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sábado, julho 09, 2011

Aula 20 do Curso Intensivo de Rock: Chuck Berry


Outro músico que surgiu na mesma época de Presley foi um sujeito chamado Charles Edward Anderson Berry, que ficou conhecido como Chuck Berry e é considerado o poeta laureado da música pop.

As enciclopédias divergem sobre o local de nascimento de Berry.

A “The Penguin Enciclopedia of Popular Music” diz que nasceu em San Jose, Califórnia, em 18 de outubro de 1926.

A “The Faber Companion to 20th Century Popular Music” concorda na data, mas diz que ele nasceu em Saint Louis, no Missouri.

Ele mesmo conta que nasceu em Saint Louis, descendente de índios, de escravos e de seus senhores, e tem vivido uma vida conturbada.

Nos anos 70, esteve na cadeia, cumprindo pena por sonegação de impostos.

Escreveu uma autobiografia, em 1987, onde recorda que mulher sempre foi o seu fraco.

Enriqueceu com o rock e comprou propriedades por todo o Missouri, uma delas o Berry Park Country Club, a meia hora de Saint Louis.

Lá, ele filmou um vídeo que o levou aos tribunais numa ação coletiva movida por 200 mulheres americanas: uma grande sessão de sexo grupal com várias mulheres e um único homem, o próprio Chuck.

O guitarrista se queixa de “perseguição racista”.

Já o acusaram de ganhar milhões com tráfico de drogas.

O certo é que Berry aprendeu a tocar guitarra quando ainda era moleque de escola.

Adulto, liderou um trio de blues em pequenos clubes de negros até que um dia ele e seu amigo pianista Johnnie Johnson apareceram nos estúdios da gravadora de Leonard Chess, em Chicago, no verão de 1955.

Vinham munidos de um bilhete de apresentação escrito por Muddy Waters e uma tosca fitinha demo com duas músicas: um blues tradicional (“Wee Wee Hours”) e uma novidade, como Berry a definiu.

Uma fusão de R&B e country saltitante intitulada “Ida Red”, adaptada de cançonetas anônimas da região de St. Louis.

Chess torceu o nariz para o blues, mas adorou a novidade.

Pediu que Berry arredondasse a música, que a deixasse mais dançante, escrevesse uma letra nova com um nome de mulher mais interessante e, sobretudo, polisse sua voz de tenor de forma que não parecesse mais tão negra.

Assim nasceu “Maybellene”, e o passo seguinte de Chess foi dar uma misteriosa parceria ao DJ Alan Freed, garantindo assim uma massiva execução naquele que era um dos programas mais quentes do rádio americano, o “Moondog’s Rock’n’Roll Parties”.


A música foi um sucesso estrondoso e esta história, que a memória hoje elíptica e seletiva de Berry não confirma nem desmente, é absolutamente exemplar tanto de sua carreira – uma mistura diabólica de gênio e oportunidade – quanto de toda a gênese do rock’n’roll.

Ali estava o talento intuitivo de um artista popular negro compreendendo a oportunidade histórica de misturar estilos brancos e negros, confrontando-se com a argúcia dos intermediários brancos em adaptar sua descoberta às necessidades do mercado.

Chess entendeu o que o indignado Johnnie Johnson se recusava a ver: que Berry era um bluesman medíocre, mas um genial inventor de novidades.

E que a América branca, a que tinha dinheiro para comprar discos e vontade de consumir novidades, estava pronta para elas.

Berry começou a misturar blues de Muddy Waters, country music e melodias de Nat King Cole por acaso, num de seus gigs num clube.

Mistura acidental – segundo o próprio Berry em sua autobiografia – que deu nas pessoas uma vontade de dançar.

Ele foi um dos primeiros músicos negros a atrair fãs brancos, que ouviam rádio e compravam discos.

Era bonito e engraçado, principalmente quando executava o seu famoso “duckwalk” (“passo de ganso”), tocando a guitarra meio agachado, com o instrumento próximo ao meio da canela.

Negro atraído por brancas, que o achavam irresistível, guitarrista que tocava o instrumento como se fosse campainha, Berry iniciou-se em sexo com uma enfermeira branca.

Seu maior romance adolescente foi uma lésbica.

Certa vez, já adulto e famoso, ficou com medo de ir ao quarto do hotel de Little Richards, achando que seria seduzido.

Conta sem pudor que cumpriu pena três vezes (assalto à mão armada, sexo com menores, no auge de sua carreira em 1962, e sonegação de impostos, nos anos 70).

Com um repertório de meia dúzia de fraseados de guitarra, ele escreveu o glossário do rock para o instrumento a ser decorado por Beatles, Stones e Jimi Hendrix.

Sua absoluta, genial capacidade de contar longas histórias em poucos versos firmemente amarrados à batida, seu vocabulário ao mesmo tempo precioso e alucinado, suas cápsulas de um universo sobre o qual escrevia de fora como um observador curioso e oportunista – o universo branco juvenil, de carros, bailes e ginásios – e a fusão perfeita de quase todos os estilos populares americanos, brancos, negros e mestiços, acabaram dando origem a uma argamassa ao mesmo tempo sólida e flexível que se chamou rock’n’roll.

De Bob Dylan a Bruce Springsteen, não houve poeta do rock que não fosse tributário de Berry, da longa saga de “Havana Moon” aos diálogos interiores de “Little Queenie”.


Excêntrico, irascível (a ponto de puxar as orelhas de Keith Richards publicamente, durante um show em sua homenagem, porque o guitarrista dos Stones “não estava tocando direito”), tarado e indubitavelmente genial, Chuck Berry traz na bagagem pelo menos meia dúzia de clássicos do rock, copiados, sampleados e imitados à exaustão há quatro décadas: “Johnny B. Goode”, “Roll Over Beethoven”, “Brown Eyed Handsome Man”, “Maybellene”, “Sweet Little Sixteen” e “My Ding-A-Ling”.

Casado com a mesma mulher, Themetta “Toddy” Berry, há mais de 50 anos, e pai de dois filhos, Berry continua na estrada fazendo das suas e tem uma legião de fãs espalhados pelo mundo inteiro.

Ele já esteve fazendo shows no Brasil várias vezes e não tem data para pendurar as chuteiras.


Em abril de 2005, o pianista Johnnie Johnson, um pioneiro do rock, que colaborou com Chuck Berry em sucessos como “Roll Over Beethoven” e “No Particular Place To Go”, morria aos 80 anos de idade, em sua casa em St. Louis, de causas não esclarecidas.

Johnson havia sido hospitalizado em março com pneumonia e fazia tratamento de hemodiálise devido a problemas renais, disse seu amigo, o músico John May.

Apesar de Johnson nunca ter sido muito famoso, sua parceria com Chuck Berry ajudou a definir o rock em seus momentos iniciais.

Com freqüência, Johnson compunha um tema musical ao piano e Berry o transcrevia para a guitarra e escrevia as letras.

A música de Berry intitulada “Johnny B. Goode” é claramente um tributo a Johnson.

Depois de encerrar sua parceria com Berry, Johnson colaborou com Keith Richards (que o resgatou de um ostracismo de quase 20 anos), Eric Clapton, John Lee Hooker e Bo Diddley, entre outros artistas.

Em 2001 entrou para o Salão da Fama do Rock.

“Ele deixou a pegada indelével de seu som”, disse May. “Podia passar de um estilo musical a qualquer outro, porque simplesmente adorava a música”.

Johnson e Berry puseram fim à sua parceria na década de 70 e em 2000, Johnson processou Berry por pagamento de direitos autorais e falta de reconhecimento artístico em meia centena de canções que, segundo Johnson, ambos compuseram juntos.

Um juiz descartou a causa em 2002, argumentando que já havia passado muito tempo desde que as canções disputadas tinham sido compostas.

Johnson deixou mulher e vários filhos.

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