quinta-feira, agosto 22, 2013

Um estudo em pentelho: pêlos, por que tê-los?



Claudia Ohana na revista Playboy: em defesa da mata atlântica!

Ronaldo Bressane

Estarão mesmo em extinção nossas matas mais sagradas?

De carona na recente pelômica, digo, polêmica com a mata da musa Nanda Costa, ressuscito pensata-playground para a saudosa revista Ele&Ela sobre a história do trato das moças com seus cabelinhos.

Cada vez mais as garotas têm limado os pêlos que coroam suas perseguidas.

O design baixo-capilar favorito por aqui, a virilha cavada, redesenhou as xoxotas yankees – lá, a febre é pela ‘brazilian wax’, a cera que assassina os cabelinhos de modo que as damas desfilem de biquíni sem causar espécie com fios indiscretos.

Até mesmo a nova edição do dicionário Oxford traz, para sinônimo de brazilian, “estilo de depilação em que todos os pêlos pubianos da mulher são retirados, permanecendo apenas uma faixa central”.


De fato o brazilian style de alinhar a pentelhama começou por conta da moda praia, mas virou obsessão comportamental.

Tente lembrar a última vez que você ficou enfeitiçado por uma selva selvagem (a mãe não vale, muito menos a Playboy com a Nanda Costa, aquela antiga da Claudia Ohana ou o ensaio famoso da Vera Fischer).

O cabeludo assunto virou tema de cervejadas cafajestes: há tanto os entusiastas da máquina zero (“Hollywood cut”, segundo o mesmo Oxford) quanto os românticos defensores da flora nacional – como o escritor Xico Sá, que em seu “Contra o desmatamento das fêmeas” salivou: “Estão acabando com as nossas matas mais nobres. Em nome de diagramações ridículas, muitas vezes só um tufinho de nada de pêlo, espécie de buceta-Cebolinha… buceta-reco, um absurdo qualquer assim!”.


Obra de Alena Kupčíková. Matéria-prima: pêlos pubianos

Uma penteada no Google nos revela curiosidades insuspeitadas sobre a cheirosa plumagem e informa: não é de hoje esse preconceito.

Na arte do antigo Egito, os pêlos pubianos das moças eram indicados em forma de triângulos.

Na arte clássica européia, muito raramente eles despontavam – o sumiço também se dava na arte indiana.

Mesmo o ultrarealista Michelangelo jamais desenhava os pelinhos.

Lá pelo século 18, no Japão, começaram a aparecer pentelheiras na arte shunga (erótica), o que se vê até hoje nos safados hentai: os pouco peludos nipônicos estão entre os povos mais interessados em cabelos íntimos.

De resto, nas culturas do Oriente Médio (principalmente as islâmicas) e da Europa Oriental, as moças seguem há séculos o brazilian way of xavasca.


™Alena Kupčíková

Mostrar a pentelheira era um tabu tão disseminado que os anais da história da arte sopram uma história bizarra.

O crítico de arte inglês John Ruskin teria ficado chocado ao dar de cara com os pêlos de sua esposa Effie Gray – o refinado intelectual, acostumado a ver retratos de damas imberbes, imaginou que sua mulher fosse uma aberração, pois achava que só homens tinham pêlos pubianos.

Ficaram casados cinco anos sem partir para os finalmentes, o que fez com que Effie pedisse a anulação do casório (com o novo marido, o pintor sem frescura John Millais, teve nada menos que oito filhos).

Considerada pornô em seu tempo, a pintura A Maja desnuda, do espanhol Francisco de Goya, foi a primeira obra de arte a escancarar a mulher em pentelhésimos detalhes.


Mais ousado, Gustave Courbet enquadrou, em A origem do mundo, um maravilhoso exemplar da mata francesa.



No cinema, os pêlos foram assunto para o longa A comédia de Deus, de João Monteiro, em que o personagem João de Deus guarda pentelhos deixados por ninfetas na banheira em que se lavam com leite (isso mesmo!) num grande livro chamado Caderno dos Pensamentos.

Mais recentemente, a carioca Marcia Clayton causou furor ao usar pentelhos uma obra de arte (formavam os cabelos da noiva, numa escultura com aqueles bonequinhos de bolo de casamento).

Marcia teria comprado a matéria-prima no Saara, famoso camelódromo do Rio, confirmando a tese de que ali se acha tudo.

Recentemente a talentosa artista plástica checa Alena Kupčíková (sem trocadilhos óbvios plis) expôs oito delicadas peças em que se retrata a genitália feminina e seus arredores: os sinuosos traços eram nada menos que dezenas de pêlos, doados por várias amigas – que preferiram se manter no anonimato.

A idéia surgiu quando Alena presenteou o namorado com um desenho de sua prochaska formado por seus próprios pêlos.

O cara, claro, ficou orgulhoso – tanto que escaneou a peça e mandou por e-mail aos amigos (curioso senso de comunhão tem o povo checo).

Os amigos pediram “mais uma, mais uma” e Alena abriu uma bem-sucedida exposição em Praga: os oito quadros estão expostos dentro de um túnel.

Fica a dica para o curador da próxima Bienal.


™Alena Kupčíková

Depois desse agradável passeio, tendo em vista que os pentelhos cada vez mais alcançam nobre espaço na arte, apesar do Photoshop, Ele&Ela afundou na lingerie e conferiu o assunto in loco – que falem elas, afinal.

Conversamos com sete moças entre 20 e 30 anos, duas gaúchas, duas cariocas e três paulistas, que nos revelaram o que pensam sobre seus cortes íntimos.

Como explicariam a moda zero total? Fetiche infantil, influência dos diretores de arte das revistas masculinas?

“Nem tô sabendo dessa moda, mas acho horrível, de mau gosto e sua causa Freud explica…”, desdenha a cantora carioca A*.

Já a jornalista carioca R* é adepta: “Tem mais a ver com uma curiosidade por um toque diferente do que por algum fetiche infantil finalmente liberado porque acabaram-se todos os tabus no mundo”, afirma. “Lógico que existe uma tendência impulsionada pela revista, mas segui-la é coisa para fashion victims”, critica.

A designer paulistana M* entende a arte como desculpa: “Talvez seja mais fácil pra tratar no Photoshop, ou os tratadores de imagem já têm uma xoxota pronta, aí é só aplicar, mudar a cor e tcharan!”.

A publicitária gaúcha S* crê que a moda depil total esteja em alta porque pêlos nunca são bem vindos: “Tudo na vida sem pêlo fica melhor, por isso a mulherada se atirou geral na cera quente”.

Já a jornalista paulistana F* diz que até tem mulher que fica bem totalmente lisa, como na infância. “Mas não gosto muito. Pêlos dão um ar ‘mulher’. Para algumas atividades é bom não ter barreiras nem atritos, só que essa moda contribui pra deixar os caras meio folgados, querendo só facilidade…”, ri.

Alguma moça já deixou de praticar o nobre esporte por conta de falta de trato na mata nativa? “Óbvio, inclusive a altura do pêlo da mulher está ligado à vontade de fazer sexo: se sei que vai rolar alguma coisa, já marco a depilação para estar em dia na hora H”, ensina a apresentadora gaúcha C*. “Se não quero transar já deixo grande, daí tenho uma desculpa pra mim mesma. Mas já fiquei na vontade com a penugem acima do nível ideal e transei igual.”

Sua conterrânea S* ajunta: “Já fui pra naite macaca de propósito, pra não correr o risco de dar naquele dia!”.

A jornalista F* explica: “Não deixei de fazer, mas já rolou crise. E uns truques pra ela não ficar em evidência. Nunca percebi algum cara perdendo o tesão por causa disso, mas fico encanada…”.

A cantora A* vaia: “Nunca! Já fiquei Claudia Ohana várias vezes e isso nunca me impediu de nada. É frescura demais…”

M* lembra: “É muito raro ela ficar numa situação assim, mas existe o ponto em que começa a crescer, pinica e aí é uma desgraça: você pratica o esporte e depois parece que andou a cavalo, fica toda assada!”.


™Alena Kupčíková

Por fim: preferência por algum corte?

“A íntima é uma que tá na moda, vejo nas revistas masculinas. Ela deixa os pêlos só na pista de pouso e tira os que cobrem os grandes lábios. Andava fazendo muito essa, parecia um meio-termo que agradava a mim e ao cara. Afinal, tenho que concordar que é gostoso passar os dedos nos grandes lábios lisinhos…”, conta F*.

Sua colega carioca R* radicaliza: “Meu argumento na depiladora é: tira tudo, não me serve de nada mesmo!”.

A loura M* é a favor do zero: “Deixo o ‘hitler’, e sempre aparado. Lá embaixo não tem jeito, tem que ser lisinho, é mais gostoso (sim, fica mais sensível sem!) e mais limpinho”, confessa.

Já a gaúcha S* é contra o ‘hitler’ e o depil full: “O meu corte favorito é pouco volume no topo, entrecu careca. Bigodinho de Hitler jamais, melhor depilar tudo. Mas depilação total achei horrível, completamente infantil e nada sexy – e quando começou a crescer espetava na boca do rapaz…”

Essa breve amostragem demonstra: embora o futuro talvez aponte mais para as estepes africanas do que para a floresta amazônica, entre as que só retiram o excesso e as que tiram tudo a média das garotas felizmente não está nem aí para o tamanho de suas matas.

(*) A pedidos. As moças detalham seus milagres, mas preferem não dar nome às santas



The Great Wall of Vagina, escultura do inglês Jamie McCartney

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