quinta-feira, agosto 08, 2013

“O Livro dos Seres Imaginados”, um tratado sobre as bestas dos dias de hoje


Edson Aran        

As Mídias Heródoto (“Histórias”, tomo IV) afirma que são primas das musas. Suas formas são diversas, porém as vozes são uma só, contam os detratores. As mídias são descritas como servidoras de reis, mas na tradução de Burton de "As Mil Noites Menos Uma", elas irritam o grão-vizir da Pérsia Menor quando falam que o povo come o pão que o diabo amassou. O grão-vizir manda calar as mídias e pede que o diabo abaixe em 10% o preço do pãozinho.

Plínio, o Pedicuro, escreve que as mídias estão mortas e suas vozes são ecos de tempos passados. A culpa, porém, é delas mesmas, que sempre festejaram o próprio ocaso. Quando Odisseu as encontra no Canto VIII do poema de Homero, as mídias dizem:

“Oh, bravo guerreiro
Somos mídias moribundas
Escutai nosso berreiro
Nossa agonia é profunda
Pode passar a mão na nossa carteira”

Os Cabeças-de-Bagre Parecelso (“Tratado Geral dos Ambientes Abomináveis”, volume VIIII) menciona, brevemente, um país onde todos os habitantes nascem com um bagre no lugar da cabeça. Gulliver, o Odisseu de Swift, também aporta nesta terra singular em uma de suas viagens.

Esse povo anfíbio só toma decisões erradas. Votam nos néscios, lêem os imbecis, ouvem os cretinos e adoram reality show.

O sistema político dos cabeças-de-bagre é a democracia representativa. De quatro em quatro anos, a população vota no Supremo-Cabeça-de-Bagre que passa, então, a reger o destino da nação. A população sempre vota errado, mas como a apuração também dá errado, eles acabam elegendo o candidato certo. Não importa. O vencedor será sempre um cabeça-de-bagre.

Plínio, o Vesgo, conta que o nativo da ilha vive até os 130 anos. Quando se entedia da vida, ele mergulha num rio e fica boiando até que a cabeça se desprenda do corpo e siga a correnteza. Aí ele sai da água e vira ministro.

A Dil-Mah – Plínio, o Volúvel, situa a origem da criatura monstruosa na Bulgária. Dona de índole irritadiça, a Dil-Mah não tem amigos. Vive sozinha a errar e a urrar pelo planalto central.

Na vaga mitologia dos embusteiros, povo que habita o Embustão, a Dil-Mah é formada pela saliva do Lula de Duas-Cabeças, que dá a ela uma existência fugaz.

O Lula nasce com apenas uma cabeça e sua chegada prenuncia uma era de conquistas e mudanças. No decorrer das eras, a criatura se modifica, crescendo em fealdade e horror. Nasce uma segunda cabeça, mais conformista e conformada, disposta a negociar favores e apoios. É este Lula de Duas-Cabeças que pare a Dil-Mah para se perpetuar no panteão.

Quando a Dil-Mah está presente, o país entra em convulsão e a economia não produz resultados. As colheitas secam nos campos e os jovens maldizem a democracia representativa. Mas a Dil-Mah finge que não é com ela.

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