segunda-feira, março 26, 2012

Aula 14 do Curso Intensivo de Black Music: a revolucionária Motown


“Os atores devem ser tratados como gado”, dizia o cineasta Alfred Hitchcok.

Politicamente correto ou não, esse método rendeu a ele obras-primas como “Um corpo que cai” e “Janela indiscreta”.

Berry Gordy Jr., fundador da Motown, com certeza usou uma estratégia semelhante na sua gravadora.

Ex-boxeador e músico nas horas vagas, em 1959, Berry tinha 29 anos e ganhava 85 dólares por semana, trabalhando na linha de montagem da Ford, em Detroit.

A cidade, além de ser a maior concentração mundial da indústria automobilística, era a quarta maior população negra dos Estados Unidos, depois de Nova York, Chicago e Filadélfia.

Berry, que tivera também uma loja de discos de jazz, tomou 800 dólares emprestados da irmã e resolveu começar a gravar e distribuir discos.

Queria apenas se livrar do trabalho da fábrica, nada mais.

O que a princípio parecia empreitada modesta, quase uma aventura sem futuro, transformou-se de repente num negócio de proporções gigantescas.

Gordy acertou na mosca.

E o sucesso não veio por acaso.


Ele possuía um raro talento para detectar as sutilezas do mercado fonográfico e uma grande habilidade para produzir discos e lidar com os artistas.

Deu à sua gravadora o nome Motown, em homenagem ao apelido de Detroit, “Motor Town” (“cidade-motor”).

Em pouco tempo, a Motown era desdobrada em várias etiquetas e firmas subsidiárias: Tamla, Gordy, Soul e VIP.

Tratando a música como um mero produto industrial, sujeito às leis de mercado, Gordy oferecia a brancos e negros uma imagem idealizada do negro e um som ao mesmo tempo vibrante e agradável de ouvir.

Berry Gordy Jr. cuidava dos negócios e de seus contratados com mão de ferro.

O crítico John Gabree analisou com certa acidez os métodos da gravadora: “a Motown parece mais apta a produzir carros do que matéria artística de músicos presumidamente sensíveis. As várias divisões do complexo Motown controlam todos os aspectos dos negócios de seus contratados, desde as roupas que usam (é significativo que os músicos as chamem de ‘uniformes’) até os carros que compram, a decoração de suas casas e os investimentos que fazem com seus lucros”.


Alheio às críticas, Berry Gordy Jr. foi em frente.

Seu primeiro sucesso, lançado em novembro de 1959, já dizia tudo: “Money (That’s What I Want)”, gravada pelo cantor Barret Strong (a canção foi regravada depois por John Lennon, pelos Rolling Stones e Pretenders, mostrando que todo mundo estava a fim de ganhar dinheiro...).

No sobrado do 2648 West Grand Boulevard, em Detroit, a sede da Motown, ele ergueu uma imensa placa com os dizeres “Hitsville, USA”.

E a Motown se tornou realmente uma fábrica de hits: dos quase 600 compactos que lançou entre 1960 e 1970, mais de dois terços foram sucessos de venda.

Tudo isso não aconteceu à toa.

Gordy, além de workaholic, mantinha um rigoroso controle de qualidade sobre os seus produtos: só autorizava o lançamento de uma dentre 70 faixas gravadas.

A Motown fez história.

Para se diferenciar do soul da Stax, mais cru e encorpado, a música da gravadora, mais leve e dançante, foi chamada de “black beat” e durante a década de 60 virou sinônimo da moderna música negra americana.

Essas músicas influenciaram nomes ilustres como os Beatles, que regravaram vários sucessos do selo.


Cantores e grupos vocais eram gado nas mãos de um time de respeito, com alguns dos melhores compositores que já passaram pela história da música negra, como William “Smokey” Robinson, o trio Holland-Dozier-Holland (os irmãos Brian e Edward Holland e Lamont Dozier), o psicodélico Norman Whitfield e a dupla Nicholas Ashford & Valerie Simpson.

Além disso, Berry era uma pessoa disponível para ouvir as pessoas que o procuravam, uma atitude que se provou bastante lucrativa.

Foi o caso de Mary Wells, uma jovem de 17 anos levada pela mãe com a letra de uma canção que ela mesma tinha feito.

Gordy pediu que cantasse.

“Fiz o melhor que pude, mas meus joelhos tremiam”, contou ela, que quase desmaiou quando Gordy a contratou no ato.

Mary tornou-se uma das estrelas da fase inicial da companhia e foi a primeira do selo indicada para o Grammy.


Seu grande hit, entretanto, foi “My Guy”, escrita e produzida por Smokey Robinson (a canção foi revivida pelo filme “Mudança de Hábito”), sendo que o baterista da música original é Marvin Gaye, que inicialmente tinha esta função na gravadora, antes de se tornar o mito de “What’s Goin’ On”.

Gordy sabia transformar uma canção comum em hit.

Mudou o nome do então grupo vocal Matadors, liderado por Robinson, para Miracles e deu um tratamento especial à composição “Shop Around”.

O resultado foi o primeiro lugar nas paradas R&B dos EUA e o início da amizade de Gordy com Smokey Robinson – um de seus hitmakers mais constantes.


Ele atuou, simultaneamente, como executivo, artista, compositor e conselheiro de inúmeros colegas.

“Shop Around” foi o primeiro sucesso da Motown a vender 1 milhão de cópias.

A música contou com o apoio vocal da mulher de Robinson, Claudette Rogers, e de seus três colegas dos Miracles.

Eles haviam se conhecido quando faziam o 2º grau em Detroit.

Como líder, cantor e compositor dos Miracles, a trajetória de Smokey foi impecável.

Entre 62 e 63, enfileirou hit atrás de hit como “You’ve Really Got A Hold On Me”, “I Gotta Dance”, “That’s What Love Is Made Of” e “Mickey’s Monkey”.

Conquistou um público cativo com performances mágicas em seus shows.


Pouco a pouco foi definindo um estilo único, leve e suave, que resultou em obras-primas como os álbuns “Going To A Go Go” (65), “I’m The One You Need” (66) e “I Second That Emotion” (67), que trouxe os dois maiores sucessos do grupo, “The Tracks Of My Tears” e “The Tears Of A Clown”.

Em 1971, ele deixou os Miracles para assumir a vice-presidência da Motown, mas seguiu carreira solo, a partir de 1972, criando um som mais maduro para si mesmo.

Frequentemente associado com a soul music romântica, ele lançou álbuns de sucesso, tais como “A Quiet Storm” (1974) e “Touch Sky” (1983), ambos muito elogiados pela crítica.

Em meados dos anos 1980, Smokey Robinson viveu um período difícil, lutando contra o vício das drogas.

Ele discutiu abertamente o problema da cocaína, assim como muitos outros assuntos pessoais, em sua autobiografia “Smokey: Inside My Life”, lançada em 1989.

O músico creditou sua recuperação do vício de cocaína a sua fé religiosa.

Em 1987, Robinson ganhou seu primeiro Grammy como artista solo com a música “Just To See Her”, do álbum “One Heartbeat”.

Em 2004, ele deu o seu trabalho autoral uma nova direção, lançando uma série de músicas que refletem suas crenças espirituais atuais.

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