sábado, agosto 01, 2015

Por que parei de escrever


Vlady Oliver

Eu me sinto exatamente como aquele morador do morro entre duas quadrilhas, ambas trocando chumbo grosso pelo controle do tráfico no local. Tudo o que eu quero é acordar, ir pro meu trabalho e voltar em paz. Na minha porta não tem esgoto, não tem saúde, não tem escola nem poder público. Mas sobram balas perdidas e corpos amontoados por todos os cantos. O “Brasil político” que conheço é dividido em duas facções complementares, que se interseccionam e se inter-relacionam, numa frenética troca de interesses espúrios.

Temos os “sócio-comunistas” – que inventaram o Foro de São Paulo, a Pátria Grande e outras empulhações transnacionais, com o único intuito de detonar os cofres públicos e drenar dinheiro para as suas organizações paraestatais – e os “políticos da forma geral”; ladrõezinhos velhos e conhecidos da galera, cujas intenções passam mesmo é pelos pequenos roubos e desvios de conduta sem maiores consequências. É claro que quem quer ser equidistante dessas duas facções não tem amigos.

Já quem toma partido de uma delas ou está quase perdendo ou quase ganhando a batalha, no momento. Nesse caldo, é possível pensar que “assim que defenestrarmos essa quadrilha ora no poder, voltaremos ao paraíso”. Pois eu digo que vivemos num inferno e assim que essa quadrilha atual for defenestrada, entraremos num novo inferno. Ou no inferno velho de sempre; como quiserem. Simples assim.

Os milhões de indignados que saem às ruas têm representatividade zero. Os que assumem posições equidistantes das quadrilhas na blogosfera – e atiram para todos os lados – já contabilizam 30 milhões de órfãos, juntos e misturados na sensação de que o Brasil é uma soma nula; um resultado vergonhoso de tudo o que está aí. Já aqueles que se comprometem com as “forças atuais” ou com o “progressismo” nem sabem mais em quem atiram, furando o bote inflável no tiroteio e afundando com uma nação picareta.

Juntas e misturadas no poder, as duas quadrilhas parecem uma só, professando os mesmos desatinos, só buscando formas originais de fazê-lo. É nessa toada que temos um patrulhamento em nossa própria goma. Pessoas que não se furtam a usar o mais torpe dos argumentos, que é o de matar o mensageiro pela mensagem transmitida, sempre fingindo elegância, bons modos e as melhores das intenções.

São pessoas que querem doutrinar o que querem ler, para não enfrentar a própria natureza mesquinha de suas certezas edulcoradas e verdades mancas. É nesse palco de atuações comezinhas que os “profissionais da área” comemoram os nervos de aço de sempre, para terem que aturar tamanho estado de putrefação contaminando suas carreiras e mesmo assim terem que ver com lentes rosinha-bebê tudo o que estão vendo, ouvindo e fingindo acreditar.

Augusto Nunes, para mim, é o melhor jornalista brasileiro. O mais ponderado. Aquele que sabe dosar o bom texto com o soco no estômago. Generoso como sempre, permite que me expresse aqui com imensa liberdade de fazê-lo. Nenhum outro espaço da blogosfera tem esse praticável montado à disposição de seus aprendizes. É claro que isso é valioso. Ambicioso que não sou, no entanto, trocaria tudo isso que escrevi por aqui até hoje por um país que presta.

Acho que seria uma troca justa e mais que desejada. Sumiria das prateleiras feliz com meus impropérios, achando que eles realmente surtiram algum efeito prático nessa nação vigarista. Acho que meu mestre e amigo entenderia o meu sacrifício. O Nirvana, no entanto, é logo ali. Kurt Cobain que o diga.

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