domingo, novembro 27, 2011

Algumas digressões baratas sobre a Geração X


A mensagem abaixo me foi enviada pelo cangaceiro Ricardo Alencar, de Juazeiro do Norte (PE) e, segundo ele, o texto original veio do Chile.

O cabra da peste quer que eu leia e opine, com minha ironia de sempre, porque o tema lhe parece bastante atual.

Vamos ao texto:

A nova geração de jovens que têm agora entre 20 e 35 anos, conhecida como geração X, está tomando as rédeas da economia do mundo.

É uma geração com outros valores, que amadurece mais lentamente e que permanece com seus pais até uma idade razoavelmente avançada.

Parece ser uma adolescência que está se prolongando mais do que antes.

Os jovens não estão interessados em sair de casa e se tornarem independentes, mas ao contrário continuam buscando os benefícios da casa dos pais.

Não mostram interesse em casar-se, assumir compromissos, decidir o futuro.

Em síntese, não estão nem aí.

São jovens com menos sonhos e ideais, que não vibram com os debates, com os bons livros e com as amizades duradouras: buscam resultados imediatos, não lêem e desejam o amor passageiro e as emoções de curto prazo.

Mas um dos traços típicos desses jovens “adolescentes” de 20 até 35 anos é a busca dos benefícios econômicos que lhes oferece o que costumo chamar de “hotel da mama”.

Comida a la carte disponível a qualquer hora, roupa limpa e passada, despertar na cama com café da manhã e carinho, festas de aniversário, serviços de recados telefônicos, apoio financeiro total ou parcial, pagamento de cartões de crédito, gasolina para o automóvel, seguro, reparos e outros benefícios dignos de um sultão.

Sem contar com o apoio para os churrascos de fim de semana...

Para os que passaram dos 26 e já são profissionais, existem serviços adicionais, como ajuda na busca de emprego, serviços de secretária, computador Pentium III no quarto e reajustes de mesada em função da alta do dólar.

Se você tivesse tido esses benefícios nos anos 60, quando nos contentávamos em ir à matinê e chupar um sorvete, teria buscado a independência?

Agora temos uma geração de plástico, que busca a satisfação engarrafada e, por outro lado, faltam jovens empreendedores dispostos a ter os pés na terra e a cabeça nas estrelas.

Fernando Vigorena Pérez, Diretor da Escuela de Ciencias Empresariales, Universidad Autónoma del Sur, Temuco, Chile


Caracoles, Ricardo Alencar, mas eu concordo em gênero, número e grau com o professor Fernando Pérez.

Saí da casa dos meus pais, em 1975, com 19 anos, e nunca mais voltei porque já trabalhava no Distrito Industrial desde os 17 e podia me manter financeiramente.

Quer dizer, eu sou da geração dos anos 60, que se contentava em ir aos matinês e depois trocar gibis na porta de saída do cinema.

Não sei se a culpa é exclusivamente da geração X ou desse planeta que eles herdaram de nós, onde o desemprego de ingresso (quando o jovem conclui um curso superior e não consegue emprego) é a grande mãe de todas as batalhas.

Na minha época, a gente se demitia de uma fábrica na parte da manhã e, à tarde, já estava empregado em outra – na maioria das vezes com um salário bem mais alto.

Amigos de minha geração, que continuam trabalhando no Distrito Industrial, falam que a coisa mudou muito – e pra pior.

Quem está hoje na faixa dos 50 anos e se demite (ou, o mais comum, se for demitido porque, supostamente, seu salário está acima da média da faixa salarial do Distrito para funções de mesmo nível) dificilmente consegue entrar de novo no mercado.


Silene, Joaquim Marinho, eu e o saudoso Sinval Gonçalves, todos representantes da geração Paz & Amor

Quando fui demitido da Philco, em 1991, eu era gerente da Engenharia de Qualidade e ganhava cerca de 20 SM.

Hoje em dia, isso é salário de diretor.

Fiquei surpreso pela minha demissão, não nego, porque era um dos melhores funcionários da empresa.

Fiquei tão puto que escolhi, deliberadamente, nunca mais voltar para o Distrito Industrial – e não me arrependo disso até hoje.

A Philco acabou indo a falência na década seguinte. Deus castiga.

Além do problema do desemprego de ingresso, a geração X não enfrentou as paúras que nós encaramos: ditadura militar, tortura, assassinato de presos políticos, etc.

Fomos forjados na luta pelas liberdades civis e viver em liberdade custa caro, muito caro.

Lembro quando ironizava minhas companheiras, que se queixavam da árdua carga diária do trabalho doméstico.

Pra mim, aquilo era simples desculpa de mulher que não queria entrar na vara.

Morando sozinho há pouco mais de um ano, revi meus conceitos.

O trabalho doméstico é realmente o fim da picada – nos dois sentidos.

Tenho uma secretária que vem aqui no meu mocó fazer uma boa limpeza a cada dez dias, o que inclui lavar o banheiro, passar pano na casa, espanar móveis e catar bitucas de cigarros e latas de cervejas vazias nos locais mais insuspeitos.

Uma segunda secretária recolhe semanalmente minhas roupas para lavar, engomar e passar ferro.

As duas são pagas regiamente, claro, porque só quem faz isso de graça são nossas companheiras (obrigado por tudo, meninas!).

Quer dizer, o trabalho pesado eu consegui terceirizar.

Mas, no dia a dia, tenho que fazer compras em supermercados, pagar contas em banco, descobrir a porra de um encanador que saiba por que a água do chuveiro não está descendo pelo ralo e preparar minhas próprias refeições pilotando um prosaico forno de micro-ondas, que, às vezes, me tira do sério.

É verdade que tudo isso compensa a liberdade de poder fechar portas e janelas, ligar o aparelho de som e o ar condicionado na potência máxima, colocar um funk da ADC Band (“Roll With The Punches”, por exemplo) e encher a cara de birita até o cu fazer bico.

Moleques que passam o dia no facebook escrevendo abobrinhas num linguajar meio analfa – esporte preferencial da geração X e da geração Y – não fazem a menor idéia do quanto isso é divertido.

Mas nem tudo está perdido.


Encontro de duas gerações: o DJ Careca Selvagem e Marcus Vinicius

Meu filho caçula, Marcus Vinicius, um belo representante da geração Y, está fazendo mestrado em Design e Propaganda, na Itália, e, aparentemente, continua mantendo os pés na terra e a cabeça nas estrelas.

Não sei se reflexos da crise na zona do euro, o certo é que os italianos não queriam renovar seu visto de estudante e pretendiam deportá-lo imediatamente para o Brasil.

Eis o que ele me escreveu, via e-mail, na semana passada:

Ôi pai, bença!

Então, desta vez eu não estava conseguindo renovar a permissão de estadia porque na Delegacia de Imigração eles queriam um documento emitido pela embaixada brasileira de que eu estou autorizado a estudar na Itália, pois, no ano passado, eles nem registraram no meu cadastro que eu era da Politecnico di Milano.

Ai que vem o problema:

A embaixada italiana me disse que não existe nenhum documento para eles emitirem e que meu processo já está encerrado e arquivado, visto que já estou no segundo ano do mestrado.

A embaixada brasileira diz que eles não tem nada a ver com isso porque eles só resolvem os meus problemas no Brasil e que os documentos do Politecnico são documentos italianos, portanto já válidos.

O Politecnico vai preparar uma outra declaração dizendo que a Delegacia de Imigração não deve exigir nenhum tipo de documento porque isto não esta previsto por lei para a renovação do permesso e que eu sou aluno matriculado regularmente, frequento o curso normalmente e que possuo uma bolsa de estudo dada pelo próprio Politecnico...

Enquanto isso o tempo vai passando...

Enfim, essa semana foi bem revoltante, mas agora estou melhor e tenho respirado fundo constantemente, porque sei que no final tudo sempre deu e sempre dará certo.

E enquanto não der certo é porque não é o final ainda....

Obrigado pela ajuda novamente e espero que gostes da camisa!

Abraços de seu filho

Marcus Vinicius Marques Pessoa


Claro que estou orgulhoso do meu moleque.

Do mesmo jeito, acredito que tanto a geração X quanto a geração Y vão encontrar seu próprio caminho e entrar nessa luta de toda humanidade para construir um mundo melhor.

É só uma questão de tempo.

É só eles enjoarem do facebook.

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