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segunda-feira, dezembro 12, 2011

Diretor de 'Gonzaga - de pai para filho' diz se apoiar em 'drama familiar'


“Quem foi minha mãe? Quem é meu pai?” Era esse o tipo de questão que Gonzaguinha fazia a Luiz Gonzaga durante a turnê “Vida de viajante”, em 1981.

Pai e filho tinham uma relação problemática e distante desde sempre, mas estavam excepcionalmente próximos, na época.

As conversas ocorridas durante a excursão foram registradas em fitas cassete – e o material, alguns anos atrás, caiu na mão do diretor Breno Silveira, de “2 filhos de Francisco” (2005).

“Quando ouvi as fitas, aquilo me emocionou. Eram perguntas muito contundentes”, explica o cineasta em entrevista ao G1, por telefone. “Eu senti logo que tinha uma história importante por trás disso tudo.”

O resultado concreto da audição começa a tomar forma a partir desde domingo (11), primeiro dia de filmagens de longa “Gonzaga – de pai para filho”.

As cenas serão gravadas num show em homenagem a Luiz Gonzaga, que acontece no simbólico Marco Zero, no Recife.


Trata-se, no entanto, de um evento real, e não de ficção: Silveira apenas aproveitará o cenário real, e a presença do público, para rodar uma apresentação que o sanfoneiro pernambucano teria feito no início da carreira, por volta de 1950.

Mas por que iniciar os trabalhos ali e por que agora?

“Primeiro: a gente está praticamente na data de aniversário do Gonzagão [13 de dezembro]. Segundo: o Recife tem uma cultura nordestina muito grande. Terceiro: o Marco Zero, graças a Deus, é preservado como construção de época”, justifica Silveira.

De acordo com ele, o filme não será uma biografia – como não é, em sua visão, “2 filhos de Francisco”: “Ali eu fiz uma história de pai e filho. Foquei principalmente no sonho daquele pai em relação ao Zezé”.

O novo filme seguirá mão inversa, a visão do filho sobre pai.

“Meus filmes se apoiam muito nesse drama familiar, principalmente na relação paterna”.


Registrado Luiz Gonzaga do Nascimento Junior, Gonzaguinha nasceu em 1945, no Rio de Janeiro. Perdeu a mãe aos dois anos de idade e foi criado por um casal de amigos do pai, que àquela altura não era ainda o “rei do baião”.

A reaproximação entre os dois tardou a acontecer.

“Nessa entrevista de Gonzaguinha com Gonzagão, o tom é muito emocionado, e eu entendi que o filho também não entendia o pai direito”, observa Silveira.

“Apesar de o pai mandar dinheiro, ele não estava presente. No fundo, no fundo, acho que existia uma vontade do Gonzaguinha de ser aceito como músico e como filho. Acho que ele se ressentiu disso a vida inteira, da falta do reconhecimento paterno.”

As fitas que chegaram ao diretor não continham revelações inéditas: foram utilizadas pela jornalista Regina Echeverria no livro “Gonzaguinha & Gonzagão – uma história brasileira”, originalmente publicado em 2006.


O filme, contudo, não será uma versão audiovisual da obra escrita, mesmo porque o diretor informa que seu projeto existe há cerca de seis anos.

Três atores diferentes interpretarão Luiz Gonzaga, a depender da época retratada.

O papel de Gonzaguinha foi entregue ao ator gaúcho Julio Andrade.

O diretor antecipa que pretende fazer um longa “épico”, para rever a vida do Gonzaga dos 17 anos de idade até a morte, em 1989, apenas dois anos antes do filho.

“É um projeto muito grande. Não porque eu quero que seja assim, mas porque Gonzagão é grande demais.”

Ele pondera ainda que este é “com certeza absoluta” o maior orçamento com que já trabalhou.

As filmagens passarão por Rio de Janeiro, Minas Gerais e talvez São Paulo.


Para as cenas a serem rodadas no show deste domingo, ele planeja anunciar no palco, diante do público, a presença do sanfoneiro Nivaldo Expedito, o “Chambinho do Acordeon” – será ele o intérprete de Gonzagão na fase dos 30 aos 50 anos.

A ideia é estrear “Gonzaga – de pai para filho” em 2012, ano do centenário de Luiz Gonzaga.

Para cumprir o prazo curto, Silveira adotará a estratégia de fazer a edição paralelamente à filmagem (“é uma coisa que o cinema americano faz muito”).

“Pretendo lançar, no máximo, até outubro”, prossegue.

Talvez o filme traga algumas respostas para as muitas perguntas de Gonzaguinha.

Sua mãe, a cantora Odaleia Guedes dos Santos, aparecerá em cena representada pela atriz Nanda Costa.

O diretor recorre também a uma das frases que ouviu nas fitas e o marcou.

A certa altura das conversas, Gonzagão teria dito, sobre si próprio: “Eu não sei mais se eu sou eu mesmo – virei um tal de folclore”.

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