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segunda-feira, julho 18, 2011

Caso Delmo: alguns esclarecimentos necessários


Vários amigos me telefonaram na última semana para saber se o livro que o publicitário historiador Durango Duarte vai lançar no dia 1º de agosto, intitulado “Caso Delmo”, tem alguma coisa ver com o livro “Massacre na Selva (O Caso Delmo)”, meu e do pesquisador e livreiro Antonio Diniz, ainda sem data de lançamento.

Claro que não.

São apenas dois livros explorando o mesmo assunto.

Fruto de oito anos de pesquisas,o nosso livro está diagramado desde o ano passado, esperando que a vida melhore para que a gente consiga arranjar os R$ 25 mil necessários para pagar a impressão.

Não sei nada a respeito do livro do Durango Duarte, exceto o fato de que ele é bem mais versátil do que eu quando se trata de obtenção de patrocínio.

O último livro dele, aquele álbum de fotografias sobre Manaus Antiga, recebeu R$ 80 mil de patrocínio da Prefeitura de Manaus e depois a Secretaria Municipal de Educação comprou mais 2 mil exemplares ao custo de R$ 300 mil.

A mesma Secretaria Municipal de Educação, alegando falta de verba, se recusou a comprar 100 exemplares do meu livro “Rock: a música que toca”, ao custo de R$ 5 mil.

Essas coisas de prestígio e de dinheiro, eu nunca entendi bem...


Segue abaixo um dos capítulos do nosso livro, intitulado “De bon vivant a criminoso”:

Filho do português Roberto Pereira, um empresário bem-sucedido que criou uma das primeiras serrarias de Manaus – a Serraria Pereira, na Colônia Oliveira Machado, às margens do rio Negro –, Delmo Pereira era um rapaz bem-apessoado, com pouco mais de 18 anos de idade, de jeito extrovertido, praticante de remo e natação, que estudava no Colégio Pedro II (atual Colégio Estadual do Amazonas) e vivia sempre cercado de belas garotas. Durante o dia era o estudante bajulado pelas meninas e invejado pelos colegas, mas à noite mudava de personalidade.

Há alguns anos, para desespero da família, ele havia conhecido os prazeres da boemia e não queria mais saber de outra vida. Bastava começar a escurecer para Delmo se transformar em um farrista incorrigível, que tinha o hábito de gastar muito dinheiro com programas noturnos, mulheres de vida fácil, bebidas, drogas e jogos de azar. Apesar da pouca idade, o jovem era um consumidor regular de maconha, cocaína e anfetaminas, conhecidas na época como “bolinhas”. Bajulado e paparicado pelos garçons dos numerosos bordéis da cidade, Delmo talvez sonhasse em ser uma versão cabocla de Dr. Jekill e Mr. Hyde, personagens de uma das várias novelas policiais que havia lido durante a adolescência.

Por outro lado, o rapaz não tinha a menor simpatia de sua madrasta, dona Cristina Pereira, que o achava um “garoto muito mimado e completamente irresponsável”, que em vez de “estudar para ser alguém na vida” só queria saber de “vadiagem, sombra e água fresca”. Contrariando as ordens de Roberto Pereira, que fazia todos os gostos do garoto, sua madrasta não dava dinheiro ao bon vivant, já que este passava mais tempo na farra do que na aprazível residência da família, localizada na rua Miranda Leão. Delmo chegou a alugar uma garçoniére no centro da cidade, onde recebia as suas mundanas favoritas. Para financiar esses vícios noturnos, ele começou a praticar pequenos delitos nas casas comerciais de Manaus.

Outro farrista habitual, o eletricista Adalberto Campos Bessa, confessou que ele e Delmo Pereira assaltaram a firma Souza, Arnaud e Cia., na antevéspera do Natal de 1951, roubando Cr$ 4.900,00 de uma gaveta e Cr$ 3.200,00 de outra, além de uma chatilene (corrente de relógio), que tinha a pata de um cavalo. Os dois ainda tentaram arrombar o cofre da empresa com uma talhadeira, mas a ferramenta não resistiu e entortou, frustrando a nova iniciativa criminosa. Na divisão dos lucros, Adalberto recebeu Cr$ 2.500,00. Preso pela Polícia, ele assumiu sozinho a responsabilidade pelo assalto, mas confessou que sempre farreava com Delmo Pereira no carro nº 297, da Garagem Avenida, que às vezes era dirigido pelo chofer Walter Oliveira, às vezes pelo chofer José Honório.

Há várias versões para o que realmente aconteceu naquela fatídica madrugada de quinta-feira, dia 31 de janeiro de 1952, quando o calvário de Delmo começou a ser traçado. Uma delas, segundo diversas reportagens publicadas pelos jornais da época, dava conta de que Delmo Pereira e Adalberto Bessa se encontraram para conversar no reservado do Café Baratinha, na noite de quarta-feira, dia 30 de janeiro. Enquanto tomava um copo de leite, o estudante abriu o jogo: o assalto que eles pretendiam fazer naquela noite à Serraria Pereira não seria mais feito pelo rio, usando um motor de rabeta como transporte, mas por terra, via carro de praça. Delmo já havia combinado com o motorista José Honório que iriam farrear em Educandos. O eletricista ficou “cabreiro”. Ele conhecia o motorista como parceiro de farra da dupla, não como cúmplice de assaltos. Delmo o convenceu de que José Honório era “sangue bom” e que não ia alcaguetar ninguém.

Do Café Baratinha, os dois foram caminhando até o Cassino Muiraquitã, onde Delmo perdeu todo o dinheiro que possuía jogando baralho. Adalberto se despediu de Delmo e foi comprar “marijuana” em uma boca-de-fumo localizada no igarapé de Manaus, combinando de se encontrarem mais tarde. Na sequência, Delmo deixou o cassino e foi para o salão de bilhar do Bar Sombra, para tentar obter algum dinheiro emprestado de um dos seus amigos que frequentavam o local. Ele não encontrou nenhum conhecido jogando bilhar. Foi ali, sem um centavo no bolso, que Delmo telefonou para a Garagem Avenida solicitando o carro de José Honório. Eram 11 horas da noite.

Delmo entrou no táxi de marca Hudson e pediu ao motorista que o levasse à Serraria Pereira, na Colônia Oliveira Machado, para resolver um pequeno problema antes de irem farrear em Educandos. O carro seguiu pela Av. Sete de Setembro. Na ponte do igarapé de Manaus, o veículo fez uma parada para apanhar Adalberto Bessa. Os dois já começaram a fumar maconha dentro do carro, para irritação do motorista, que não gostava de drogas. Quando chegaram nas proximidades da Serraria Pereira, Delmo mandou José Honório desligar o motor do carro e ficar aguardando. Ele e Adalberto saíram do táxi. Delmo gritou pelo nome do vigia, que rapidamente apareceu e abriu o portão da serraria. Ele cumprimentou o vigia e disse-lhe que estava ali para pegar uns documentos do seu pai. O empregado mostrou-se surpreso com o adiantado da hora, mas o rapaz não lhe deu muita bola e foi logo entrando rumo ao escritório, onde ficava o cofre da serraria.

Adalberto pediu um copo de água ao vigia. Enquanto este se dirigia ao bebedouro para realizar a tarefa, Delmo abriu o cofre do escritório, retirou uma boa soma em dinheiro, apanhou um revólver calibre 38, que também estava no cofre, colocou tudo num saco de papel e, ao sair do escritório com o pacote nas mãos, pediu ao vigia para acompanhá-los e fechar o portão. Quando este começou a caminhar na frente da dupla, Delmo apanhou uma chave inglesa que estava em cima de uma mesa e lhe deu várias pancadas na cabeça. O vigia caiu ensanguentado no chão, sem dar um gemido. As pancadas foram tão violentas que Delmo acreditou ter morto o vigia. O motorista José Honório estranhou não ter visto o vigia fechar o portão da serraria, mas não disse nada. Completamente paranoico por conta da “marijuana” consumida, Delmo percebeu o modo nervoso com que o motorista os conduzia em direção a Educandos e então teve a ideia de matá-lo, com medo de que pudessem ser denunciados mais tarde. Era a primeira vez que um de seus pequenos assaltos terminava com uma vítima fatal.

Fingindo que não tinha percebido nada de anormal no comportamento do motorista, Delmo mandou que, em vez de ir pra Educandos, ele entrasse na Cachoeirinha, seguisse pelo Boulevard Amazonas e o levasse até o lupanar Angelu’s, nas imediações do Parque dos Bilhares. O lupanar estava fechado. Delmo então mandou o motorista seguir pela estrada de Campos Sales, em Flores, onde iria apanhar um segundo amigo em um sítio para depois começar a farra na boate Quitandinha. Sentado na cadeira do “carona”, ao lado do motorista, Adalberto Bessa permanecia calado. O motorista avançou em baixa velocidade pela estrada de piçarra, onde hoje é o início da Av. Torquato Tapajós, obedecendo às instruções do estudante. Alguns minutos depois, Delmo mudou de ideia e pediu para José Honório retornar para a cidade. O motorista começou a ficar irritado com aquele “vai-não-vai”, mas não disse nada.

De volta para a cidade, nas proximidades do local conhecido como “Ladeira da Forquilha”, o estudante fingiu que estava tendo uma crise de cólicas e pediu para José Honório parar o carro, pois necessitava urgentemente defecar. O motorista parou o veículo. Delmo desceu do carro, caminhou por alguns metros e se acocorou em um barranco, como se fosse mesmo defecar. Adalberto e José Honório permaneceram no veículo. Depois de alguns minutos, Delmo pediu um pedaço de papel do motorista para se limpar. Na escuridão reinante na estrada, José Honório não percebeu que o estudante estava apenas fingindo.

– Eu só tenho talões de recibo... Serve?... – avisou o motorista.

– Serve!... – devolveu o estudante.

– Então te limpa logo e vamos embora que não dormi a noite passada e estou morrendo de sono! – explicou o motorista, enquanto saía do carro levando um talão de recibo para entregar ao estudante.

Quando lhe deu as costas para voltar ao táxi, José Honório recebeu o primeiro tiro. Ele levou a mão à nuca e saiu correndo em direção ao carro, desesperado. Delmo lhe deu um segundo tiro.

– Não me mate, não me mate, que eu tenho família e filhos pra criar! – implorou o motorista, tentando entrar no veículo.

Delmo se aproximou e lhe deu um terceiro tiro. José Honório desabou no chão.

Os tiros despertaram Adalberto do seu estado de catatonia induzida por “marijuana”:

– Ficou louco, moleque? Ficou louco? Que porra foi essa?...

– Ah, sei lá... De repente, ele podia nos denunciar... – avisou o estudante, sem demonstrar qualquer emoção.

– E agora, porra, e agora? O que qui nós vamos fazer com esse cadáver? Levar pra cidade? E como é que nós vamos sair daqui se nenhum dos dois sabe dirigir? Tu ficou doido, moleque? Tu ficou doido? – gritava o eletricista, nervoso, apoplético, desesperado.

– Me ajuda a jogar o corpo naquela pirambeira é que é, antes que eu também te dê um tiro! – devolveu Delmo, na sua calma habitual.

Os dois pegaram o corpo de José Honório pelas pernas e pelos braços e jogaram por cima de um barranco, mas o cadáver acabou se enroscando na cerca de arame farpado existente no barranco. Cada vez mais paranoico, Delmo cismou que o cadáver ainda estava se mexendo e deu um quarto tiro na vítima.

Nervosíssimo, Adalberto sentou no carro no banco do motorista, com Delmo no banco do “carona”, engatou uma marcha e conseguiu pilotar o veículo em alta velocidade por quase um quilômetro, antes de bater em uma vala e capotar. Os dois abandonaram o carro ali mesmo e foram andando a pé em direção à cidade. O dia estava quase amanhecendo, quando eles chegaram ao Boulevard Amazonas. 

Adalberto subiu o Boulevard para alcançar a Rua Belém e de lá seguir até o Beco da Paciência, em Educandos, onde morava. Delmo Pereira seguiu pela Rua João Coelho, até o centro da cidade.

Na manhã da quinta-feira, Roberto Pereira, o pai de Delmo, foi trabalhar e, ao chegar à serraria soube do acontecido: o vigia do dia que chegara para render o vigia noturno se deparara com ele estendido no chão, todo ensanguentado, entre a vida e a morte, e o levara ao pronto-socorro. Na mesma hora, o empresário comunicou o fato à Chefatura de Polícia, pois o estado da vítima era extremamente grave, tudo fazendo crer que iria a óbito, e havia desaparecido uma importância considerável de dinheiro do cofre da empresa. Os inspetores de polícia Téo, Ildefonso, Fausto e Salum Omar promoveram diversas investigações nas imediações da serraria, mas não conseguiram descobrir quem havia roubado o cofre ou cometido a agressão contra o vigia. Delmo Pereira estava fora de qualquer suspeita.

No mesmo dia a cidade amanhecera em polvorosa porque o cadáver do motorista José Honório havia sido encontrado na estrada de Flores também ensanguentado e com marcas de vários tiros. Os taxistas fizeram uma passeata de protesto pelas ruas da cidade e se concentraram na Rua Marechal Deodoro, em frente ao casarão da Chefatura de Polícia, pedindo uma solução para o caso e mais segurança para a classe. Manaus era uma cidade pacata, sem histórico de latrocínios, e um acontecimento como aquele havia deixado todo mundo em pânico. Era preciso descobrir imediatamente o assassino e colocá-lo na penitenciária. A Polícia, entretanto, não dispunha de nenhuma pista para chegar ao criminoso.

Foi quando ocorreu o imponderável: o vigia da serraria sobrevivera milagrosamente. Ainda com fortes dores de cabeça e o lado esquerdo do corpo paralisado, ele contou à Polícia que havia visto o motorista José Honório, em companhia de Delmo e de dois outros elementos, naquela madrugada em que fora vítima da agressão. Mais: garantiu que o próprio Delmo havia roubado o cofre da Serraria Pereira e lhe agredido covardemente pelas costas. O assassinato do motorista podia ser decorrente de uma briga durante a divisão do assalto. Ou uma pura e simples “queima de arquivo”. Por volta das 10 horas da manhã, Delmo assumiu a autoria dos crimes e se entregou à Polícia. Na tarde do mesmo dia, ele fez a reconstituição da morte do motorista na estrada de Campos Sales.

Bom, mas como dissemos anteriormente, esta era apenas uma das versões da história. A sequência de reportagens publicadas na época do crime, desde o assassinato do motorista até o sequestro e posterior chacina de Delmo Pereira cinco dias depois, também dava margem para as mais variadas especulações. Era praticamente impossível confirmar se o estudante agiu sozinho ou em parceria com um ou mais cúmplices tal o número de versões que Delmo deu para a Polícia. Cabe ao leitor apenas especular sobre o que de fato aconteceu na madrugada daquela quinta-feira, como vamos mostrar a seguir.

No dia 1º de fevereiro de 1952, sexta-feira, o matutino O Jornal trazia na 1ª página a manchete “Reconstituído o bárbaro crime da estrada de Campos Sales”:

Teve a mais ampla repercussão no seio da população amazonense o bárbaro e covarde crime verificado na madrugada de ontem, na estrada de Campos Sales, no Km 9, que resultou na morte do infortunado chofer José Honório Alves da Costa, do carro de praça nº 279, pertencente à Garagem Avenida. Crime monstruoso, praticado com todos os requintes de covardia e perversidade, abalou todos os círculos sociais, já que atingiu um lar pobre e humilde, o do chofer José Honório Alves da Costa, e também de outro que está na iminência de ser envolvido pelo manto negro do luto, o do vigia da serraria, Antônio Firmino da Silva, vítima de brutal agressão, horas antes de tombar sem vida o chofer do carro nº 279.

Às 7h30 de ontem, o Sr. José Rodrigues Rocha, proprietário do caminhão 885, comunicou à Polícia que, ao se dirigir para o Km 40 da estrada de Campos Sales, encontrou, no Km 8, o carro de praça nº 279 capotado e com luzes acesas, abandonado na estrada. No Km 9 da referida estrada, foi encontrado, pelo mesmo senhor, o cadáver de um homem, preso a uma cerca de arame farpado. A Polícia tomou imediatas providências, comparecendo ao local o médico legista, Dr. Hosannah da Silva, que procedeu ao levantamento cadavérico, sendo o corpo levado para o necrotério do Cemitério São João Batista. Ao ser procedido o levantamento cadavérico, as autoridades verificaram tratar-se do chofer José Honório Alves da Costa, amazonense, casado, com 32 anos de idade, residente à avenida Floriano Peixoto.

Enquanto as autoridades tratavam de averiguar o monstruoso crime da estrada de Campos Sales, chegou ao conhecimento que o vigia da Serraria Pereira, Antônio Firmino da Silva, cearense, casado, com 46 anos de idade, morador na estrada da Panair, nº 23, havia sido barbaramente agredido pela madrugada, estando internado em estado grave no hospital da Beneficente Portuguesa. Ouvido o vigia, este declarou ter sido agredido com uma chave inglesa por três indivíduos, reconhecendo o jovem Delmo Pereira, de 18 anos de idade, amazonense, solteiro, filho do industrial Roberto Pereira, sócio da firma R. Pereira & Cia. Ltda., proprietária da Serraria Pereira.

Perto das 10h, apresentou-se à Central de Polícia, acompanhado do Dr. Castro Monte, o jovem Delmo Pereira, o qual passou imediatamente a ser interrogado pelas autoridades policiais.

A confissão – Perante o Dr. José Milton Caminha, delegado auxiliar da Capital, Dr. Otoniel Maia, delegado especial de Investigações e Capturas, comissário Francisco Azevedo e escrivão Adolfo Pires Neto, Delmo Pereira iniciou seu depoimento, relutando, a princípio, em confessar a autoria do crime, bem como em identificar os seus cúmplices, admitindo ser um dos agressores do vigia da Serraria Pereira. Mais tarde, todavia, isto às 13h30, Delmo Pereira relatou o seguinte:
Perto da meia-noite, estava na porta do botequim “Sombra”, esperando uma condução, quando passou pelo local o automóvel de praça nº 279, dirigido pelo chofer José Honório Alves da Costa. 

Atendendo ao seu chamado, o carro parou, apanhando-o e se dirigindo rumo á Cachoeirinha. À altura da primeira ponte, dois indivíduos fizeram aceno ao carro. O chofer gritou que o mesmo estava ocupado, mas os dois desconhecidos insistiram e o carro parou. Os dois indivíduos declararam, então, que tinham uma carta para o vigia da Serraria Pereira e que tinham necessidade de entrega-la imediatamente. Delmo disse que por sinal a serraria era da propriedade de seu pai, entrando os dois no carro que rumou para a serraria.

Ao deixarem o automóvel, os dois indivíduos disseram a Delmo que a história da carta era fantasia. Eles queriam era dinheiro. Delmo, então, disse ser idêntico o seu propósito e os três se encaminharam para a serraria. Delmo bateu à porta e o vigia abriu-a, reconhecendo, então o filho do seu patrão. Delmo disse mais, que o vigia também falou a um dos indivíduos, chamando-o pelo nome de Raimundo. Foi a essa altura que o vigia foi agredido, recebendo fortes pancada na cabeça, desferidos com uma chave inglesa.

Raimundo, então, perguntou a Delmo se o vigia não tinha revólver. Procurada a arma, esta foi encontrada numa das gavetas da casa do vigia. Raimundo tomou conta da arma e os três voltaram ao carro, que havia ficado à distância, rumando para a estrada de Flores. Estiveram à porta do botequim de “Angelo de tal”, que não abriu a porta do seu estabelecimento. Seguiram, então, os três, sempre no carro nº 279, para o Bar Futuro, em Flores. Não satisfeito, Raimundo perguntou a Delmo: “Teu pai não tem um sítio na estrada de Campos Sales?”. Como a resposta fosse afirmativa, o tal Raimundo determinou que seguissem para Campos Sales. Então deram ordem para que o chofer voltasse. À altura do Km 9, Raimundo pediu ao chofer que parasse o carro, pois precisava satisfazer uma necessidade fisiológica. O chofer atendeu. Saltaram os três.

Raimundo pediu papel ao chofer, e este antendeu-o novamente. Quando o chofer virou-lhe as costas, Raimundo atirou (conta Delmo). Desferiu dois tiros. O chofer pediu que não o matassem e caiu contra a porta do carro. Raimundo pediu que Delmo desferisse o “seu tiro”. Delmo relutou, mas foi obrigado a atirar, atingindo o chofer José Honório na nuca. Depois, atiraram o corpo do infeliz chofer contra a cerca de arame e voltaram ao carro. No caminho, Raimundo pediu a Delmo que atirasse o revólver no mato. Este preparava-se para obedecer a ordem, quando a arma caiu-lhe das mãos. 
Procurou juntar o revólver e perdeu a direção do carro, que se embrenhou pelo mato, indo de encontro a uma árvore. Raimundo disse desaforos a Delmo, pelo acidente. A seguir, deixaram o carro e dirigiram-se a pé, rumo à cidade.

Delmo Pereira, na véspera do crime, ou seja, quarta-feira, jantou no restaurante da UEA, do qual é assinante, e ontem pela manhã, depois de consumado o bárbaro assassinato, fez a refeição matinal no mesmo restaurante.

Eram precisamente 15h de ontem quando, em virtude da negativa de Delmo Pereira – o frio matador do chofer José Honório da Costa – em revelar os demais personagens de tão horrendo crime, o delegado auxiliar, acompanhado do agente Rosas, do escrivão Adolfo Neto e do Dr. Nonato de Castro, além de representantes de todos os jornais da Capital, providenciou a recomposição do crime, na estrada de Campos Sales, onde se verificou o crime, nas proximidades de um banho denominado “Retiro da Mocidade”. Presente a nossa reportagem no local, por determinação do Dr. Milton Caminha, Delmo passou a demonstrar aos presentes a maneira como agiu, tendo antes, porque insistentemente interrogado, confessado que matou o chofer com a intenção de roubá-lo, o que fez, achando nos seus bolsos apenas a importância de Cr$ 90,00.

Antes de seguirmos para o local, acompanhamos Delmo na sua visita forçada ao necrotério do Cemitério São João Batista onde ele, em presença do cadáver de sua vítima, não se preocupou, apontando mesmo, com a maior calma, os ferimentos das balas disparadas pelo revólver que usou.

Na reconstituição do crime surge outra história – No local, na estrada de Campos Sales, Delmo apresentava a fisionomia calma e surpreendente controle de nervos, e, sem se perturbar, passou a reconstituir o crime, conforme passamos a relatar:

Na hora que chegaram ao local onde ocorreu o crime, Delmo pediu ao chofer que parasse o carro, pois ele queria satisfazer uma necessidade fisiológica, sendo prontamente atendido. Fora do carro, à margem da estrada, estava ele satisfazendo a sua necessidade enquanto José Honório, o chofer, se encontrava no carro, pelo que Delmo lhe solicitou que arranjasse um pedaço de papel e, atendido no pedido, o chofer voltou-lhe as costas tendo, nesse momento, Delmo desfechado-lhe dois tiros de pouca distância, indo o chofer cair dentro do carro, já gravemente ferido.

Não satisfeito, Delmo avançou mais ainda, e enquanto segurava com uma das mãos a sua calça, com a outra, ainda a dois passos de distância, descarregou por mais duas vezes o seu revólver contra José Honório, depois do que este, ainda com vida, foi arrastado para a margem da estrada, onde foi imprensado numa cerca de arame farpado, tendo o criminoso atirado o seu corpo para fora da cerca, ficando apenas seguro pelo pescoço, tendo o arame ficado encravado na mão direita da vítima.

Interrogado onde tinha atirado a arma do crime, Delmo confessou que havia jogado no igarapé que passa por baixo da ponte dos Bilhares. Assim, para lá rumaram e lá chegando, Delmo e o agente Rosas caíram n’água e acharam a arma, tendo Delmo reconhecido como a que usou na hora do crime: um revólver “Smith and Wesson”, 38 duplo, cano longo.

Satisfeitas com o trabalho, as autoridades ainda interrogaram a Delmo se ele confirmava a sua afirmativa de que somente ele tinha participado do assassinato do chofer. Delmo mais uma vez declarou que “ele, somente ele, é que fora o autor do crime, sem que outra pessoa o ajudasse”.

O vigia da Serraria Pereira, Antônio Firmino da Silva, internado no hospital da Beneficente Portuguesa, às primeiras horas da madrugada de hoje, continuava em estado grave. A Polícia, continuando em suas diligências no sentido de descobrir os companheiros de Delmo Pereira, prendeu, ontem à tarde, Adrião Nunes e “Jorge de tal”, vulgo “Jaburu”, amigos do matador do chofer José Honório. Todavia, os mesmos foram postos em liberdade, já que nada ficou apurado que os comprometesse.

Hoje, às 9h, serão realizados os funerais do infortunado chofer José Honório Alves da Costa, saindo o féretro da residência de sua família, à avenida Floriano Peixoto. O Sr. Xenophonte Antony, antigo Inspetor do Tráfego Público e atualmente diretor da Comissão de Estradas de Rodagem, custeou os funerais do chofer José Honório, pedindo aos seus companheiros que destinassem o montante do rateio obtido entre os choferes à sua família.

Ontem, a Polícia foi avisada pelo Sr. Roberto Pereira, pai de Delmo Pereira, de que alguém, pelo telefone, o ameaçara de morte, caso seu filho negasse a autoria do assassinato para livrar-se da Justiça. A Polícia destacou vários agentes para garantir a residência do Sr. Roberto Pereira.

Quando Delmo Pereira, em companhia das autoridades policiais, dirigiu-se para a estrada de Campos Sales a fim de reconstituir o brutal crime, verificou-se um movimento entre os choferes de praça no sentido de arrancá-lo das mãos da Polícia para linchá-lo. Providências foram adotadas, então, não sendo permitida a passagem de qualquer pessoa, além dos policiais e representantes da imprensa, pelo bar “Bom Futuro”, em Flores.

Novas declarações de Delmo Pereira – A Policia continua submetendo Delmo a severo interrogatório com o objetivo de obter maiores informações sobre os seus companheiros, já que a ninguém convence a afirmativa de que se fizera acompanhar de dois indivíduos sem conhecê-los perfeitamente. À noite de ontem, Delmo prestou novas declarações, as quais diferem das primeiras em vários pontos. Disse, por exemplo, que conhecera os dois indivíduos à tarde de anteontem, com eles combinando o plano sinistro de assaltar a serraria de seu pai, para roubar. Combinaram um encontro no Cassino Muiraquitã. E, de fato, segundo soubemos, alguém viu Delmo no cassino em companhia de dois indivíduos, um dos quais teria sido conhecido “marreteiro”. Todos beberam cerveja e depois retiraram-se. Cabe à Polícia apurar este ângulo.

Ainda à noite de ontem, consoante apurou a reportagem, Delmo, diante da insistência de um seu irmão, teria adiantado novos e impressionantes detalhes, os quais foram mantidos em segredo pelo delegado auxiliar da Capital. Não obstante o sigilo, soubemos que, nesta confissão, Delmo teria dito ao seu irmão que os dois companheiros, sob ameaças, violentaram-no no Km 9, obrigando-o, depois, a atirar sobre o chofer. Até às três horas da madrugada de hoje, Delmo continuava sendo submetido a rigoroso interrogatório, esperando a Polícia identificar ainda hoje os seus dois companheiros.

No dia 2 de fevereiro, sábado, o matutino O Jornal trazia na 1ª página a manchete “Perdura o mistério em torno dos companheiros de Delmo Pereira”:

Continua completamente embaraçada a nossa Polícia, sem saber se Delmo Pereira é o único culpado no bárbaro assassínio do chofer José Honório, ocorrido na madrugada de 31 do mês próximo findo, pois que Delmo, de maneira assombrosa, cada vez que é interrogado, conta uma história, sem deixar, porém, de confessar-se único culpado. Todavia, no desenrolar de suas declarações, deixa evidente a participação de terceiros no crime cometido, pelo que a Polícia se encontra numa situação de indecisão em acreditar no que afirma o criminoso.

Ontem, ao Dr. Rocha Barros, chefe de Polícia, Delmo mais uma vez prometeu revelar, requerendo mesmo que fosse ouvido pelo seu professor, Sr. Antunes de Oliveira que, solicitado para isso, atendeu prontamente ao chamado do chefe de Polícia. Em completo sigilo, foi feito o interrogatório, tendo antes o professor Antunes ouvido Delmo em particular e, depois, foi confirmando o que o criminoso ia relatando em presença do chefe de Polícia e dos Drs. Xavier de Albuquerque, curador ad hoc, e João Ricardo, revelando, nesse novo depoimento, indivíduos “Alberto de tal” e “Raimundo de tal”, dizendo mesmo que não revelara antes porque na hora em que se despediram, em frente ao bar do Sr. João Isaac, conhecido por “Remanso do Boto”, fizeram juramento de que quem revelasse seria morto. Disse mais Delmo, que tudo o que confessara no inquérito era mentira, e como fosse interrogado por que fizera tal, respondeu que temia ser morto pelos seus companheiros, e que acreditava serem capazes de cometer o que prometeram no juramento.

Numa batida pelos diversos logradouros da cidade, a Polícia, na noite de ontem, deteve diversos suspeitos, inclusive um de cor preta que fora apontado pessoalmente por Delmo, e que, conforme suas declarações, estava ferido na testa, em consequência do baque no espelho do carro em que viajaram. Preso o apontado, a Polícia verificou que esse indivíduo não possuía nenhum ferimento na testa, tendo Delmo justificado o seu engano. Os demais detidos continuam em completo segredo, não conseguindo a nossa reportagem apurar-lhes o nome.

Delmo Pereira, talvez levado pelo remorso que, até então, não tinha demonstrado, pediu para rezar. Sendo atendido, dirigiu-se para a imagem de Nossa Senhora das Graças, que se encontra numa das dependências da Central de Polícia e, ajoelhando-se, orou, solicitando àquela santa “que desse forças aos nossos policiais para que acreditassem que ele era o único culpado do crime do chofer José Honório”. Essa sua súplica foi presenciada por todos, inclusive pelo chefe de Polícia.

Nas suas declarações de ontem à tarde, Delmo confessou que tomara o carro sozinho em frente ao botequim “Sombra”, à avenida Sete de Setembro, esquina com a Joaquim Nabuco. Mas, não nos revelaram o nome de um garçom daquele estabelecimento comercial, que vira seguirem no automóvel mais dois indivíduos, além de Delmo. Essa testemunha, que será interrogada amanhã, talvez traga alguma pista à nossa Polícia, que, até agora, se encontra em completo embraço, sem poder acreditar se são verdadeiras ou não as histórias até agora contadas pelo frio, covarde e anormal matador do chofer José Honório.

Às primeiras horas da madrugada de hoje, Delmo Pereira prontificou-se a prestar novo depoimento, esclarecendo que seria o verdadeiro. Relatou, então, na presença das autoridades policiais e representantes da imprensa, todo o ocorrido, frisando, entretanto, que ninguém o acompanhou na madrugada de 31 de janeiro. Historiou a agressão ao vigia da Serraria Pereira e o assassinato do chofer José Honório Alves da Costa, dizendo ter agido sozinho e que matara o chofer para roubar, já que precisava obter dinheiro para pagar suas dívidas, que – segundo seus cálculos – sobem a Cr$ 2.400,00. Interrogado pelos repórteres a respeito dos personagens descritos em seus depoimentos anteriores, Delmo Pereira esclareceu que todos foram criados pela sua imaginação. A polícia procurará, hoje, obter o depoimento do vigia Antônio Firmino da Silva, na beneficente Portuguesa, depoimento esse que reputamos de capital importância.

No dia 3 de fevereiro, domingo, o matutino O Jornal trazia na 1ª página a manchete “Matei para roubar – afirma Delmo Pereira”:

Falando à nossa reportagem na tarde de ontem, o Dr. Rocha Barros, chefe de Polícia, declarou estar convencido de que Delmo Pereira é o único personagem envolvido no crime do chofer José Honório, não passando as demais histórias contadas pelo criminoso como meios de criar embaraços à Polícia na elucidação da verdade. Assim, sua senhoria resolveu tomar por termos as declarações de Delmo Pereira, fato esse que se verificou na presença do seu advogado e do Dr. Xavier de Albuquerque, curador ad hoc.

Naquela calma toda sua, sem se preocupar pelo que lhe pudesse acontecer, Delmo Pereira, avisado de que aquele seria seu depoimento definitivo, prometeu mesmo relatar toda a verdade dos fatos e, sem se perturbar, respondeu às perguntas que lhe foram feitas, persistindo mesmo em dizer que cometera sozinho o crime, desde o ataque ao vigia Antônio Firmino da Silva até o assassínio do chofer José Honório, desfazendo todas as investidas dos que insinuaram a dizer que ele sozinho não fez tudo, conforme declarara ao seu próprio pai, quando este o interrogou o que tinha feito na serraria.

Delmo, que levava uma vida de agitação e estava sem dinheiro para satisfazer suas despesas, desde há muito vinha planejando um meio de consegui-lo, fazendo, muitas vezes, planos diabólicos, como, por exemplo, o da corda, com a qual pretendia matar enforcado qualquer um chofer. Há ainda o plano da “Mauser”, de propriedade do Sr. Walmir Robert, que é vizinho de quarto de seu irmão, que fica nos altos da Casa “Tem-Tem”, tendo pensado em matar aquele senhor para de sua arma se apropriar e com ela a outros matar, sempre com o fim de arranjar dinheiro.

Lembrou-se, então, que na serraria de seu pai havia um revólver e, com o objetivo de consegui-lo, para lá se dirigiu na noite do crime. De lá voltando, depois de ter atacado o vigia, com ele assassinou o chofer José Honório. “O meu desejo era roubar e somente um chofer de praça poderia ter dinheiro naquele dia. Por isso, resolvi tomar o primeiro que passasse quando eu me encontrava em frente ao salão de bilhar do botequim Sombra. A única pessoa que me viu tomar o carro foi o meu colega Maximiliano Trindade, que ficou no local, sem querer me acompanhar, ainda porque eu o convidei”.

Maximiliano Trindade, filho do juiz de Direito do Território do Rio Branco, menor, colega de Delmo, foi convidado a depor perante as autoridades e, de maneira simples, foi respondendo às perguntas que lhe foram feitas, não negando que vira Delmo tomar um carro que passou em frente ao salão de bilhar do botequim “Sombra”. Do que aconteceu, nada mais sabe, vindo a ter conhecimento do que se passou pelas notícias dos jornais.

No dia 4 de fevereiro, segunda-feira, o vespertino Diário da Tarde trazia na 1ª página a manchete “Última hora: nas malhas da Polícia um dos cúmplices de Delmo Pereira”:

A Polícia vinha, quase às tontas, desenvolvendo atividades para elucidar o pavoroso crime da estrada de Campos Sales. Hoje pela manhã, dona Cristina Pereira, esposa do Sr. Roberto Pereira, madrasta de Delmo Pereira, recebeu um telefonema anônimo, nos seguintes termos: “Se Delmo confessar o nome dos seus companheiros, a senhora e o seu marido pagarão com a vida”.

Dona Cristina, segundo soubemos, pela voz, que não sofreu qualquer modificação, reconheceu tratar-se de Antônio Muniz, vulgo “Mal-de-Vida”, ex-empregado da Serraria Pereira e que constantemente dava-lhe “facadas” de 10 e 20 cruzeiros, sendo de notar que esse elemento ajudou o jovem Roberto Pereira Filho na sua campanha a vereança do município de Manaus, candidato que foi da UDN.

Cumprindo o que ficara combinado antes entre o presidente da União Beneficente dos Choferes do Amazonas e o chefe da Polícia, dona Cristina Pereira, não tendo encontrado o Dr. Rocha Barros, imediatamente deu ciência do telefonema, apontando o seu autor a um dos choferes da Garagem Esportiva.

De posse dessa informação e já desconfiando de “Mal-de-Vida”, não só pelas suas ligações com Delmo Pereira, mas porque, após o crime, ele desapareceu da avenida Eduardo Ribeiro, onde sempre estava lavando um carro e outro, para defender seu ganha-pão, os choferes de nossa praça, às 12h de hoje, organizaram-se numa caravana e, em sete automóveis, dirigiram-se ao bairro de Constantinópolis, onde reside, numa barraca, Antônio Muniz.

Fazendo-o entrar no carro, os profissionais do volante levaram “Mal-de-Vida” para a estrada do Paredão, onde o submeteram a rigoroso e severo interrogatório. Avisado do que se passava, o Dr. Rocha Barros, ato contínuo, seguiu também para o Paredão, chegando ainda a tempo de participar do interrogatório, durante o qual Antônio Muniz caiu nas mais sérias e graves contradições, pouco faltando para se identificar como um dos autores do bárbaro crime do chofer José Honório.

O Dr. Rocha Barros providenciou a remessa de “Mal-de-Vida” para a subdelegacia de Constantinópolis, enquanto regressou à Central de Polícia, conduzindo as roupas do suspeito: uma calça de mescla, cor azul, e uma camisa amarela. Levadas estas à presença de Delmo Pereira, o mesmo reconheceu-as como sendo de Antônio Muniz e perguntou: “Doutor, o senhor garante que ele não me mata?”. O chefe de Polícia reafirmou a sua segurança e, então, Delmo confirmou a participação de “Mal-de-Vida” no fato que tem deixado em suspenso a opinião pública. E esclareceu: “Pelo plano traçado, competia a mim matar o vigia, e a Antônio, o chofer. E assim foi feito. Antônio distraiu o Sr. Firmino e eu dei os golpes com a chave inglesa. E Antônio, sozinho, matou a bala o chofer José Honório, após o que, veio dirigindo, perto de dois quilômetros, o carro Hudson”. 

Terminado o ligeiro relato, o Dr. Rocha Bastos relembrou a denúncia do subconsciente de Delmo Pereira quando, ao prestar declarações no inquérito em seu gabinete, trocou por duas vezes o nome de Raimundo por Antônio (o personagem que depois afirmou haver criado para complicar o caso).

Com tudo isso, verifica-se que a primeira história de Delmo de que, acompanhado de dois indivíduos, levou a termo os crimes, tinha e tem procedência. Delmo afirmou que um deles (o tal Raimundo, a princípio, agora Antônio Muniz) estava trajando calça cor azul e camisa amarela, e, realmente, isso aconteceu, segundo as roupas já em poder da Polícia. A solução do crime, portanto, aproxima-se do fim, faltando apenas, à Polícia, saber se os autores são apenas Delmo e Antônio Muniz ou se há um terceiro, cuja identidade é ainda desconhecida. A verdade, porém, será aclarada na acareação que, hoje, o chefe de Polícia procederá com Delmo Pereira e Antônio Muniz, com a presença, inclusive, de dona Cristina Pereira.

Na mesma edição, o Diário da Tarde trazia uma segunda matéria intitulada “Ainda o crime de Campos Sales” – supostamente redigida antes da matéria de última hora que ocupou a primeira página –, com alguns questionamentos pertinentes:

A Polícia, praticamente, está resolvida a aceitar a história bem urdida, fantástica (a menos que seja em contrário) de Delmo Pereira, de que é o único responsável pela agressão ao vigia da Serraria Pereira, Antônio Firmino da Silva, e pelo assassinato bárbaro, frio e cruel do chofer José Honório Alves da Costa.

É certo que as autoridades continuam ouvindo elementos diversos, como o pai de Delmo, o outro vigia da Serraria Pereira, que encontrou, no dia seguinte ao do crime, Firmino, banhado em sangue – no interesse de levar a bom termo as suas investigações. Porém, e os comentários da rua giram nesse sentido, a Polícia estaria decidida em aceitar a hipótese de que Delmo é o único responsável pelos dois crimes.

Somos dos que pensam que uma pessoa só – Delmo, no caso – poderia agredir o vigia Firmino e depois eliminar o chofer. Delmo tem bom físico e não lhe seria difícil essa empreitada. É uma hipótese viável, portanto. Mas, com o que não concordamos é o desprezo que a Polícia vem devotando a uma série de particularidades, que bem poderiam elucidar de vez e positivamente as duas trágicas ocorrências.

Por exemplo, segundo corre pela avenida Eduardo Ribeiro, o Sr. Júlio Seixas, na noite do hediondo crime do chofer José Honório, encontrou, na estrada de Campos Sales, ao regressar de uma caçada, no seu Jeep, o carro daquele infeliz profissional conduzindo não apenas uma, mas três pessoas. Não seriam estas, Delmo inclusive, as mesmas pessoas que o vigia Firmino, apontando com os dedos, denunciou como seus agressores?

Outro ponto interessante é aquele em que Delmo afirma que, ao sair do bilhar do “Sombra”, com o propósito deliberado de “caçar” a sua vítima, fez sinal para o primeiro veículo que passava na ocasião: o carro “Hudson”, de chapa nº 279, dirigido por José Honório. Delmo declara que provocou a parada do veículo, com o auxílio de uma lanterna, indicando o jovem Maximiliano Trindade como testemunha do fato.

A Polícia, porém, não procurou atentar que seria quase impossível que José Honório estivesse transitando por ali, não fosse para atender a qualquer chamado. José Honório ganhava a vida fazendo plantão noturno e não seria ele que, interessado em maiores lucros e, consequentemente, em menores despesas, pois da féria do carro dependia o seu ganha-pão, não seria ele – repetimos – quem iria andar de cima para baixo, gastando gasolina, não fosse com o objetivo de atender a qualquer freguês ou qualquer interessado. Esse pormenor deve ser averiguado pela Polícia, tanto mais quando se comenta que José Honório vinha realizando, de um tempo para cá, serviços para Delmo Pereira, como chofer de sua confiança.

Há de se considerar, ainda, que, segundo os boatos, são improcedentes as alegações de Delmo Pereira de que não sabia dirigir automóvel, o que fez pela primeira vez na noite do crime de Campos Sales e, assim mesmo, com base nas explicações que, no percurso da viagem, deu-lhe José Honório. Na conformidade daqueles boatos, Delmo sabia guiar automóvel, pois já teria sido visto conduzindo um carro “Austin”, modelo antigo.

Tudo isso, todos esses pequenos pontos, as histórias contraditórias de Delmo Pereira, as versões populares, devem interessar, e muito, às autoridades policiais, pois, do contrário, as coisas não passarão de onde se encontram, o que não seria certo, diante das afirmações de que Delmo Pereira praticara os crimes com o auxílio de dois companheiros mais.

O vigia Firmino continua apresentando ligeiras melhoras, sendo muito difícil que venha a falar ainda hoje. Nesse elemento reside grande parte das esperanças para a elucidação completa do denso mistério.

No dia 5 de fevereiro, terça-feira, o matutino O Jornal trazia na 1ª página a manchete “Solicitada a interferência do Governador do Estado na elucidação da tragédia do dia 31 de janeiro”:

Ainda não está esclarecido, devidamente, o hediondo crime da estrada de Campos Sales. Delmo Pereira, depois de haver, em presença do chefe de Polícia e do nosso repórter, reconhecido as calças de mescla, cor azul, e a camisa amarela, como sendo de Antônio Muniz, vulgo “Mal-de-Vida”, inclusive justificando a troca de nomes, durante o seu depoimento no gabinete do Dr. Rocha Barros, resolveu, duas horas depois, desmentir-se, voltando à estaca zero dos acontecimentos, de que é o único responsável pela agressão do vigia Antônio Firmino da Silva e do assassinato cruel do chofer José Honório.

Recapitulando os fatos, verificaremos que, na manhã de ontem, recebendo uma denúncia de que um indivíduo (“Mal-de-Vida”) telefonara a dona Cristina Ribeiro Pereira, ameaçando-a e a seu marido, Roberto Pereira, de morte, caso Delmo viesse a revelar a identidade de seus companheiros, os choferes da avenida Eduardo Ribeiro, inicialmente, resolveram mandar apenas dois companheiros à casa de Antônio Muniz, em Constantinópolis, à guisa de sondagem ou observações. Quando os dois choferes chegaram à casa de “Mal-de-Vida”, este, segundo o relato dos próprios choferes, recebeu-os grosseiramente, a ponto de ameaça-los, de terçado em punho, como se alguma culpa pesasse sobre os seus ombros.

Os dois profissionais retornaram à avenida Eduardo Ribeiro e, aí, deram ciência do fato aos seus companheiros. Isso foi o bastante para que 23 choferes se armassem, convenientemente, e, logo às primeiras horas da tarde, seguiram em sete automóveis para a casa de “Mal-de-Vida”, onde, encontrando-o, fizeram-no embarcar num dos carros, prosseguindo viagem para a estrada do Paredão.

Em determinado local dessa artéria, os choferes submeteram Antônio Muniz a um interrogatório severo e drástico e, quando este prometia contar a verdade, um chofer teria sugerido sua morte, o que foi o bastante para que “Mal-da-Vida” não mais desse uma palavra. Nesse momento, chegou o chefe de Polícia que, depois de participar do interrogatório, levou “Mal-de-Vida” para a subdelegacia de Constantinópolis.

O apelido “Mal-de-Vida”, de Antônio Muniz, provém de sua crítica situação financeira, diante de que, para conquistar o pão de cada dia, lavava automóveis que estacionam na avenida Eduardo Ribeiro. Acontece, porém, que, após o crime, Antônio Muniz desapareceu, completamente, daquela artéria, e mais, no dia da tragédia, segundo alguns choferes, foi “Mal-de-Vida” quem, às 7h30, anunciava que o “Hudson” nº 279 estava “amassado” no Km 8 de Campos Sales, tanto assim que, desse fato, saiu para dar ciência ao proprietário do veículo.

Em vista disso, impõem-se as seguintes perguntas: 1) Se “Mal-de-Vida” nada tem a ver com o carro, por que ameaçou os dois choferes que, em visita de observação, o foram procurar? 2) Como “Mal-de-Vida”, antes mesmo da Polícia ter conhecimento do bárbaro assassinato do chofer José Honório e da agressão do vigia, já informava que o carro 279 estava “amassado” no Km 8? As respostas cabem à Polícia.

Delmo, como já foi dito, a princípio reconheceu as roupas de “Mal-de-Vida”. Perguntou ao Dr. Rocha Barros se Antônio Muniz não o mataria e, recebendo como resposta a reafirmação de sua segurança na Polícia, Delmo denunciou a participação do mesmo nos dois crimes, inclusive esclarecendo que “Mal-de-Vida” já se encontrava no carro 279 quando o apanhou em frente ao bilhar do “Sombra”, pois assim havia sido combinado.

De acordo com o plano traçado anteriormente, a ele, Delmo, competia matar o vigia, e a “Mal-de-Vida”, o chofer José Honório. Delmo, com as roupas de Antônio Muniz nas mãos, repetindo que as trajava na noite pavorosa do dia 31 de janeiro, justificou a troca de nomes (Raimundo por Antônio) – como dissemos acima – na ocasião em que fora inquirido no gabinete do chefe de Polícia.

Tudo isso esclareceu Delmo Pereira em presença do próprio repórter, mas, duas horas depois, presentes o Dr. Nonato de Castro, advogado da União Beneficente dos Choferes do amazonas, Dr. Francisco Xavier de Albuquerque, curador de menores ad hoc, Dr. João Ricardo de Araújo Lima, seu advogado, representantes da imprensa e agentes, Delmo Pereira mudou de ideia, voltando á sua história primitiva, de que é o único agressor do vigia da Serraria Pereira e matador do chofer José Honório.

Firmou nesse ponto, chegando a apelar para as autoridades policiais, no sentido de que lhe empregassem pentatonato de sódio, droga que adormecendo o consciente obrigaria a manifestar-se, exclusivamente, o subconsciente. E não havendo, portanto, possibilidade de esconder a verdade, todos ficariam conhecendo a verdade sobre o crime da estrada de Campos Sales, e que Delmo advoga ser a que já contou, onde aparece como personagem única.

Ninguém, porém, acredita que Delmo praticou os crimes sozinho, muito mais depois da afirmação do Sr. Antônio Seixas de que, ao encontrar-se na estrada de Campos Sales com o “Hudson” nº 279, verificou que, em seu interior, viajavam duas ou três pessoas. E, assim, o Dr. Nonato de Castro convidou Delmo Pereira para uma conversa particular á noite de ontem, ao que o mesmo aceitou.

À hora aprazada, porém, o chefe de Polícia proibiu a entrevista de Delmo com aquele causídico, o que deu motivo a que este, imediatamente, procurasse o governador Álvaro Maia para lançar o seu protesto, na companhia do Sr. Odorico Andrade, presidente da União Beneficente dos Choferes do amazonas (UBCA). O Dr. Nonato de castro reclamava providências ao chefe do Executivo, quando uma comissão numerosa de choferes ali chegou para secundar o pedido do referido advogado.

Os choferes estão revoltados com o fato de estar demorando muito a solução para o crime do chofer José Honório, uma vez que a Polícia tem Delmo Pereira em seu poder há quatro dias e, agora, “Mal-de-Vida”, que se apresenta com todas as características de cúmplice. Em vista disso, o governador prometeu que tudo seria feito para hoje, às 17h, ser posto um ponto final no caso, pois, do contrário, avocará a si o processo.

Em seguida, foi consentida a entrevista do Dr. Nonato de Castro com Delmo Pereira, a qual se realizou, debaixo do maior sigilo, na subdelegacia de Constantinópolis. Antes, porém, posto frente a frente com “Mal-de-Vida”, Delmo negou conhecê-lo. A acareação anunciada, porém, não se realizou, ficando para hoje, na parte da manhã.

Em meio a tudo quanto já foi feito, surge a hipótese de que três, e não dois ou um, são os responsáveis pelos crimes da noite de 31 de janeiro. E, assim, a Polícia tem que intensificar suas diligências ou sindicâncias a fim de alcançar o objetivo que toda a população espera, ansiosamente.

Também no mesmo dia 5 de fevereiro, o vespertino Diário da Tarde trazia na 1ª página a manchete “Prisão preventiva para Delmo Pereira, requereu o chefe de Polícia ao juiz da Vara Criminal”:

Cinco dias são decorridos que o chofer José Honório foi barbaramente assassinado e o vigia Antônio Firmino da Silva agredido friamente sem que a Polícia, até o momento, embora com Delmo Pereira em seu poder, tenha conseguido elucidar positiva e claramente os dois crimes. Em consequência, a população já começou a se indignar, a fazer os mais desairosos conceitos das autoridades policiais, porque não quer aceitar, tomando em consideração de que três foram os criminosos, a história de Delmo Pereira de que é o único responsável pelos trágicos acontecimentos da noite do dia 31 de janeiro.

E não quer com justa razão, pois Delmo, em determinadas oportunidades, para surpresa geral, transmuda-se, como aconteceu quando foi informado da prisão de Antônio Muniz, vulgo “Mal-de-Vida”, e aponta novos ângulos do assunto que está empolgando a opinião pública. Mas, minutos ou horas depois, retomando o fio de sua velha história, que o tem como personagem exclusiva na agressão ao vigia e na matança do chofer, defende intransigentemente, chegando a jurar, pela alma de sua mãe e por N. S. das Graças, de que é autêntica e verídica.

Na ordem dos seus juramentos, Delmo foi ao ponto de pedir que as autoridades lhe submetessem aos efeitos do “soro da verdade”, pois assim, “todos acreditarão na minha história”. Esse pedido foi feito ontem e só não foi cumprido – por volta das 2h da madrugada, no Serviço de Socorros de Urgência, para onde foi conduzido pelo chefe de Polícia – em virtude de não haver sido encontrada a referida droga nas farmácias de plantão.

A operação, portanto, ficou para hoje e está marcada para às 13h, na Santa Casa, oportunidade em que o Dr. Gilson Vieralves fará a aplicação do referido “soro”. Segundo os entendidos, essa composição não apresenta resultados 100%, por isso que as declarações de Delmo Pereira poderão escapar á realidade dos fatos. Outros, porém, defendem a tese dos resultados absolutamente positivos do “soro da verdade”, aguardando, dessa forma, com ansiedade, as conclusões da experiência que logo mais será levada a termo.


Na manhã de hoje, o Dr. Rocha Barros encaminhou ao juiz da vara Criminal, Dr. Ernesto Roessing, o pedido de prisão preventiva para Delmo Pereira, o qual fez acompanhar da documentação necessária. Por solicitação do chefe de Polícia, daqui para diante, todas as investigações em torno dos crimes de 31 de janeiro serão acompanhadas pelo promotor público, Dr. Domingos de Queiroz.

8 comentários:

Marcelo disse...

Isso é sacanagem! Como vou comprar o livro se nem lançado ele foi?
Pago 10 reais pela cópia digital!

Anônimo disse...

Realmente quero muito saber como está o conteúdo do livro,pois meu pai foi um dos motoristas presos na época,diga-se de passagem injustamente, ficou detido por 08 meses.Sinceramnete,não sou a favor à violência e muito menos quero fazer apologia à mesma,mas devido ao certo descaso de nossa justiça e ao absurdo de tolerância que é dado as familias de criminosos com uma estrutura de vida bem sucedida,acredito na justiça com as próprias mãos sim.

Anônimo disse...

Simples! O motora que conduzia Delmo na ambulância, o entregou aos revoltosos.
O Resto só tem sabor lido direto do livro. Concordo com o autor.
Hoje em dia, isso virou cotidiano. só falta resgatem os "bons futuros", os "quitandinhas" etc...etc.. e tal

Dennys disse...

Quante é a cópia digitalizada?

eu pago

Dennys.

Anônimo disse...

É fácil acreditar em justiça pelas próprias mãos quando se está do outro lado. Queria ver se seu pai estivesse na companhia dos agressores, sem ao menos ter efetuado nenhuma agressão e ser injustamente assassinado. Dá pra pensar a respeito né?

Anônimo disse...

Acabei de ler o "livro"do Durango Duarte, mas na verdadce é apenas uma compilação da transcrição de 2 jornais da época. Dois jornais do mesmo grupo econômico, diga-se de passagem.Espero que possa ler o seu livro em breve.

Sherman Cardoso disse...

Prezado Simão,

tenho um projeto individual em formato de podcast intitulado Reino do Norte (reinonorte.blogspot.com) onde converso de forma informal (papo de bar) sobre acontecimentos e casos da região norte do Brasil.

O caso Delmo me interessa bastante, e gostaria de saber se você aceita o humilde convite de gravar um episódio sobre o tema.

Desde já agradeço vossa atenção

Simão Pessoa disse...

Prezado Sherman, me contate via email (simaopessoa@gmail.com), que terei imenso prazer em colaborar com você. Abração.