sábado, agosto 08, 2015

JD quer dar uma razão de viver a um criminoso sem caráter


Valentina de Botas

Como o jeca não precisa de ninguém que não seja mais útil ao projeto pessoal travestido de causa nacional, o ex-capitão de Lula sumiu até mesmo da nota do PT. O futuro não é mais como era antigamente para José Dirceu, aquele cujo telefonema era o telefonema e que, dobrando a meta, consegue ser preso pela segunda vez por corrupção. Depois das delícias da roubalheira, lida com as dores dela: não consigo ter compaixão pelo drama pessoal de quem foi útil ao PT para imolar o país no altar das imposturas de dois presidentes ao custo de um pedaço do nosso futuro.


Com o desassombro em cometer o petrolão enquanto era julgado pelo mensalão – já um escárnio com o país –, JD aprofundou-se nos crimes por opção e, agora, milhares de brasileiros vivem dramas pessoais consequentes a ela. Convicto da própria inocência, o condenado pelo STF avisou: “minha sede de justiça será minha razão de viver”. Se ao paranoico, toda sutileza é um pleonasmo; aos sonsos, todo pleonasmo sempre será sutil; aos cínicos, a verdade só se impõe quando lhes interessa; aos lúcidos e honestos em seus propósitos, a verdade se revigora na repetição.

Por isso também, há seis anos esta coluna repete, numa luxuosa lavoura arcaica incansável, a verdade sobre José Dirceu. O risco inerente à repetição é tornar a coisa familiar, promovendo a conciliação com o irreconciliável. A coluna não sucumbe a ele porque segue a lição de José de Alencar: só a ignorância aceita e só a indiferença tolera o reinado da mediocridade. Assim, flagra JD encurralado pela escolha entre o até ontem útil ele mesmo e o personagem de si, já descartado.

O guerrilheiro que não guerrilhou; o lojista que só descobriu balcão na Casa Civil; o stalinista que não realizou o sonho totalitário; o deputado que não concluiu o mandato; o ministro interrompido; o sucessor abortado de Lula; o líder que não mobilizou as massas; aos 60 e poucos anos, esse farsante de si mesmo tem a chance de finalizar uma identidade e mitigar a tal sede de justiça contando o que só um capitão sabe. Ser perfecto, então, a escolha realizaria a tal razão de viver.

Mas tem essa história de o diabo morar nos detalhes e tal, conforme John Adams ensinou: a fala é de Samuel Wainer. Bater a carteira de uma expressão é moleza para quem esbulhou um país, mas tudo o que JD carregará, insistindo no silêncio culpado, é uma carga vazia de significado. Ora, Wainer assumiu pecados, assenhorou-se dos próprios erros, admitiu deslizes nada honrosos atribuindo um caráter ao pecador que foi; JD quer dar uma razão de viver a um criminoso sem caráter.


Todos procuramos uma razão de viver, muitos morrem tentando; a de JD pela inocência não é nem possível nem impossível: é fictícia. Combina com o personagem, mas, olha o diabo aí, a esse não é cobrado provar nada e ao outro, o real, é inútil tentar. A realidade não precisa fazer sentido, só a ficção; JD empreste o sentido que quiser a essa ficção debochada; a realidade não se importa. Nem Lula.

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