quarta-feira, março 14, 2012

Boi Turino de Itacoatiara


No início dos anos 80, o Festival Folclórico de Parintins começou a se destacar regionalmente atraindo bastante gente, tanto de Manaus quanto dos municípios vizinhos.

Eleito prefeito de Itacoatiara em 1982, o empresário Mamoud Ahmed já há algum tempo vinha cismando com a quantidade de barcos que, no mês de junho, passava pela frente da cidade completamente lotados e enfeitados de bandeirolas azuis e vermelhas.

Em junho de 83, o prefeito e alguns aspones estavam no porto da cidade contando o número de barcos carregados de foliões e bandeirolas que desciam o rio Amazonas (a conta já estava em 375 embarcações) quando o Dr. Gesta (na época, seu chefe de Gabinete, hoje já falecido) chamou-lhe num canto e cantou a pedra:

– Mamoud, nós temos de mandar a nossa KGB pra Parintins e investigar o que está acontecendo. Não dá pra entender ver esse povo todo descendo pra porra daquela ilha...

O prefeito concordou e, imediatamente, dois “espiões” foram despachados às pressas para Parintins.


Assim que terminou o festival, eles apresentaram um relatório de viva voz ao alcaide, numa reunião com todo o secretariado:

– Prefeito Mamoud, é o seguinte. Essa febre toda é por causa de dois bois-bumbás que tem na ilha, um tal de Caprichoso e um tal de Garantido. Mas, prefeito, não é o boi que atrai os visitantes. O que atrai o povão, prefeito, é a tal de “toada do boi-bumbá”. Os cabocos lá fazem uma toada muito forte, muito bonita, de ritmo chibata, aí o pessoal tira a roupa, fica só de sunga e biquíni, e dança, e pula, e grita, e faz uma porção de coreografias na base do dois passinhos pra lá, dois passinhos pra cá... É uma dança diferente, que mexe com todo mundo, não deixa ninguém ficar parado. Homem, mulher, menino, menina, todo mundo cai na gandaia! O negócio lá, prefeito, é de arrombar! É de arrombar, prefeito, tô lhe dizendo...

– E daí, o quê que isso tem demais? – grunhiu Mamoud. “A gente não pode fazer umas toadas aqui em Itacoatiara? A gente não pode criar uma coreografia bem bonita? A gente não pode fazer um boi-bumbá melhor do que o deles?...”

– Claro que pode, prefeito, claro que pode! – garantiu o secretário municipal de Cultura e Turismo, tentando evitar mais uma costumeira explosão de cólera do alcaide.


– Pois, então, pronto! No próximo ano, nós vamos fazer o nosso próprio Festival do Boi-Bumbá e anunciar no Amazonas inteiro – determinou o prefeito. “E se alguma coisa der errada, muitas cabeças vão rolar”.

Dito e feito.

No início de março de 84, começaram a ser veiculados em Manaus uma série de outdoors, que diziam o seguinte: “Festival Folclórico de Itacoatiara. O Maior Festival do Norte do País. Venha Brincar de Boi-Bumbá na Velha Serpa!”.

Os outdoors também foram colocados em Tabatinga, Benjamin Constant, Coari, Tefé, Barcelos, Presidente Figueiredo, Manacapuru, Novo Airão, São Gabriel da Cachoeira, Maués, Barreirinha e, acredite se quiser, em Parintins. O prefeito estava abusado.


Os melhores artesãos da cidade foram convocados para criar o design do bumbá, que foi batizado de Turino de Itacoatiara e tinha seu curral no bairro do Jauari.

Os melhores compositores foram convocados para fazer as toadas.

Os melhores estilistas se encarregaram de fazer as fantasias, adereços e alegorias.

Mamoud convidou pessoalmente o governador Gilberto Mestrinho, o prefeito de Manaus, Amazonino Mendes, o comandante militar da Amazônia, general Bethlem, e a secretária nacional de Cultura, Amália Lucy, filha do ex-presidente Ernesto Geisel.

Como o camarote das autoridades possuía vagas limitadas, o convite para participar do evento estava sendo disputado à tapa por políticos, empresários, lobbistas e socialites.


O estádio Floro Mendonça foi transformado numa imensa arena.

As ruas do entorno foram totalmente recapeadas e as árvores mais próximas tosadas e caiadas.

Dezenas de barraquinhas padronizadas foram dispostas estrategicamente no lado externo do estádio.

Equipes das polícias civil e militar, Corpo de Bombeiros, médicos, enfermeiros, assistentes sociais e de paramédicos estavam de prontidão para garantir o brilhantismo do espetáculo.


No dia da apresentação, com as arquibancadas completamente lotadas, entrou em campo um sujeito que, visto de longe, parecia ser o Pai Francisco trajando uma vestimenta que tanto podia ser a de um peão de rodeios de Barretos como a de um cangaceiro egresso do bando de Lampião.

Na verdade, era o apresentador do bumbá.

Posicionado no meio círculo central do gramado, ele segurou o microfone sem fio e mandou ver:

– Meu muito boa-noite para a maior plateia do norte do Brasil!!! É com muito orgulho que nós vamos trazer a oitava maravilha do mundo, o meu, o seu, o nosso apoteótico, inigualável e jamais imitado Boi Turino de Itacoatiara!!!

A explosão de fogos de artifício foi de tirar qualquer um do sério.

Um verdadeiro show pirotécnico que, durante dez minutos, coloriu o céu estrelado da Velha Serpa.

Parecia o fim do mundo.

A batucada entrou na sequência, numa marcação cadenciada e elegante.


Um clone do primeiro Pai Francisco, que na verdade era o Levantador de Toadas, vinha capitaneando os músicos, todo faceiro, seguido de perto por duas cunhãs-porangas, estas, sim, um verdadeiro colírio.

Itacoatiara, conforme se sabe, sempre foi um celeiro de mulheres bonitas.

O primeiro Pai Francisco entregou o microfone para o segundo e este quebrou o silêncio respeitoso do estádio com o primeiro verso da primeira toada genuinamente itacoatiarense:

– Nosso boooooiii da Velha Serpaaaaa...

No camarote das autoridades, o prefeito Mamoud Ahmed vibrou que nem um moleque quando ganha sua primeira bicicleta no dia de Natal:

– Pai d’égua! Pai d’égua! Pai d’égua!

Na arena, o Levantador iniciava o segundo verso, apontando com o polegar para onde supostamente deveria ficar a cidade de Parintins.

– ...é booooiii, não éééééé vaaaacaaaa!!!


A ironia foi percebida pela galera, que explodiu numa salva de palmas ensurdecedora.

No camarote, Mamoud foi ao delírio:

– Bota no toco, meu boi! Bota no toco, meu boi!

O Levantador continuou repetindo os dois primeiros versos e fazendo o espetacular fecho da primeira estrofe:

– Nosso booooooiii da Velha Serpaaaaa... é booooooiii, não ééééé vaaaaaaaca.... teeeeeem um chiiiiifre grandããããoooo... como um gaaaaaalho de jaaaaaaaca!...


Nova explosão de fogos de artifício e sobe no tablado aquilo que, com muita boa vontade, poderíamos chamar de boi-bumbá modificado geneticamente.

Onde já se viu um boi-bumbá totalmente verde-abacate com uma estrela vermelha na testa?

Está certo que o “tripa” era o Moleque Diabo, passista da gloriosa Escola de Samba Vitória Régia, de Manaus, que tem as cores verde e rosa, mas daí a dar as mesmas cores pro boi só se ele fosse um bumbá transgênico...

O Levantador de Toada, entretanto, estava cada vez mais empolgado e mandou brasa no resto da toada:

– Chega, morena vem ver, quem cheguuuuuu agora!!! Boi Turino de Itacoatiara... Cheguuuuuu cum a bunda de fora...

Foi a gota-d’água.


O boi ainda nem tinha começado a evoluir e o pessoal já estava abandonando as arquibancadas, puto da vida.

– Porra, isso é uma enganação muito grande! Isso não é toada nem aqui nem na casa do caralho! – dizia um.

– Festival é o de Parintins, isso aí é toada de zé-mané! – dizia outro.

– Será que o prefeito pensa que a gente semos leso? – questionava um terceiro. “Isso aí num é toada, isso aí é zuada e da pior qualidade...”

– Quem é que vai perder tempo vendo essa fulerage? – exasperava-se um quarto. “Se eu quisesse ver palhaçada, arrumava emprego num circo...”

A debandada foi geral.

No frigir dos ovos, o maior Festival Folclórico do Norte revelou-se um fiasco de proporções diluvianas.


Mamoud ficou tão revoltado que, tempos depois, toda vez que alguém falava perto dele em toada de boi-bumbá, o prefeito achava que era provocação e já queria sair no braço.

O Boi Turino, conforme reza a lenda, tomou chá de sumiço e nunca mais foi visto.

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