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sábado, julho 23, 2011

Caso Delmo: A vingança dos motoristas


Na última quarta-feira, meu brother Francisco Cruz, atual procurador-geral do Ministério Público do Amazonas, teve a gentileza de telefonar para Manacapuru, onde estou temporariamente homiziado, para me dar notícias sobre o hypado livro do Durango Duarte, “Caso Delmo”, que será lançado no próximo dia 1º de agosto, na Livraria Saraiva, no Shopping Manauara.

Chicão Cruz foi, até agora, a única pessoa que leu o nosso livro (meu e do Antonio Diniz), “Massacre na Selva”, ainda no formato word, há dois anos.

No começo do ano, lhe enviei uma cópia em PDF, já com o livro totalmente diagramado.

Aliás, o livro era dedicado a ele porque eu, pessoalmente, o considero uma das maiores sumidades jurídicas da aldeia - sem contar que Chicão é um verdadeiro intelectual orgânico progressista da antiga escola gramsciana, dois conceitos que ele simplesmente abomina e inseridos numa mesma frase laudatória, que é o tipo de putaria que só um verdadeiro amigo consegue entender.

O diabo é que ele virou o chefão do Ministério Público e o que antes seria uma singela homenagem começou a parecer cabotinismo.

Preferimos, eu e Antonio Diniz, puxar o freio de mão e dedicar o livro ao MPE, sem distinção (MPE, diga-se de passagem, que conta com duas fundadoras do bloco Andanças de Ciganos: Sara Pirangy e Silvana Cavalcante).

O Chicão recebeu um exemplar do livro do Durango - trés chic, como sempre, já que o sacana sempre teve bom gosto! - e, pelo que entendi, os dois livros se complementam.

No seu prefácio, Durango faz uma citação carinhosa ao meu trabalho de pesquisa sobre o Delmo Pereira, apesar de ele ainda não ter lido o livro “Massacre na Selva”. Noblesse oblige.

Segundo o Chicão, que ficou de me emprestar o livro na próxima segunda-feira, Durango Duarte fez um robusto apanhado de matérias jornalísticas publicadas na imprensa local sobre o hediondo crime.

Ele não palpita, não dá pitaco, não se mete na história.

Simplesmente transcreve a história do desdobramento do crime tal como a imprensa da época registrou.

Aparentemente, o pesquisador delimitou um tempo histórico (das primeiras reportagens publicadas sobre o assassinato do motorista José Honório até o julgamento dos assassinos de Delmo Pereira) e coletou tudo de interessante sobre o assunto publicado pela mídia local entre os dois eventos.

O meu livro, nesse aspecto, é um pouco diferente.

Como tive acesso a documentos que, supostamente, a mídia da época não teve, eu reescrevi a história do crime a partir desses documentos.

Claro que, a exemplo do Durango Duarte, também transcrevi algumas reportagens de época, mas apenas aquelas específicas sobre o julgamento dos motoristas.

Um dos diferenciais entre os dois livros (e aqui não há nenhum demérito sobre o trabalho do meu querido Durango, muito pelo contrário) é que transcrevi os autos de qualificação e interrogatório prestados na Justiça pelos 27 acusados - e de mais algumas pessoas presas injustamente, como o empresário Cassiano Cirilo Anunciação, o “Batará”, na época um moleque de 19 anos e motorista do ônibus Eneida.


O nosso querido “Batará”, amigo de minha família há seis décadas, ficou preso durante três meses até ter sido impronunciado pelo juiz Ernesto Roessing.

O “porque” de ele não ter entrado contra o Estado com uma milionária ação indenizatória por danos morais, era algo que eu pretendia fazer escrevendo sua biografia.

Cheguei a falar com o Cirilo Anunciação, ex-diretor do Diário do Amazonas, sobre o projeto - que ele considerou interessante -, mas aí o sacana se envolveu nessa guerra intestina contra seu irmão caçula, o Ciro, e o projeto foi pro vinagre.

Pretendo conversar com o Cassianinho (o primogênito do “Batará”), o Cássio, a Demétria e o próprio Cirilo para retomar o assunto.

Seria uma oportunidade única de o bem sucedido empresário “Batará” desmontar as mil e umas lendas urbanas criadas a seu respeito.

Mas estou tergiversando. Voltemos ao caso Delmo.

Infelizmente, não consegui ter acesso aos interrogatórios de primeira hora, ou seja, aqueles prestados pelos presos na Polícia tão logo foram capturados, porque, supostamente, foram incinerados por um diligente funcionário público quando a Chefatura de Polícia da Marechal de Deodoro foi desativada, em meados dos anos 70.

Pra quem ainda tem memória, o “casarão” ocupava um quarteirão inteiro, com uma entrada principal na rua Marechal Deodoro e uma entrada secundária na Guilherme Moreira.

Outro diferencial é que também transcrevi integralmente a peça de acusação do promotor Domingos Queiroz, uma verdadeira jóia rara, dado o grau de saber jurídico do irmão mais moço do saudoso ex-deputado estadual Chico Queiroz, que também era advogado militante e jornalista desassombrado.

Apesar de ter estudado apenas dois anos de Direito na antiga Faculdade da Jaqueira, no início dos anos 80, eu considero a peça acusatória de Domingos Queiroz como um dos melhores trabalhos jurídicos de nossa terra em todos os tempos.

Se um leigo do meu tipo achou beleza e graça no material, imagino o deslumbramento que ele poderá provocar em promotores públicos, advogados criminalistas e juízes.

Por último, tentei contextualizar o papel do Ministério Público, a essência do Tribunal do Júri e a importância do advogado de defesa para que o próprio leitor tirasse suas conclusões definitivas a respeito da quizumba.

Esse texto seguinte, intitulado “A Vingança dos Motoristas”, é a continuação do capítulo “De Bon Vivant a Criminoso” já publicado aqui no mocó.

As fotos ilustrativas deste capítulo, seguramente, nunca foram publicadas antes pela imprensa, inclusive esta que abre a matéria, onde aparece Delmo Pereira sendo submetido ao “soro da verdade”.

Desconfio que tenha sido a última foto que ele fez em vida.


A demora da polícia em identificar – se é que existiam – os outros cúmplices de Delmo Pereira no assalto frustrado à serraria Pereira e no assassinato do taxista José Honório, haviam transformado a cidade num barril de pólvora.

Só faltava alguém para acender o rastilho.

Um motorista do Serviço de Socorros de Urgência (SSU), Silvio Oliveira, tomou para si essa incumbência.

Solidário à classe, ele procurou alguns motoristas e se prontificou a telefonar para a garagem Esportiva no momento em que o estudante estivesse deixando aquele hospital, após ser submetido ao “soro da verdade”.

Funcionário do Instituto Médico Legal, o enfermeiro Manuel Rodrigues, conhecido como “Gavião”, chegou às 9h da manhã do dia 5 de fevereiro, para dar expediente no SSU.

O estudante Delmo Pereira já estava no local desde a noite anterior.

O enfermeiro presenciou uma discussão áspera, por telefone, entre o Dr. Carlos Frederico, diretor da unidade hospitalar, e o chefe da Polícia, a respeito da presença do estudante naquele local.

– Eu sei que é ordem do governador, mas vocês estão me criando um problema sério! – exasperava-se o diretor. “Nós não temos como garantir a integridade dele aqui, nem a dos outros pacientes, no caso de acontecer uma invasão à base da força. Vocês não têm idéia de como está o clima entre os choferes da cidade!”.

Para mostrar que a preocupação do diretor era infundada, o chefe da Polícia, Manoel Rocha Barros, dirigiu-se até o SSU e comandou pessoalmente uma experiência: fez o enfermeiro “Gavião” se enrolar em um lençol branco e ser colocado em uma ambulância, como se fosse Delmo.

Ele se aboletou no banco da frente, junto ao motorista, disfarçando-se de enfermeiro para não ser reconhecido.

A ambulância deixou o SSU e foi até as imediações da Penitenciária do Estado, voltando em seguida pela Sete de Setembro, entrando na Joaquim Nabuco e indo até a praça dos Remédios.

Com exceção das vaias dadas por alguns populares, nada de mais grave aconteceu.

O chefe da Polícia desceu da ambulância, no canto das ruas Joaquim Nabuco e José Paranaguá, e foi para a sua residência.

A ambulância desceu a José Paranaguá, contornou o Cine Guarany, na avenida Getúlio Vargas, subiu a Sete de Setembro e retornou ao SSU.

Por volta das 18h, a ambulância saiu para prestar socorro a uma pessoa que tinha sido esfaqueada na avenida São João, no bairro do Imbóca.

A vítima foi levada para o SSU mas, em virtude da gravidade do ferimento, ela foi imediatamente transferida para a Santa Casa de Misericórdia.

Quando a ambulância estacionou na Santa Casa para fazer a remoção do ferido, o enfermeiro Manuel Rodrigues viu um cidadão se aproximar e olhar para o interior da ambulância, como se procurasse alguém.

Na volta para o SSU, o enfermeiro também percebeu que havia muitos automóveis estacionados na rua Ferreira Pena, perto da Santa Casa, e que começaram a trafegar lentamente quando a ambulância saiu.

No SSU, Manuel Rodrigues relatou o ocorrido ao comissário Luiz Bastos, que estava no local para supervisionar a remoção de Delmo para o QG da Polícia Civil, na rua Guilherme Moreira.

– É, “Gavião”, a gente já sabe que esses motoristas estão querendo aprontar alguma, mas fique frio que eles estão sendo monitorados! – tranqüilizou o comissário.

Bastos chamou o investigador Eliseu Moreira, que estava de sentinela na porta do quarto do estudante, e avisou para ele se preparar, que a remoção de Delmo seria feita às 19h.

No horário estipulado, Eliseu chamou Delmo para que o acompanhasse até a ambulância, mas percebeu que ele ainda estava um pouco perturbado, talvez sob efeito do “soro da verdade”.

O investigador calçou os sapatos do estudante e o ajudou, amparando-o, a entrar na ambulância.

O comissário Bastos trancou a porta da ambulância, entrou numa caminhonete e foi embora.

O motorista Francisco Lotif estava escalado para dirigir a ambulância.

O motorista Silvio Oliveira, que acabara de telefonar para a garagem Esportiva, resolveu acompanhar a remoção e sentou-se ao lado dele.

O enfermeiro Manuel Rodrigues sentou-se ao lado de Silvio, indo na janela.

O veículo começou a se movimentar lentamente, mas, próximo dos pilares da porta de saída do hospital, o motor estancou.

O motorista, aproveitando a embalagem, debreou e acelerou, e o motor voltou a pegar.

Silvio, encarregado de acionar a sirene, deu duas “sirenadas”, como se fosse um aviso.

Mal a ambulância começou a se movimentar na Joaquim Nabuco, voltou a estancar.

– Será que é falta de gasolina? – perguntou o motorista Lotif, enquanto debreava e acelerava, até fazer o motor pegar no “tranco”.

Silvio respondeu que talvez o estrangulador estivesse puxado.

– Ali no canto do Quintela estão parados mais ou menos uns trinta choferes! – alertou o enfermeiro “Gavião”.

Ao ouvir aquilo, o investigador Eliseu, que estava dentro da ambulância, ficou assustado:

– Você escutou essa conversa aí da boléia? – perguntou ele a Delmo.

O estudante, ainda meio grogue, assentiu afirmativamente com a cabeça.

A ambulância continuou seu itinerário, sempre em baixa velocidade, mas com a sirene ligada.

Desceu a Lauro Cavalcante, dobrou à esquerda na Getúlio Vargas e, em frente ao Cine Polytheama, quando se preparava para dobrar à direita na Sete de Setembro, o veículo subitamente parou.

Eliseu foi surpreendido com pancadas sendo dadas na parte traseira da ambulância até que ambas as portas se abriram.

Dezenas de motoristas cercavam o veículo.

O investigador tentou fechar as portas puxando as correntes que elas possuíam na parte interna, sendo ajudado na tarefa por Delmo Pereira, mas, para azar deles, as portas fecharam ao contrário, ficando superpostas.

Com a ajuda de chaves de fenda e pedaços de paus, os motoristas forçaram a pequena abertura entre a superposição das portas e conseguiram, de novo, abrir a ambulância.

Eliseu levou um murro e caiu no chão meio atordoado.

Ele foi puxado pelas pernas e retirado da ambulância, sob uma saraivada de tapas e pontapés.

Gritando por socorro, Delmo ainda conseguiu pisotear no rosto de alguns motoristas, que queriam subir na ambulância, antes de ser imobilizado pela gravata de um deles e arrastado para fora do veículo.

Ele foi colocado dentro de um carro, que desceu a Sete de Setembro em alta velocidade.

Eliseu correu até a Chefatura de Polícia e relatou o ocorrido.

Os policiais civis se dirigiram ao Quartel da Polícia Militar para conseguir reforços.

O advogado e repórter policial Manuel José Antunes da Silva, 36, estava na redação do jornal A Crítica quando chegou a notícia de que os taxistas haviam assaltado uma ambulância do SSU e raptado o estudante Delmo Pereira, quando este estava sendo conduzido para a Chefatura de Polícia.

O carro utilizado na fuga era um Hudson cinza.

Os estudantes estavam ameaçando incendiar a cidade.

Na mesma hora, ele e o jornalista Epaminondas Baraúna apanharam um carro e se dirigiram para as proximidades do Colégio Pedro II.

A multidão havia interditado o cruzamento da Getúlio Vargas com a Sete de Setembro.

Vários ônibus haviam sido abandonados no local.

O trânsito estava congestionado.

O advogado soube que o chefe da Polícia, Manoel Rocha Barros, estava naquele momento no Quartel da Polícia Militar, na praça da Polícia, onde fora buscar alguns policiais para sair ao encalço dos choferes, e para lá se dirigiu.

Como desfrutava de certa intimidade com Rocha Barros, Manuel Antunes foi logo perguntando:

– O senhor já prendeu os condutores da ambulância, para saber que diabos está acontecendo?

– Não, ainda não! – respondeu o chefe de Polícia. “Mas me faz um favor. Leva esses dois policiais civis com vocês até o SSU e pede para comparecer na Chefatura de Polícia o motorista da ambulância, de nome Lotif, um enfermeiro de apelido “Gavião” e um outro motorista de nome Silvio”.

Os jornalistas obedeceram.

No SSU, o quarteto ficou sabendo que o enfermeiro “Gavião” tinha tomado rumo incerto e não sabido.

Os dois motoristas, Francisco Lotif e Silvio Oliveira, foram conduzidos à Chefatura e entregues ao comissário de Permanência.

Os quatro, então, partiram ao encontro do chefe da Polícia, subindo pela avenida Sete de Setembro, passando pela Cachoeirinha, até encontrarem o carro ocupado pelo policial, que se dirigia para a estrada de Flores através da rua Recife.

Ao passar pela avenida Carvalho Leal, nas proximidades da rua J. Carlos Antony, Manuel Antunes notou parado na porta de uma das casas um carro Hudson cinza, sem placa, bastante enlameado, cujas características coincidiam com a do carro que, segundo estava informado, havia conduzido Delmo Pereira após o assalto da ambulância.

Ele sugeriu aos policiais civis que procurassem identificar melhor aquele carro, mas não insistiu no assunto.

Julgou pouco provável que o carro dos raptores já estivesse de volta à cidade em tão curto espaço de tempo.

Conversando com Rocha Barros, que estava mais perdido do que cachorro quando cai do caminhão de mudança, o experiente repórter policial informou que o lugar mais provável para uma chacina seria a estrada dos Franceses, dado a dificuldade de acesso ao local.

O chefe de Polícia acatou a sugestão do repórter e para lá se dirigiu.

O jornalista Epaminondas Baraúna deixou o veículo do quarteto e aboletou-se num caminhão que estava conduzindo policiais militares armados de baionetas caladas.

Quando passavam em frente à Capela de São Geraldo, no cruzamento da estrada dos Bilhares com a avenida João Coelho, a pequena comitiva percebeu quatro automóveis vindo em alta velocidade da estrada velha de São Raimundo.

Rocha Barros desceu do carro com uma arma na mão, fez os automóveis pararem e obrigou todo mundo a sair de dentro dos carros, com as mãos na cabeça.


Os policiais militares revistaram os detidos, mas não encontraram nenhuma arma.

O olhar de lince do repórter percebeu que um dos motoristas, José Cesário, apresentava vários salpicos de sangue na roupa.

– Cadê a porra do estudante que vocês seqüestraram? – berrou o chefe da Polícia, sem esconder a irritação.

Os taxistas permaneceram calados.

Dirigindo-se ao português Manoel Rodrigues da Cruz, que também tinha em suas roupas duas pequenas manchas de sangue, Rocha Barros encrespou:

– Eu vou perguntar pela última vez – disse, engatilhando o revólver. “Cadê a porra do estudante que vocês seqüestraram?”.

O português tremeu nas bases:

– O homem está numa vereda da estrada dos Franceses, doutor! Todos os meus companheiros sabem onde ele se encontra...

Rocha Barros deu ordem de prisão para os 17 motoristas detidos.

Enquanto aguardava a chegada de um caminhão conduzindo soldados da Polícia Especial do Exército, ele solicitou que Manuel Antunes, na companhia de três policiais civis e de outros dois repórteres, Joaquim Andrade (O Jornal) e Ulisses Paes de Azevedo (Gazeta) entrassem no Jeep conduzido pelo inspetor de Tráfego, que acabara de chegar, e fossem até a estrada dos Franceses, na tentativa de localizar outros taxistas ou o estudante.

Os jornalistas e os policiais percorreram a estrada de cabo a rabo, mas não encontraram nada.

Manuel Antunes pediu para o Jeep parar em frente a um casebre e foi falar com os moradores.

– Escuta, meu chapa, vocês perceberam alguma coisa de anormal hoje à noite, aqui nessa estrada? – perguntou ele ao suposto dono da casa.

– Rapaz, meia hora atrás passou por aqui um monte de carros. A gente perguntou o que estava acontecendo e um deles disse “não é nada não, é que estamos de greve...”.

– A gente também ouviu gritos e pedidos de socorro vindo daquela direção – disse uma mulher, apontando para o meio do matagal.

Eles resolveram retornar para o lugar onde estava o chefe da Polícia, mas, de repente, no meio da escuridão, perceberam que, no início de uma das veredas existentes na estrada, se encontrava parado o automóvel n.º 3 do Palácio Rio Negro, que só era conduzido por autoridades.

Entrando na vereda, eles viram o português Manoel Rodrigues da Cruz conduzindo em seus braços o cadáver de Delmo Pereira, enquanto várias autoridades confabulavam.


Manoel Rodrigues da Cruz com a roupa manchada de sangue após conduzir o cadáver de Delmo

Atendendo à solicitação de Rocha Barros, Manuel Antunes retornou à Chefatura de Polícia, onde solicitou que fosse enviado ao local um médico legista, para efetuar o levantamento cadavérico, e um carro funerário, para o transporte do cadáver.

Ele também avisou ao comissário de Permanência que deviam ser recolhidos e presos, incomunicáveis, os dois motoristas da ambulância.

Dados os avisos, o repórter dirigiu-se à redação de A Crítica, para escrever as matérias apuradas.

Mais tarde, quando retornou à Chefatura de Polícia para fazer sua ronda noturna, Manuel Antunes foi convencido pelo comissário de Permanência a levar dois policiais civis até a casa na Carvalho Leal, onde avistara um Hudson cinza, sujo de lama.

Apesar de acreditar que não havia nenhuma relação entre o automóvel e o crime do estudante, o repórter atendeu ao comissário.

Quando chegaram na referida residência, o circo estava armado.

Uma multidão estava em frente à casa do motorista Eugênio Ribeiro de Carvalho, o “Bigode”.

Assim que desceu do carro, o repórter foi “peitado” pelo motorista, visivelmente irritado e nervoso:

– Porra, caralho, cadê a imprensa séria de nossa cidade? – disparou “Bigode”. “A minha mulher deu luz há oito dias, ainda está de resguardo, e, puta que pariu, duas horas atrás uns policiais maus elementos do posto da Cachoeirinha invadiram a nossa casa na marra, sem mandado de busca e apreensão, fazendo o maior escarcéu! A minha mulher quase teve um colapso! Tive que deixar ela com o médico plantonista do SSU, mas se ela vier a falecer vai feder a chifre queimado! Eu juro que vou processar o chefe de Polícia!”.

Convencido da inocência do motorista, já que ele havia visto o carro estacionado na casa do sujeito antes das 8h da noite, o repórter disse que ia divulgar o acontecido, ensaiou um pedido de desculpas e, em companhia dos dois policiais civis, retornou à Chefatura de Polícia, onde relatou o ocorrido.

Por volta da meia-noite, o plantonista do Posto Policial da Cachoeirinha telefonou para a Chefatura da Polícia solicitando transporte de emergência para a transferência de um taxista que havia sido preso nas imediações do igarapé da Raiz.

Como não havia nenhuma viatura disponível, o comissário de Permanência solicitou um novo favor ao repórter Manuel Antunes: que ele utilizasse seu próprio veículo para fazer aquela transferência.

Três policiais civis foram designados para acompanhá-lo na missão.

No Posto Policial da Cachoeirinha estava o motorista Pedro Gomes de Souza, vulgo “Mala Velha”, trajando uma roupa de cor branca.

No lado esquerdo do paletó havia uma mancha de sangue que tinha, nitidamente, o formato de uma mão espalmada.

– Que porra é essa? – perguntou o repórter. “Não vai me dizer que o senhor levou um tiro no coração...”.

– Não, doutor, isto foi quando empurraram o menino em cima de mim! – respondeu “Mala Velha”, sem disfarçar o sorriso cínico.

O motorista foi conduzido à Chefatura de Polícia e ali recolhido, incomunicável.

Por volta das quatro horas da madrugada, o comissário Bastos resolveu interrogar seis dos motoristas presos na estrada dos Franceses.

Mesmo já quase morto de sono, Manuel Antunes resolveu acompanhar o interrogatório, interessado em dar um novo “furo” nos jornais concorrentes.

Na primeira rodada de perguntas, todos negaram tudo.

O repórter avisou a Bastos que havia percebido salpicos de sangue na roupa de José Cesário e que, portanto, ele não podia negar a participação no crime.

Bastos resolveu interrogar de novo o motorista.

– Olha aqui, meu chapa, essas manchas de sangue salpicadas na sua roupa vão te incriminar e você vai para a fogueira sozinho. Ou você quer me convencer que esse sangue não é do Delmo? – avisou o comissário.

Cesário ficou pálido.

– Olha, esse sangue é do Delmo sim, mas eu não tenho nada com isso – apressou-se a esclarecer. “Eu estava perto do Delmo perguntando quem eram os seus cúmplices no assassinato do Zé Honório, quando então ele me respondeu dizendo ‘por favor, não me bate mais, que eu vou contar tudo’. Aí, um chofer de nome Waldemar deu uma bofetada violenta no rosto de Delmo, que já estava sangrando pelo nariz, e então o sangue salpicou na minha roupa”.

– E quem matou o estudante? – insistiu Bastos.

– Isso aí eu não posso garantir, mas a primeira facada foi dada pelo “Carioca”! Depois, todo mundo tirou a sua casquinha...

– Quem é “todo mundo”?

– Ah, todo mundo. “Pirolito”, “Puxa Faca”, Vicente, “Bigode”...

– “Bigode”?

– É, foi ele que dirigiu o Hudson cinza, que levou o Delmo para o matadouro...

Manuel Antunes ficou irritado.

Ele havia colocado as mãos no motorista que conduzira Delmo para a chacina e o deixara escapar.

Aquele teria sido um “furo” demolidor.

Por volta das seis horas da manhã, uma equipe policial comandada pelo comissário Bastos estava batendo na porta de Ludgero Sarmento, o “Carioca”, localizada em uma estância nas proximidades da Subusina de Bondes, na Cachoeirinha.

De dentro do quarto, uma voz feminina avisou que o motorista havia saído para trabalhar e ainda não havia voltado.

Bastos pediu que ela abrisse a porta, para eles confirmarem a informação. Silêncio.

Dez minutos depois, Bastos avisou que ia utilizar o emprego da força para arrombar a porta e que eles tinham ordem para atirar em quem reagisse. Silêncio.

De repente, uma voz masculina ecoa dentro do quarto:

– Não atirem que eu estou saindo!

Era o motorista “Carioca”.

No lado direito de seu rosto havia ainda marcas de sangue seco, que ele esquecera de limpar.

– Não adiante negar o crime, “Carioca”! O Cesário já abriu o jogo e disse que você deu a primeira facada! Você está ferrado! – avisou Bastos.

Na mesma manhã, foram presos os motoristas Vicente, Waldemar e Eugênio, o “Bigode”.

Por volta de meio-dia, um oficial do Serviço de Elementos da Fronteira entregou à Polícia Civil uma pistola, uma faca e uma bainha encontradas no porta-luvas do carro do português Manoel Cruz.

A Constituição de 1946 prescrevia que ninguém poderia ser preso, salvo em flagrante delito, ou por ordem escrita da autoridade competente (art. 141, § 2.º).

Embora o sentido da Carta fosse o de considerar que a autoridade competente seria, tão-só, a autoridade judiciária, a legislação infraconstitucional acabou conferindo à autoridade administrativa o poder de decretar prisões cautelares.

Começou a caça às bruxas, com choferes acusando, sem provas, gente inocente e a polícia efetuando prisões a torto e a direito.

( So sorry, mas o resto da história só quando o livro for publicado!)

3 comentários:

Anônimo disse...

Porra Simão, agora que tava ficando interessante, he he. Mas diz aí quando e onde vai ser lançado o livro.

Abraços,

Delcimar.

Anônimo disse...

Voce tem noticias da familia do Delmo? Gostaria de saber se a familia Pereira do Delmo, ainda existe alguém vivo? O Raimundo Nonato, conhecido como Mundico Pereira, gostaria de saber noticias dele, conheço alguem que aguarde anciosamente conhecê-lo. Um abraço.

hemmelly ribeiro disse...

Olá! Meu nome é Hemmelly e sou neta do João de Brito Teixeira (Pirulito), ele fez minha mãe anos após o crimo (já com idade avançada) e temos muito interesse em conhece-lo mais. Por favor, entre em contato 92-98190.2550