sexta-feira, março 23, 2012

Aula 7 do Curso Intensivo de Black Music: Ray Charles


Ray Charles Robinson (ele cortou o sobrenome para não ser confundido com o boxeador ‘Sugar’ Ray Robinson) nasceu em 1930, em Albany, Geórgia, e aos seis anos sofreu de glaucoma, ficando cego.

Como tinha queda para a música, começou a estudar desde cedo vários instrumentos.

Em sua autobiografia, “Brother Ray”, de 1978, ele lembra: “Na minha época havia dois tipos de som. Havia os discos de raça. Eram músicas de negros, os blues dolentes que você fazia se queria ir fundo nas coisas. Só artistas negros. Estou falando de Big Boy Crudup, Tampa Red, Muddy Waters, Blind Boy Philips, Washboard Sam, Elmore James, Sonny Boy Williamson e os pianistas de boogie-woogie – Meade Lux Lewis, Pete Johnson e Albert Ammons –, que eu amava de todo o coração. Do outro lado, havia a música das rádios. A maioria era swing, negro ou branco. Estou falando de Artie Shaw, Benny Goodman, Tommy Dorsey, Count Basie e Duke Ellington.”

Antes de se tornar um dos principais crooners do soul, Ray Charles tocou jazz.

Era exímio pianista e um saxofonista razoável. Gravou até com músicos de jazz como o vibrafonista Milt Jackson, o saxofonista David Newman, o baixista Oscar Pettiford e o baterista Connie Kay.


Ray Charles tinha toda uma teoria própria sobre as “ligações perigosas” entre músicos brancos e negros: “eu tocava uma porção de músicas que tinham sido feitas originalmente por negros e depois reinterpretadas por brancos. Um bom exemplo era ‘Cow Cow Boogie’, ou outra canção do arromba, ‘Pistol Packin’ Mama’. Eram grandes sucessos brancos, mas se baseavam em sons negros e ritmos negros que já vinham rolando há muito tempo. Estas músicas ficavam escuras de novo – e depressa – quando eu botava minhas mãos nelas. Eu as resgatava e trazia de volta para o ponto de partida. Não que eu ficasse com raiva daqueles brancos por terem tirado as músicas dos negros. Eu sempre disse: não é porque Graham Bell inventou o telefone que Ray Charles vai deixar de usá-lo.”

Com sua perfeita mistura de rhythm’n’blues, jazz e gospel, Ray Charles antecipou e lançou as bases para o melhor do soul, algo que no seu terceiro disco, “The Genius Of Ray Charles”, editado em 1959, já estava presente em muitas faixas.

Mas, repertório e arranjos também passavam por standards, com acompanhamento de jazzmen (Clark Terry, Paul Gonsalves, Zoot Sims, entre outros), incluindo músicas como “It Had To Be You” (Kahn e Jones), “Alexander’s Ragtime Band” (Berlin), “When Your Love Has Gone” (Swan e Remick) e “Come Rain Or Come Shine” (Arlen e Mercer).


O problema é que personagens polêmicos demoram para conseguir espaço (e dinheiro) nos estúdios de cinema de Hollywood quando suas vidas são a principal atração do roteiro.

“Ray”, o fantástico longa-metragem sobre o cantor e compositor Ray Charles, por exemplo, ficou 15 anos engavetado.

Só existia na imaginação de Taylor Hackford, cineasta responsável pela execução do projeto – principalmente direção e roteiro, que foi escrito em parceria com James L. White.

A cinebiografia de Ray Charles prometia ser, desde o começo, polêmica.

Negro, cego, viciado em heroína e dono de muitas amantes fora do casamento, Charles não era o que se pode considerar um modelo perfeito a ser enaltecido nas telas.

Nos anos em que elaborou o projeto, Hackford contou com a ajuda do próprio cantor, o qual fez questão de que todas as passagens de sua vida – boas e ruins – estivessem presentes na trama.

Talvez por isso, “Ray” seja uma produção essencialmente sobre música e sobre um apaixonado por ela.


Chamado de gênio, por Frank Sinatra, Ray Charles ficou conhecido por inovar em suas composições, misturando estilo como jazz, country, blues e até gospel.

As letras das canções eram tão ousadas quanto as misturas: algumas rádios evitavam reproduzir os singles do cantor nas décadas de 50 e 60, alegando que suas músicas estimulavam a sensualidade.

O belo filme se sustenta na atuação (mais do que elogiada) de Jamie Foxx.

O ator foi escolhido pelo próprio Ray Charles, em um teste no qual tocou piano para ele, por aproximadamente duas horas.

Aprovado, Foxx não decepcionou: é a alma do filme, incorporando gestos, movimentos, modo de cantar e tudo mais que era peculiar ao gênio da música.

Íntimo do piano, o ator não teve dificuldades em reproduzir as canções enquanto estava em cena.

A narrativa do longa-metragem se inicia quando Ray Charles decide ir para a Flórida em busca de emprego como músico, em 1947.

Por meio de flashbacks inseridos na trama, o público fica sabendo mais sobre a infância pobre do cantor, que aprendeu a tocar piano antes dos sete anos e foi fortemente influenciado pelo gospel que ouvia na igreja que a mãe freqüentava.

Já o episódio da morte de seu irmão mais novo é o acontecimento que marca não só a infância, como o resto de sua vida.

Entre as passagens emocionantes do filme, certamente, estão as cenas em que Ray, ainda criança, começa a ficar cego.

Nesta parte, não há como deixa de destacar a emocionante atuação de Sharon Warren, que interpreta a mãe de Charles, Aretha Robinson.

Ela é a responsável por moldar a personalidade conquistadora do filho, a quem ensina não depender da ajuda de ninguém por causa da cegueira.


A edição acelerada no início do filme não deixa o espectador perder a atenção para os momentos-chave da trama.

Eles acontecem quando Ray Charles experimenta heroína pela primeira vez ou no encontro casual com Quincy Jones.

Muitos de seus sucessos estão espalhados pelo filme, tais como “This Little Girl Of Mine”, “Drown In My Own Tears”, “Hallelujah I Love Her So”, “Lonely Avenue” e “The Right Time”.

O primeiro grande hit – “What’d I Say”, marca sua ascensão artística e financeira.

Ray Charles entra o anos 60 estourando dois grandes sucessos: “Unchain My Heart” e “Hit The Road Jack”.

Para contar toda essa história, o filme se estende.

Em contrapartida aos bons momentos que mostram o nascimento de alguns de seus hits ou sua progressiva degradação por causa do vício, o diretor Taylor Hackford deixa passar batido acontecimentos importantes.


A relação de Charles com a esposa Della Bea (Kerry Washington) mal aparece, bem como a amizade com Quincy Jones.

O destaque fica mesmo com a música, em primeiríssimo lugar, e com as encrencas – ora as drogas, ora as amantes.

Estas, sim, ganham cenas fortes e comoventes.

Ray Charles demorou para encontrar o ponto certo de sua carreira.

Logo que começou, seu estilo oscilava entre o de Nat King Cole e o de James Brown.

Hábil em utilizar seus outros sentidos, o compositor era excelente imitador.

Quando descobriu seu próprio jeito de tocar e cantar, se tornou a figura carismática e forte que entrava no palco com grandes óculos escuros, canções dançantes e energia quase irracional.

A trilha sonora do filme foi feita somente com gravações originais de Ray Charles.

Algumas delas, realizadas ao vivo.


A história do filme termina em 1979, quando Charles recebe homenagem do Estado da Georgia, que se desculpa pela lei que o impedia de tocar nos clubes locais.

O fato motivou Charles a compor uma de suas mais belas canções, “Georgia On My Mind”.

Jamie Foxx teve que usar olhos protéticos que realmente o deixavam cego quando interpretava Ray Charles, o que ocorria cerca de 14 horas por dia durante as filmagens.

É o próprio Jamie Foxx quem toca piano nas cenas em que aparece tocando o instrumento.

O cantor Ray Charles faleceu em 10 de junho de 2004, pouco após o término das filmagens de “Ray”.

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