sábado, outubro 24, 2015

Thiago de Mello: poesia a serviço da vida (1)


Thiago de Mello é o nome literário de Amadeu Thiago de Mello, filho de Pedro Thiago de Mello e de Maria Mitoso de Mello, nascido a 30 de março de 1926, na zona rural de Barreirinha, cidade fincada à margem direita do Paraná do Ramos, o braço mais sinuoso e extenso do Rio Amazonas. Em 1931, Thiago muda-se com a família para Manaus, onde iniciou seus primeiros estudos no Grupo Escolar José Paranaguá e depois no Ginásio Amazonense Pedro II (atual Colégio Estadual do Amazonas). Em 1941, mudou-se com a família para o Rio de Janeiro, onde concluiu o segundo grau no Colégio Batista do Rio de Janeiro, ingressando posteriormente na Faculdade Nacional de Medicina, em 1946. Sua vocação literária, seu gosto pela leitura e sua intransigente peleja em defesa dos direitos humanos surgiram quase que naturalmente ainda na infância. É o próprio Thiago que conta:

“O que faz o homem é sua infância, não é? Tive uma infância maravilhosa, de menino pobre. Nasci no coração da floresta, num lugar chamado Bom Socorro, terra do meu avô Gaudêncio, em Barreirinha. Avô que me escreveu uma carta, pelos meus nove anos, dizendo que eu estudasse com vontade, porque ele queria que eu fosse um homem de bem. Estudar, estudo até hoje, cada dia mais. Ser um homem de bem é que não é fácil, dá um trabalho danado, neste mundo de maldade e ilusão, como o Caymmi canta.

Morava na beira do rio. Convivendo com as águas, a mata, aprendendo a lição dos pássaros, das estrelas. Aprendi a nadar antes de andar. Minha mãe e meu pai eram filhos de camponeses. Meu pai estudou em Manaus e a sua preocupação maior na vida foi educar os filhos. Com cinco anos fui para a capital, onde fiz o primário e o secundário. Minha professora, dona Aurélia, me plantou, de menino, o gosto de ler. Dava aula de leitura todo sábado, na casa dela. Eu não perdia uma. Ela cativava com a verdade: curso primário bem feito é meio caminho andado para a vida e ninguém se faz gente de valor sem leitura. Tirei nota 10 na prova de leitura de “Um Apólogo”, aquele da linha e da agulha, do Machado de Assis, que durou quatro sábados. Depois de ler e reler em voz alta, a gente tinha de dizer qual das duas era a principal personagem do texto. Fiquei do lado da agulha.

Minha iniciação nos direitos e deveres humanos se fez com a educação dos bons costumes e do respeito aos outros, que meus pais e meus professores me deram. Quando deixei Manaus, para estudar no Rio de Janeiro, já levava abertas as principais vertentes da minha vida, que me guiam até hoje. Já sabia que o amor era possível, que o homem é capaz de criar a beleza com a arte. E, ai de mim, tão cedo já aprendera a existência da injustiça social, da desigualdade perversa, do abismo infame que separa pobres miseráveis de opulentos poderosos.

Essa consciência já veio da infância e da adolescência... Menino, fui um bom empinador de papagaio. Até hoje empino. É uma paixão. Até escrevi um livro, Arte e Ciência de Empinar Papagaio. Não chego a ser um famão, mas sei flechar contra o vento. Tem muito a ver com a arte de escrever. E com os Direitos Humanos também. Pede muito respeito. Quem tem linha com cerol (cola com vidro moído) não trança o empinador de linha limpa. Deslealdade. Aprendi com o Modestino, operário de uma serraria de madeira em Manaus, num alto barranco do rio Negro.

Ao lado da serraria ficava o grande sobrado do dono, com azulejos portugueses, do tempo da borracha. Modestino morava numa estância, grupo de casebres na beira do rio. Ele levava para o trabalho sua comidinha, peixe frito com farinha. O filho do dono da serraria era meu colega no grupo escolar e mais de uma vez fui à casa dele. Eu perguntava a minha mãe por que o dono da serraria era tão rico, comia tartarugada, e o Modestino, filho de uma lavadeira, que dava duro na serra elétrica, tinha de levar o almoço dele numa lata. Minha mãe, dona Maria, respondia que eu ia saber a razão dessa diferença depois, quando crescesse, o mundo estava cheio daquilo, que ela sabia bem o que era. O poder dessas vertentes eu devo muito a minha infância. Aprendi muito cedo sobre essa coisa chamada ética, que é a essência dos direitos humanos.”

Durante as férias universitárias passadas em Manaus, Thiago de Mello iniciou uma fecunda convivência com vários jovens locais e tomou conhecimento dos poemas de Luiz Bacellar, Jorge Tufic e Farias de Carvalho, cuja arte poética lhe comove até hoje. Talvez tenha sido por causa dessa identificação com os poetas manauaras que Thiago de Mello rejeitou o conselho dado por Carlos Drummond de Andrade, logo ao conhecê-lo, em 1948, no Ministério da Educação, quando expressou sua vontade de abandonar o curso universitário e se dedicar à carreira literária. “Não faça isso, ninguém vive de poesia no Brasil”, reagiu o poeta mineiro. Sentindo-se cada vez mais fiel à literatura, Thiago abandonou o curso de Medicina no quinto ano para dedicar-se ao seu sonho: viver exclusivamente de seus escritos.


Em 1951, junto com o poeta Geir Campos (foto), Thiago de Mello fundou a editora Hipocampo, por onde lançou o seu primeiro livro “Silêncio e Palavra”, e o segundo de Geir, “Arquipélago”. Poeta, dramaturgo, tradutor, editor, jornalista, ensaísta, contista e autor de literatura infantil e juvenil, Geir Campos nasceu no dia 24 de fevereiro de 1924, em São José do Calçado (ES), e faleceu no dia 8 de maio de 1999, em Niterói (RJ). Ele iniciou sua carreira de escritor nos anos 1940, divulgando na imprensa contos e poemas originais e traduzidos, ao mesmo tempo em que trabalhava como piloto da Marinha Mercante. Seu primeiro livro de poemas, “Rosa dos Rumos”, foi publicado em 1950. Como tradutor, publicou obras de Franz Kafka, Bertolt Brecht, Rainer Maria Rilke, Herman  Hesse, Walt Whitman, William Shakespeare e Sófocles.

Em dois anos, a pequena Hipocampo publicou 20 obras, incluindo Drummond, Manuel Bandeira, Cecília Meireles, Jorge de Lima e o primeiro livro de Paulo Mendes Campos, “A Palavra Escrita”. Eram edições artesanais, distribuídas aos 100 assinantes do selo, em que as folhas soltas eram “envelopadas” dentro das capas. Esse aspecto desagradava o escritor Rubem Braga, que mandava costurar seus exemplares. Dos tempos heroicos à frente da Hipocampo, Thiago guarda uma história curiosa envolvendo o renitente inventor de neologismos Guimarães Rosa, que lançou pelo selo “Com o Vaqueiro Mariano” (1952). Ao regressar da tipografia, em Niterói, Thiago avisou a Rosa que estava tudo rodado. “Não me diga essa desgraça!”, dramatizou o escritor mineiro, sob a luz de um lampião de Copacabana. “Eu pago seus custos, os papéis, as tintas, mas preciso trocar um verbo! O pelo da vaca banhado de lua não reluz, obluz! Ele obluz, poeta!” A edição do livro teve de ser refeita para encaixar mais um verbo inventado pelo autor de “Grandes Sertões: Veredas”.


Em 1952, Thiago foi batizado definitivamente como poeta a partir de uma crítica do influente Álvaro Lins (foto), que assinava um importante rodapé literário no Correio da Manhã. Seu livro de estreia, “Silêncio e Palavra”, de 1951, o vinculou à Geração de 45, a mesma de Lêdo Ivo e João Cabral de Melo Neto, e encantou o crítico: “Poetas principais de nossa literatura moderna: estou tentado a pedir-vos um lugar, ao vosso lado, para o poeta de Silêncio e Palavra. Com 26 anos e um só livro publicado, o Sr. Thiago de Mello bem demonstra, todavia, que já se acha em condições de situar-se na primeira linha da nossa poesia contemporânea”. No mesmo ano nascia seu primogênito, Alexandre Manuel, que além do sangue índio do pai herdaria também o sangue grego da mãe, a jornalista Pomona Politis, primeira mulher do poeta.

Impulsionado pela generosa acolhida do mais importante crítico literário da época, Thiago de Mello mergulhou de vez na carreira literária. Por meio do escritor José Lins do Rego, soube que o editor José Olympio queria um livro novo de sua autoria para publicar. O escritor Rubem Braga o chamou para ser repórter do jornal O Comício. O empresário Paulo Bittencourt o convidou para ser colaborador efetivo do suplemento literário do jornal Correio da Manhã. O jornalista Roberto Marinho o convidou para ser cronista do jornal O Globo. Naqueles tempos, o jornalismo pagava dignamente a colaboração literária, fosse poema, conto ou ensaio, e não havia exigência de exclusividade. Um jornalista podia colaborar com vários jornais diferentes ao mesmo tempo. Tendo encontrado trabalho que lhe garantiam o chamado meio de vida, o poeta amazonense não se fez de rogado e lançou “Narciso Cego”, em 1952.


Escritor, crítico de arte, sociólogo, professor, tradutor e pintor, Sérgio Milliet da Costa e Silva (foto) nasceu no dia 20 de setembro de 1898, em São Paulo (SP) e faleceu no dia 9 de novembro de 1966. Ele fez os estudos primários e secundários na capital paulista e o curso universitário de ciências econômicas e sociais em Genebra e em Berna, na Suíça, onde publicou dois livros de poesia: “Par le Sentir”, em 1917, e “Le Départ Sur la Pluie”, em 1919. De volta ao Brasil, em 1920, participou ativamente da Semana de Arte Moderna de 1922. Voltou à Europa em 1923, para viver em Paris. Colaborou nas revistas brasileiras Klaxon, Terra Roxa, Ariel e Revista do Brasil, promoveu a divulgação de textos estrangeiros no Brasil e ao mesmo tempo traduziu poemas de autores modernistas brasileiros para publicação na revista Lumière.

Voltou ao Brasil, para não mais sair, em 1925. Nesse mesmo ano, fundou a revista Cultura, em sociedade com Oswald de Andrade e Afonso Schmidt. Em 1935, passou a integrar o grupo de intelectuais formado, entre outros, por Paulo Duarte, Mário de Andrade, Rubem Borba de Morais e Tácito de Almeida, que idealizam a criação do Departamento de Cultura da Prefeitura de São Paulo. Foi nomeado chefe da Divisão de Documentação Histórica e Social desse departamento. Além de professor e secretário da Escola de Sociologia e Política de São Paulo, Sérgio Milliet escreveu regularmente sobre literatura e arte para o jornal O Estado de S. Paulo. Um desses textos, intitulado “... é um poeta de verdade e tem o que dizer”, foi publicado no jornal paulista no dia 20 de julho de 1952:

Thiago de Mello, poeta da geração de 45, e cujo primeiro livro (Silêncio e Palavra) despertou a curiosidade da crítica tão displicente do Brasil acaba de publicar Narciso Cego, em que suas qualidades de artesão e pensador se exibem ainda melhor. É preciso agora ponderar a produção desse jovem com o mesmo cuidado com que se analisa a dos mais acatados poetas da geração modernista. Porque Thiago de Mello é um poeta de verdade e, coisa rara no momento, tem o que dizer. Mais do que o que cantar, pois tudo nele, sensibilidade e inteligência, visa antes à penetração e à descoberta profunda que o arrebatado entusiasmo ou a expressão nostálgica. E, no entanto, não falta lirismo a esse moço tão preocupado com idéias gerais, a esse moço que poderia colocar em epígrafe no seu volume de versos o “que sais-je” de Montaigne. Sobre si mesmo debruça-se o poeta. Sabe que se desconhece, que passeia em torno de si, mas não se freqüenta: “Pelas minhas cercanias / passeio – não me freqüento”.

Em outro poema nos confessa que o “vocábulo puro esquiva-se” a seu jugo. Isso significaria, por um lado, a desconfiança de quem pensa no poder expressivo da palavra, isso significaria uma inquietação quase angustiada diante do mistério que não conseguimos comunicar embora o sintamos por vezes desvendado. Mas a elucidação do pensamento de Thiago de Mello parece encontrar-se pouco adiante nestes dois versos, espécies de compromisso de que jamais se deixará arrastar pela lógica estéril dos tratados de filosofia: “... a palavra da boca é inútil / se o sopro não lhe vem do coração”. Serena e triste afirmação de um fundo romântico sadio, simpático, representante de uma época que procura esconder, se não negar, sob a magia da forma, a necessidade poética da mensagem.

Essa impassibilidade, ou melhor, esse pudor, felizmente não domina por completo os mais dotados entre os jovens. Não vão todos eles até a secura, embora se esquivem tenazmente ao canto lírico, assustados talvez com o possível dó de peito. Thiago de Mello como que se desculpa de se entregar, conquanto discretamente, à emoção. Se não consegue pairar sempre nas altas regiões do pensamento puro, é por que: “Artesãos negligentes esqueceram / em nós leves resquícios de matéria”. Em verdade, a hora trágica, absurda, estóica que nos cumpre viver, torna um pouco piegas os romances amorosos, as elegias de outras eras. Mas o verdadeiro poeta não deve ignorar o coração humano, a alma, em que pese a vulgaridade da palavra. Deve descobrir novas formas para dizer as coisas necessárias de sempre.

Trilhando os caminhos da poesia filosófica, sem desprezar, no entanto, a riqueza emotiva pessoal, Thiago de Mello mostra que não carece de coragem para se conservar autêntico e, ao mesmo tempo, provar haver mais de uma solução original fora do puro malabarismo técnico. Por isso eu leio com alegria este segundo volume de sua obra apenas em início. E digo que se trata de um belo poeta, de um poeta de verdade.


Sociólogo, antropólogo e escritor, Gilberto Freyre (foto) nasceu no Recife (PE), no dia 15 de março de 1900, e faleceu em 18 de julho de 1987, na capital pernambucana. Filho do professor e juiz de direito Alfredo Freyre e de Francisca de Mello Freyre, ele estudou o primário e o secundário no Colégio Americano Gilreath, no Recife, onde participou ativamente da sua sociedade literária, sendo redator-chefe do jornal O Lábaro, editado por aquela instituição de ensino.

Em 1918, Gilberto Freyre viajou para os Estados Unidos, onde fez seus estudos universitários: bacharelado em Artes Liberais, com especialização em Ciências Políticas e Sociais, na Universidade de Baylor e mestrado e doutorado em Ciências Políticas, Jurídicas e Sociais, na Universidade de Columbia, onde defendeu a tese “Vida social no Brasil em meados do século XIX”. Viajou para vários países europeus, retornando ao Brasil, em 1923, preferindo continuar morando na sua terra natal, o Recife, em vez de residir no sul do País.

Em 1933, publicou seu livro mais conhecido “Casa-grande & Senzala”, considerada a obra mais representativa sobre a formação da sociedade brasileira. Foi eleito deputado federal constituinte, em 1946, tendo sido o autor do projeto que criou o Instituto Joaquim Nabuco de Pesquisas Sociais, hoje Fundação Joaquim Nabuco. Além de sociólogo, antropólogo e escritor, foi também pintor e jornalista. Dirigiu os jornais recifenses A Província e o Diário de Pernambuco e colaborou regularmente com a revista O Cruzeiro, do Rio de Janeiro. Na revista semanal carioca, Gilberto Freyre publicou um texto intitulado “A Poesia de Um Mestre”, onde também manifestava sua admiração pelo poeta de Barreirinha:

O poeta Thiago de Mello toma tão de assalto o seu lugar entre os melhores poetas do Brasil, que parece um salteador ou um ladrão. Mas é simplesmente um poeta que fez o seu aprendizado em silêncio. Que guardou seus cadernos de caligrafia em vez de publicá-los. Que decidiu só aparecer com a letra já segura de um mestre.

Um jovem e admirável mestre é o que ele é. Seus versos têm um viço de mocidade que não se deixa dominar de todo pela arte do tropical raro, desdenhoso de vitórias fáceis. Mas é uma mocidade concentrada e não derramada. Autocrítica e não encantada com todos os seus gestos, todas as suas palavras, todos os seus atrevimentos de idéia e de forma: complacência que caracteriza o mau narcisismo.

O poeta Thiago dá aos poetas novos do Brasil um bom exemplo que é o de não ser complacente consigo mesmo. O de só aparecer com versos que excedam o fácil lirismo de que é capaz quase todo moço, quase todo adolescente, quase todo brasileiro, em estado de efervescência sentimental.

Sua poesia excede de tal modo esse fácil lirismo que é a poesia de um mestre e não a de um principiante indeciso e cheio de dedos. Há nela uma segurança, uma força, um domínio sobre a palavra que não se confunde entretanto com a segurança ou a força ou o domínio sobre as palavras, dos lógicos. Seu grande poder é o poético.

Daí o mistério em que se alongam, em seus versos, palavras que tomam um novo sentido, nova cor, nova vibração, ao lado daquelas que, por convenção ou rotina, são suas inimigas. O poeta aproxima-as com uma audácia lírica de que resultam novas e fortes sugestões poéticas, novos e provocantes mistérios para a imaginação, novas aventuras para os olhos e ouvidos de quem lê em voz alta versos que chegam a ser poucos brasileiros pela sua densidade e concentração.

O romancista Carlos Heitor Cony, amigo do poeta há mais de 60 anos, conta que Thiago de Mello assemelhava-se a “um personagem de Proust no Rio de Janeiro”. “Vestia-se elegante, com ternos bem cortados. Era cronista do jornal O Globo, publicava poemas no Correio da Manhã, assinava reportagens em O Comício e era um dos editados do prestigiado José Olympio”, recorda ele, que até hoje conversa semanalmente com o poeta por telefone.



No Rio de Janeiro, Thiago tornou-se íntimo também do romancista José Lins do Rego (foto) e do poeta Manuel Bandeira. Sempre a chama-lo de “De Mello”, Zé Lins fez dele quase um irmão mais novo. Em 1957, nos últimos três meses de vida do autor de “Menino de Engenho”, o poeta assumiu o posto de acompanhante de quarto no hospital. 

Thiago diz que Zé Lins pressentia a morte e queria conversar, conversar muito, conversar o tempo todo. Gostava de falar de seu tempo de menino de engenho. Quando via que Thiago dormia, dizia em voz alta: “Como dorme esse sacana do De Mello!”. A morte do escritor resultou no pungente poema “Pranto por José Lins do Rêgo Cavalcanti”, incluído no livro “Toadas de Cambaio”.

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