quarta-feira, junho 29, 2011

Causos de Bmabas: Thiago de Mello


Depois de 15 anos no exílio, o poeta Thiago de Mello desembarca em Parintins.

Fã de carteirinha do poeta, o empresário Antônio Faria, um dos grandes intelectuais da ilha, apressa-se em ir buscar o poeta no aeroporto.

Antônio veste sua melhor roupa e escolhe o carro mais bonito da família, para a empreitada.

Afinal de contas, ele ia ficar pela primeira vez na vida frente a frente com seu grande ídolo literário.

Feita as apresentações, Thiago aboleta-se no carro, enquanto um Antônio radiante e emocionado vai dirigindo vagarosamente, completamente embevecido, em direção à cidade.

No meio do caminho, ele reconhece um funcionário da loja JP, pertencente ao seu pai, Zé Pedro Faria, pedalando uma bicicleta.

Trata-se do folclórico Ari Seixas, um dos baluartes do movimento GLS da Ilha Encantada.

Antônio para o carro e chama Ari Seixas.

Ele encosta a bicicleta ao lado do carro.

– Arizinho, meu mano, deixa eu te apresentar esse ilustre passageiro que estou levando no carro. Ele é o famoso poeta Thiago de Mello, uma das glórias da nossa literatura. Thiago foi amigo íntimo do poeta chileno Pablo Neruda, tendo morado mais de dois anos na famosa Ilha Negra, onde ficava a casa-escritório do Neruda, o primeiro escritor latino-americano a receber o prêmio Nobel de Literatura. O Thiago está voltando para o Brasil depois de ter passado 15 anos exilado na Europa por ter enfrentado a ditadura militar com seus versos humanistas e cheios de paixão pela natureza.

Ari abaixou-se na janela, olhou para o poeta e não disse nada.

Antônio Faria continuou:

– O Thiago de Mello é autor dos famosos livros “Faz escuro mas eu canto”, “Canção do Amor Amado” e “Poesia comprometida com a minha e a tua vida”. Ele também escreveu o brilhante poema “Os Estatutos do Homem”, considerado uma obra-prima pela ONU e já traduzido para mais de 50 países. Além disso, o Thiago teve e tem entre seus amigos íntimos os poetas Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade, Paulo Mendes Campos, Ferreira Gullar e João Cabral de Melo Neto, os escritores Mario Vargas Llosa, Julio Cortazar, Gabriel García Márquez, Carlos Heitor Cony, Otto Lara Resende, Fernando Sabino, Armando Nogueira e José Lins do Rego, o teatrólogo Nelson Rodrigues, os artistas plásticos Pablo Picasso, Candido Portinari e Juan Miró, o paisagista Burle Marx, o arquiteto Oscar Niemeyer...

Ari abaixou-se na janela, olhou para o poeta mais uma vez e falou afetadamente:

– Pois olha, maninho, o meu cu nem tremeu...

Aí, voltou a pedalar a bicicleta e foi embora.

Antônio Faria só faltou se enfiar debaixo do carro.

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