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segunda-feira, agosto 22, 2011

Jutica, o brilho da terra


Abril de 1999. Na companhia de Jones Cunha, eu e o fotógrafo Frank Sena viajamos até Tefé para fazer uma matéria jornalística sobre uma suposta invasão de terras particulares promovida pelo prefeito Hélio Bessa na zona rural do município.

Interessado em aumentar o número de eleitores de Tefé, onde seria candidato a reeleição, Hélio Bessa estava convencendo um grande número de famílias de agricultores de Alavarães a se transferir para o seu município, com promessas de doação de lotes de terra, sementes e implementos agrícolas.

O castanhal Jutica, que pertencia a família de Jones Cunha há mais de seis décadas, era um dos alvos escolhidos pelo prefeito.

Descemos em Tefé no final da tarde de uma sexta-feira e ficamos hospedados no Hotel, Bar e Restaurante Panorama, no centro da cidade.

Por volta das 20h, quando nos dirigimos ao restaurante para jantar, encontramos Orlando Carioca, que estava morando na cidade há dois meses, comandando uma equipe de perfuração de poços artesianos por conta de um convênio da Prefeitura.

O grande pajé branco estava hospedado no mesmo hotel.

Solícito como sempre, Orlando nos levou para o melhor cabaré da cidade, o Bar Renascer (aka “Casa das Gueixas”), onde já era cliente preferencial.

O grande pajé branco continuava em boa forma.

No boteco, conhecemos duas vendedoras de assinaturas da revista IstoÉ, uma goiana meio recatada e uma baiana arretada de boa, e ficamos conversando amigavelmente, enquanto eu e Jones decidíamos qual das duas escolheríamos pra rebocar pro hotel.

Frank Sena aproveitou o vacilo para fazer meia dúzia de fotografias de nós dois em pré-colóquio amoroso com as vagabundas.

Saímos do pardieiro de madrugada, completamente bêbados, mas bem acompanhados.

Deixamos a cidade na manhã de sábado, em uma pequena lancha fretada pelo Jones, e chegamos ao castanhal do Jutica por volta do meio dia.


Assim que a embarcação parou no porto, os peões da casa grande desceram o íngreme barranco e nos ajudaram a levar nossas tralhas e os mantimentos (cachaça, uísque, embutidos, enlatados, pães, bolachas e cereais) para o terreiro da residência.

Toda feita em madeira de lei, a casa grande possuía cinco imensas suítes com ar condicionado, uma imensa sala de estar, uma imensa sala de jantar, uma imensa cozinha e estava repleta de móveis, pratarias e eletrodomésticos de todos os tipos.

A luz elétrica era fornecida por um potente gerador localizado no quintal, a uma distância suficiente para seu ronco não ser ouvido dentro da casa.

A água encanada vinha de um poço artesiano.

Uma antena parabólica acoplada a um televisor de 42 polegadas garantia o contato com o mundo externo.

Era um autêntico hotel cinco estrelas no meio da selva.


A imponência da casa em estilo colonial contratastava com as miseráveis casas de madeira existentes no entorno.

Eram cerca de 30 famílias, que viviam, basicamente, da coleta de castanha.

O castanhal tem 13 mil hectares e está praticamente intacto.

Ele é cortado pelo cristalino igarapé do Jutica.

A idéia do Jones era transformar a área em uma Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN), mas a burocracia do Ibama já havia lhe tirado do sério.

O prefeito Hélio Bessa estava se aproveitando do impasse para assentar seu eleitores no local, na maior cara dura.

As duas primeiras tentativas de invasão, ocorridas em janeiro, foram abortadas por Jones e seus peões na base da bala.

O prefeito estava programando uma terceira tentativa para aquele mês de abril.

Era essa que a gente ia documentar.

Jones nos apresentou a Carlos Russo, um caboclo baixinho e engraçado, que era uma espécie de seu secretário informal.

Casado e pai de seis curumins, Carlos Russo havia sido nomeado padre ad hoc da comunidade pela igreja católica.

Ele celebrava suas missas nos domingos pela manhã.

Quando não estava no papel de padre, ele também era vigia, cozinheiro, piloto de voadeira, bombeiro hidráulico, marceneiro, eletricista, pescador e barman da casa grande.

Seguindo as ordens de Jones, Carlos Russo foi preparar nosso almoço (uma caldeirada de tambaqui) e três litros de “caipirinha do Jutica” (mel de abelha no lugar do açúcar e folhas de hortelã em vez de casca de limão).

Fiquei meio cabreiro ao perceber que a caldeirada não tinha uma única verdura.

Nem sombra de tomate, cebola, pimentão ou coentro.

– Porra, Frei Russo, não dava pra arranjar pelo menos umas duas folhas de chicória ou um maço de cebolinha e cheiro verde? – ironizei. “Não é possível que nenhuma dessas casas tenha uma horta com plantação de cheiro verde...”

– Bicho, pra viver aqui, eles só precisam de sal, pólvora e óleo diesel! – explicou Jones. “Eles não produzem porra nenhuma porque a natureza é farta. Ela dá tudo que eles precisam. Pra comer peixe, basta ter sal e farinha, que eles arrumam trocando por castanha. Vão perder tempo fazendo horta pra que?...”

– E essa folhas de hortelã na caipirinha? – insisti.

– É de um pé que eu plantei aí atrás da casa! – avisou Jones. “Eu também plantei um pé de cidreira e outro de capim santo e, de vez em quando, eles vêm me pedir algumas folhas pra fazer chá. Mas, eles mesmos não plantam porra nenhuma!”

– Porra, Jones, essa história de que o caboco amazônico é preguiçoso por natureza sempre me pareceu uma grande lenda urbana... – provoquei.

– Lenda urbana, um caralho, meu irmão! Isso é real! Isso é real! – exasperou-se o nosso anfitrião.

Depois do almoço e de termos derrubado os três litros de caipirinha, Jones resolveu nos dar uma aula prática sobre o que havíamos acabado de discutir.


Ele pediu ao Frei Russo que abastecesse uma das voadeiras com óleo diesel e pegou em uma das dependências da casa duas espingardas, uns doze cartuchos, um facão e uma tarrafa.

Nós quatro (eu, ele, Frank Sena e Frei Russo) embarcamos na voadeira, cruzamos o rio Solimões exatamente em frente ao castanhal do Jutica e entramos no Lago do Guariba.

Com quinze minutos de exploração, Jones já havia abatido meia dúzia de aves (pato do mato, marreco, maguary, mergulhão, o diabo a quatro).

O sacana tem uma mira de atirador de elite porque cartucho, naquela região, vale ouro.


Paramos o barco próximo de um aningal para beber algumas doses de uísque e Jones deu três lances de tarrafas.

Pegou dezenas de peixes (tucunarés, carás, pescadas, bodós, piranhas).

Aquilo era mais fácil do que pescar em bilha.


Ele então pediu que Frei Russo nos levasse de volta ao castanhal.

A viagem toda não durou 45 minutos.

– Aqui tem proteína animal para alimentar aquelas famílias durante dois dias! – explicou Jones. “Como eles não possuem geladeira, não podem fazer grandes estoques de peixes ou de carnes. Então, alguém tem que fazer isso todo dia. Foi por isso que te falei: basta ter óleo diesel, cartucho e sal. Se não tiver óleo diesel e cartucho, eles ainda assim podem pescar de canoa. Vão criar galinha pra que? Vão fazer horta pra que? A única coisa que eles precisam é de farinha...”


Jones separou pra gente um maguary e alguns tucunarés e pediu que Frei Russo distribuísse o restante da “feira” entre os moradores.

A comunidade ficou alvoroçada com a farta distribuição de proteína animal.

Jantamos “maguary a cabidela”, preparado pelo próprio Jones, que também fez um delicioso “baião de dois”.

Passamos o resto da noite se embriagando com uma nova fornada de caipirinha do Jutica preparada pelo nosso afável padre, que também se mostrou um excelente contador de causos.


Acordei no domingo por volta do meio dia, com uma ressaca de ternanteontem.

A mesa do almoço já estava posta: tucunaré a escabeche, tucunaré frito e tucunaré cozido, arroz branco, pirão, feijão de praia e farofa de calabresa.

Limitei-me a comer um sanduíche de patê de fígado e a tomar litros e litros de suco de jenipapo.

Jones e Frank Sena haviam saído de barco para fotografar os coletores de castanha no coração da floresta.

Os dois retornaram por volta das 13h.

Almoçamos e fomos assistir ao jogo Brasil e Zâmbia, pelo campeonato mundial Sub 20.

Querendo curtir com a minha cara ou querendo ficar doidão, sei lá, Frei Russo fez uma aposta comigo completamente idiota: a cada gol da Zâmbia, eu deveria tomar um copo inteiro de uísque puro, sem gelo.

A cada gol do Brasil, ele tomaria um copo inteiro de cachaça.


Com dez minutos de jogo, o filho da puta do Sinkala fez 1X0 pros africanos e tive que ingerir um copo de uísque no estilo cowboy.

Quase que devolvo o escabeche de tucunaré, o sanduíche de patê de fígado e o suco de jenipapo.

Ronaldinho Gaúcho empatou o jogo aos 27 minutos e foi a vez de Frei Russo tomar seu copo de cachaça.

Ele ainda estava se recuperando do primeiro copo, quando Fábio Aurélio fez 2X1.

Teve que encarar o segundo copo e já ficou meio grogue.

No segundo tempo, Fernando Baiano fez 3X1.

Frei Russo começou a chamar Jesus de genésio, cair pelo chão e não falar coisa com coisa.

Mancini aumentou pra 4X1.

Frei Russo começou a entrar em coma alcóolica.

Rodrigo Gral fez 5X1.

Frei Russo bebeu o quinto copo de cachaça e simplesmente apagou no meio da sala.

Acordou, todo urinado e vomitado, na hora em que estava começando o Fantástico.

Eu já estava no meu quarto lendo um livro.


Jones chamou alguns peões para carregarem o religioso para casa, depois que ele tentou ir sozinho, caiu numa poça de lama e quase morreu afogado.

Ele foi levado nos ombros do musculoso Zé Arigó, um dos seguranças da casa grande.

Frank Sena ficou tão penalizado que não quis fotografar a presepada do padre.

Ainda passamos mais dois dias no Jutica, mas Frei Russo nunca mais apareceu na casa grande.

Na quarta-feira, a lancha fretada foi nos buscar.

Na cidade de Tefé, ficamos sabendo que o prefeito Hélio Bessa havia abortado a nova invasão e viajado pra Manaus.


Aparentemente, ele soube que havia dois jornalistas de Manaus no município para documentar a presepada e não quis pagar pra ver.

Desconfio que o Orlando Carioca teve participação direta na história.

Nos despedimos do Jones e voltamos pra Manaus.

Uma semana depois, Frank Sena passou na redação da revista Amazônia 21 e deixou as fotos da expedição com a minha cara metade.

Inocente, puro e besta, ele esqueceu de deletar as fotos em que uma das vagabundas da IstoÉ aparecia sentada no meu colo.

Deu uma encrenca federal, mas isso é outra história.


Ah, propósito: há dois anos, Jones Cunha lançou o livro Jutica, o brilho da terra, em que conta a história da conquista do castanhal pelos seus antepassados.

Eu recomendo.

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