sexta-feira, março 23, 2012

Aula 12 do Curso Intensivo de Black Music: Isaac Hayes


Após a morte de Otis Redding, a Stax rompeu com a Atlantic e, para dar a volta por cima, em 1969, a nova direção da gravadora, sob distribuição da Gulf & Western, decidiu lançar 27 álbuns ao mesmo tempo.

Entre eles, estava um do qual ninguém esperava nada: “Hot Buttered Soul”, de Isaac Hayes.

Afinal, o disco tinha apenas quatro faixas, todas longuíssimas, fora do padrão pop: “Walk On By”, de Burt Bacharach e Hal David (12 minutos), “Hyperbolicsyllabicsesquedalymistic” (10 minutos), “One Woman” (cinco minutos) e “By The Time I Get To Phoenix”, balada de Jimmy Webb com mais de 18 épicos minutos.

É bem verdade que Isaac Hayes já tinha dado muitas alegrias à Stax: como tecladista e compositor da casa, fez “Hold On, I’m Coming” e “Soul Man”, estouradas por Sam & Dave.

Mas seu disco de estréia, “Presenting Isaac Hayes”, tinha sido um completo fiasco.

Reza a lenda que “Hot Buttered Soul” foi gravado durante tempos mortos de estúdio.

O fato é que, assim que alguém jogou a agulha nos sulcos de “Walk On By”, os padrões da música negra começaram a mudar.

A orquestração suntuosa, a guitarra cheia de efeitos, as flautas, os backings femininos, tudo se encaixava para Isaac cair em cima interpretando, da forma mais sentida, o drama do homem que não consegue nem mais encarar a antiga mulher, que era o seu primeiro amor.

A segunda faixa, “Hyperbolicsyllabicsesquedalymistic”, é uma espécie de jam com o piano improvisando sobre sólida base funk – cortesia dos Mar-Keys.


No baixo, brilha James Alexander, o homem que perdeu o avião da morte de Otis Redding e pôde depois reconstruir os Mar-Keys.

Em “One Woman”, balada quase convencional, Isaac emociona encarnando um homem vivendo um conflito calhorda: a mulherzinha que “constrói o meu lar” ou a que “me leva a errar”?

Outra longuíssima balada, “By The Time I Get To Phoenix”, deixou o caminho das pedras por onde seguiram Barry White, Teddy Pendergrass, Marvin Gaye e muitos outros.

“Eu vou falar de amor agora”, começa Isaac, com voz de veludo.

E sobre amor ele fala durante quase nove minutos antes de começar a cantar.

A espera vale a pena.

Na parada pop americana, o disco subiu até o oitavo lugar e deu origem a dois compactos de sucesso: “Walk On By” e “By The Time I Got To Phoenix”.


Dois anos mais tarde, em 71, Isaac Hayes gravaria outro disco histórico, a trilha sonora do filme “Shaft”, mais uma revolução negra na música e maior sucesso comercial de sua carreira.

Com esse disco, ele ganhou o Oscar, sendo o primeiro artista negro a alcançar tal façanha.

Ironicamente, em 76, com a falência da Stax, Isaac chegou a passar por dificuldades financeiras.

Eram tempos de cabelos black power, coletes de couro, calças boca-de-sino e muitos medalhões no pescoço.

E a trilha sonora ideal para tudo isso, sem contar a própria figura, foi mesmo a soul music de Isaac Hayes, o Black Moses, como os fãs o chamavam nos tempos bicudos das lutas raciais nos EUA.

Hayes, que esteve no Brasil pela primeira vez como uma das atrações do 11º Free Jazz Festival, em 1996, adorou a experiência.


Numa entrevista para o jornalista Carlos Haag, do Estadão, ele abriu o jogo.

“A Dionne Warwick falava o tempo todo sobre o país e me encorajou a ir para o Brasil, para conhecer pessoas legais, um público quente e a sua música, que quero gravar, porque sou um cara romântico como a música brasileira”, explicou.

Segundo Hayes, o hip hop de hoje reflete muito o trabalho que ele fazia naquela época.

“A garotada vive me sampleando, mas sempre com muito respeito por mim e pelo que eu represento. Afinal, eu levei a soul music a um outro nível, em especial com minhas orquestrações de cordas. Fiz muito e eles sabem disso”, afirmou. “Mas não gosto do que eles estão fazendo com o rap, essa coisa negativa, essas mensagens de violência, porque ele deve continuar a ser algo legal, de festa, de dança. Concordo que os garotos têm de ter um meio de expressar seus ressentimentos e humilhações, mas depois do sucesso a parte comercial cresceu muito e eles só pensam em dólares.”


Instado a falar sobre o assassinato do rapper Tupac Shakur e se o rap é expressão da violência ou um estímulo a ela, Isaac Hayes meteu bronca.

“Esse é um ponto importante, porque gostaria muito que esse pessoal parasse com essas retaliações. Isso é algo que não tem fim e, ao final, todo mundo perde. Vamos dar um tempo com essa violência, trabalhar juntos, ganhar dinheiro e usar uma parte dele para ajudar as pessoas pobres da periferia das cidades grandes, dar-lhes o direito à educação. Responsabilidade é o que eu espero dos rappers. Quero que saibam da sua importância na vida das pessoas e usem isso para passar uma mensagem boa, ajudar a cabeça das crianças.”

Não é a toa que o Black Moses agora faz parte de uma família real de Gana.

Foi pelas suas mãos habilidosas que o soul de raízes da Stax aos poucos foi virando funk.

Até Rufus Thomas entrou na nova dança, com “Breakdown”, de 1971.


No mesmo ano, Hayes gravou sua versão de “I Never Can Say Goodbye”, que ainda estava nas paradas com os Jackson Five.

A faixa de Hayes era tão superior quanto o soul da Stax podia ser em relação ao pop negro da Motown.

A nova geração de produtores da Stax surgia influenciada pelos arranjos luxuosos de Isaac Hayes e foi abandonando a abordagem rústica de Cropper.

A qualidade manteve-se, mas, diante da força dançante do funk, o soul orquestral parecia música de branco.


Poucos meses após Otis Redding vestir o paletó de madeira, foi a vez de Martin Luther King virar história.

Os sonhos de integração chegavam ao fim à medida que se intensificavam os conflitos raciais e o radicalismo gerava hinos como “Say It Loud, I’m Black And I’m Proud”, de James Brown.

A música que surgia era mais sexual, primitiva e agressiva que o soul.

Até o nome (“funk”) era sujo.

Inaceitável como, um dia, tinham sido as letras profanas do blues.

Inculto, brutal, violento, negro e orgulhoso pela diferença.

Era outra geração.

A soul music foi tão identificada com um determinado período histórico que muitos críticos musicais não hesitaram em considerá-la “datada”.

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