho é simples e se baseia em experimentos com sons e idéias escritas.

“Alguns nos acham pretensiosos e perguntam se nos influenciamos por compositores como Stockhausen e Philip Glass. Sim, nós os utilizamos em algumas partes, mas não de uma maneira acadêmica, porque nós gostamos de música, entende? Coisas como James Brown, os grupos da Motown, o espírito original do rock. Por isso, podemos ser taxados de um pouco ambiciosos, mas não somos tanto como alguns falam.”

E, se Voice of America foi um álbum surpreendente, sem dúvida Red Mecca é a obra máxima dessa primeira fase da banda, que logo após o lançamento perdeu Chris Watson, às vésperas de uma turnê mundial, para trabalhar na televisão, fazendo trilhas sonoras.


Red Mecca é o disco mais maduro do grupo e aquele no qual a banda melhor se expressa, usando para isso a canção “A Touch of Evil”, composta por Henry Mancini para um filme do cineasta Orson Welles de mesmo nome, abrindo e encerrando o trabalho.

Mas não é apenas isso, já que nas sete faixas restantes, o Cabaret Voltaire mostra um trabalho de excelente qualidade técnica e inovador no uso de sintetizadores e loops.

Richard e Stephen começaram a fazer trabalhos cada vez mais densos, profundos, assustadores, voltando-se mais aos sons densos, industriais do que os grupos que usavam sintetizadores com uma finalidade de produzir música pop.

“Eu não gosto de rótulos que dão para nossa música. Eu não sei o que significa ‘industrial’. Será que é por vivermos em um cidade com essas características ou por usarmos instrumentos manufaturados? Human League não seria também industrial? Essas definições são inventadas para facilitar a vida dos críticos. Eu penso que a música deveria ser dividida apenas em duas categorias; a boa e a ruim. Acho que temos mérito em nossos trabalhos e sinto uma ligação com outros grupos ‘industriais’, mas não apenas como eles. Rotular é algo extremamente limitante e árido. Se usamos os sintetizadores é apenas porque são instrumentos práticos, mas também podemos e usamos baixos e guitarras em nossas apresentações.”


E na verdade, o grupo tocava realmente com guitarras e baixos ao vivo, embora suas apresentações não fossem tão freqüentes. O Cabaret sempre manteve uma postura de preferir trabalhar em estúdio do que ao vivo, e muitas vezes tocam apenas por diversão ou para conseguir dinheiro.

“Acho que mantivemos uma postura meio anarquista em relação à indústria musical. Nós não ganhamos muito dinheiro com os discos, mas fizemos alguns acordos com a gravadora que nos permite sobreviver sem interferência dela. Desde o começo, estipulamos uma quantia fixa que usaríamos para nossas despesas básicas e que gastaríamos o dinheiro dos royalties em equipamento e pesquisa. Temos ajuda de algumas pessoas em termos financeiros, na hora de assinarmos um contrato e conseguimos levar uma vida simples, porém sem turbulências. Nós ganhamos muito menos que esses grupos de sucesso, mas em compensação não assumimos as dívidas que muitos deles possuem e carregam por toda vida. Nossa liberdade nos permite viver com simplicidade, porém com segurança”, conta Stephen.

E essa liberdade permitiu ao grupo lançar discos que exploravam trilhas sonoras para o cinema, como foi o caso do LP Johnny YesNo, lançado em 1983, mas que havia sido feito em 1981, ainda com Chris.

Mas foi um ano antes, em 1982, que lançaram uma sequência de discos que consolidaram definitivamente a fama do grupo e mostraram porque o Cabaret pouco tocava ao vivo: porque eles ficavam trancados em estúdio produzindo toneladas de música: 2x45, Yashar e Hai! Live In Japan (sim, um ao vivo) provavam que o grupo continuava em ebulição.

Vale citar que no disco ao vivo, já contavam com um terceiro membro, que não seria fixo, mas apareceria em vários trabalhos: Alan Fish.


Em 1983 deixam a Rough Trade e mudam para a Some Bizarre. Lançaram outro excelente disco, The Crackdown. E Richard e Stephen começariam a construir sólidas carreiras como artistas solos, dando vazão a uma música que não se encaixava dentro do grupo ou apenas como uma forma de explorar idéias que interessassem apenas a eles mesmos.

Essa rotina não impediu que continuassem juntos e que durante esse percurso tivessem discos lançados pelos mais diversos selos e em diversos projetos.

Após excelentes trabalhos, como Micro-Phonies, de 1984, decidiram que era hora de terem um esquema de produção e distribuição mais adequado ao nome que possuíam, e em 1987, atraem uma grande curiosidade ao assinarem com a gigante EMI, e lançam Code, o primeiro disco a sair no Brasil. O som já está mais polido, mais leve e não chegou tanto a entusiasmar os antigos fãs como os primeiros trabalhos.

Mas se a mudança desagradou alguns fãs, também desagradou banda e gravadora. O Cabaret simplesmente não conseguia atender às exigências da gravadora, que esperava um retorno financeiro maior. “Algumas pessoas querem fazer de nós um Duran Duran, o que é patético”, reclamou Richard.

Assim, em 1990 após alguns discos pouco inspirados, mudaram para outra independente, a Mute.

O grupo chegou a ter discos da Mute distribuídos por outra companhia gigante, a Virgin, com a qual também assinaram, até encerrarem as atividades como banda, em 1994. Richard e Stephen preferiram seguir suas vidas separadamente, fazendo seus discos e projetos, e ocasionalmente, se reunindo para algum show ou lançamento de discos do grupo.


“Depois de 20 anos juntos, achamos que o Cabaret já tinha dado sua contribuição e que acabaríamos repetindo antigas fórmulas e isso seria ruim. Eu gosto de imaginar que ajudamos muito a cena local de Sheffield, assim como muitas bandas do mundo foram influenciadas por nós. Não há nenhum sentimento de raiva de lado a lado, apenas um esgotamento de idéias”, afirmou Richard.

O catálogo do grupo é imenso e boa parte dele se encontra disponível em CD, sendo que muitos estão recebendo novas edições remasterizadas e com valiosas informações e por isso merece ser adquirido, ou ao menos, ouvido.

Se você quiser saber mais sobre o Cabaret visite o site do grupo, http://www.brainwashed.com/cv e poderá saber mais sobre a história da banda, toda a discografia os projetos de cada um dos membros e colaborações.




NE: Resolvemos substituir a matéria postada originalmente, de um tal de José Augusto Lemos, por esta outra, do camarada Mofo, por dois motivos. Primeiro, para provar que ninguém vai sentir falta do texto anterior (e aquele textículo de 1987 vai voltar para o limbo onde estava até ser exumado por nós). Segundo, para mostrar que a vaidade bizantina dos “coxinhas” paulistas não tem limites... Interessa?!

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