quinta-feira, junho 26, 2014

Falsa alimária


O burro-sem-rabo, sol a pino de meio-dia, verãozíssimo carioca, carroça entupida de teréns, a secar a testa encharcada, enquanto descansava um segundo num sinal fechado de Copacabana, ouviu Mariozinho de Oliveira dar dois beijos no ar como se faz com quadrúpedes e ordenar-lhe:

– Vamos, Mimoso!

O luso apossou-se de uma acha que lhe estava ao pé e partiu pra cima de Mariozinho que, mais que depressa, refugiou-se na pérgula do Copacabana Palace, nessas alturas entupida de colunabili.

Não valeu o campo neutro: o mimoso português quebrou-o todo de porrada.

Tempo curto


Ziraldo era editor da antiga “Desfile”, uma espécie de revista ajornalada, coloridíssima, publicação do Bloch, que teve vida curta e bastante agitada.

Telefonema de Ziraldo para Otto Lara Resende: precisava de quatro laudas para o dia seguinte, um inenarrável sacrifício imediatamente recusado pelo Otto. De jeito nenhum.

Mas tantas Ziraldo fez, tanto implorou, eram as tais laudas ou seu emprego, a miséria, a anemia dos meninos, as ruínas do lar que, diante do quadro dramático, o Otto topou.

Dia seguinte, Ziraldo recebe, em vez de quatro, seis laudas do Otto, acompanhadas de um bilhete do escritor:

“Sinto muito. O tempo era muito curto para quatro laudas.”

Segundo escalão


Laura Soveral Francisca, nora do ex-primeiro-ministro de Portugal Marcelo Caetano, morou alguns anos no Brasil, onde trabalhou como atriz de novela na TV Globo.

Nascida em Angola, tinha sua carteira de identidade e demais documentos expedidos pelas autoridades portuguesas da metrópole.

No item “cor” dos referidos papéis, Laura constava como “branca de segunda”.

O diagnóstico


Um belo dia, o escritor Millôr Fernandes acordou meio aflito, suando frio, com uma leve taquicardia, e, imediatamente, telefonou para o professor José Augusto Aguiar, médico famoso do Rio, queixando-se de intensa vermelhidão, seguida de sensação de calor no rosto.

Receita do José Augusto:

– Deixe de assistir televisão e ler jornal.

E diagnosticou:

– Isso que você está sentindo é vergonha.

Olhos de mercador


Tenho muito medo de capiau. Aquele olho manso, a voz mole, o jeito bobo, discreto, modesto, humilde, caladão, para mim esconde a maior velhacaria, a maior dissimulação, do contrário não sobreviveriam neste mundo de espertos.

O arquiteto Renato Carneiro da Cunha, na Feira de Caruaru, se interessou por uns potes de barro expostos numa barraca.

Pegou um, examinou bem e esperou o mercador dos barros terminar de atender a uma freguesa.

Enquanto aguardava, reparou que, dentro de um dos potes iguais ao que ele queria, tinham esquecido uma outra peça menor.

Renato divisou o lucro fácil e tapou a boca do que estava premiado. Quando foi atendido, perguntou:

– Quanto custa essa peça aqui, companheiro? – e bateu com a mão espalmada no pote.

O feirante apontou para uma peça gêmea, exatamente igual, e respondeu:

– Esta aqui custa mil. Essa aí, que está com o senhor, a amojadinha, custa três mil.

Amojadinha significa prenha.

quarta-feira, junho 11, 2014

Da série “meus ídolos continuam os mesmos”: com você, Lester Bangs!


Ariel Fagundes

Muito antes do jornalismo cultural asséptico e pasteurizado produzido hoje em dia, as editorias de música já foram o lar de escritores viscerais que refletiam em seus textos o resultado caótico da vida extrema que levavam. 

A imprensa alternativa que surgiu nos Estados Unidos a partir dos anos 1960, junto com o sucesso comercial do rock n’roll, esteva repleta desses personagens, mas nenhum deles conseguiu alcançar a relevância e a notoriedade de Lester Bangs.


Nascido em uma pequena cidade da Califórnia chamada Escondido em 1948, Leslie Conway Bangs tinha boas razões para ser um típico desajustado. 

Filho de um pai alcoólatra ex-presidiário e uma mãe fanática Testemunha de Jeová, aos 11 anos ele sofreu uma série de abusos sexuais de um homem mais velho em sua cidade natal. 

Ainda assim, quando lhe perguntavam sobre seu passado, Bangs respondia com desdém: “Todo mundo vem de uma família fodida”.

Sua paixão pela música começou na adolescência, quando entrou em contato com a cultura do jazz a partir do mestre Miles Davis. Pilhas de discos de jazz e livros da Geração Beat compuseram sua bagagem intelectual que nem havia chegado perto do rock n’roll até então: “Mingus e Kerouac. Esses eram os meus santos”, afirmava com orgulho.


Tudo mudou quando surgiram os Beatles e os Rolling Stones no início dos anos 1960 – a transgressão que aquela música representava foi o gatilho para uma jornada que não teria fim em sua vida. 

Bangs mergulhou no mundo das drogas, foi expulso da capela dos Testemunhas de Jeová de sua cidade, e decidiu estudar jornalismo. 

A carreira na área começaria quando resolveu responder a um anúncio da recém-lançada revista Rolling Stone que procurava escritores freelancers para escreverem resenhas dos álbuns que estavam sendo lançados na época.

O ano era 1969 e muitos dos discos lançados nesse momento acabariam se tornando clássicos absolutos da história da rock. A primeira crítica de Bangs na revista foi sobre o aclamado disco de estreia do MC5, Kick Out The Jams (1969). 

A banda havia sido elogiada em edições anteriores do veículo, mas na crítica publicada no dia 5 de abril de 1969, Lester não teve o menor de pudor em dizer que “mal dá para distinguir a maioria das faixas umas das outras com suas estruturas primitivas de dois acordes”.


Lester dando uma chave-de-braço em Bruce Springsteen

A capacidade de expressar opiniões radicais com construções textuais primorosas era a grande arma de que Bangs se valeu para tomar de assalto o cenário da crítica musical de então. 

Durante os quatro anos em que escreveu regularmente para a Rolling Stone louvou literalmente bandas como o Deep Purple e avacalhou outras como o The Doors. 

Ainda que alguns textos esparsos tenham sido publicados posteriormente no veículo, seu vínculo com a Rolling Stone foi rompido após ele destruir um disco da banda Canned Heat com uma crítica feroz.


A partir de 1971, Bangs se envolveu com a concorrente da Rolling Stone, a revista Creem, de Detroit. Ele acabou se tornando o editor da publicação e lá publicou textos onde, reza a lenda, a expressão “heavy metal” foi usada pela primeira vez, termo inventado para descrever o rock distorcido de bandas como Black Sabbath e Led Zeppelin. 

Até 1977, ele viveu em Detroit, depois disso largou a Creem, mudou-se para Manhattan e testemunhou a explosão do punk rock. Nessa época, ele se mantinha escrevendo para diversos veículos como o The Village Voice, Penthouse, Playboy e New Musical Express.


Mas apesar do reconhecimento conquistado, Bangs não estava satisfeito. Dentro de si havia pretensões literárias com as quais ele nunca lidou bem, como um sonho antigo de escrever um romance de sucesso, o que nunca aconteceu. 

O consolo era encontrado em seus amigos mais fieis: as drogas e a música. Em 1980, conheceu uma banda punk no Texas e com ela gravou um álbum, Jook Savages on the Brazos (1980), assinado por Lester Bangs and the Delinquents. 

Em 1981, se juntou com o Mickey Leight, irmão de Joey Ramone, e formou uma banda chamada Birdland, que também gravou um único disco chamado Birdland with Lester Bangs (1981). 

E isso foi uma das últimas coisas que ele fez na vida, pois no dia 30 de abril de 1982, Bangs teve uma overdose de remédios (Darvon, Valium e NyQuil) que o matou de forma fulminante.


Philip Seymour Hoffman como Lester em Quase Famosos (2000)

Bem ou mal, Lester Bangs morreu como viveu – ouvindo música chapado. O último álbum que ele escutou foi Dare! (1981), do The Human League, disco que ainda estava tocando quando seu corpo foi encontrado. 

Mas, como de costume, vai-se o homem e vem a lenda: Bangs tornou-se um ícone da imprensa de rock que não será esquecido tão cedo.


Nos anos 1990, Kurt Cobain escreveu longamente em seu diário pedindo conselhos musicais ao espírito de Lester. 

Em 2000, o ator Philip Seymour Hoffman interpretou o papel do jornalista no filme Quase Famosos, que retrata com utópico romantismo aquele momento dos anos 1970. 
E não deixa de ser curioso o fato de que tanto Kurt quanto Hoffman tenham tido mortes tão súbitas e trágicas quanto a de Lester Bangs.

Lester Bangs, o santo beatnik da crítica


Crítico norte-americano é arquétipo a ser perseguido pelo jornalismo cultural — há tempos relegado aos rodapés dos periódicos e pálido em suas econômicas observações

Leandro Reis

Bangs. O sonoro quinteto heterogêneo, na língua inglesa, sugere uma série de acepções. Em substantivo, pouco diz: franja de cabelo — exceto se impelíssemos ao sentido a pecha de visual rock. Não é preciso. Quando verbo (ou quando aspira a sê-lo), o termo vai longe, sem barras forçadas ou caminhos nebulosos.

Foder, a princípio, é um dos significados mais notórios. Basta árida navegada pela web, balizada em dialetos de inclinações sexuais, que a palavra aparece harmonizada a corpos nus — ou em vias de —, devidamente curvados em parábolas sintomáticas, em comitivas ou não. Geralmente, “bangs” escora-se em “violar”, ou algo semelhante — é certo, em suma, dizer que não estamos falando de romantismo.

Bang! Eis outro caminho: o disparo de arma de fogo, comum como onomatopéia de conversas ou recurso narrativo em histórias em quadrinhos, filmes, livros. Seus irmãos, todos calcados no ímpeto, na violência, no aqui-agora, são o estrondo, a pancada, o pontapé. Há outros, mas estaríamos afogados na redundância se continuássemos a elencar sentidos.

Bangs. A palavra de origem inglesa guarda mais ramificações que um idioma pode aguentar sem soar arbitrário — na verdade, qual linguagem não é, em seu âmago, despótica? Roland Barthes, na “Aula” (Cultrix, 2013), disse que “esquecemos que toda língua é uma classificação, e que toda classificação é opressiva”. Então é necessário que um nome, égide do indivíduo, carregue-a: Lester.

Lester Bangs, santo beatnik. Morreu em 1982, aos 33, idade de Cristo. Não foi crucificado, mas certamente alçado à cruz do jornalismo, no subgênero gonzo, de qualidade extremamente contestada, ainda que tenha saído do ventre do new journalism (Tom Wolfe, Gay Talese, Truman Capote). A exemplo de Hunter S. Thompson, escreveu motivado por substâncias psicotrópicas, em fluxo vertiginoso, e pôs-se, muitas vezes, à frente do próprio objeto do texto — e quem não está, prisioneiro de sua própria subjetividade, em posição soberana ao alvo da análise?

Palavra não é propriedade privada, embora herdada, a filigranas, pelas bocas da posteridade. Bangs comungou da hóstia libertária norte-americana. Seu ethos discursivo — e por que não comportamental, espiritual — nasceu do choque juvenil contra a ordem vigente: a contracultura, construída de modo explosivo nos Estados Unidos sessentista. Antes ainda: Lester é fruto de Kerouac, Burroughs, Ginsberg, estes sim genitores do que viria a ser o movimento hippie, a constestação diante do injustificável Vietnã e demais necessidades de ruptura.

Saiu da geração beat, ainda na década de 1950, o apego pelas experiências, o desbunde psicotrópico, a sonoridade da língua em prosa, o antiformalismo, enfim: tudo o que foi datilografado pelo crítico norte-americano no seio da contracultura, na sujeira do rock’n’roll. Estão, em seus textos, a sonoridade proposital do vernáculo, o encadeamento rítmico, o olhar humano acerca do marginal. Linguagem perfeita é linguagem morta, disse Carriere. Lester Bangs foi feito dos excessos: bruxuleava no parapeito escorregadio do jornalismo musical, bailando sua pena suja diante dos dinossauros do show business e do mundo estático das letras.

O humanista do vinil


Cabe breve histórico. O crítico chegou ao público pouco depois de completar duas décadas de errática existência. Em 1969, publicou seu primeiro artigo pela “Rolling Stone”, no qual já se via o espírito afeito à doutrina, ao convencimento das retinas que o leem, particularidade que, segundo o próprio autor, vinha de sua incursão juvenil obrigatória pelo âmago das Testemunhas de Jeová — a vocação de “querer que as pessoas gostem da mesma coisa que eu”.

Demitido da revista por cultivar rusgas com músicos, vai para “Creem”, publicação mais anárquica e disponível para seus textos transgressores. Ali, emprega, pela primeira vez, os termos “punk” e “heavy metal”. Expõe, de maneira tórrida e textualmente espetacular, sua relação dúbia com Lou Reed, pilar do ideal roqueiro construído com a ajuda de Bangs e sua máquina de esculpir ídolos. Ainda publicaria, vez ou outra, na “NME” e no underground “Village Voice”, antes de sucumbir a uma overdose de medicamentos, já desgostoso com os rumos do rock’n’roll.

Escreveu sobre discos, e só. Mas ali havia muito mais do que música. Ele escreveu rock, “que não é simplesmente o escrever sobre rock”, como lembrou Wu Ming. Dedos frenéticos na máquina de escrever, ele militou pela honestidade da música e perpetrou, entre as engrenagens das máquinas do estúdio, o elemento humano que ali necessitava sobreviver. Certa feita, costurou os tecidos de “Astral Weeks”, de Van Morrison, com observações de humanidade extrema (se é que isso existe): “Oras, só estando afundado nas perversões mais tépidas um ser humano poderia amar um outro por qualquer coisa que não a sua humanidade: amá-lo por suas fraquezas, seus defeitos, e, por fim, talvez, sua deteriorização.” Não é dispensável lembrar de Deleuze, quando diz que “se não captar a pequena marca de loucura de alguém, não pode gostar deste alguém”.

Lester Bangs era crítico — na acepção comum dada ao termo — quando via algo fora do lugar. Aí, talvez, de seu deboche sofisticado, esteja a fonte maior do prazer de seu texto, da “fruição”, como quis Barthes. Desse lado impetuoso padeceram um sem-número de músicos em atividade entre o final dos anos 1960 e começo dos anos 1980, época de sua produção. O Jethro Tull, ou o que sobrou dele, ainda gira na própria órbita, carente de corrimão que ampare o golpe desferido pela pena veloz de Lester Bangs. Seu problema era, de maneira recorrente, lidar com o ascetismo do puro entretenimento. A banda de Ian Anderson, a bordo do sucesso progressivo e megalomaníaco “Aqualung”, representava a parte falha do rock: a automação, os penduricalhos como fins em si mesmos. No texto sobre o show do Jethro, houve quem escutasse o direto na ponta do queixo de Anderson: “Tudo o que importa é dar às pessoas um pouco de cor e de movimento para assistir de modo que eles não fiquem irrequietos enquanto escutam a música”. Bang!

Paralelo seguro e recente da pureza que Bangs pretende elevar no rock é o grunge, derivado de uma espécie de reação à cafonice oitentista de Bon Jovi, Motley Crue e demais cabelos cuidadosamente espichados, prontos a entregar um ensaiado espetáculo de entretenimento, baseado em adornos de figurino e recursos de palco — tudo em favor das imagens, das câmeras, do sorriso voluptoso da garota afogada nos hormônios. Bandas sujas de Seattle (Melvins, Soundgarden), por sua vez, chafurdavam na lama sonora, jogavam-se sem armaduras na plateia, produziam catarse no altar do rock. Lester Bangs aprovaria, certamente a bebericar líquido imoral.

Jornalismo que “frui” (culpe Barthes)


A escritura de Lester Bangs deixa espaços, é um núcleo de correspondências entre leitor e autor, ainda que a relação seja desigual — ainda bem, visto que nossos olhos carecem da acuidade das mãos do roqueiro das linhas. Com o tempero agressivo e a alma de franco atirador, ele devolveu ao jornalismo os alicerces da crítica musical combativa, fundamental para músicos e fãs até há pouco tempo. Impressa na superlativa frase de Greil Marcus, escrita para introduzir uma coletânea de Bangs: “Talvez o que este livro exija do leitor seja a disposição em aceitar que o maior escritor norte-americano tenha escrito apenas análises de discos”.

Não se trata disso tudo, é claro. Faulkner, Hemingway, Burroughs (desse Bangs é orgulhoso inquilino) e tantos outros guardam o Olimpo da literatura norte-americana. Mas Lester Bangs é importante porque transformou jornalismo em literatura e crítica musical em antropologia errante. Sua figura ficou cravada no imaginário popular através da face do seminal Philip Seymour Hoffman, ator-pele do crítico em “Quase Famosos”, de Cameron Crowe, jornalista musical influenciado, a exemplo de Nick Tosches e Greil Marcus, pelo estilo de Lester Bangs. Mais: Ramones e R.E.M. o lembraram em canções — respectivamente “It’s Not My Place” e “It’s The End Of The World As We Know It (And I Feel Fine)”.

Na língua inglesa, Bangs tem uma biografia escrita por Jim DeRogatis (“Let It Blurt”, 2000) e algumas coletâneas de artigos, publicadas após sua morte. No Brasil, há apenas “Reações Psicóticas” (Conrad, 2005), com alguns textos extraídos da edição norte-americana, que tem mais que o dobro de páginas. O volume em português é praticamente um panfleto, embora especialmente precioso, visto que a tradução não suprime o sabor da estética, das gírias, dos termos quase fora de lugar. A edição está esgotada, entretanto.

É preciso voltar a Lester Bangs. Embora suas páginas em língua portuguesa estejam no cemitério, é possível espelhar no beatnik da música o arquétipo libertário da crítica a ser perseguido. A presença árida da crítica cultural nos veículos de comunicação é desesperadora, uma vez que, face à enorme oferta de produtos culturais — muitos deles gratuitos, à deriva na internet —, a mediação empreendida pelo crítico torna-se de assaz importância. Relegada a espaços ínfimos ou à condição de “resenha”, a crítica perdeu, em grande parte, seu conteúdo reflexivo e contestador. Basta lembrar que, em 2013, o jornalismo brasileiro renunciou a duas publicações especializadas em crítica cultural, a saber: o suplemento “Sabático”, publicado no jornal “O Estado de S. Paulo”, e a revista “Bravo!”.

A solidão de sites de cultura pop que fazem, de fato, uma crítica cultural reflexiva é aviltante. Hoje, escrever no sentido de expandir a apreensão estética, discutir questões humanas por meio da música, enterrar quem merece os sete palmos é tortuoso — não cabe nos escaninhos das editorias. As resenhas de hoje não arrastam o leitor para um alhures funcional ou substancial, ao contrário, fixam-se, de certa maneira, no instantâneo do lançamento, quando não calham de pender para a agenda cultural; não mostram o seu discurso, a nós só é possível fotografar o dorso das ideias que a produziram, como se a ideologia só fosse possível disfarçada, entranhada como contrabando nas bagagens dos resenhistas.

Criticar, mais do que nunca, é sinônimo de resistência. Tótem dessa postura é Lester Bangs, alguém que tinha os culhões para verter ideologias na máquina de escrever. De modo que é fundamental voltar a seus textos, não só no sentido de analisar a constituição de seu discurso, mas também de relembrar as possibilidades de uma crítica musical importante, sem as amarras do mercado da empresa jornalística. Trinta e dois anos após sua morte, a contribuição de Bangs para o jornalismo — e por que não para a literatura — ainda está situada aquém de seu lugar de direito.

sexta-feira, junho 06, 2014

Da série “meus ídolos continuam os mesmos”: com vocês, Marcos Faerman!


Desde que comprei nas bancas o primeiro jornal Versus, em meados dos anos 70, me tornei fã confesso do jornalista Marcos Faerman. Seu texto límpido e cristalino era a prova dos nove de que jornalismo e literatura podiam andar de mãos dadas sem assustar os leitores. Se um dia me tornasse jornalista, queria escrever igual a ele. Não consegui, é verdade, mas vou morrer tentando.

O jornal Versus foi amor à primeira vista. Na época, eu comprava apenas o Pasquim e, esporadicamente, os jornais Opinião e Movimento. Foi por meio do Versus que travei contato com vários jornais alternativos (Ovelha Negra, De Fato, Boca do Inferno, O Saco, Raposa, Pacu Tatu cotia Não, Varadouro, etc), dos quais logo me tornei assinante.

Um dos editores do Versus era o escritor Mouzar Benedito, que só conheci pessoalmente há oito anos, mas com quem troco figurinhas até hoje. Tão talentoso quanto Faerman, Mouzar mantém um blog interessantíssimo no site da Editora Boitempo, que visito sempre que posso, e que recomendo vivamente a quem gosta de boa literatura.

Também adquiri os dois volumes de jornais encadernados (do nº 03 ao 10 e do nº 11 ao 17), dos quais sobrou apenas o primeiro volume, que guardo como um troféu de guerra. O segundo foi inadvertidamente jogado no lixo por uma de minhas ex-mulheres.




Há alguns anos, recebi de um amigo a cópia de um texto intitulado “Marcos Faerman, um humanista radical”, da jornalista Isabel Vieira, que transcrevo em seguida como forma de homenagear a memória daquele que, ainda hoje, considero o melhor jornalista brasileiro de todos os tempos. Lendo o texto, muitos leitores me darão razão. Curtam:

Um ataque cardíaco fulminante levou Marcos Faerman na contramão de uma sexta-feira, 12 de fevereiro de 1999, véspera de Carnaval. Em 5 de abril teria completado 56 anos (nasceu em 1943). Estava acima do peso, fragilizado, envelhecido, cego de um olho, abalado pela morte recente da mãe e da irmã, ambas de câncer de mama, mas trabalhando em vários projetos ao mesmo tempo, como de hábito, com o entusiasmo dos 20 anos. E aproveitando uma fase excepcionalmente tranquila na sua conturbada vida pessoal. Dias antes de morrer, havia trazido para a esposa Nina alguns vasinhos de xaxim, uma caixinha de música que tocava  “Love Story” e um pano de prato estampado com a frase “Aqui mora a felicidade”. Esse quarto casamento, no final de 1997, com a historiadora Maria Aparecida (Nina) Lomônaco, tinha lhe proporcionado algo que há muito não possuía: uma vida familiar. 

Tudo indicava que as turbulências do vendaval Marcão haviam sossegado. Assistia ao seriado de televisão “Chiquinha Gonzaga” com a esposa, na cama, ou lia para ela trechos de Rimbaud ou Nietzche antes de dormir.  Gostava de tomar chá com a sogra, de 90 anos, que vivia no mesmo prédio, na região da Paulista, em São Paulo. E havia recuperado algo precioso: o convívio com os filhos Laura (do primeiro casamento, com Marilza, nascida em 1975) e Julio (nascido em 1980, da segunda mulher, Maria Inês). “Venham jantar em casa”, convidava. “Encontrei uma mulher que faz o bife da minha mãe.”

“O cheiro do bife da mãe me acompanha pela Eternidade...”, Marcão havia escrito num texto que Nina acharia depois em gavetas, com o título de “Nunca mais”, grito lancinante pela seqüência brutal de perdas na família. O primeiro a ir embora foi o pai, em 1988. Depois o irmão caçula, Marcel, em 1994. Dos quatro filhos de Henrique e Helena Faerman, só ele, Marcos, o mais velho, e o segundo, Mauro, psiquiatra em Porto Alegre, continuavam vivos. “Cuidei dele como de um bebê”, diz Nina. Ela, paulista da gema, trabalhava no bairro judeu do Bom Retiro. Estava sempre em busca de receitas de pratos de que ele sentia falta, como os vareniques, pasteizinhos de batata que a mãe e a avó faziam. Estabilidade e carinho amenizaram-lhe as dores. Ao cunhado e amigo Vitor Vieira, viúvo da irmã Marilena, por quem nutria uma irmandade de espírito, Marcão confessou que há muito tempo não se sentia tão bem. Até o final manteve o hábito de ligar várias vezes por dia a Vitor, jornalista em Porto Alegre, para falar do Grêmio ou de qualquer outro assunto, importante ou banal.  

O último Natal foi festejado à maneira cristã – “um sonho dele”, segundo a esposa – na casa de Luciana, filha de Nina, na pequena cidade onde ela vive, Santa Isabel do Ivaí, no Paraná. Marcos e Nina tinham passado o final de 1998 lá e pretendiam voltar no carnaval. Na última hora desistiram da viagem, pois Marcão, como sempre, estava atolado de compromissos. Editava com especial desvelo a revista “A Hebraica”, para o público judeu de São Paulo, fazia matérias como repórter especial para as revistas “Educação” e “Ensino Superior”, da Editora Segmento, do amigo Edmilson Cardial, e era responsável pelo jornal-laboratório “Esquinas de SP”, da Faculdade de Comunicação Cásper Líbero, onde lecionava. 


Na sexta-feira, 12 de fevereiro, Marcão saiu ao meio-dia para fazer sua última entrevista, com Adriano Diogo, vereador petista. Ao terminar, ligou para a mulher avisando que ia fazer algumas compras. À noite, Laura viria jantar. Quando Nina chegou do trabalho, soube pelo porteiro que o marido havia voltado às quatro da tarde e subido com a chave que ficava na portaria. Estranhou o silêncio no apartamento. Bateu, tocou a campainha, e nada. O telefone tocava e ninguém atendia. Nina foi buscar um chaveiro do bairro para abrir a fechadura. Só conseguiu entrar em casa depois de quarenta minutos de angústia. Encontrou na geladeira tudo que Laura mais gostava de comer e beber. Sobre a mesa da cozinha, um pacote aberto de suco de pêssego Del Valle, que o marido adorava. Marcão jazia sem vida no espaço entre a cama e a janela do quarto.  “Não sei qual o efeito da paixão no coração, se dilata ou sobrecarrega as coronárias”, diria depois Luis Fernando Veríssimo em sua coluna no Estadão.

Em 1966, então colegas no jornal gaúcho Zero Hora, eles planejaram um caderno de cultura em condições precárias, na garagem da casa de Veríssimo em Porto Alegre. “Nunca conheci ninguém apaixonado pelo jornalismo como o Marcão. Lembrei dele em nossa garagem, há 30 anos, emocionado com a descoberta de um texto bem paginado. Emocionado com nada mais extraordinário que um texto bem paginado numa revista poeirenta.”

“Morreu de tanto viver”, resume a última companheira, Nina. 

Conheci Marcão em setembro de 1977, na velha casa da rua Capote Valente, no bairro de Pinheiros, em São Paulo, onde funcionava a redação do Versus. Naqueles tempos em que a imprensa estava sob censura e as publicações alternativas falavam por nós, a estudante do terceiro ano de jornalismo sentiu-se honrada por ser recebida pelo editor do tablóide que era o meu preferido na faculdade. Versus, “um jornal de aventuras, idéias, reportagens e cultura”, como dizia o slogan, propunha a cultura como forma de ação política e tratava índios, negros e trabalhadores como os reais protagonistas da história latino-americana. Possuía colaboradores  de peso, como o jornalista uruguaio Eduardo Galeano, autor de “As veias abertas da América Latina”, o escritor argentino Julio Cortazar, o mexicano Carlos Fuentes, o poeta cubano Ernesto Cardenal, os brasileiros Érico e Luis Fernando Veríssimo, Gianfrancesco Guarnieri, Augusto Boal, Rodolfo Konder, Cláudio Willer e outros.

Habituado a trabalhar com profissionais desse quilate, Marcão tinha ao mesmo tempo a rara delicadeza de tratar focas com respeito e entusiasmo. Ficava empolgado com textos bem escritos. Acolhia e arrumava emprego para quem precisasse. Fazia o jovem jornalista se sentir capaz. “Foi padrinho e tutor de uma geração que se formou em torno do seu inesquecível tablóide dos anos de imprensa nanica, o Versus”, diz Alfredo Sirkis numa bela matéria no Observatório da Imprensa. Muitos desses afilhados fariam sólidas carreiras na imprensa. Um deles é Caco Barcellos, conterrâneo do Rio Grande do Sul.  

Tive a sorte de chegar na hora certa. Marcão me recebeu em 1977 como se já fosse profissional. Elogiou a matéria que eu trazia (sobre uma comunidade isolada de caiçaras no litoral norte de São Paulo) e a publicou. Em seguida, me incumbiu de uma pauta ambiciosa: a vida dos mineiros numa mina de carvão. Mas não qualquer mina. Queria uma mina em que a extração fosse feita por meio de métodos primitivos, “como no Germinal, de Émile Zola”, disse, me emprestando o romance que eu não conhecia. Mandou que lesse também um estudo sobre mineiros na Bolívia, “He agotado mi vida en la mina: una historia de vida”, de Juan Rojas e June Nash,  numa edição argentina. Deixei a redação com os volumes debaixo do braço e sem coragem de confessar que eu não tinha a menor idéia de onde havia minas de carvão no Brasil. Envergonhada, fui consultar enciclopédias e mapas. Assim encontrei a Mina do Leão, em Butiá (RS), a 100 quilômetros de Porto Alegre, tema da primeira de inúmeras matérias que eu faria sob orientação do Marcão.

E não só no Versus. Porque pelas mãos dele cheguei à revista Quatro Rodas, meu primeiro emprego como repórter. Fomos amigos próximos durante quinze anos, até o início de 1993. Convivemos no Jornal da Tarde e em revistas que ele criou e/ou editou, como “Singular & Plural” (1978-79) e “Ícaro Ponte Aérea” (1984-85), nas quais eu colaborava. E em “lições práticas” de reportagem. Apesar dos frilas brilhantes que costumava fazer para Quatro Rodas, Marcão nunca soube dirigir um automóvel. Sempre que podia, eu lhe dava carona e o acompanhava na apuração de suas matérias. Com ele aprendi mais sobre jornalismo e literatura do que em qualquer livro ou faculdade.


“Sou repórter, judeu, gaúcho, gremista e marxista.” Assim Marcão costumava definir-se – em geral nesta ordem. Via-se como um ser de múltiplas facetas, com identidades fortemente coletivas, e viveu cada uma com paixão. Todas as cinco identidades tiveram origem na pequena Rio Pardo, no interior do Rio Grande do Sul, onde ele veio ao mundo em 5 de abril de 1943. Os pais, Henrique e Helena Faerman, judeus de origem russa, eram comerciantes que tiravam o sustento da família de uma lojinha de aviamentos em cima da qual viviam com os quatro filhos. O incêndio que destruiu a loja e a casa é uma recordação marcante da infância de Marcos, um guri de cabelos encaracolados e olhos azuis, que gostava de ler gibis e tinha medo do escuro. À noite, escondido de todos, rezava pedindo perdão a Deus por ser judeu.

Em outro texto inédito encontrado por Nina, “Eu menino”, ele relembra comentários dos garotos católicos da escola e diz: “E aí aprendi que era judeu, que matei Cristo Nosso Senhor, filho de Deus. Eu, um menino judeu em Rio Pardo. E fui correndo para casa, chorei como depois correria de novo, chorando na calçada da rua João Pessoa, vendo nossa casa, a loja de meu pai queimar. Meu pai sentado na frente da nossa casa, tudo queimando, e as pessoas vendo o judeu chorar, o judeu que bem podia ter posto fogo na loja só para ganhar o seguro – estes estrangeiros são capazes de tudo, não é?”.

A Rio Pardo que emerge das lembranças de Marcão é uma cidade triste, com ruas de pedras, casas com porões, porões habitados por ratos, um rio de águas escuras, as ruínas do Forte Jesus-Maria-José, ecos de antigas bravuras e batalhas. Ele na matinê de domingo, “arrumadinho pela mãe na primeira fila do cinema”, e figuras queridas como seu Biaggio, o bibliotecário do museu, e a cozinheira Odósia, “que contava histórias de fantasma e talvez seja a principal cúmplice da minha paixão por Allan Poe”. “Onde nasce o fascínio pela leitura?”, pergunta-se. “Posso pensar, por exemplo, na paixão de meu pai pelos livros. Na biblioteca de meu pai, em Rio Pardo, os livros eram misteriosos. Quando ele me dizia: menino, a capa de uma aventura de Tarzan!...”

Seu Henrique Faerman gostava de ler histórias em voz alta para os filhos, à luz inspiradora e fantasmagórica do lampião, e de levar Marcos e Mauro para comprar maçãs argentinas nos trens que passavam pela estação a caminho da cidade gaúcha de Santa Maria. “Maçãs vermelhas e redondas, como só eram assim as maçãs dos reis, mas nós não parávamos de chorar, o irmão e eu, até o pai voltar. Morríamos de medo do trem ir embora com o pai, para sempre.” Em casa, ouviam a Rádio Belgrano de Buenos Aires e torciam pelo Grêmio, o time de futebol do coração do pai. Nunca esqueceriam a primeira vez em que o acompanharam ao estádio em Porto Alegre para assistir a um jogo do tricolor gaúcho na arquibancada. O guri Marcos amava jogar bola, ler revista, ver filme de pirata, caçar gafanhoto e imitar Nelson Gonçalves. Queria ser cantor e até cantou na rádio local.

No final dos anos 1950, Rio Pardo tornou-se pequena para ele. Mudou para Porto Alegre e mergulhou na efervescência da política estudantil. Logo seria líder do grêmio do Colégio Júlio de Castilhos, o “Julinho”, tradicional escola pública da cidade. Amigos dessa época, como João Batista Marçal e Júlio Mariani, recordam o adolescente Marcos como um agitador inflamado, vestido com um capote cinza, enfrentando direitistas em congressos estudantis. “Um guri explodindo em rebeldias, que se joga de cabeça em todas as lutas de seu tempo.” Foi assim que conseguiu o primeiro emprego.


Numa tarde de 1960, Marcão foi entregar um manifesto do grêmio ao jornal Última Hora (que depois se transformaria em Zero Hora). O chefe de reportagem, Flávio Tavares, achou o texto bom demais para ser ter sido escrito por estudantes e perguntou quem era o autor. Ao saber que estava diante dele, não perdeu tempo: “Quer trabalhar como repórter da geral?”, convidou. “Pode ocupar aquela máquina de escrever lá no fundo e começar agora mesmo.” Aos 17 anos, sem cédula de identidade nem carteira profissional, Marcão teve de apresentar uma autorização do pai para ser contratado.

Os anos pré-1964 eram de esperanças e utopias. O jovem repórter e sua turma são seduzidos pelos ideais do PCB (Partido Comunista Brasileiro), o Partidão, e vivem o sonho revolucionário comunista. No Julinho e na Faculdade de Direito da UFRGS, a Universidade Federal do Rio Grande do Sul, que ele deixaria sem concluir, Marcão ganha fama de contestador, participante ativo das aulas de filosofia e história e uma pedra no caminho de professores burocratas. Os meninos comunistas sonham em ter armas para fazer a revolução. “A arma do Marcão era a palavra, que jorrava aos borbotões, nas esquinas, nos colégios, nas assembléias, nos bondes. Sempre com os jornais sob o sovaco, repetia a frase da Passionária: ‘Não passarão’”, lembra Luiz Pilla Vares.

Com um curto intervalo em 1963, em que tenta ganhar dinheiro rápido vendendo enciclopédias – foi dissuadido pelo futuro editor de O Pasquim, Tarso de Castro –, Marcão sabe que o jornalismo é para ele o meio mais eficiente de subverter a ordem. E volta para Zero Hora, famosa escola de jornalistas na época. Júlio Mariani o recorda como “um vendaval permanente a atravessar a redação em todos os sentidos e direções, usina de idéias a expelir, sem cessar, novas propostas de trabalho, reportagens sensacionais que precisavam ser feitas com urgência, esquemas gráficos revolucionários, que botavam tontos os diagramadores, editores e até o dono do jornal”.

Depois do golpe de 1964, muitos militantes do PCB rompem com o partido e agrupam-se em diferentes tendências de esquerda. Marcão e seus amigos vão para o POC, Partido Operário Comunista, de orientação leninista, responsável pela vinda dele para São Paulo em 1968. O partido necessitava de um quadro gaúcho na executiva nacional. Marcão é destacado para a tarefa. Além disso, acenam-lhe com a possibilidade de integrar a equipe do Jornal da Tarde, onde companheiros do POC tinham trânsito. O vespertino do Estadão era o jornal mais inovador do país, um cobiçado campo de atuação para repórteres criativos e ousados. Marcão aceita a proposta. A namorada, Marilza Taffarel, estudante de Medicina em Porto Alegre e também militante do POC, decide interromper o segundo ano da faculdade para acompanhá-lo na viagem. Tinham-se conhecido em reuniões políticas em 1967 e se apaixonado. Em São Paulo, casariam e nasceria a filha do casal, Laura.

A mudança para a capital paulista marca uma nova etapa na vida de Marcos Faerman. É o início de sua trajetória iluminada no Jornal da Tarde, onde desenvolveria um estilo único, recriando a grande reportagem em textos nos quais combinava técnicas literárias e humanização de personagens, e da edição de publicações de vanguarda que fariam história no jornalismo brasileiro, como EX-, Bondinho e Versus. “Sem saber, começávamos a perder um militante, mas o jornalismo ganhava um de seus melhores repórteres”, diz Luiz Pilla Vares.

Luis Fernando Veríssimo tem outra versão para a saída do colega de Porto Alegre. Segundo conta, Marcão foi posto em ostracismo no Zero Hora e acabou responsável pela página feminina patrocinada pela Margarina Primor. Uma de suas obrigações era editar receitas de cozinha, trocando “manteiga” por “margarina” sempre que a palavra aparecesse. Veríssimo acredita que Marcão forçou sua própria demissão, deixando de fazer a troca e provocando queixas sucessivas do patrocinador ao departamento comercial do jornal. Conclusão de Veríssimo: “A Margarina Primor foi responsável pela ida do Marcão para São Paulo. O jornalismo brasileiro deve muito à Margarina Primor”.

Nos 24 anos em que foi repórter especial do Jornal da Tarde, de abril de 1968 a setembro de 1992, Marcão assinou 806 matérias, boa parte no Caderno de Leituras publicado aos sábados, com textos de fôlego elaborados a partir de pesquisas apuradas. Fez reportagens especiais e do cotidiano de todo tipo e em todas as áreas, de polícia a política, de saúde a educação, de cultura a futebol. Viajou pelo Brasil e países vizinhos da América do Sul como enviado especial, escreveu matérias longas e curtas, cobriu assuntos relevantes e banais. Viveu no JT o epicentro do new journalism no Brasil. Criado em 1966, no mesmo ano da revista Realidade, esse jornal praticava a cultura do bom texto e assimilava as inovações do jornalismo literário: o jeito de fazer perfis de Gay Talese, a literatura da realidade de Truman Capote, as coberturas humanizadas de John Reed, o texto enxuto de Hemingway. Revolucionário também no visual, o JT tinha uma paginação ousada, com fotos estouradas nas páginas, soluções gráficas inusitadas, casamento entre ilustrações e textos. A equipe era jovem e talentosa, formada por nomes como Valdir Sanches, Fernando Portella, Percival de Souza, Moisés Rabinovich, Fernando Mitre, Elói Gertel etc.

Marcão mergulhou de cabeça na proposta. Fez matérias extraordinárias, como “O caso Bensadon”, em que investigou o desaparecimento de uma modesta mãe de família de Itaquera e descobriu que tinha sido assassinada por vizinhos ligados às forças de segurança da ditadura militar. Motivo: briga entre os filhos por um carrinho de rolimã. A matéria resultou na prisão dos culpados. O trabalho no JT deu a Marcão o Prêmio Unicef, em 1986, por uma série sobre delinqüência juvenil,  e dois prêmios Esso: um em 1974, por “Nasceu o primeiro brasileiro pelo método Leboyer” (categoria informação científica), e outro em 1975, por “Os habitantes da arquibancada” (menção honrosa na categoria informação esportiva), enfocando torcedores nos estádios de futebol.  Sobre Leboyer, o médico francês que, nos anos 1970, pregou a idéia de “nascer sorrindo” – o parto humanizado, com procedimentos como música e luz suaves, entre outros, para receber o bebê sem pressa nem tapas nas costas –, Marcão declarou na época: “Gosto de escrever histórias a respeito de homens como Leboyer, que acreditam que o mundo pode ser melhor do que é”. Mas o JT era apenas um “emprego básico”. Paralelamente, sua carreira contabiliza a participação e/ou a criação de inúmeros projetos de vanguarda.

Recém-chegado a São Paulo, alinhou-se com a patota de O Pasquim (Tarso de Castro, Jaguar, Paulo Francis, Millôr, Ziraldo) e trabalhou na sucursal paulista do irreverente jornal carioca. Em 1972, fez parte da equipe da revista Bondinho, com jornalistas vindos da Realidade, como Sérgio de Souza, Narciso Kalili, Woile Guimarães e Hamiltinho de Almeida Filho. Segundo Marcão, Bondinho era “uma revista viajante, psicodélica, o equivalente na imprensa ao tropicalismo, ao underground, ao teatro do Zé Celso Martinez. De apreensão em apreensão, morreu em poucas edições”. O nanico seguinte foi EX-, em 1973, que Marcão dirigiu por um período. Combinava a loucura tropicalista de Bondinho com provocação política. A edição de estréia trazia na capa uma foto-montagem de Hitler tomando sol como um nudista. O número 3 mostrava o presidente americano Richard Nixon, envolvido no escândalo Watergate, com roupas de presidiário. EX- foi fechado ao publicar um dossiê sobre o assassinato do jornalista Wladimir Herzog nos porões da Oban, a Operação Bandeirantes, em São Paulo. A edição de 50 mil exemplares esgotou e foram rodados mais 30 mil, que acabaram apreendidos.


Marcão deixou o EX- para fazer Versus. O primeiro número saiu em novembro de 1975. No início vendido de mão em mão, chegou a ter distribuição nacional e tiragens de 35 mil exemplares. Era bimestral, passou a mensal e voltou a ser bimestral. Circulou sob a direção de Marcão até o número 24, em setembro de 1978. Após sua saída, sairia até o número 34, em outubro de 1979. Para o jornalista Luís Carlos Eblak de Araújo, Versus fez basicamente dois tipos de ruptura: a primeira, com o estilo de texto curto e objetivo da grande imprensa, que começava a se consolidar e se intensificaria nas redações na década de 1980. A outra ruptura foi temática. “Seu fio condutor, que predomina da capa à última página, é a América Latina, tema pouco tratado pela imprensa na época. O que vai amarrar a estrutura do jornal com suas reportagens será um fato comum no continente: vários países da América Latina – Chile, Paraguai, Uruguai e, em 1976, também a Argentina –, vivem regimes militares.”

Eblak de Araújo lembra ainda que Versus se propunha dar à cultura um status que ela não possuía na imprensa brasileira. “Faerman não aceitava que o jornal fosse caracterizado de ‘cultural’ ou ‘literário’. Para ele, esses termos eram pejorativos. Segundo dizia, Versus tinha simplesmente de expor a cultura de uma região geográfica (América Latina), a cultura dos artistas, dos escritores e dos intelectuais latino-americanos.” Num editorial de aniversário de Versus, edição 6, outubro-novembro de 1976, Marcão o define como “um jornal sem vergonha de assumir a reflexão e a cultura, num momento em que na grande imprensa, letras, artes e pensamento são relegados à condição de ‘variedades’”. No número 12, Versus acrescenta o selo “Afro-Latino-América”.

Nas edições seguintes, temas da política brasileira começam a ocupar o primeiro plano e o jornal vai perdendo sua identidade original. Na redação, militantes da Convergência Socialista – corrente de esquerda que se consolidou em 1978 – defendem uma adesão clara a essa tendência, que acabaria tomando conta de Versus.  O número 24 publica a carta de despedida do editor Marcos Faerman (assinada também por alguns colaboradores, entre eles a que aqui escreve). O tablóide viverá por mais um ano, descaracterizado, dirigido por Jorge Pinheiro. “Marcão perdeu Versus para a Convergência, o que marcou o começo do fim de sua militância”, escreve Luiz Pilla Vares. “Versus foi o canto do cisne do Marcão político”, crê o amigo, com uma certeza: “Marcão não era um político, movia-se mal nos aparelhos, só se sentia plenamente à vontade diante de uma máquina de escrever ou de seus livros e revistas invariavelmente amassados e sujos. Fim da política, mas não de seu radicalismo, que sobreviveu sempre na ousadia de seus textos subversivos”.

Lembro de uma manhã, nesses dias, em que fomos à sua casa, o editor Hélio Goldenstein e eu, para dar-lhe um abraço solidário. Separado de Marilza, Marcão havia mudado para um apartamento na rua Oscar Freire, em Pinheiros, a poucas quadras da redação do Versus, onde a pequena Laura, uma fadinha loira, com os cabelos longos e cacheados, costumava muitas vezes visitar o pai. Esperávamos encontrar o guerreiro abatido com a derrota no Versus. Marcão nos recebeu com olheiras, a barba por fazer, as roupas desleixadas, e nos levou ao escritório num dos quartos. Na vitrola – sim, o tempo era esse – estava tocando a mais recente composição de Caetano, “Sampa”. Mas os olhos azuis do Marcão brilhavam. Não era tristeza. Empolgado, ele nos contou sobre seu novo projeto, a revista Singular & Plural. Já tinha um local onde instalar a futura redação e a garantia do patrocínio da editora Global durante seis meses. Quem quisesse, que o acompanhasse. Ele ia começar tudo outra vez...


Em 16 de janeiro de 1980, no bar Persona, no bairro do Bixiga, em São Paulo, os amigos foram cumprimentar Marcão pelo lançamento de “Com as mãos sujas de sangue”, antologia das melhores reportagens publicadas no JT e no Versus até aquela data. Marcão estava feliz com o nascimento do filho Julio, de seu segundo casamento, com a mineira Maria Inês, e já havia assimilado o fato de Singular & Plural ter durado apenas os seis números garantidos pela Global. A revista, cuja primeira capa mostrava o renascimento do teatro nos palcos brasileiros – fruto dos ventos que sopravam com a abertura política –, não conseguiu anunciantes para ir adiante. A Editora Global também editou o livro, o único que Marcão publicou em vida reunindo suas reportagens. (Dois anos antes havia participado da coletânea “Violência e Repressão”, com os colegas Fernando Portela e Percival de Souza). Foi esta amiga quem datilografou em laudas de imprensa – sim, na máquina de escrever, era esse o tempo – as matérias que ele escolheu como as mais significativas que havia feito. Muitas vezes, nos anos seguintes, me ofereci para auxiliá-lo a organizar outros volumes. Mas Marcão, de natureza dispersiva e agenda caótica, sempre adiava a tarefa de selecionar as matérias.

Em entrevista ao JT de 16 de janeiro de 1980, ele fala sobre sua obra: “Com as mãos sujas de sangue é um livro com 14 histórias brasileiras. Eu poderia chamar estas reportagens de Os Miseráveis, se um certo Victor Hugo não tivesse um livro com esse título... São histórias de um Brasil silencioso e silenciado, que me fascina por sua pungente humanidade – e que há quase vinte anos percorro como repórter. Percorro o Brasil urbano e o Brasil rural, esses dois mundos, pelo Jornal da Tarde, onde tive um espaço aberto para escrever com a razão e o coração. Descobri as ruas sórdidas de São Paulo, onde as prostitutas se suicidam; percorri as delegacias; vi os corpos de bandidos e policiais atirados na porta de bancos; estive com posseiros expulsos de suas terras no litoral, em Trindade; vivi com os agoniados nordestinos, no sertão, em plena seca; e vi como um homem pode vender a última coisa que tem, seja uma bicicleta ou um disco de Agnaldo Timóteo; descobri que tribos  de índios andam em busca da Terra sem Males e que jamais a encontrarão. Por isso, de certa maneira, meu livro é uma proposta de viagem por aqueles lugares que os turistas nunca visitam. Quem iria a Alagados? Quem se interessa por aqueles homens que vivem em palafitas? O repórter chega até eles – e descobre não só a miséria palpável, mas algo que se pode chamar de a arte ou o milagre de sobreviver nas mais duras condições. Sobre-viver. Viver apesar da vida. É isto que me comove nos ‘personagens’ do meu livro.”

Depois houve outras revistas. Muitas. Shalom. Crisis (só um número, em 1989). Uma revista para caminhoneiros cujo nome não recordo. Ícaro Ponte Aérea, para ser lida nos aviões da Varig que voavam entre São Paulo e Rio, e que nas mãos do Marcão se transformou numa publicação antenada e original, como tudo que ele fazia. Antecipava tendências. Tinha idéias malucas também. “Vamos colocar uma adolescente de 13 anos escrevendo sobre rebeldias juvenis?” (Isso foi na Ícaro). O navegador Amyr Klink, na volta da primeira travessia do Atlântico Sul num barco a remo, foi capa da Ícaro (Marcão achava-o o máximo). Em outra capa, uma chamada sobre automedicação: “O país dos 130 milhões de médicos” (era a população do Brasil). Título em Singular & Plural: “Cuidemos do corpo, que a alma está perdida”. Pautava matérias sobre saúde preventiva e exercícios físicos quando ninguém ainda falava nisso; e sobre terceira idade duas décadas antes de isto ser assunto na mídia. 

Marcão não vivia só a política, estava ligado em tudo o que acontecia no mundo. Era um editor cuidadoso, respeitador do texto alheio – aquele com que todo repórter sonha para editar suas matérias. Podia sugerir como melhorá-las, mas jamais o ouvi fazer uma crítica que não fosse construtiva. Alfredo Sirkis diz que Marcão foi uma das figuras humanas mais decentes e dignas que ele conheceu. Alguém generoso, “despojado do veneno da inveja, que gostava de auxiliar nos projetos literários dos colegas. Sua maior diferença com certa cultura de redação que se firmou ao longo dos anos era o espírito de colaboração, o gosto pelo bom trabalho dos outros”, escreve o jornalista.

Certa vez, eu conversava com um editor do JT sobre os novos rumos que o jornalismo vinha tomando e ele lamentou que eu tivesse chegado àquela redação “dez anos atrasada” (em 1982). Quando repeti para Marcão o que ouvi, ele ficou indignado com o colega. “Não é coisa que se diga! Tu não vê o quanto a frase é destrutiva, guria?”, explodiu, com o sotaque gaúcho que nunca perdeu. Para ele, o jornalismo podia mudar o quanto fosse, mas sempre haveria espaço para as gerações que estavam chegando. Em depoimento a alunos da Universidade Santa Cecília (Unisanta), de Santos (SP), o jornalista Rivaldo Chinem conta que, certa vez, Marcão lhe disse que fora elogiado “por um figurão, não sei se Alberto Dines ou outro, como editor e não como repórter, o que para ele era a glória, e isso pelo trabalho na Ícaro”.

Como repórter ou como editor, a carreira do Marcão foi sempre norteada pelo que J. Luiz Marques chama de “uma reserva ética de rebeldia” – na visão desse colega gaúcho, Marcos Faerman era “um rebelde contra”, “militante do humanismo socialista”, que “honrava as melhores tradições do jornalismo”. Mais adiante na entrevista ao JT, Marcão conclui a apresentação do livro: “Meu coração se abre para os oprimidos. Meu livro é um testemunho do Brasil dos nossos tempos e de todos os tempos. Acredito na palavra e não posso ligar meu destino a nenhum sistema em que os homens e as palavras sejam escravizados pelo ditador de plantão. (...) O jornalismo humanista humaniza quem o escreve e quem o lê”. 

Não era à toa que Marcão admirava Amyr Klink. O espírito de aventura é, dizia ele, o alimento da alma do repórter. Quando falava “repórter” referia-se ao que chamamos, seguramente, de jornalista-literário ou jornalista-narrativo, mas que ele definia como “um ser em disponibilidade”, aquele que sai em busca de histórias “do outro” e consegue colocar-se na pele dele, ouvi-lo e emprestar-lhe sua própria voz. Aquele que “ouve com o coração” e “conta a história que precisa ser contada”.

Marcão atribuía vocação documental e literária à reportagem. Via-a como uma forma de conhecimento e um método de investigação da realidade. “Um método que difere da historiografia, da sociologia e da antropologia, e tem como centro a arte de investigar os fatos e saber descrevê-los. Isso se faz com melhor ou pior qualidade, dependendo da formação cultural de quem escreve.” Pregou incansavelmente a busca dessa qualidade. Repetia, invocando Roland Barthes, que a reportagem deve operar com o fascínio que só é gerado pelo “prazer do texto”. Leitor voraz, Marcão se considerava um “rato de sebos e bibliotecas”. 

Comprava livros e revistas em espanhol, francês, inglês e italiano – idiomas que aprendeu lendo. Não admitia um jornalista que não tivesse devorado uma lista básica de uns quarenta títulos, a começar dos clássicos de literatura juvenil, passando por Dostoievski, Camus e John Reed, até autores do new journalism, como Truman Capote, Tom Wolfe e Gay Talese. Era fascinado por aventureiros de todas as épocas, tanto autores como personagens. Amava Melville e a baleia Moby Dick. O garoto Jim Hawkins, de “A Ilha do Tesouro”, de Stevenson, escondido num barril de maçãs no convés do navio pirata. Daniel Defoe e o seu “Robinson Crusoé”. O jovem Jack London pendurado num vagão de trem, correndo atrás de histórias. E Sherlock Holmes, Júlio Verne, James Bond, Ernest Hemingway, correspondentes de guerra e...

E, séculos antes deles, Heródoto, que ele dizia ser o pai da reportagem e não da História. Esse grego nascido em 484 a.C., que “se dedicou a percorrer, sem preguiça ou tédio, os limites do mundo da época”, era para Marcão o exemplo ideal do repórter. Viajando pela Babilônia, Assíria, Pérsia, Egito, África, navegando pelo Mar Negro e pelo rio Nilo, Heródodo teria explorado seu tempo, na interpretação dele, como o enviado especial de uma publicação faz agora. Outro de seus ídolos era o jornalista francês Albert Londres, que “tinha de seu apenas um quarto, uma filha chamada Florence e uma mala sempre pronta para viajar”. Nos anos 1920, escrevia histórias reais em série, como folhetins. “Dramas que traziam para as páginas dos jornais a vida num presídio de Caiena, o tráfico de prostitutas de Marselha a Buenos Aires, as proezas dos pescadores de pérola em Java ou a fuga de judeus da Europa para a Palestina.” Londres morreu como viveu: o navio em que viajava para o Oriente, na década de 1930, foi a pique após um incêndio a bordo. Marcão gostava de uma passagem atribuída ao lendário repórter. Certa vez, ele teria ouvido do diretor de um jornal no qual iria trabalhar: “A linha do nosso jornal é...”. Indignado, recolheu o chapéu e a bengala e foi embora, dizendo: “Quem tem linha é trem”.


Marcão também detestava trilhos. Trabalhar numa reportagem era um exercício de liberdade. Vivia cada matéria como uma viagem extraordinária, uma aventura que começava com a pauta (várias ao mesmo tempo) e era saboreada em cada etapa: leituras, muitas; entendimento do tema, busca de personagens. Envolvia-se sinceramente com as histórias que ouvia e aprendia sobre todos os assuntos nesse processo. Não sossegava enquanto não tivesse clareza sobre o “abre” da matéria. Pensava em voz alta sobre o tema. Todo mundo sabia no que estava trabalhando, pois falava no assunto sem parar, sempre empolgado.

Nos bons tempos do JT, repórteres especiais podiam ficar semanas com a mesma matéria, mas sua prática em campo era igual se tivesse de entregar o texto no dia. Beatriz Marques Dias, foca no Estadão no final dos anos 1980, foi certa vez cobrir um incêndio numa favela. Era costume que cada jornal do Grupo Estado enviasse uma equipe própria. “Pelo Estadão éramos vários repórteres, pelo JT só o Marcão”, conta Bia. “Sozinho, ele nos deu um banho. Descobriu histórias incríveis. Não sei como nem onde. Eu estava lá e não vi o que ele viu.”

Na hora de escrever, Marcão era rápido. Passava por uma espécie de surto, muitas vezes de madrugada, pois sofria de insônia. “Ele tinha um poder de concentração instantâneo: sentava a bunda na cadeira, atacava furiosamente as teclas e só parava com o texto prontinho e, pasmem, sem necessidade de muita mexida ou revisão. Esse virtuosismo noturno sempre encheu de admiração escritores espasmódicos e matinais como eu”, lembra Sirkis. Mas às vezes as idéias não fluíam. Marcão chegava da rua e ficava horas agoniado diante da máquina de escrever. “Escrevia três ou quatro linhas, não gostava, rasgava o papel e começava tudo de novo. Dava um tapa na cabeça e reclamava: ‘Estou bloqueado!’ O bloqueio poderia durar minutos, horas ou dias, mas, uma vez superado, surgia a euforia do repórter, um crítico rigoroso de seu próprio trabalho”, lembra o colega Luiz Carlos Ramos.

Uma das últimas matérias em que Marcão trabalhou foi sobre “Água”, para a revista Educação. Juliana Monachesi, aluna da Faculdade Cásper Líbero na época, relata que, dias antes do infarto que o matou, Marcão havia ligado ao editor para dizer, eufórico: “Já tenho o lide! Vou descrever um cenário futurista em que as pessoas se digladiam pelo produto mais valioso da Terra: a água”. Entre os pertences que o jornalista João Marcos Rainho recolheria mais tarde da cabeceira do amigo morto estavam uns óculos quebrados, muitos papéis e uma quantidade de livros com anotações feitas a caneta, como era hábito de Marcão. Entre eles, o volume “Morte social dos rios”, de Mauro Leonel, recém-chegado pelo correio, certamente para auxiliar na matéria. 

E Marcão tinha também, infelizmente, aquele lado escuro, sombrio, que “acabou abreviando o tempo dele”, diz Vitor Vieira, numa tristeza tão funda que, oito anos depois, ainda não pôde abrir os originais do livro sobre skinheads em que Marcão vinha trabalhando e que o sobrinho Julio Faerman lhe enviou. Quando, exatamente, começou? A família e os amigos são unânimes em situar o envolvimento de Marcos com as drogas no contexto dos anos 1970, em que substâncias alucinógenas significavam novas experiências, criação, loucura. Muitas das melhores cabeças usavam drogas naqueles anos. Já nos tempos da redação de O Pasquim, Marcão havia se irmanado a Hamiltinho de Almeida Filho, que morreria em 1993, em decorrência do uso de seringas contaminadas. “Marcão não se iniciou nas drogas por ingenuidade”, revela a psiquiatra Marilza Taffarel, ex-mulher de Marcão, a alunos de jornalismo da Unisanta. “A busca pela quebra do cotidiano fez parte do processo criativo da época. As figuras ideais dele, como o escritor americano Ernest Hemingway, eram do tipo que, ao se deparar com a angústia da criação, se autodestruíam. Mas drogas e álcool são traiçoeiros, viciam. Ele foi se arriscar. E ele arriscava muito.”

Na época da separação tumultuada da segunda mulher, Maria Inês, por volta de 1985, o cunhado Vitor Vieira era chamado frequentemente para mediar conflitos entre o casal. Ele e Marilena ainda viviam em São Paulo, com as filhas Lisa e Lívia. A casa onde Marcão morava com a família, no bairro do Sumaré – e na qual permaneceria por muitos anos depois que Maria Inês e Julio mudaram para Uberlândia (MG) – era cenário das loucuras mencionadas por Alfredo Sirkis. “Eram tempos boêmios, de esbórnia. Marcão pegava pesado na busca frenética de experiências, vivências, prazer e angústia. A casa do Sumaré passou a ser minha guarida em Sampa City. Ali rolava de tudo.”

Vitor Vieira também acredita que “a descida do Marcão no fosso das drogas foi sintomática e emblemática de uma época. Fazia parte da concepção de vida dele. Achava-se forte, poderoso. Era de uma onipotência fantástica. Não aceitava tratamento. Dizia que tinha controle sobre tudo”.
Ouvi isso muitas vezes do próprio Marcão: “Na hora em que eu quiser, eu paro”. Embora eu só tivesse pinceladas dessa outra vida dele “fora” do jornalismo. “Tu é meu lado saudável”, ele dizia. Mas, de vez em quando, deixava escapar uma história sobre traficantes que o perseguiam ou ligava deprimido, com ressaca da vida. Tinha depressões homéricas nos anos 80. Alternava estados de euforia com prostração. Nesses momentos de baixa, queixava-se de que seu trabalho não era reconhecido. “Por que a Editora Abril não me convida para dirigir uma de suas revistas?”, lamentava-se. Achava-se injustiçado. Sentia-se um marginal tanto no ambiente jornalístico como no meio acadêmico. “Os outros jornalistas me vêem como intelectual, e os intelectuais me vêem como jornalista”, dizia. 

Acredito que a queda tenha acontecido aos poucos, degrau por degrau. No final da década de 1980 e início da de 1990, sucederam-se acontecimentos infaustos em sua vida. Numa manhã de 1988, seu Henrique Faerman pegou o lotação para ir trabalhar em Porto Alegre, como de hábito, e foi fulminado por um infarto na calçada do escritório. Poucos anos depois foi o caçula Marcel, “que fazia poesias e jogava uma bola finíssima”, segundo Vitor, e fora diagnosticado com esquizofrenia aos 16 anos. Numa véspera de Natal, despencou do quinto andar do apartamento em frente ao Parque da Redenção, na capital gaúcha, e se esborrachou numa marquise – não se soube se foi acidente ou suicídio. 

Álcool, maconha e cocaína arruinaram a saúde de Marcão. A artrose e a psoríase nas mãos, doenças com que vinha convivendo há anos, agravaram-se e dificultavam-lhe a escrita. Uma infecção no pós-operatório de uma cirurgia de catarata resultou na perda total daquela vista. A visão do outro olho também estava ruim, mas ele relutava em operar, com medo de repetir o insucesso da primeira cirurgia. Para ler, precisava do auxílio de uma lupa. A esses infortúnios veio se somar a demissão do Jornal da Tarde, no final de 1992. Segundo o escritor e professor Adelto Gonçalves, amigo de longa data, Marcão havia ficado dispendioso para o JT. “Ele era de outra época, passava dias atrás de uma matéria. Por questões econômicas e por causa de uma visão imediatista, mesquinha, a grande reportagem morria nos jornais brasileiros.”

Outro amigo do peito, o ex-editor do Jornal da Tarde Moisés Rabinovitch, que foi correspondente internacional no Oriente Médio e com quem Marcão dividia as angústias pelas crises do povo judeu, aponta, além disso, as drogas como vilãs da demissão. “Ele misturava álcool, picos na veia, maconha e cocaína. Começou a perder os prazos de entrega das matérias e a ser visto como um fardo na redação. A ligação do estar drogado com o estado criativo matou o Marcão. Era um sujeito brilhante, não precisava disso”, lamenta Rabinovitch aos alunos da Unisanta. “Eu tinha autoridade, ele me ouvia. Dei muitas broncas nele, mas não tive poder suficiente para fazê-lo abandonar o vício.”

Rodolfo Konder, que ocupava o cargo de secretário municipal de Cultura na ocasião, estendeu o braço ao amigo, levando-o para dirigir o Departamento do Patrimônio Histórico, subordinado àquela secretaria da Prefeitura de São Paulo. Marcão esteve à frente do departamento de 1993 a 1995. Foi lá que encontrou Nina, funcionária da casa, iniciando com ela a relação redentora que teve no final da vida. Tinha chegado ao fundo do poço com a terceira mulher, uma certa Vânia, viciada em crack, que conheceu no submundo. Os rompantes tenebrosos da moça afastaram a família e muitos amigos do seu convívio. “Laura ficou um ano brigada com o pai”, conta Vitor. Marilza e a filha tiveram de trocar várias vezes o número do telefone para não ser incomodadas. O mesmo precisou fazer Nina, a quem Vânia intimidava com ameaças tanto em casa como no trabalho. Inconformada com a separação de Marcão, Vânia um dia deu um escândalo de tal proporção na frente do edifício público que tiveram de interromper o expediente. 

Adelto Gonçalves recorda que esteve com Marcão em 1997, na redação da revista Educação, e ficou triste ao vê-lo “um pouco gordo, com artrose e cego de um olho”. Deprimido, sofria com a morte da mãe e da irmã e com as dívidas pendentes da casa do Sumaré. Vitor conta que Edmilson Cardial, dono da Editora Segmento, foi quem quitou os débitos. “Edmilson era nosso companheiro no Estadão e apoiou muito o Marcão naquela fase difícil”, confirma Adelto. No encontro em 1997, Marcão mostrou-se arrasado com outra loucura de Vânia. “Ela havia jogado água em seus livros”, conta Adelto. “A biblioteca era o que ele mais queria. Portanto, aquilo havia sido uma ofensa muito grande, a mulher havia atacado exatamente em seu ponto mais vulnerável.”

Eu não cheguei a ver Marcão nesse estado. Sabia dele pelos amigos e sentia um grande desânimo. Não nos falávamos desde 1993, quando ele me anunciou seu desejo de se atirar de uma ponte sobre a Avenida Sumaré e perdi a paciência. Discutimos. Ele ficou furioso. Vi-o pela última vez um ano e meio depois, na Bienal do Livro de 1994, no pavilhão no Parque do Ibirapuera onde estava acontecendo a entrega do Prêmio Jabuti. Reconheci de longe sua figura alta e desengonçada. Estava mais gordo, parecia cansado. Os cabelos tinham ficado completamente brancos. Senti vontade de abraçá-lo. Saí do meu lugar e fui abrindo caminho na multidão, mas havia gente demais e demorei um pouco. Quando cheguei à frente do auditório, ele já tinha sumido no meio do povo.

Só depois da morte de Marcão pude saber que – ao menos quanto ao desejo dele de ser respeitado na academia –, suas mágoas não procediam. Em 1996, a paraibana Sandra Regina Moura defendeu dissertação de mestrado no Programa de Pós-graduação em Comunicação e Cultura Contemporâneas da Universidade Federal da Bahia, UFBA, sobre a narrativa de Marcos Faerman, abordando a relação entre jornalismo e literatura em duas grandes reportagens publicadas no JT nos anos 1970: “O caso Bensadon” e “Ah, esse Rio de Janeiro nos tempos de D. Pedro”.

“Entrevistei longamente o Faerman para o meu trabalho”, conta Sandra. “Conversamos durante uma semana inteira, em São Paulo, no final de 1994.” Os encontros foram no Departamento do Patrimônio Histórico. Sandra recorda que Julio, o filho adolescente, estava presente e que Marcão usava uma grande lupa para localizar textos nos dois volumes encadernados que trouxera de casa, com cópias de suas reportagens preferidas no JT. “Foi ele quem sugeriu as matérias para análise. Depois da defesa, mandei um exemplar da dissertação para ele. Aí vieram os desencontros, ele saiu da direção do Patrimônio Histórico e perdi o contato. Mas o Igor Fuser me disse que ele leu e gostou do trabalho.”


Mais tarde, em setembro de 2002, quem fez parte da banca de doutorado de Sandra Regina Moura na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC), onde defendeu tese sobre o trabalho de Caco Barcellos, foi a professora Terezinha Tagé, do Departamento de Jornalismo da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo, ela também uma admiradora de Marcos Faerman. Terezinha brinca que Marcão foi o real “orientador” dela no doutorado, pois lhe forneceu um rico e farto material sobre seu objeto de estudo, a obra jornalística do teatrólogo Jorge Andrade. “A prática de Marcos era fruto das leituras que ele incorporou”, acredita Terezinha Tagé. “Antes do Novo Jornalismo, a idéia corrente era a de que quem tivesse talento faria literatura, quem não tivesse faria jornalismo.” Terezinha ressalta a importância da presença de Marcão na banca que aprovou a tese de doutorado de seu colega Edvaldo Pereira Lima, “Páginas Ampliadas: o livro- reportagem como extensão do jornalismo e da literatura”, em 1990, na USP. “Marcos ficou feliz por Edvaldo ter trazido para a universidade a História da Reportagem, algo que ele queria fazer”, ela conta.

O professor Edvaldo Pereira Lima explica que foi possível indicar Marcão como examinador – um autodidata sem diploma universitário – porque, quando se trata de doutorado, permite-se que um dos cinco membros da banca seja pessoa de “notório saber”, desde que aprovada pelo orientador. Edvaldo sabia que seu orientador, Francisco Gaudêncio Torquato do Rego, gostava do trabalho de Marcos Faerman. Edvaldo também era velho admirador dos textos de Marcão. Conheceu-o primeiro como leitor quando, em 1971, com 20 anos de idade, fazia bicos no jornalismo para custear a faculdade de turismo. “Lia muito o Jornal da Tarde, era meu favorito. E acompanhava também a produção da imprensa nanica.”

Em 1976, na função de assessor de imprensa de uma universidade, Edvaldo organizou o 1º. Campeonato de Pipa de São Paulo no autódromo de Interlagos. E o JT destacou Marcão para fazer a matéria. Então pôde observar, em campo, como o repórter trabalhava. “Marcos era um homem grande. Eu o vi sentado no gramado, curvado, consolando com delicadeza uma criança que chorava. O menino havia perdido a pipa por deslealdade de um concorrente, que cortara seu barbante com cerol. Da conversa de Marcão com esse garoto surgiu a matéria de capa do Jornal da Tarde no dia seguinte”, lembra.

Para Edvaldo, ter Marcos Faerman em sua banca de doutorado foi uma forma de homenagear aqueles que mantiveram vivo o espírito do Jornalismo Literário, na prática, dentro nas redações. “Uma homenagem da academia não só a ele, mas a toda uma estirpe de grandes repórteres”, diz. Também em 2002, o jornalista Luís Carlos Eblak de Araújo, que havia escolhido Versus como objeto de pesquisa, defendeu a dissertação de mestrado em História Social na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, sob orientação da professora Maria Aparecida Aquino, com o título “O Versus e a imprensa alternativa: em busca da identidade latino-americana (1975-1979)”.  

O clima era de turbulência na Faculdade Cásper Líbero em meados de 1996. Alunos sem aula há semanas discutiam nos corredores, enfrentavam diretores no grito, faziam manifestações na Paulista. A turma rebelde custou a reparar na figura exótica que esperava para iniciar a aula. O novo professor era um velho de cabelos brancos e encaracolados, a barba por fazer, óculos tortos, roupa desleixada, uma pilha de papéis na mão e uma bolsa a tiracolo encardida e pesada, da qual – souberam depois – nunca se separava. Estava cheia de livros. Ele a jogou na mesa e, do alto de seus 1,90 metros de estatura, anunciou: “Com essa gritaria vocês pensam que vão fazer a revolução? Eu sou a revolução!” E, diante do espanto da classe, completou: “Minha aula só assiste quem quiser. Quem não estiver a fim, foda-se, pode sair que eu dou presença e passo de ano. Aqui só ficam os futuros jornalistas!”.

Como outras histórias na vida do Marcão, é provável que sua estréia como professor tenha outras versões – que, de tanto ser repetidas, adquirem vida própria e status de definitivas. Como sua distração ontológica, por exemplo (entortou os óculos de Rivaldo Chinem num abraço), ou o caso do livro que teria devolvido ao dono com uma fatia de mortadela marcando as páginas. (Alguns dizem que a vítima foi Rabinovitch e que o embutido não era mortadela e sim salaminho. Já Veríssimo acha que Marco Aurélio Garcia, colega de Zero Hora, é quem teria inventado a história, ao ver o Marcão atrapalhado tendo de abrir uma porta e sem saber o que fazer com um livro e um sanduíche).

Mas neste caso posso jurar que nenhuma versão passa longe da que é contada por alunos e professores da Cásper em artigos de jornais, revistas, sites na internet e na comunidade criada por fãs do “Mestre Faerman” no Orkut. Posso jurar porque esse é o Marcão que eu conheci. Posso reconhecê-lo na reunião de pauta narrada por Juliana Monachesi Ribeiro, saltando de uma idéia a outra com rapidez difícil de acompanhar, emendando o assunto ao de um livro de Camus, um conto do Borges, uma matéria da Realidade, um evento da história da Birmânia ou à Teoria do Caos. “Queria que seus repórteres enxergassem mais longe e fossem mais ousados do que a faculdade e a vida exigiam”, diz a aluna.

Ou no fechamento do  Esquinas de SP, jornal-laboratório que ele revolucionou, tanto editorialmente, publicando poesias, quadrinhos e matérias apuradas em profundidade, como ignorando prazos da gráfica até a edição atingir a perfeição buscada. Gustavo Vieira fala da caótica redação chefiada pelo mestre. “Originais manchados de gordura entre pizzas noturnas, fotos espalhadas pelas mesas das salas de aula, momentos mágicos. Criação era sua disciplina como professor voluntariamente indisciplinado. Paixão era seu saber, de que precisávamos para fugir do trágico destino de assessorias de imprensa.” Juliana Monachesi traz de volta uma noite em que editaram o Esquinas até tarde. “Já era madrugada e queríamos terminar tudo. Pois, quase de manhã, o Faerman não resolveu deitar no chão e dormir em vez de ir para casa? ‘Não vou abandonar minha equipe! Vou fazer como certos repórteres de antigamente que dormiam na redação, sentindo o trepidar das prensas’”, conta ela.

O Marcão atrapalhado, desligado, hiperativo. Comprando pilhas de jornais e revistas. Ensinando Fabio Diaz Camarneiro (como, vinte anos antes, havia ensinado a mim) a não usar gravador em entrevistas. “Escreva o que a pessoa disser... Se precisar, peça para ela repetir certos trechos... Não tenha vergonha de pedir para ela soletrar nomes ou títulos de obras...”

Sou capaz de vê-lo atravessar a Paulista entre os carros, sacudindo os ombros: “Eles que parem!!!”. E escapando de ser atropelado por um ônibus, não fosse o puxão com que o aluno João Cassino o reconduziu à calçada. “O buzu passou arregaçando, e o Marcão disse: ‘O filho da puta não parou!’”. E posso enxergá-lo nos corredores com seus passos pesados, “elegantes como os de um guerreiro”, como diz o diretor de jornalismo da Cásper na época, Marco Antonio Araújo, seguido pelos devotos, esparramando papeizinhos pelo chão. “A voz forte tonitruava citações eruditas, lembranças incríveis, histórias inventadas, projetos insanos, ternuras despejadas”, recorda ele. “Tinha defeitos maravilhosos, como não preencher diários de classe, dar notas ou organizar agendas. O cabelo despenteado, o sorriso e o abraço largos e grandalhões. Ele dava beijos em ponta de faca. E murros em máquina de escrever. Viveu como poucos suportariam – e morreu, o que parecia impossível.”

Às vezes ainda acho difícil conceber o mundo sem o Marcão. Mas é reconfortante saber que, no fim da vida, ele renasceu das cinzas e reencontrou seu brilho fazendo algo que tanto sabia: ensinar. “O contato com os estudantes rejuvenesceu seus ideais de lutar por uma causa justa, de deixar sua marca em uma nova geração, de editar um jornal-laboratório inovador. ‘Quero fazer um puta jornal, essa garotada vai aprender como ser um repórter de verdade!’ Tinha orgulho de enumerar uma dezena de alunos que já estavam trabalhando na profissão”, lembra João Marcos Rainho.

Recuperou o senso de humor. Ao mencionar fatos de sua vida, exagerava na dose e contribuía para perpetuar mitologias que alimentavam certo folclore em torno dele. A operação de catarata mal-sucedida, que resultou na perda de um olho, transformou-o no “bardo caolho”, que os alunos julgavam vitimado pela tortura no regime militar. Também teriam sido atingidas “aquelas mãos sofridas” de que fala Luciana Oncken, perguntando-se: “E as mãos castigadas, calos em todos os dedos... Seriam de tanto bater a máquina? Seriam marcas de tortura?”. Gustavo Vieira responde no Orkut: “Os dedos tortos traziam sua história. ‘Este foi quebrado pelos militares, nos porões da tortura, quando eu militava no POC – Partido Operário Comunista. POC era o som dos martelos dos proletários nas fábricas’, contava entre gargalhadas”. Vitor Vieira garante que, embora Marcão tenha sido detido durante dois meses, entre 1971-72, em razão dos vínculos com o POC, não deixou a prisão com ferimentos nem sequelas. 

Divertia-se com suas próprias histórias. Periodicamente, conta Fabio Diaz Camarneiro, brindava os alunos com uma pergunta feita em tom dionisíaco: “Alguém sabe o que é encher a cara de uísque e deitar nu no chão da cozinha, lendo Ernest Hemingway?”. Segundo Fabio, o final comportava variações: “lendo Jorge Mautner”, “lendo Rimbaud em voz alta” etc. Cobrava leitura dos alunos. Ensinava-os a criticar a tendência das notas curtas, publicadas sob a desculpa de que o leitor não tem tempo para ler. “O que o Faerman não atinava era com a idéia de que alguém não tivesse tempo para ler. Para ele, era como dizer que fulano não tem tempo para respirar, ou que outro não come há seis meses porque não deu tempo”, diz Fabio Camarneiro. 

E foram esses estudantes que formaram a maior parte do cortejo que, na manhã de 13 de fevereiro de 1999, foi velar o Mestre Faerman na sede do Sindicato dos Jornalistas do Estado de São Paulo. Era carnaval, havia muita gente viajando. O jornalista Audálio Dantas e o poeta Cláudio Willer fizeram discursos emocionados. A certa altura, alguém lembrou de colocar sobre o corpo uma camisa do Grêmio. Na noite anterior, a notícia havia atropelado Vitor Vieira na chegada ao litoral gaúcho, com as filhas e a neta, onde iam passar os feriados. Voltou a Porto Alegre para buscar Mauro – agora o único irmão sobrevivente. Não havia mais vôos disponíveis. Os dois viajaram para São Paulo de carro, na contramão do trânsito, durante 18 horas seguidas. Chegaram quando o caixão já estava baixando no crematório de Vila Alpina, para dar-lhe o último adeus.

Marcão havia pedido para ser cremado. Os judeus não enterram mortos aos sábados nem permitem a cremação. Mas o amigo e rabino Henri Sobel compareceu ao velório no Sindicato dos Jornalistas. “Estou aqui não porque morreu um judeu, mas porque morreu um homem”, disse no discurso fúnebre. Também conforme o desejo de Marcão, as cinzas foram divididas ao meio e jogadas nos dois rios de sua vida: o Tietê, em São Paulo, e o Guaíba, em Porto Alegre. “Enterrem meu coração na curva do rio”, ele costumava dizer, brincando. Nina se emociona quando lembra a cena. “Eram as cinzas de um vulcão...”

quinta-feira, junho 05, 2014

Paulo Cesar de Araújo: uma outra boa história sobre Roberto Carlos


O historiador que escreveu a biografia não autorizada do Rei lança uma obra com os bastidores do processo que proibiu sua venda

Camila Guimarães

Aos 15 anos, o baiano Paulo Cesar de Araújo deixou sua cidade natal, Vitória da Consquista. Decidira tentar a vida em São Paulo, com um irmão e sua mãe, Alzenira. De origem simples, dona Alzenira queria que seus filhos fossem algo mais do que ela. Desejava dar aos filhos melhores oportunidades de estudo e a chance de entrar numa boa faculdade. Era 23 de fevereiro de 1978, e o jovem Araújo carregava na bagagem discos, recortes de jornais e revistas com notícias sobre Roberto Carlos, seu ídolo desde criança.

Ele ainda não sabia que naquela mala estava o embrião do livro que escreveria quase 30 anos mais tarde, a biografia não autorizada Roberto Carlos em detalhes, lançada em 2006 pela editora Planeta.  Muito menos que seria processado por seu ídolo, que o acusou de má-fé e conseguiu que a Justiça, em 2007, banisse o livro das prateleiras. Alegou invasão de privacidade. Uma atitude medieval que flertou perigosamente com a censura e colocou em risco a liberdade de expressão garantida pela Constituição brasileira.

O equívoco de Roberto Carlos criou uma outra boa história para Araújo nos contar. Em O réu e o Rei – Minha história com Roberto Carlos em detalhes (Companhia das Letras), Araújo – formado em história e jornalismo – conta, em 520 páginas, a primeira vez que ouviu uma música do rei; como ela esteve presente, de forma marcante, em sua infância e sua juventude; e como, mais tarde, norteou seu trabalho de pesquisador da MPB. A narrativa mostra de que forma o mito Roberto Carlos foi criado e sustentado por milhões de fãs Brasil afora, como Araújo, de origem simples, até culminar no momento em que o grande ídolo se voltou contra o fã. “Quando Roberto proibiu o livro, ele me deu um tema que não existia. Eu precisava contar essa história”, afirma Araújo.

O destaque da obra é o capítulo em que Araújo descreve a audiência em que esteve cara a cara com o Rei, em São Paulo, em abril de 2007. Ali, Roberto Carlos afirmou: “Minha história é patrimônio meu”; “Livro é um documento, é algo que fica para sempre”; e “Ninguém pode escrever minha biografia sem minha orientação, porque ninguém melhor do que eu para contar a minha própria história”.

Ao final, depois que os advogados da Planeta aceitaram o acordo que proibia a venda do livro sem consultar Araújo, o juiz Térsio Pires tirou de uma bolsa um CD de sua autoria e o entregou a Roberto Carlos. Disse: “Também sou cantor e compositor, com o nome artístico de Thé Lopes. Gostaria muito que você ouvisse esse disco e desse sua opinião sincera.” Horas antes, durante a audiência, o juiz ameaçara fechar a editora Planeta.

Naquela mesma noite, dentro do ônibus de volta a Niterói, onde vive, Araújo passou por suas piores horas. “Só conseguia pensar que 15 anos de pesquisa, as mais de 250 entrevistas, meu livro, tudo tinha acabado. Me senti muito sozinho.”

Não poderia estar mais enganado. Logo outros escritores, como Paulo Coelho, e artistas, como Lobão, Ney Matogrosso e Rita Lee, deram opiniões públicas a favor da circulação da obra. Outros tantos defenderam Roberto, e a proibição do livro tornou-se o exemplo mais radical da discussão sobre a publicação de biografias não autorizadas no Brasil.

Os advogados de Roberto Carlos usaram como base os Artigos 20 e 21 do Código Civil. Eles exigem autorização prévia do biografado para a publicação de obras com fins comerciais a seu respeito e consideram a vida privada “inviolável”. Mas a Constituição Federal afirma: “A expressão da atividade intelectual, artística, científica e de comunicação é livre e independe de censura ou licença”.

Para fazer valer a Constituição, a Associação Nacional dos Editores de Livros (Anel) move uma ação direta no Supremo Tribunal Federal para anular os Artigos 20 e 21. O Procure Saber, movimento cuja lista de fundadores inclui o próprio Roberto Carlos (que depois abandonou o grupo), Caetano Veloso, Chico Buarque e Gilberto Gil, quer que os artistas e seus herdeiros permaneçam com o direito de impedir a publicação de biografias. Lutam ainda para que biografados ou suas famílias recebam parte do lucro obtido com a venda das obras.

A previsão é que o STF julgue a matéria ainda neste semestre. Em outro campo de batalha, a Câmara dos Deputados, um projeto de lei que libera a venda de biografias não autorizadas foi recentemente aprovado. O texto precisa agora passar pelo Senado e, em seguida, receber a sanção da Presidência da República.

Araújo diz não ter ressentimentos de seu ídolo. “Herdei isso da minha mãe. Não guardo rancor. Sei das limitações do Roberto, que não tem familiaridade com os livros. Tudo o que posso fazer é lamentar.” E escrever mais. O réu e o Rei, diz ele, “é um ato de resistência”.