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segunda-feira, julho 18, 2011

Caso Delmo: alguns esclarecimentos necessários


Vários amigos me telefonaram na última semana para saber se o livro que o publicitário historiador Durango Duarte vai lançar no dia 1º de agosto, intitulado “Caso Delmo”, tem alguma coisa ver com o livro “Massacre na Selva (O Caso Delmo)”, meu e do pesquisador e livreiro Antonio Diniz, ainda sem data de lançamento.

Claro que não.

São apenas dois livros explorando o mesmo assunto.

Fruto de oito anos de pesquisas,o nosso livro está diagramado desde o ano passado, esperando que a vida melhore para que a gente consiga arranjar os R$ 25 mil necessários para pagar a impressão.

Não sei nada a respeito do livro do Durango Duarte, exceto o fato de que ele é bem mais versátil do que eu quando se trata de obtenção de patrocínio.

O último livro dele, aquele álbum de fotografias sobre Manaus Antiga, recebeu R$ 80 mil de patrocínio da Prefeitura de Manaus e depois a Secretaria Municipal de Educação comprou mais 2 mil exemplares ao custo de R$ 300 mil.

A mesma Secretaria Municipal de Educação, alegando falta de verba, se recusou a comprar 100 exemplares do meu livro “Rock: a música que toca”, ao custo de R$ 5 mil.

Essas coisas de prestígio e de dinheiro, eu nunca entendi bem...


Segue abaixo um dos capítulos do nosso livro, intitulado “De bon vivant a criminoso”:

Filho do português Roberto Pereira, empresário bem-sucedido que criou uma das primeiras serrarias de Manaus – a serraria Pereira, na Colônia Oliveira Machado –, Delmo Pereira era um rapaz bem-apessoado, com pouco mais de 18 anos de idade, de jeito extrovertido, que estudava no Colégio Pedro II (atual Colégio Estadual do Amazonas) e vivia sempre cercado de belas garotas.

Durante o dia era o estudante bajulado pelas meninas e invejado pelos colegas, mas à noite mudava sua personalidade.

Há alguns anos, para desespero da família, ele havia conhecido os prazeres da boemia e não queria outra vida.

Bastava começar a escurecer para Delmo se transformar em um farrista incorrigível, que tinha o hábito de gastar muito dinheiro com programas noturnos, mulheres de vida fácil, bebidas de elevado teor alcoólico e jogos de azar.

Muitas das pessoas da época afirmam que o jovem pode ter sido um dos primeiros viciados em drogas da Manaus antiga.

Conhecido por todos os garçons de todos os lupanares da cidade, Delmo talvez fosse uma versão cabocla de Dr. Jekill e Mr. Hyde.

Por outro lado, Delmo não tinha a menor simpatia de sua madrasta Helena, que o achava um “garoto mimado e completamente irresponsável”, que só queria saber de “sombra e água fresca”.

Contrariando as ordens de Roberto Pereira, que fazia todos os gostos do garoto, sua madrasta não dava dinheiro ao “bon vivant”, já que este passava mais tempo na farra do que na aprazível residência da família, localizada na rua Miranda Leão.

Delmo chegou a alugar uma garçoniére no centro da cidade, onde recebia as suas mundanas favoritas.

Para financiar esses vícios noturnos, ele começou a praticar pequenos delitos na praça de Manaus.

Outro farrista habitual, o eletricista Adalberto Campos Bessa, confessou que ele e Delmo Pereira assaltaram a firma Souza, Arnaud e Cia., na antevéspera do Natal de 1951, roubando Cr$ 4.900,00 de uma gaveta e Cr$ 3.200,00 de outra, além de uma chatilene (corrente de relógio), que tinha a pata de um cavalo.

Os dois ainda tentaram arrombar o cofre da empresa com uma talhadeira, mas a mesma não resistiu e entortou.

Na divisão dos lucros, Adalberto recebeu Cr$ 2.500,00.

Preso pela polícia, ele assumiu sozinho a responsabilidade pelo assalto, mas confessou que sempre farreava no carro n.º 297, da garagem Moderna, que ora era dirigido pelo chofer Walter Oliveira ora pelo chofer José Honório.

Há várias versões para o que realmente aconteceu naquela fatídica quinta-feira, dia 31 de janeiro de 1952, quando o seu drama começou.

Uma delas diz que Delmo esteve farreando pelas boates da cidade desde as primeiras horas da noite.

Bebeu, namorou, pagou bebidas para os amigos e gastou muito dinheiro nos bregas “Muiraquitã” e “Bom Futuro”, ambos localizados em Flores, e, depois das 23 horas, resolveu passar na boate “Quitandinha”, localizado na rua Recife, no local onde hoje funciona a Semed.

Foi ali, com o dinheiro já terminando e a noite apenas começando, que ele, cheio da manguaça, teve a infeliz idéia de roubar dinheiro do cofre da serraria Pereira, para continuar sua farra.

Pegou um táxi de marca Hudson, que estava estacionado em frente ao lupanar, cujo motorista se chamava José Honório, muito conhecido por todos seus colegas de profissão, e pediu-lhe que o levasse à serraria Pereira, na Colônia Oliveira Machado.

Ali chegando, mandou o motorista desligar o motor do carro e ficar esperando.

Ele gritou pelo nome do vigia, que rapidamente apareceu e abriu o portão da serraria.

Delmo cumprimentou o vigia e disse-lhe que estava ali para pegar uns documentos do seu pai.

O empregado mostrou-se surpreso com o adiantado da hora, mas o rapaz não lhe deu muita trela e foi logo entrando rumo ao escritório, onde ficava o cofre da serraria.

Seguido pelo vigia, Delmo abriu o depósito de dinheiro, retirou uma boa soma, apanhou um revólver calibre 38, que também estava no cofre, colocou tudo num saco de papel e já saía com o pacote nas mãos quando mandou seu empregado acompanhá-lo para fechar o portão.

Quando este começou a andar para fazer a tarefa, Delmo armou-se com uma chave inglesa e deu-lhe várias pancadas na cabeça.

O vigia caiu ensangüentado no chão, sem dar um gemido.

As pancadas foram tão violentas que Delmo acreditou ter morto o vigia.

O motorista José Honório ouviu o barulho da chave inglesa ao ser jogada no chão e estranhou não ter visto o vigia fechar o portão da serraria.

Delmo percebeu o modo nervoso com que o motorista o conduzia de volta ao “inferninho” e então teve a idéia de matá-lo.

Fingindo que não tinha percebido nada, Delmo mandou que o motorista seguisse pela rua Recife e o levasse mais adiante, na estrada de Flores, onde afirmou que iria apanhar um amigo em um sítio para depois continuar sua brincadeira na boate “Quitandinha”.

José Honório não imaginava que estava sendo levado para a morte.

O motorista avançou pela estrada de piçarra (onde hoje é o início da Torquato Tapajós) e, de repente, fingindo que estava com cólicas, Delmo pediu para ele parar o carro, pois necessitava urgentemente defecar.

O motorista parou o veículo no local que à época era apelidado de “Ladeira da Forquilha”.

Delmo desceu do carro, caminhou alguns metros e se acocorou em um barranco, como se fosse defecar.

Depois de alguns minutos, Delmo pediu um pedaço de papel do motorista, para se limpar.

Na escuridão reinante na estrada, José Honório não percebeu que o estudante estava apenas fingindo.

Ele entregou um pedaço de papel ao estudante e, quando deu-lhe as costas, Delmo deu os primeiros dois tiros.

O motorista conseguiu se arrastar até o carro, para tentar fugir.

Delmo foi ao seu encalço e deu mais dois tiros.

Depois, jogou seu corpo ainda agonizante em um barranco.

A vítima terminou seus últimos minutos de vida espetada em uma cerca de arame farpado, onde foi encontrada por alguns transeuntes ao raiar do dia.

Na manhã seguinte, uma sexta-feira, Roberto Pereira, o pai de Delmo, foi trabalhar e, ao chegar à serraria, se deparou com o corpo do seu vigia estendido no chão, todo ensangüentado.

Levou-o ao pronto-socorro e comunicou o fato à Chefatura de Polícia, pois o estado da vítima era bastante grave e havia sumido uma importância considerável de dinheiro do cofre da empresa.

Os inspetores de polícia Téo, Ildefonso, Fausto e Salum Omar promoveram investigações, mas não conseguiram descobrir quem havia roubado o cofre ou cometido a agressão contra o vigia.

Delmo estava fora de qualquer suspeita.

No mesmo dia a cidade amanhecera em polvorosa porque o cadáver do motorista José Honório havia sido encontrado na estrada de Flores, ainda todo ensangüentado e com marcas de vários tiros.

Os taxistas fizeram uma passeata de protesto pelas ruas da cidade e pararam na Marechal Deodoro, em frente ao casarão da Chefatura de Polícia, pedindo uma solução para o caso e mais segurança para a classe.

Manaus era uma cidade pacata e um acontecimento como aquele deixou todos horrorizados.

Era preciso descobrir o assassino e colocá-lo na penitenciária.

Não havia nenhuma pista capaz de levar ao criminoso.

Mas por obra do destino, o vigia da serraria milagrosamente sobreviveu.

Ao acordar no dia seguinte, ainda com fortes dores de cabeça e o lado esquerdo do corpo paralisado, ele contou à polícia e à imprensa que havia visto o motorista José Honório em companhia de Delmo e de mais dois elementos, e que o próprio Delmo havia roubado o cofre da serraria Pereira e lhe agredido.

Estava esclarecido o crime.

O assassinato do motorista podia ser decorrente de uma briga durante a divisão do assalto.

Ou uma pura e simples “queima de arquivo”.

A polícia imediatamente prendeu o acusado, que se encontrava escondido na própria residência.

Os motoristas fizeram forte pressão e queriam a todo custo fazer justiça com as próprias mãos.

O rapaz foi acometido de uma crise nervosa e internado na Beneficente Portuguesa, onde permaneceu sob custódia.

Muitos jornalistas da época, entre eles Arlindo Porto e Guilherme Gadelha, cobravam, por meio das páginas de A Crítica, O Jornal, A Tarde e o Jornal do Commercio, uma ação mais enérgica da Justiça, que consentia em manter hospitalizado um criminoso frio e calculista, que deveria estar na penitenciária.

A população vivenciava dias de incertezas, aflição e angústia.

Muitas famílias deixaram de fazer compras nas ruas do Centro e de freqüentar casas de lazer, temendo serem vitimadas pela sanha de algum criminoso à solta.

Além do mais, havia todo um clima de revolta por parte dos motoristas, que faziam severa vigilância em cima dos passos da polícia e criticavam sua tolerância em relação a Delmo.

Reunidos no bar Lanche do Pará, localizado em frente ao Banco do Brasil, na praça da Matriz, os choferes de praça desconfiavam de que com o dinheiro que a abastada família do estudante possuía dificilmente ele seria punido.

Começou a pregação de que deviam fazer com Delmo o mesmo que ele havia feito com José Honório.

Justiça com as próprias mãos virou a palavra de ordem dos motoristas.

Naqueles primeiros dias de fevereiro, o radialista Josué Cláudio de Souza, por meio da “Crônica do Dia”, sempre às 12h, que possuía uma inacreditável audiência na cidade, fazia apaixonados comentários sobre o caso e apelava para que as autoridades não deixassem o caso ficar sem uma punição exemplar.

Para Josué Pai, Nossa Senhora da Conceição haveria de iluminar o entendimento dos homens a fim de que um crime bárbaro como aquele nunca mais voltasse a se repetir, e, ao mesmo tempo, solicitava que a classe de motorista exercesse seu direito de fiscalização e de exigir justiça, mas sempre sob a égide da lei.

O radialista percebia que os ânimos dos motoristas estavam, cada dia, mais acirrados.

Devido aos apelos, às manchetes escandalosas e às constantes denúncias da imprensa, Delmo, finalmente, foi retirado do hospital da Beneficente Portuguesa e recolhido à Penitenciária do Estado.

Dada sua condição de “filhinho de papai”, de vez em quando ele era levado para tomar medicamentos no Serviço de Socorros de Urgência (SSU), localizado na avenida Joaquim Nabuco, entre a rua Lauro Cavalcante e a avenida Sete de Setembro.

Os motoristas continuavam em constantes observações sobre esses deslocamentos, monitorando as idas e vindas do estudante.

Algumas vezes, Delmo embarcava nas viaturas da polícia e era levado para prestar depoimento na Chefatura da Polícia, na rua Marechal Deodoro.

Os depoimentos contraditórios de Delmo Pereira, que ora assumia o crime sozinho, ora afirmava que estava na companhia de outras duas pessoas, começaram a irritar os investigadores.

Para colocar a história em pratos limpos, foi sugerido que o estudante fosse submetido ao “soro da verdade”.

Nesse meio tempo, uma comissão de motoristas esteve no gabinete do governador Álvaro Maia para pedir justiça e exigir os nomes dos outros dois envolvidos que, suspeitava-se, também deviam fazer parte das famílias ricas da cidade.

Na noite de 4 de fevereiro, Delmo Pereira foi transferido para o SSU, para ser submetido ao “soro da verdade” e a um novo interrogatório policial.

(o resto da história vocês só vão saber quando comprarem o livro)

8 comentários:

Marcelo disse...

Isso é sacanagem! Como vou comprar o livro se nem lançado ele foi?
Pago 10 reais pela cópia digital!

Anônimo disse...

Realmente quero muito saber como está o conteúdo do livro,pois meu pai foi um dos motoristas presos na época,diga-se de passagem injustamente, ficou detido por 08 meses.Sinceramnete,não sou a favor à violência e muito menos quero fazer apologia à mesma,mas devido ao certo descaso de nossa justiça e ao absurdo de tolerância que é dado as familias de criminosos com uma estrutura de vida bem sucedida,acredito na justiça com as próprias mãos sim.

Anônimo disse...

Simples! O motora que conduzia Delmo na ambulância, o entregou aos revoltosos.
O Resto só tem sabor lido direto do livro. Concordo com o autor.
Hoje em dia, isso virou cotidiano. só falta resgatem os "bons futuros", os "quitandinhas" etc...etc.. e tal

Dennys disse...

Quante é a cópia digitalizada?

eu pago

Dennys.

Anônimo disse...

É fácil acreditar em justiça pelas próprias mãos quando se está do outro lado. Queria ver se seu pai estivesse na companhia dos agressores, sem ao menos ter efetuado nenhuma agressão e ser injustamente assassinado. Dá pra pensar a respeito né?

Anônimo disse...

Acabei de ler o "livro"do Durango Duarte, mas na verdadce é apenas uma compilação da transcrição de 2 jornais da época. Dois jornais do mesmo grupo econômico, diga-se de passagem.Espero que possa ler o seu livro em breve.

Sherman Cardoso disse...

Prezado Simão,

tenho um projeto individual em formato de podcast intitulado Reino do Norte (reinonorte.blogspot.com) onde converso de forma informal (papo de bar) sobre acontecimentos e casos da região norte do Brasil.

O caso Delmo me interessa bastante, e gostaria de saber se você aceita o humilde convite de gravar um episódio sobre o tema.

Desde já agradeço vossa atenção

Simão Pessoa disse...

Prezado Sherman, me contate via email (simaopessoa@gmail.com), que terei imenso prazer em colaborar com você. Abração.