sábado, outubro 31, 2015

Moacir Andrade: paixão perene pela cultura amazônica (3)


Em 1960, Moacir Andrade participa do Concurso Probel de Pinturas, no Museu da Arte Moderna (MAM), em São Paulo, e do 1º Salão de Arte Moderna de Manaus. Na sequência, realiza mais duas exposições individuais, uma no hall da Biblioteca Pública, e outra na Escola Técnica Federal de Manaus.

No ano seguinte, Moacir Andrade mostra seu trabalho para os gaúchos, por meio de uma mostra individual na Galeria Casa das Molduras, em Porto Alegre (RS), depois participa do 1º Salão de Artes Plásticas da Universidade Federal do Pará, em Belém (PA), e faz uma nova mostra individual no Rio de Janeiro.

O poeta e compositor Vinícius de Moraes, que marcou presença no evento, publicou suas impressões no jornal O Globo:

Por ser um dos grandes pintores vivos e ter alcançado a glória que apenas alguns artistas só conseguiram após a sua morte, Moacir Andrade não toma conhecimento de sua importância no cenário nacional. Frequentando os bares da cidade em companhia de intelectuais e artistas seus amigos, onde oferece à mesa posta toda a ternura de seu humanismo, escrevendo poemas e rascunhos para futuros quadros, Moacir Andrade se confunde com a simplicidade da gente de Manaus onde nasceu e vive até hoje. Moacir Andrade é desses gênios perdidos e raros como o cometa de Halley, que aparece de tempos em tempos, marcando indelével e universalmente a sua presença luminosa.

Sua obra cheia de grandeza, hipnotismo estético e muita poesia, desperta, cria, sacode, revoluciona, enlouquece, prende e emociona até a estesia. De uma beleza incomparável e uma harmonia e equilíbrio que alcança o mais profundo da sensibilidade, gera a verdadeira empatia e prende o observador provocando ternura, quase paixão pela sua obra.

Seus peixes, suas iaras, suas boiúnas, seus espíritos do fundo, seus caboclos remadores, seus pescadores, suas lavadeiras, são cheios de magia e mistério que se misturam e se galvanizam numa alquimia de cores, de formas e de movimentos, resultando daí um verdadeiro universo de poesia, ambas pertencendo a um só binômio, cuja dimensão se confunde com o horizonte da palavra e do sonho, poderosos instrumentos de comunicação e de amor, recriados cada vez que o artista se propõe a viajar o espaço infinito de sua privilegiada imaginação com toda a carga da sua grandeza espiritual, penetrando o interior do seu universo fabuloso e realizando a sua obra maravilhosa.


Em uma das viagens que fez ao Rio de Janeiro, Moacir Andrade conheceu o jornalista, escritor e diplomata Leandro Tocantins. Nascido em Rio Branco, no então Território Federal do Acre, Leandro Tocantins realizou os estudos elementares na cidade natal e depois se mudou para o Rio de Janeiro, onde se formou em Direito, ingressou no Itamarati e, depois, se transformou em um dos maiores amazonólogos do Brasil. Os dois se tornaram amigos íntimos.

Autor do seminal livro “O Rio comanda a vida”, Leandro Tocantins convidou Moacir Andrade para ser uma espécie de “embaixador cultural itinerante” do país, proferindo palestras e mostras individuais custeadas pelas embaixadas brasileiras.

Na exposição de motivos que enviou ao Ministério de Relações Exteriores, o escritor acreano anotou o seguinte:

Esse gigante de quase dois metros de altura, forte, agitado, falador, brincalhão, gozador, irreverente, é, no entanto, um dos mais importantes artistas plásticos do Brasil. Espírito dinâmico e criativo, vive inventando coisas e promovendo movimentos em favor da preservação do meio ambiente. Ele foi o primeiro brasileiro a levantar a opinião pública contra os devastadores das nossas florestas, desfilando como homem sanduíche pelas principais ruas da capital amazonense, verberando contra os predadores da natureza. Isso aconteceu em 1942, em plena ditadura do presidente Getúlio Vargas. Por isso, quase foi expulso do Liceu Industrial de Manaus, onde estava estudando como aluno interno.

Escritor, antropólogo, jornalista, pesquisador de nossas origens, trabalhador incansável em defesa das crianças abandonadas, Moacir Andrade tornou-se uma lenda na consciência do povo amazonense. Não conheço ninguém que tenha produzido livros e obras de arte das mais variadas, e nem sei de um artista tão profundamente dedicado às coisas mais fundamentais da Amazônia brasileira. Seus livros, não menos importante na sua obra polimorfa, são disputados pelas universidades e colégios secundários, que leem e se abeberam de seu conteúdo indispensável. Como pintor, Moacir Andrade, em suas primeiras manifestações acontecidas na década de 1930, deu-nos uma mostra evidente de beleza e esplendor de sua alma generosa.

Seus traços, já cheios de uma grandeza à flor da pele, falam a todas as consciências das raças. Aquela nostalgia, sempre corrigida por uma constante exaltação às mais belas formas daquela natureza selvática e misteriosa, é um dos traços da inteligência e da sensibilidade desse artista que já nasceu pronto. Seu processo criativo impressiona pela singularidade e limpidez de estilo. Criar termos elogiosos à obra desse gênio não são suficientes para traduzir toda a grandeza de que a natureza o dotou. Outros, com mais autoridade e notoriedade, certamente falaram de Moacir Andrade, da sua majestade, da emoção de sua eloquência no trato com as cores, das suas virtudes públicas e privadas e das suas glórias conquistadas nos salões das exposições, na literatura e na imprensa.

Estudando o evangelista da sensibilidade e o apostolado do artista, há de confundir-se com a história da República, desde quando ela era apenas uma fórmula lógica da liberdade. Como jornalista, Moacir Andrade não foi menor do que nenhum dos colegas que exercitam sua profissão nos jornais de Manaus. Na sua simplicidade de caboclo interiorano, jamais saiu de sua boca uma palavra sequer de elogio próprio ou de sua obra. Escreveu em todos os jornais de Manaus, ao tempo de sua juventude, sendo amplamente lido não só pela sociedade dita letrada, mas pelo proletariado, a quem diz pertencer.

Como todos os verdadeiros gênios, Moacir Andrade trouxe do berço a sua lira fecunda, o seu instrumento maior de criatividade. O tempo não lhe dará senão maior intensidade à emotividade criadora, alargando-lhe a visão interior que produz a ideação das imagens. As suas obras são assim, perfeitas, até à magia do êxtase. Seus quadros são tão perfeitos na linguagem contemporânea que chegam ao absurdo estético. Não há neles nenhum deslize cromático outonal, uma só ofensa às leis do bom gosto. Talhados numa linguagem pura, divina, macia, cantante, vaporosa e verde, de um verde extremamente verde, eles tudo exprimem e retratam magnificamente o universo residente no cerne de seu subconsciente miraculoso, seguindo, com admirável plasticidade e nudez, as curvas caprichosas da inspiração.

Moacir Andrade quer descrever a natureza agreste, brutal, convulsiva, na sua agressividade selvagem dessa cordilheira de pilosidade íngreme e inabitável, como se fossem joias impalpáveis que enfeixadas em livros dariam uma enciclopédia. Moacir Andrade, nome hoje inserido no pódio dos campeões da cultura nacional, é um nome de importância na história moderna da cultura surgida a partir da década de 50, com o aparecimento do chamado Movimento Madrugada que deu aos amazonenses e ao Brasil muitos nomes hoje consagrados.


Em 1964, Moacir viajou para o Rio de Janeiro onde cursou museologia na Faculdade de Ciências Humanas da Universidade Federal do Rio de Janeiro e pós-graduação em Matemática na mesma universidade. No mesmo ano, realizou exposições individuais na Galeria do Hotel Nacional, em Brasília (DF), na Galeria Belvedere de Sá, em Salvador (BA), e participou da 2ª Feira de Artes Plásticas de Manaus.

No ano seguinte, ele realizou sua primeira exposição individual em Recife (PE). O antropólogo Gilberto Freyre ficou tão empolgado com a exposição que publicou um pequeno texto no Diário de Pernambuco intitulado “Moacir Andrade, pintor do trópico anfíbio”:

Não há escritor que não se ufane de ter, alguma vez, ou mais de uma vez, criado novas expressões para a caracterização da velha realidade. Confesso esta minha vaidade para dizer que uma dessas criações é “trópico anfíbio”.

Com a expressão “trópico anfíbio”, procuro caracterizar principalmente a Amazônia brasileira, sem dúvida, a mais grandiosa expressão dessa espécie do trópico. Espécie de trópico que teve em Euclydes da Cunha o seu apologista máximo em língua literária. São páginas, as suas, sobre a Amazônia, que rivalizam com as que o imortalizaram como intérprete de paisagem e gentes dos sertões.

Pois é esse o trópico a que venho chamando de anfíbio – e do qual a Amazônia brasileira é tão vigorosa expressão – que encontrou em Moacir Andrade quem, como pintor, lhe interpretasse alguns dos significativos encantos de forma e de cor. Interpretação que continua a processar-se, pois a identificação de Moacir Andrade com a sua e nossa Amazônia é das que vão além de tempos cronológicos: necessita de ir a todos os extremos daquilo que os especialistas em classificar tempos chamam “duração”. Não representa uma fase na sua arte, mas a realização contínua de uma vocação quase religiosa.

É como se Moacir tivesse nascido brasileiro e se tornado pintor para cumprir um voto: o de interpretar a Amazônia brasileira como a expressão do trópico anfíbio, como terra, como mata, como verde, como céu, como azul e também como água. Água que vive a confundir-se com a terra.

Um pintor assim de sua região é um pintor como que monogâmico. Fiel a um imenso e exclusivo amor amazônico. Teluricamente amazônico. Brasileiramente amazônico.

De modo que à proporção que a Amazônia se torna, como está se tornando, mais brasileira, Moacir é parte desse processo para o qual vem concorrendo, pois não é só através da ciência, da engenharia, da economia, da política, que se nacionaliza em profundidade uma região ou uma área: também através da arte.

Em 1966, Moacir Andrade ingressou na Faculdade de Ciências Econômicas da Universidade Federal do Amazonas – onde concluiu o curso de Administração de Empresas em 1970 – e realizou sua primeira exposição individual em Fortaleza (CE). Ele também foi o convidado especial de uma Feira de Cultura Amazônica, em Belém (PA), pela celebração do 350º aniversário da cidade.

Por ocasião do evento, o escritor João Guimarães Rosa escreveu um texto intitulado “Ciclopicamente Moacir”, em que analisa o trabalho do artista plástico:

Moacir Andrade apropriou-se sem piedade de todos os personagens vivos e espirituais que habitam a portentosa Amazônia de muitos mistérios, muitos fantasmas, muitos seres ciclópicos, entes que pululam no vasto cenário verde, que desde o seu nascimento, em 1927, hipnotizaram-no a ponto de pô-lo fora da órbita terrestre. Moacir Andrade não habita entre nós, posto que é um espírito encarnado em mil formas de vida e de ternura, que ele sabe transferir através das cores que, guiado pelos gnomos e devos, seus irmãos, sabe como um gênio que é materializar-se em suas joias que espalha como um ciclope benfazejo em todas as partes do mundo.

Moacir Andrade exorciza, com seu bisturi estético, todo o encanto, todo o cerne divinal que ainda permanece escondido nas profundezas ancestrais da etnia amazônica e esculpe em cores e forma esse panorama feito com todos os retalhos de sua pesquisa incansável. A inconsutibilidade de seus gestos singulares o fizeram esculpir do nada as obras que certamente ficarão eternas, como eterno ficará o seu nome e a beleza de sua personalidade marcante.

Moacir Andrade submete, em disciplinados espaços de arte, galos de tapeçarias, cintilações de mosaicos e magia de presépios, os paroxismos de seu diluviano zoorama, feérico de fauna, peixes leviatãs, dragões, harpias, perlados de fria espuma e de recordações oníricas, a luz de um amarelo a um tempo telúrico e transcendente, apanha assim em terna ronda a vida do grande rio e grava nos olhos de xerimbabos abissais a desmesurada selva, a cósmica, calada essência da Amazônia.

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