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quarta-feira, fevereiro 22, 2012

Se ficar melhor, estraga!


Idealizada há pouco mais de um mês, a Banda do Caxuxa era para ser um convescote de 30, 40 amigos de adolescência curtindo as reminiscências setentistas do botequim mais charmoso do bairro.

Não deu certo.

Graça ao trabalho incansável das irmãs Socorro e Wânia, filhas do patrono da banda, o marco zero da Banda do Caxuxa tornou-se uma muvuca de dimensões gigantescas, com quase 200 foliões batendo ponto no pedaço.

Foram elas que providenciaram as cópias do CD, as letras da marchinha, as faixas anunciando o evento, as camisetas padronizadas e os acepipes 0800 servidos perdulariamente para os presentes (caruru, maniçoba, galinha à cabidela, pato no tucupi, pernil de cordeiro com feijão-branco, arroz de mariscos, iscas de tambaqui, bisteca suína frita, yakisoba de camarão, lula e mexilhão, lasanha à bolonhesa, farofa de jabá, salaminhos, calabresas, queijos de todos os tipos, espetinhos de brigadeiro, pavê de cupuaçu, torta cremosa de morango e por aí afora).


Confesso que fiquei apreensivo.

Em 1987, ano de fundação da Banda Independente Confraria do Armando (BICA), o evento reuniu menos de 100 pessoas.

Um ano depois, cerca de 1.500 “biqueiros” participavam da fuzarca.

Esperamos que a Banda do Caxuxa não tenha esse destino ultrajante, porque, em termos de carnaval, menos é sempre mais.

Na adolescência, a gente invadia os bailes carnavalescos em alcateias de 25 lobos famintos sabendo de antemão que o objetivo final seria ficar sozinho com uma foliã, de preferência longe do salão e da alcateia.

Volto a insistir: no carnaval, menos é sempre mais.


Em outras palavras, numa festa carnavalesca com no máximo 200 pessoas, como a da Banda do Caxuxa, a chance de ocorrer algum desentendimento é próxima de zero e o banheiro do Bar do Jacó dá conta do recado.

Com mais de 200 pessoas, já será necessário contratar uma equipe de segurança para manter a ordem no covil e providenciar uma dezena de banheiros químicos para que a rua não se transforme em uma fedentina inominável.

Ninguém pretende chegar a esse extremo.

O marco zero da Banda do Caxuxa foi legal por isso: pessoas bebendo civilizadamente, velhos amigos se reencontrando (eu não via o Airton, que jogou futebol comigo e com o Luiz Lobão na seleção da Sharp, desde 1978), poucos bêbados chatos enchendo o saco e uma trilha sonora onde dava pra conversar sem gritar.

Entre os presentes na muvuca estava o eterno playboy Odivaldo Guerra, que serviu o exército com Selmo Nogueira e não falava com ele há duas décadas.

Considerado o homossexual mais antigo do bairro e ainda em atividade, o fabuloso Zezinho Joinha, com uma exuberante calça zebrada na cor vermelha, não parou de saracotear um só instante e foi transformado logo na musa da banda.

O aloprado Iran, de peruca anos 70 e bermuda vermelha, quase fez a nossa musa entrar em coma alcoólica de tanto lhe servir cerveja morna em uma caneca absolutamente surrealista e de formato impróprio para menores.


As famílias Nogueira e Bessa baixaram em peso no fuzuê.

A velha guarda do bloco Andanças de Ciganos (Mestre Louro, Mazinho, João Orelhinha, Afonso e Helvécio, entre outros) também marcou presença no buxixo.

O fotógrafo-sambista Mestre Pinheiro clicou o evento e, como soe acontecer sempre nessas ocasiões, chegou ao local depois de eu já ter ido embora.

É bem provável que daqui a dez anos alguns despeitados tenham a petulância de garantir que eu não estava no fuzuê porque não ficou nenhum registro de minha presença na festa.


O improviso, como sempre, foi o carro-chefe na preparação do primeiro ano da banda.

O CD com a marchinha oficial escrita pelo Mário Adolfo só ficou pronto uma semana antes da festa, apesar de o Caxuxa ter pago o estúdio com duas semanas de antecedência.

No sábado gordo, a banda de metais que a gente ia contratar avisou que tinha assumido outro compromisso e nos deixou na mão.

Para nossa sorte, o Mika de Manaus estava presente no ensaio geral e se prontificou a nos alugar a sua aparelhagem de som.

Devo pagar os R$ 200,00 do aluguel no final do mês.


Foi também ele quem telefonou para o Maestro Malheiro e o contratou para fazer três horas de som no único horário ainda disponível do músico na terça-feira gorda: do meio-dia às três da tarde.

Os diretores da banda (Arlindo Jorge, Sici Pirangy, Nilton, Vladimir Brother, Marlon, etc) se cotizaram na hora e levantaram R$ 400,00 para o cachê do músico.

Nós ainda pagamos R$ 100,00 ao Joel dos Ciganos pelo serviço de remixagem em estúdio da marchinha oficial gravada por Edu do Banjo e Duduzinho do Samba.

O vocalista Val do Cio da Terra se comprometeu em arregimentar um grupo de músicos para tocar das três da tarde às 17h.


Eu e Arlindo Jorge falamos com o advogado Vilson Benayion e emprestamos alguns instrumentos da bateria do GRES Andanças de Ciganos para mais uma hora de baticum, já que havíamos decidido que a brincadeira terminaria por volta das 18h.

Claro que ficou faltando uma bandinha de metais para abrilhantar o evento, mas o Maestro Malheiros deu conta do recado, cantando marchinhas de antanho, frevos, sambas-enredo e algumas versões carnavalescas do forró pé-de-serra.

E o que dizer do Mika de Manaus cantando boleros e serestas da época jurássica de outro famoso boteco da Cachoeirinha, o inesquecível Bolero’s Bar?...

O ponto alto, entretanto, foi ver o quarteto Cordas de Ouro (Val do Cio da Terra nos vocais, maestro Cabral no violão, Moisés no violão de sete cordas e Sandro na percussão) resgatando antigas pérolas da MPB, com ênfase no repertório de Vinicius & Toquinho.


Selmo Nogueira ficou tão emocionado que chegou a lacrimejar.

Muita gente reclamou do show acústico de MPB no meio das folias de Momo, mas isso fazia parte da estratégia de sair um pouco da mesmice.

O vereador e coronel PM Paulo Dutra, que levou pra muvuca alguns amigos do Japiim, entre eles o ex-lutador de telecatch Ulisses, o ex-jogador Airton e os empresários Carlão, Dico e Almino, sugeriu que no próximo ano o evento conte com um palco principal e dois palcos alternativos “para agradar gregos e troianos”.


O ex-barman Selmo Nogueira, eterno patrono da banda, se superou no papel de anfitrião.

Entre outras proezas, ele providenciou um panelão de 50 litros da formidável sopa de três sabores que era servida no Caxuxa Lanches e Drinks e comprou dezenas de pratos especiais de isopor para os foliões se servirem.

O panelão fumegante foi um dos destaques da muvuca.

Selmo também serviu pessoalmente mais de 200 doses de suas extraordinárias batidas de maracujá, coco, taperebá, amendoim e cupuaçu e, de quebra, ainda me presentou com um litro de batida de taperebá, que levei pra casa e só vou tomar no aniversário do empresário Sici Pirangy, na próxima sexta-feira.

A exemplo dos demais acepipes, era tudo absolutamente 0800.


Diante do banquete gastronômico que estava rolando no evento, Sici Pirangy sintetizou o espírito da banda:

– Porra, Simão, só mesmo na Cachoeirinha para acontecer isso: comida e bebida de graça durante uma festa de carnaval...

É por isso que não queremos que a Banda do Caxuxa se perca pelo gigantismo.

Ela precisa manter sua característica de “festa do interior” mostrada esse ano, aonde os amigos vão para se encontrar e conversar.


Eu não fiquei pra ver o show da velha guarda dos Ciganos porque uma sereia fantasiada de grumete aportou no pedaço por volta das 17h, me laçou com um nó de marinheiro e me levou pra casa pra me dar um banhinho.

No próximo ano, se tudo correr bem, queremos transformar o evento em uma rua de lazer para a garotada, com palhaços, mamulengos e brincadeiras infantis.

A terça-feira gorda de carnaval será apenas um pretexto a mais para a gente se reunir, encher a cara de birita, relembrar velhas histórias e conferir os sobreviventes.

Evoé, Momo!

























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