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sábado, junho 30, 2012

Caxuxa Blues (5)


Em 1882, um comerciante português chamado Antonio José da Costa, proprietário de uma quitanda na Rua da Instalação, mandou confeccionar uma tabuleta com a pintura de um homem coberto de trapos e abaixo do desenho colocou uma legenda: “Ao Pobre-Diabo”.

Devido à existência dessa tabuleta na entrada de seu comércio, o comerciante passou a ser chamado pela população de “pobre-diabo”.

Em 1895, ele se casou com Cordolina Rosa de Viterbo e passou a residir na Praça Floriano Peixoto, na média Cachoeirinha, onde montou uma casa de diversões chamada High Life.

Alguns anos depois, o comerciante ficou muito doente deixando sua jovem esposa cada vez mais aflita.

Por ser devota de Santo Antonio, ela fez uma promessa a esse santo rogando a cura do marido.

Caso este ficasse restabelecido da enfermidade, ela mandaria construir uma igreja em louvor ao santo.

Um suposto milagre acabou acontecendo e o velho “pobre-diabo” ficou curado da enfermidade.


Com o pronto restabelecimento do marido, Dona Cordolina pagou a graça alcançada mandando construir uma pequena capela nas proximidades de sua residência, na rua Borba, que acabou sendo batizada pelos moradores de “Igreja do Pobre-Diabo”.

A igrejinha foi inaugurada no dia 26 de novembro de 1897. Logo após a inauguração da igreja, o casal se mudou para Belém (PA), onde o comerciante acabou falecendo alguns anos depois.

Dona Cordolina retornou a Manaus e doou a igrejinha para o Bispado.


Com capacidade máxima para 20 pessoas, a igrejinha do Pobre-Diabo passa a maior parte do tempo fechada, sendo aberta apenas nas comemorações do dia de Santo Antonio.

Virou ponto turístico da Cachoeirinha.


Em 1898, durante o processo de urbanização do bairro, foi construída a Praça Benjamin Constant, onde atualmente funciona a empresa Amazonas Energia, e em frente à praça, um grande barracão de madeira convertido na primeira feira do bairro, que ficou conhecida como Mercadinho da Cachoeirinha.

No mesmo local funcionou também o grupo escolar Guerreiro Antony, em homenagem ao coronel Antonio Guerreiro Antony.

Em 1927, o antigo grupo se transformou na Escola de Aprendizes Artífices do Amazonas com cursos profissionalizantes de desenho, alfaiataria, marcenaria e tipografia.

Em 1937, com o início da industrialização do Brasil, a escola foi obrigada a modificar seu perfil e se adequar às necessidades de ensino voltado para a área industrial, surgindo, então, o Liceu de Artes e Ofícios de Manaus.

Em 1942, o Liceu de Artes e Ofícios de Manaus se mudou para novas instalações, na avenida Sete de Setembro canto com a rua Duque de Caxias, na Praça 14, e passou a se chamar Escola Técnica Federal de Manaus (ETFM), oferecendo o curso ginasial tradicional e cursos em nível técnico nas modalidades Edificações (“Pedreiros de Luxo”), Eletrotécnica (“Macacos de Poste”) e Mecânica (“Engraxates Come Graxa”).


Em 1965, a ETFM passa a se chamar Escola Técnica Federal do Amazonas (ETFA) e incluiu um novo curso, Estradas (“Mateiros Com Teodolito”).

Além do alto padrão de qualidade de ensino, a ETFA era o sonho de consumo da molecada porque era um dos poucos colégios que possuía um campo de futebol oficial e porque nas oficinas de mecânica havia um conjunto de tornos aptos a produzir os melhores piões de madeira de lei da cidade.


Outros dois destaques eram a banda marcial da escola (“fanfarra” parece coisa de viado), com sua batida inconfundível, e a dança folclórica dos Tarianos, mais conhecida como “Dança do Cacetinho”, que eletrizava o público do estádio General Osório durante suas apresentações no Festival Folclórico do Amazonas.

Até 1970, a ETFA era um feudo exclusivamente masculino, a exemplo de outra instituição federal, o Colégio Agrícola do Amazonas, que funcionava na Colônia Oliveira Machado, em um local conhecido como “Paredão”.


Em 1971, ano em que prestei mini-vestibular para a ETFA, as mulheres foram aceitas pela primeira vez na instituição.

Eu era o menor (e mais novo) estudante da turma, mas ao cabo de três anos de aprendizagem o ingênuo coiote de antanho se transformou em um autêntico lobo sanguinário.

Com exceção do cigarro, meus outros vícios (mulheres, birita e livros) foram aperfeiçoados durante meu convívio diário com a alcateia.


Em 1973, ao me formar com pompa e circunstância, fazia parte da histórica “primeira turma mista de Eletrotécnica”.

Entre as alunas que se formaram comigo na mesma turma, estava a hoje pedagoga Rosa Maria Vital, esposa do sociólogo e livreiro Kim Melo.

Os dois são proprietários da Banca do Largo, que tem como carro-chefe a venda de livros de autores amazonenses, e do charmoso “Tacacá da Gisela”, que semanalmente promove o evento cultural “Tacacá na Bossa”, ambos localizados na Praça São Sebastião.

Nos anos 80, a ETFA se transformou em CEFET (“Centro Federal de Tecnologia”), depois incorporou o Colégio Agrícola e implantou novas escolas técnicas federais no interior do estado, se transformando em ITAM (“Instituto Tecnológico do Amazonas”) e ofertando cursos de graduação, pós-graduação e mestrado nas áreas tecnológicas.


Morador da Cachoeirinha, meu brother Preto Fernando, considerado o mais longevo jogador do Peladão (disputou todas as competições, de 1973 a 2010, defendendo a Tuna Luso e o Zaire, pelo qual se sagrou campeão em duas oportunidades) e hoje apresentador de um programa esportivo, na TV Ufam, é um dos professores-símbolos da instituição.

Meu sobrinho Simão Neto, filho do Nelson e da Selane, está se formando no CEFET e já desponta como um dos novos gênios da terceira geração da família Pessoa.

Decorem bem esse nome e depois me contem, porque o moleque vai fazer barulho pra caralho!


Em 1899, o bairro da Cachoeirinha ganhou o primeiro velódromo da cidade, construído por um grupo de comerciantes locais que havia conhecido o Velódromo Paulistano (o primeiro do país, inaugurado em 1892, em São Paulo) e ficado encantado.

Batizado de Velódromo Recreio, ele possuía pistas ovais revestidas de madeira semelhante às pistas dos “motordromes” existentes nos EUA na mesma época.

A parte frontal do velódromo ficava na rua Santa Isabel, os fundos na rua Silves, e a lateral na rua Urucará.

Naquela época, corredores estrangeiros e do sul do país desembarcavam semanalmente de vapores no Roadway para participar de competições de bicicletas, motocicletas e tandem bike, um tipo de bicicleta mais comprida com dois, três ou seis assentos.

Esse divertimento igualava-se ao futebol dos dias de hoje, com milhares de pessoas participando ativamente das competições e torcendo pelos seus atletas favoritos.

Alguns corredores marcaram época em Manaus, como o espanhol Sebastian Neira, o português José Bento e o brasileiro Alcebíades Alves, hoje nome do principal ginásio esportivo de Ivaiporã (PR), onde nasceu.

Quando deixou de funcionar, em meados dos anos 30, o Velódromo Recreio já era considerado o melhor velódromo do Brasil.


Em 1944, no mesmo local, foi construído o Velódromo Álvaro Maia, sob a supervisão do engenheiro Deodoro D’Âlcantara Freire, que havia adquirido o terreno abandonado com as antigas instalações.

O novo velódromo, feito totalmente em alvenaria, possuía área para patinação, tênis, boxe, basquete, voleibol e pistas de atletismo, além de cabines para a imprensa, vestuário, banheiros e salas de serviços médicos.

A pista de velocidade possuía 250 metros de extensão e 35 graus de inclinação, sendo considerada pela imprensa especializada como a melhor pista do Brasil e a segunda da América do Sul (só perdia para a do Velódromo Municipal de Montevideo, no Uruguai, considerado ainda hoje uma das três melhores pistas do mundo).


Os tipos de corridas disputadas nessa época eram entre as motocicletas Indian e Harley Davidson, os ciclomotores Velocette, Cotton e Douglas e as bicicletas com aros de madeira, pneus de seda e pião preso com roda livre, isto é, sem freios.

As marcas de bicicletas de corrida mais utilizadas eram Raleigh e Peugeot.

O scratch era o primeiro dos cinco tipos de corrida de bicicleta disputadas no velódromo.

Consistia em quatro voltas na pista, num total de mil metros.

Nos primeiros 800 m, os ciclistas traçavam táticas de ataque e defesa. Só eram cronometrados os últimos 200 m.

A modalidade denominada corrida de fundo assemelhava-se à anterior, exceto quanto à distância (10 mil metros) e ao número de voltas (40).

A prova do quilômetro contra relógio era individual e consistia em conseguir o melhor tempo num percurso de mil metros.


Na perseguição individual, os ciclistas se colocavam em lados opostos da pista e, ao sinal do juiz, começavam a perseguir-se mutuamente durante cinco voltas.

Seria vencedor o que chegasse primeiro a sua meta ou alcançasse o adversário.

A última das provas de velódromo era a de perseguição por equipes.

Tinha uma eliminatória contra relógio, que classificava oito equipes para as quartas-de-final e seguia a disputa nos mesmos moldes da perseguição individual.

O velódromo também oferecia outras atrações como competição individual de patins, demonstração de patins rebocados por motocicletas e corridas de bicicletas coladas a motocicletas.


Nesse último tipo de competição, os ciclistas, para ganhar velocidade, prendiam a traseira da bicicleta em uma motocicleta e, depois de um determinado número de voltas, a motocicleta saía da pista enquanto os corredores continuavam a corrida para ver quem seria o vencedor da prova.

Entre os principais ciclistas da cidade estavam Melhoral, Tupã, Muiraquitã, Colibri, Rocha, Flecha, Perônio, Torpedo, Induzido, Belgique, Tubarão, Rapidoca, Mucuim, Catavento, Faísca, Curió e Timba.

Todos eles possuíam torcidas organizadas e eram muito populares entre os esportistas da cidade.

Algumas vezes, na área central do velódromo, era montado um ringue para competições de luta livre, boxe, judô e jiu-jítsu.

Nos finais de semana, o velódromo recebia um público estimado em três mil pessoas.


Fanático por corridas de velocidade, Deodoro D’Alcântara Freire resolveu viajar para a Europa e os EUA a fim de manter parcerias com os proprietários de outros velódromos e realizar intercâmbio para a exibição de atletas sem ser obrigado a pagar cachês milionários.

Seu sonho, no entanto, não chegou a ser concretizado: ele faleceu em 1950, quando retornava de uma dessas viagens.

Com a morte do proprietário e principal incentivador do esporte em Manaus, sua família vendeu o velódromo para a firma comercial do Dr. Bezencry.

O empresário transformou as arquibancadas e as dependências utilizadas como vestuário, depósito de bicicletas, enfermaria e posto médico em autênticos “cabeças de porcos”, posteriormente alugados para famílias de baixa renda.

A área interna do circuito oval foi transformada em um campo de futebol, que resistiu até o início dos anos 80, quando o antigo velódromo se transformou em depósito da Serraria Moss.


Durante três décadas, o campo do velódromo (um dos únicos campos gramados da Cachoeirinha) serviu como palco para um dos mais organizados campeonatos de futebol amador da cidade, tendo revelado grandes craques como Mário Gordinho e Edmar Macaco.

Hoje, no local, funciona uma lanchonete do grupo Habib’s.

3 comentários:

Eliza Salgado de Souza disse...

Olá Simão Pessoa! Custei para achar esse texto. Li uma versão em outro blog, onde o autor citava um tal de Simão Pessoa que eu não achava! Mas, finalmente, encontrei o cara que disse tantas coisas sobre o velódromo de Manaus. Eu estou escrevendo sobre o Velódromo da cidade e gostaria muito de saber de onde o senhor tirou todas essas informações? Queria entender melhor sobre o que estou escrevendo e minhas fontes estão um pouco limitadas. Agradeço desde já sua atenção.

Eliza Salgado de Souza disse...

Olá Simão Pessoa, tudo bem? Meu nome é Eliza e estou escrevendo sobre o Velódromo de Manaus. Li seu texto em outro blog e depois de muita confusão encontrei o seu blog. Gostaria muito de saber mais informações sobre o Velódromo, seria possível? Inclusive, saber de onde foram tiradas essas informações. Desde já agradeço.

Simão Pessoa disse...

Caríssima Elza Salgado, essas informações constam dos jornais de Manaus disponíveis para consulta na Biblioteca Pública. Minha recomendação é que você vá ao Centro Cultural Povos da Amazônia, ali na Bola da Suframa, que a maioria dos jornais que cobrem esse período (1900-1950) já está digitalizada e a consulta é uma mão na roda. Algumas informações também podem ser localizadas nas cartilhas da extinta Codeama sobre o bairro da Cachoeirinha, se bem que essas são um pouco mais difíceis de encontrar. Qualquer coisa, me escreva via email (simaopessoa@gmail.com), que ajudarei dentro do possível. abração.