terça-feira, dezembro 29, 2015

A vida secreta de Ernest Hemingway (21/JUL/1899 – 02/JUL/1961)


Ernest Hemingway passou mais de trinta anos sob os holofotes como a principal celebridade literária dos Estados Unidos. Sobreviveu a cinco guerras, quatro acidentes de automóveis e dois desastres de avião. Escreveu sobre si mesmo, e sobre as próprias experiências, mais do que qualquer outro autor da sua época. Ainda assim, os biógrafos continuam batalhando para entender este homem sobre quem o escritor Morley Callaghan certa vez observou: “Nunca sabemos com certeza se ele está falando a verdade ou se está sendo seduzido pela sua imaginação a acreditar nas lendas que criou para si mesmo”.

Mas algumas coisas sabemos ao certo: ele nasceu em 1899, em Oak Park, lllinois. Quando criança, rebelou-se contra a mãe neurótica – que o mandava para aulas de dança e fez o possível para lhe tirar a masculinidade – adotando uma fachada máscula que foi expressada durante toda sua vida através da paixão pela caça, pesca e atividades físicas. Foi contaminado com o vírus da literatura no colegial e desenvolveu seu estilo assertivo, que se tornou a sua marca registrada, quando trabalhou como “foca” no jornal Kansas City Star.

Quando a guerra eclodiu na Europa, em 1914, Hemingway foi atraído pela ação. Alistou-se no exército e tornou-se motorista de ambulância no front italiano. Suas experiências dessa época formariam a base para o seu clássico romance Adeus às armas. No dia 18 de julho de 1918, o veículo que Hemingway dirigia foi atingido por uma pesada artilharia de morteiro e ele ficou com estilhaços nas duas pernas. Ele preencheu os vãos dos ferimentos com tocos de cigarros e conseguiu carregar um dos seus companheiros soldados para um lugar seguro, um ato de bravura que lhe rendeu uma medalha do governo italiano e um passe para fora da zona de combate.

Entre uma guerra e outra Hemingway provou o primeiro sabor da fama literária. Instalou-se em Paris, tornando-se parte de um círculo de expatriados que incluía Ezra Pound, F. Scott Fitzgerald e Gertrude Stein. Em 1926, publicou O sol também se levanta, um romace entrecortado e dissonante sobre um veterano de guerra mutilado e impotente, sua amante sexualmente voraz e seus amigos expatriados na – você adivinhou – Paris da década de 1920. O romance e a subsequente coletânea de contos ajudaram a catapultar Hemingway para as primeiras fileiras das celebridades literárias, uma posição da qual ele desfrutou e cultivou pelo resto da vida.

A fama e a fortuna liberaram Hemingway – ou “Papa”, como na ocasião gostava de ser chamado – para ir em busca de novas e violentas experiências, onde quer que elas se encontrassem. Ele participou de touradas, foi a safáris na África e fez a cobertura da Guerra Civil Espanhola para jornais, transformando cada episódio em mais um clássico, fosse sob a forma de romance, conto ou tratado autobiográfico.

Com o início da Segunda Guerra Mundial, Hemingway desafiou a idade que já ia avançando – e também a um desconfiado J. Edgar Hoover, então diretor de FBI – e foi à caça de submarinos alemães na costa de Cuba. Alguns afirmam que essa aventura foi meramente uma desculpa para beber e pescar, da mesma maneira que descartam suas tentativas posteriores de participar da liberação de Paris como nada além de mais uma visita ao bar do Hotel Ritz. Fosse como fosse, o fato é que Hemingway pôde dizer que esteve lá, no centro da ação, como sempre.

A produção literária de Hemingway decaiu nos anos pós-guerra, embora ele continuasse sendo uma celebridade mundial. Ele não escreveu nenhum romance significativo depois de Por quem os sinos dobram, em 1940. A maior parte do seu tempo ele passava “polindo” a própria fama ou ajustando contas antigas por meio de ataques aos seus colegas escritores pela imprensa. Em particular, Hemingway enfurecia-se por nunca ter sido agraciado com o Prêmio Nobel de Literatura. Pode-se imaginar sua felicidade quando seu romance O velho e o mar, de 1952, lhe rendeu não somente aquele prêmio como também o Pulitez. Talvez, no fim das contas, o velho “Papa” ainda tivesse algum óleo para queimar.

Infelizmente nem mesmo esse reconhecimento tardio seria capaz de curar a única aflição que o atormentou por toda a vida adulta: a depressão. Durante a última década de sua vida, o humor naturalmente sombrio de Hemingway nublou-se ainda mais graças a uma série de problemas de saúde. Ele sobreviveu a dois acidentes de avião e, em cada um deles, emergiu com graves ferimentos internos. Teve sérias queimaduras devido a um incêndio na mata, desenvolveu pressão alta e problemas de fígados relacionados ao alcoolismo e foi submetido a uma terapia de choque elétrica que deixou sequelas em suas memórias.

Em seus dias finais, era mantido quase constantemente sedado para evitar que atentasse contra a própria vida. Sua esposa, Mary, chegou ao ponto de trancar todas as armas dele no porão da casa em Ketchum, ldaho. Infelizmente um desesperado Hemingway encontrou as chaves e, na manhã do dia 2 de julho de 1961, apontou o cano duplo de uma espingarda na própria cabeça e puxou o gatilho. O escritor que certa vez observou que “um homem pode ser destruído, mas não derrotado” teve sucesso em finalmente destruir-se.

Filhinho da mamãe


Quando adulto, Hemingway foi a personificação das virtudes masculinas. É de surpreender, portanto, que ele tenha iniciado a vida como uma garotinha. A excêntrica mãe de Hemingway desejava tanto uma companheira para a irmã mais velha dele, Marceline, que vestia o pequeno Ernest com roupas de menina, penteava os longos cabelos dele como os de uma menina e o apresentava aos vizinhos como sendo a sua “filha” Ernestine.

Estranha dupla

Ernest Hemingway e F. Scott Fitzgerald foram o Oscar e Felix da geração perdida norte-americana. Nascidos com apenas três anos de diferença, eles cultivaram uma das mais estranhas amizades da história literárias. Hemingway era impetuoso, vociferante e autoconfiante. Fitzgerald era inseguro, educado e um tantinho petulante. No entanto, foram inseparáveis por um breve período e desde então associados na imaginação popular.

Ele se conheceram em 1925, no famoso Dingo Bar de Paris. Hemingway tinha apenas vinte e quatro anos na época e era virtualmente desconhecido, enquanto Fitzgerald, três anos mais velho, acabara de publicar O grande Gatsby e estava seguindo de vento em popa na direção da fama literária. Ainda assim os dois se tornaram amigos rapidamente. Na verdade, o relacionamento deles se tornou bastante íntimo.

Segundo relatos, quando Zelda, a esposa de Fitzgerald, fez um comentário zombeteiro a respeito do tamanho da genitália do marido, Hemingway conduziu uma improvisada inspeção no banheiro masculino para assegurar ao amigo que seus dotes naturais eram perfeitamente adequados. “Você é completamente normal”, disse o “Papa” a Fitzgerald. “Não há nada de errado com você”.

Apesar de momentos sentimentais como este, a amizade foi esfriando consideravelmente depois de 1926. A separação foi devida, em parte, ao mero ciúme. A estrela de Hemingway começava a brilhar, ao mesmo tempo que Fitzgerald iniciava o longo, lento e árduo declínio artístico. Hemingway também desenvolveu um hábito desagradável de zombar do velho amigo em suas obras. Ele criou uma caricatura pouco lisonjeira e finamente velada de Fitzgerald em seu O sol também se levanta e deu-lhe um golpe violento usando seu nome no conto As neves do Kilimanjaro, incitando Fitzgerald a implorar para que não zombasse dele novamente.

Por algum tempo, Hemingway acatou o pedido, mas não conseguiu resistir à oportunidade de dar a última palavra. Muito tempo depois da morte de Fitzgerald, Hemingway “detonou” pela última vez seu antigo mentor em suas memórias publicadas postumamente, Paris é uma festa, descrevendo o autor de O grande Gatsby como um covarde fanfarrão e impotente.

Uma situação cabeluda

Hemingway não aceitava muito bem quaisquer insinuações a respeito da sua masculinidade. Na verdade, quase teve um “chilique” quando o crítico Max Eastman o depreciou em uma contundente resenha do seu tratado sobre touradas, de 1932, Death in the Afternoon. Eastman escreveu que Hemingway “falta a serena confiança de ser um homem completo” e comparou o seu estilo ao de um homem que “usa pêlos falsos no peito”.

Vários anos depois, Hemingway encontrou Eastman por acaso no escritório do editor Maxwell Perkins. Depois de cumprimentar Eastman com um aperto de mão, um sorridente Hemingway abriu com um puxão a camisa de Eastman e a sua própria – revelando os pêlos luxuriantes que provavam que ele, Hemingway, era muito mais peludo que o outro. “O que você pretendia, ao me acusar de impotente?”, Hemingway indagou furioso. Depois, esfregou no rosto de Eastman uma cópia da sua resenha e derrubou o atônito crítico no chão. Foi a última vez que Eastman fez uma crítica negativa ao “Papa” – pelo menos em termos tão pessoais.

Nome aos bois

Hemingway jamais participou das corridas de touros em Pamplona, embora muito o associem a esse espetáculo espanhol anual porque ele escreveu a respeito em O sol também se levanta. Na verdade, Hemingway nunca conseguiria participar de nenhum tipo de corrida por causa dos ferimentos nas pernas que sofreu durante a Primeira Guerra Mundial. Quanto a correr de touros em disparada, nem pensar – as ruas de pedras de Pamplona certamente teriam sido demais para ele.

Só porque você é paranoico...

... não significa que “eles” não irão pegá-lo. Por muitos anos Hemingway dizia a todos que quisessem ouvir que estava sendo seguindo pelo FBI. A maioria das pessoas simplesmente descartava essa idéia como mais uma das teorias malucas do “Papa”, mas, no fim das contas, ele realmente estava certo. Arquivos revelados depois da morte de Hemingway confirmam que os agentes federais estavam monitorando as atividades do escritor, desde a Segunda Mundial até a sua morte. Ponto para os paranoicos do mundo todo!

Filho-problema

Se o filho mais novo de Hemingway, Gregory, tivesse vivido o bastante para escrever sua autobiografia, talvez pudesse tê-la intitulado De caçador de elefantes a exibicionista. Sempre o preferido do pai, Gregory compartilhava muito dos maneirismos machistas do “Papa” e era um atirador exímio que certa vez abateu dezoito elefantes durante um safári da África.

Mas ele também teve uma vida dupla como travesti (Hemingway certa vez o apanhou experimentando as meias de náilon da mãe) e, com o tempo, optou por fazer uma cirurgia para mudança de sexo. Depois de mudar também o seu nome para Gloria, passou a sofrer de frequentes blackouts por ser maníaco-depressivo e foi preso várias vezes por agressão a policiais.

A última altercação desse tipo ocorreu em setembro de 2001, quando Gregory/Gloria, aparentemente embriagado, foi visto andando nu pelas ruas de Key Biscayne, na Flórida. A polícia o prendeu por atentado ao pudor enquanto ele tentava freneticamente cobrir os genitais com uma calcinha fio-dental. Seis dias depois ele teve um ataque cardíaco e morreu em sua cela no Centro de Detenção Feminina de Miami-Dade.

Poucas explicações foram oferecidas para essa outra lenda queda ao fundo do abismo de um Hemingway. Como o próprio Gregory certa fez refletiu durante um entrevista: “O que será isso que existe em um pai amoroso, dominador e basicamente bem-intencionado que faz você acabar ficando louco?”. Talvez jamais saberemos.

Mal de família

Será que existe uma maldição dos Hemingway? Como se a estranha saga de Gregory Hemingway não bastasse como prova disso, há também o triste fim de Margaux Hemingway, a neta do “Papa”. A escultural irmã mais velha da atriz Mariel Hemingway foi certa vez uma das modelos mais famosas de Nova York. Então a depressão, o uso de drogas e os distúrbios alimentares acabaram cobrando seu preço.

Por volta da década de 1990 ela havia chegado ao fundo do poço, posando nua para a Playboy, aparecendo em comerciais baratos e emprestando a voz a um serviço de “0800” que oferecia conselhos mediúnicos de “celebridades”. (A propaganda de serviço dizia: “Margaux Hemingway: o nome contém seu próprio mistério”.)

No dia 2 de julho de 1996 – exatamente trinta e cinco anos depois que seu avô tirou a própria vida – ela juntou-se a ele no rol de suicídios da família, que incluía também o pai de Ernest, Clarence, a irmã dele, Ursula, e o irmão Leicester. Com quarenta e um anos, Margaux ingeriu uma dose letal de fenobarbitol em seu apartamento em Santa Monica, Califórnia.

A forma mais sincera de homenagem

A cada ano o Harry’s Bar American Grill em Century City, Califórnia (uma réplica norte-americana de um dos “botecos” italianos preferidos de Hemingway), patrocina o Concurso Internacional de Imitação de Hemingway, mais conhecido como o Concurso Bad Hemingway. Os competidores devem apresentar um texto original de uma página parodiando o estilo inimitável do autor, com a estipulação de que incluem uma referência elogiosa ao restaurante patrocinador.


Os títulos mais recentes, que foram reunidos e publicados em forma de livro, incluíram A farewell to lunch (adeus ao almoço), The snooze of Kilimanjaro (a soneca do Kilimanjaro), The old man and the seal (o velho e a foca), e o clássico que reúne Ernest Hemingway com Monica Lewinsky Across the Potomac and into her pants (cruzando o Potomac para dentro da sua calcinha). O grande prêmio é uma viagem para duas pessoas, com tudo pago, para o verdadeiro Harry’s em Florença, Itália. Em algum lugar o “Papa” deve estar sorrindo.

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