sexta-feira, novembro 25, 2011

O Grande Pajé Branco strikes again


O grande pajé branco cercado de icamiabas, durante minha festa de aniversário na Cantina da Sílvia, em 1998

Março de 2004. Moradora de Maués e bastante idosa, Dona Joca, sogra do agricultor Mesquita, andava se queixando de sérios problemas de saúde: diabetes, pressão alta, insuficiência renal, angina e otras cositas más.

Numa das visitas que fez a casa de Mesquita, Orlando Tigrão resolveu fazer uma pajelança para afastar os maus espíritos que rondavam a anciã.

Depois de convencê-la a tomar um banho de sal grosso, jejuar durante 48 horas seguidas e iniciar uma rigorosa dieta alimentar com redução de proteína, o grande pajé branco foi taxativo:

– Dona Joca, a partir de hoje a senhora vai tomar um copo de chá de capitiú meia hora antes das refeições. É um santo remédio, testado e aprovado há mais de 500 anos pelos índios cambebas. Eu garanto que em seis meses a senhora vai estar com uma saúde de vaca holandesa premiada em exposição!

Desconfiado de que a anciã não estava colocando muita fé na sua peroração, o próprio Orlando Tigrão embrenhou-se nas matas do rio Marau e, depois de uma semana, retornou com um paneiro cheio de folhas de capitiú.

Nesse meio tempo, os familiares de Dona Joca, que moravam em Boa Vista do Ramos, haviam tomado pé da situação e enviado uma pequena quantidade de folhas de capitiú, já que esta planta é bastante rara naquele município.

A anciã havia preparado a beberagem e, seguindo as orientações de Orlando Tigrão, já estava se sentindo bem melhor.

Um belo dia, o estoque de folhas de capitiú vindo de Boa Vista do Ramos terminou.

Dona Joca não se fez de rogada e fez um novo chá com as folhas entregues por Orlando Tigrão.

Ela estranhou o gosto da beberagem.

Era amargo demais da conta, tinha gosto de fel!

Uma das filhas de Dona Joca, Dona Norma, comentou o fato com um amigo da família, Chico Paraguassu, índio sateré-mawé semi-aculturado, para quem mostrou as folhas.

Paraguassu foi peremptório:

– Isso não ser capitiú! Folha capitiú ter formato diferente! Isso aqui ser outra planta!

Ressabiada, a filha da anciã foi conversar com o pajé branco a respeito do problema, levando as folhas suspeitas.

Ela entrou na conversa de mansinho:

– Seu Orlando, o chá do capitiú é amargo e travoso que só a gota serena?

O pajé, que nunca havia provado do chá antes, ficou meio pensativo, mas respondeu com convicção:

– Olha, Dona Norma, existem vários tipos de capitiú... Tem uns que são mais amargos, tem outros que são menos amargos... Mas isso depende muito do tempo de cozimento das folhas e da qualidade da água usada no chá. Tem de ser água mineral, sempre...

Dona Norma bateu de trivela:

– Ah, bom! Porque me disseram que essas folhas eram muito parecidas com as folhas de timbó...

A pedagoga Soraya McComb, esposa do Tigrão, que já conhecia os remédios aloprados receitados pelo marido, entrou em pânico:

– Pelo amor de Deus, Dona Norma, não dê esse remédio pra tua mãe que esse pajé está ficando louco. Isso é bem capaz de ser mesmo timbó! Na semana passada, ele foi fazer um remédio para minha asma, à base de pólvora, álcool etílico, folha de pião roxo e mel de abelha, e a chaleira simplesmente explodiu, quase provocando um incêndio na minha cozinha!

Assustadíssima, Dona Norma foi contar a desgraceira para a velha mãe.

As folhas entregues pelo Orlando Tigrão eram mesmo de timbó.

Para quem não sabe, o timbó é uma planta tóxica de ação narcotizante, que os índios utilizam para capturar os peixes por asfixia.

Sua decocção em grande quantidade é capaz de matar um ser humano.

A Soraya desconfia de que o grande pajé branco precisa fazer urgentemente um curso de reciclagem em ervas medicinais com o Pai Carumbé, mas isso é outra história!

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